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Ide mas é meter gasóleo 25 cêntimos abaixo do preço daqui a 15 dias em vez de lerem isto

9 Março, 2022

Às vezes pergunto-me porque escrevo coisas, seja nas redes sociais, seja neste espaço, seja para ficar na gaveta. Algumas pessoas têm uma resposta bastante prática, se bem que pueril, para esta questão: porque se sentem particularmente vocacionados para educar os outros; para mim, a resposta foi sempre uma: para deixar aos meus filhos um registo daquilo que pensei, para que concluam, num futuro após a minha passagem, que o pai pensava como uma besta ou como um tipo fixe. Admito perfeitamente que seja a primeira opção, mas estou certo que, sendo qualquer uma delas ou suas variantes, será sempre acompanhada da referência “nem parecia um homem do seu tempo”, mesmo que isso indique que o meu tempo por eles percepcionado seja o de Cro-Magnon.

Os custos de escrever coisas fora da caixa começam a acumular. Nunca se sentiu tanto o desejo da turba em ser amada pelo maior número de pessoas possível. Dos emojis aos beijinhos a despropósito em emails, somos uma sociedade que precisa mostrar que pensa em barda como se fosse uma única mente unificada. Porventura, pensar aquilo que lhe é dito ser o correcto, seja pela “ciência” (que agora designa tudo que seja hubris), seja pela televisão onde a consomem.

Fact-checkers: inventores de narrativas que criam factos e zeladores que invalidam os factos criados pelos concorrentes assim como da própria realidade

Em “Infinite Jest”, David Foster Wallace mencionou um filme que entretem tanto que é viciante, tão viciante que faz pessoas perderem interesse em tudo o resto, levando inevitavelmente à morte. Kurt Cobain escreveu uma linha que poderia ser o seu epitáfio: “here we are now, entertain us”. A Brigid Delaney, no Guardian (sim, sim, uma vergonha, o Cunha lê merdas da esquerda e depois vira comunista a apoiar o Putin com amor e fervor em vez de amar o bailarino-comediante testa-de-ferro que está a conduzir ucranianos ao martírio enquanto clama pela guerra mundial), elabora sobre o tema de forma bem superior à que eu seria capaz: David Foster Wallace was right – even in paradise we need the internet.

Hoje, com o mundo todo a fingir-se de virgem ofendida com a invasão da Ucrânia, tratando ucranianos como todas as outras coisas com se tem vindo a fingir de virgem ofendida — “é o racismo!”, “é o dia da mulher§”, “é igual casar com uma mulher ou com um pelotão de infantaria, para não dizer com logo com três caniches e um elefante” — é virtualmente impossível encontrar tipos como eu, que não adaptam o que pensam ao que nos dizem que fica bem pensar. Inamovível desde o início, mas não imune ao vício de pontificar como diluição entre entretenimento e uma bizarra moral, vou ficando sozinho no meu cantinho sem a necessidade do amor de estranhos.

Whoever you are, I have always depended on the kindness of strangers. — Blanche DuBois

Quando comecei nestas vidas, metade das pessoas era contra o casamento gay; números tão elevados como 2/3 seriam contra a adopção por casais do mesmo sexo. Hoje toda a gente, do Papa ao seu marionetista, é a favor da eutanásia, a começar, aparentemente, pela dos russos. Presos a noções tão desfasadas no tempo como socialismo ou liberalismo, caminham alegremente para um feudalismo teocrático que tem como bispos indivíduos como Elon Musk, Zuckerberg ou Bezos. As sanções ridículas de outrora são agora abraçadas num deathwish que Wallace e Cobain já ilustraram e apenas olhando para televisão, num tempo em que a internet era quase inexistente. Tivessem durado o suficiente para conhecer a internet de 2022 – que é tudo, incluindo qualquer transacção bancária – e suicidar-se-iam com a certeza do absurdo.

Deus morreu no ocidente, sem qualquer dúvida. Mas as religiões, essas nunca foram tão dominantes como agora, principalmente a do mundo jacobino, ainda sem nome. Provavelmente sem nome durante o tempo que durar: se não tem nome é porque não existe, dirão. Pelo contrário, a ausência de nome é garantia da aceitação da doutrina sem reservas.

Tudo isto para dizer que pouca diferença faz se esta é a IIIª Guerra Mundial ou se é a próxima. Se sobrevivermos agora estamos condenados a destruir-nos com entretenimento. O mesmo que nos cola à televisão agitando bandeiras amarelas e azuis nos perfis que o Zuckerberg nos concedeu para que alimentemos o vício que temos pela antecipação da nossa morte.

§ O dia da mulher é das coisas mais abjectas que nos lembramos celebrar, ao nível do “mês da cultura negra” ou de qualquer outra treta que nos tente formatar de forma subliminar que, sem a sua celebração, seria perpetuada a menoridade do celebrado; no mundo moderno até levanta a questão do que é ser uma mulher pela horda de chanfrados que subsistem, graças aos avanços tecnológicos, como membros da espécie desafiando Darwin.

12 comentários leave one →
  1. Joao Lopes permalink
    9 Março, 2022 13:39

    O grau de formatação que já foi atingido só pode ser revertido quando o povo não tiver dinheiro para pôr comida na mesa. Nessa altura talvez haja um despertar violento…

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    • Chopin permalink
      9 Março, 2022 17:57

      Não vai acontecer. Com a renda básica universal, isso fica acautelado. Todas as guerras e sabotagens económicas a que vamos assistindo, são parte da agenda rumo ao governo mundial. Parece uma inevitabilidade.
      É tudo promovido por uma elite muito inteligente. Funciona muito melhor sem imposições. Tal como no caso da terapia genética experimental, que ninguém aceitaria em condições normais, criam-se as condições através do pânico instilado pela mídia e outros, para que seja a própria população a exigir.

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  2. Bal permalink
    9 Março, 2022 14:05

    Sim senhor! Bela boa posta.
    E ainda por cima com referências ao Kurt Cobain, que tive o prazer de ver e ouvir nos idos de 1994.

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  3. José Monteiro permalink
    9 Março, 2022 19:00

    «O dia da mulher» A mesma treta, para não dizer m—-, que as Ministras da Igualdade, iniciadas pela depois contratada por um grande Hospital privado, quando na AR, Mrs Belém Roseira. Assim se duplicam rendimentos.
    Tão estúpido, como a forma de na Varanda do Restelo, o ministro (MDN) ali garantir empregos de assessores ao PS, para elaborar esta patranha, hoje propagandeada por Mr Cravinho: Plano Setorial para a Igualdade da Defesa Nacional 2019-2021 – XXI Governo.

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  4. Azeitona de Moura permalink
    9 Março, 2022 19:24

    Sem sombra de dúvida!!!!
    Quando estás calado não dizes asneiras e a petulância que te acompanha não sai do caixote do lixo

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  5. 9 Março, 2022 19:29

    Como é possivel desejar a “igualdade” e depois dar vivas ao facto de ter um dia especial para se lembrar de quanto é diferente.

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  6. marão permalink
    10 Março, 2022 08:52

    thomas huxley

    “Toda verdade inédita começa como heresia e acaba como ortodoxia. “

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  7. Weltenbummler permalink
    10 Março, 2022 14:59

    o PR está no aeroporto a aguardar a chegada de Ucranianos

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  8. Atento permalink
    10 Março, 2022 20:02

    Pois é. O vitorcunha não vai em grupos.

    Tem razão sobre o carneirismo destes tempos, a vacuidade das marionetas que nos entretêm, o consentimento fabricado, a ilusão do mundo que nos é filtrado por jornaleiros e explicado por comentadeiros, todos pulhas a soldo.

    Tem até razão sobre o palhacito Zelensky, que, embora distante do gangster Putin, é tão corrupto e vendido como qualquer pulhítico a leste ou a oeste, e também desejoso de lamber o rabo à canalha americana.

    Pois é. Sobre isto, ou a histeria covideira, pode-se contar com o vitorcunha.

    Só é pena ser um merdas que censura comentários.

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  9. Carlos Guerreiro permalink
    11 Março, 2022 15:06

    É pena que não perceba o que está em causa. O problema não é se a Ucrânia faz parte do espaço vital da Rússia e por esse motivo não pode pertencer à Nato ou à UE (isso sim faria mais mossa na Rússia de Putin). O problema é que a Rússia com toda a sua extensão e riquezas naturais tem um PIB ao nível da Espanha, e esse PIB é roubado por uma quadrilha encabeçada pelo Putin (ou outro de que o Putin será o testa de ferro). Para perceber melhor, a Rússia está para a Espanha como Portugal estará para ¼ da Holanda ou Dinamarca. Como o Costa não tem capacidade militar (e se tivesse não teria coragem ou vontade de mexer uma palha) invadir a Espanha para recuperar Olivença, entretém-se em estar no pelotão da frente da descarbonização, na produção do hidrogénio e outros avanços civilizacionais que de caminho enche os bolsos (ou malas, ou contentores) de meia dúzia de xuxas (os oligarcas do Costa).
    Na Rússia o Putin precisa de, com regularidade, entreter a população, e como tem armas nucleares e um exército grande, vai invadindo o que está à volta, a Geórgia, a Chechénia, a Crimeia e as repúblicas fantoches da no leste da Ucrânia (os síndromes Olivença da Rússia). A pobreza da Rússia já não consegue ser escondida atrás de uma classe média de S. Petersburgo ou Moscovo.
    As projecções de população da Rússia em 2100 (World Population Prospects) apontam para uma perda de 40 milhões de habitantes. A Rússia terá em 2100 cerca de 100 milhões de habitantes, é um gigante em desintegração e a quadrilha que a dirige sabe. A Rússia deverá temer mais a China do que o Ocidente a que sempre quis pertencer.

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  10. hcl permalink
    11 Março, 2022 15:35

    Sozinho não. Somos mais os malucos.

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  11. 12 Março, 2022 16:26

    o confinamento fez-lhe muitissio bem. é bom a gente saber que não está sozinho.

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