A arte independente na era da subsidiodependência
Metade do público abandonou a ópera de Emmanuel Nunes na estreia no Teatro de São Carlos
Até porque Das Märchen pode ser vista, entre outras coisas, como uma reflexão (artística) sobre a arte e a sua autonomia. No prólogo que dá início ao espectáculo, fala-se da faculdade da “imaginação”, aquela sem a qual a arte não existe. “Ela não se prende a nenhum objecto”, diz o libreto. “Ela não faz quaisquer planos, não escolhe nenhum caminho”, ouve-se depois. Quem escreveu estas palavras foi Goethe (1749-1832), o autor do conto original em que se baseia a ópera Das Märchen, e uma das figuras centrais do primeiro romantismo alemão. Goethe e Schiller desenharam, desde fins do século XVIII, os contornos da ideia romântica de uma arte autónoma e definiram, nesse processo, a posição do artista, as condições do “livre jogo da imaginação” e as qualidades do génio criador.
Mas já não estamos no fim do século XVIII. E é natural que esta enigmática (para não dizer esotérica) ópera de Emmanuel Nunes cause alguma perplexidade. A afirmação da autonomia absoluta do artista e da sua arte independente (no modelo a que alguns chamaram “arte pela arte”) em tudo é contradita pela própria natureza da produção operática, e ainda mais neste caso de Das Märchen, onde há música, dança, teatro, projecção vídeo, electrónica ao vivo, cenografia, luz, etc. Embora o nome de autor tenha o peso que se sabe, o criador de Das Märchen não é só Emmanuel Nunes. E a arte na principal sala de ópera portuguesa não está sujeita apenas ao “livre jogo da imaginação dos artistas”. Depende do Estado, de patrocinadores que mexem em muito dinheiro (por exemplo o BCP) e de várias instituições culturais. Dirão que estou a fugir ao assunto. Não: o assunto também é este.

A ignorância da besta liberal perante a arte de hoje é sempre da ordem do ridículo. Estas bestas não têm hábitos culturais, não vão ao teatro e pensam que só há cinema nos EUA (e é só isso que vêem), galerias (oh bestas liberais, vão a galerias, são estritamente privadas, porra!) nem sabem o que isso é — e em Lisboa há uma dezena de galerias com programação (privada, bestas!) média ou mesmo boa. Vão a galerias ou vão só à Gulbenkian ou ao CCB ? Vão a recantos onde se faz arte com meios económicos ? O termo «vanguarda» para o bem ou para o mal diz-vos alguma coisa? Discutem estes temas? Ou citam apenas outros (como é o caso) para saber quanto custa ao estado uma cadeira no São Carlos ou no Santo André, ou noutra lado qualquer? E na Europa, frequentam alguma coisa ou só musicais em Londres? Alguém deste blogue esteve na ópera de Nunes e sabe sobre ela dizer alguma coisa? Ou confundem sempre sarah Brightman com Handel como uma besta deste blogue há uns tempos fez ?
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Presume-se que o iluminado que escreveu o post anterior, delirou até ao final com o grande espectáculo, que foi abandonado a meio por metade dos espectadores ( certamente por serem umas grandes bestas …). O espectaculo subsidiado é sempre uma maravilha, para meia dúzia de iluminados. Os que não gostam só podem ser umas bestas….viva o progressismo culturaL subsidiado com o dinheiro da maioria das bestas que pagam impostos….
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Os subsidios e patrocinios só só bons é mas é para a bola. Nem se percebe o interesse. Se tantas vezes os espectadores só assobiam e pateiam.
Mas para que raio é que meteram o bcp!? O bcp é um banco privado que patrocina o que quiser.
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Caro Prof Cvt,
Não estive na ópera do Nunes nem tenciono estar. O Prof. esteve? Aguentou as mais de 4 horas? Se sim, parabéns, pela paciência.
A Antena 2 está, neste momento (18h00), a transmitir a coisa em directo. O leitor experimente, se aqui passar antes das 9 da noite.
Depois de ouvir a crítica de Henrique Silveira, hoje, ao início da tarde, na mesma Antena 2, confesso que fiquei com curiosidade em ouvir a ópera de um milhão de euros e 26 anos de “composição” (Nunes tê-la-á começado a compor em 1975).
O Prof. ouviu-a (à critica)? Não? Em breve deve estar disponível o podcast, aqui. Ouça-a e depois volte cá. Ao lado do que Henrique Silveira disse sobre a “ópera”, o “Couves & Alforrecas” parece um elogio para a obra da visada.
Pelo que pude ouvir da emissão em directo, “O Conto” é um coisa medonha, mesmo para ouvidos habituados a música contemporânea. Medonha para os espectadores e medonha para os músicos, pelo que pude constatar pela primeira meia hora de emissão radiofónica. A não ser que a parte cénica seja muito, muito boa, só por dó (ou masoquismo) se deve aguentar aquilo de uma ponta à outra.
Cumprimentos,
CL
P.S. É capaz de identificar a besta que confundiu a Brightman com o Händel?
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O prof Cvt é um excelente exemplo de tolerância…para com quem não gosta do que ele gosta! É um acto cultural, unilateral “et pour cause”, independente! Tal como o acto de lhe chamar também uma grandíssima besta, com complexos de superioridade esotérica cultural….
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LOL he o que faz a propaganda a mais 🙂
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SÃO BORLAS
Quem paga São Carlos:
16% o BCP, que é patrono exclusivo, sabe-se lá porquê.
16% a bilheteira
68% o OGE, isto é, eu, tu,ele,nós,vós. Eles, os borlistas, vão lá para dar ar às indumentárias. No fim do segundo intervalo têm o dever cumprido.
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Mesmo que o Prof Cvt seja um exagerado, o JM continua a ser um parvo.
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Mesmo que o Prof Cvt seja um exagerado, o JM continua a ser um parvo
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Por que é que os “cultos” precisam de obrigar as “bestas” a pagar-lhes o divertimento?
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Estive no Nunes até ao fim, apesar de não achar, nem o sr JM acha isso, que a quantidade de espectadores é critério estético. Nesse caso, o melhor espectáculo é o 13 de Maio em Fátima. JM e outros daqui, deste blogue liberal, que vão só para lá (e não voltem). A ópera de E. Nunes é discutível apenas por quem assistiu à sua apresentação. A crítica de Henrique Silveira é a opinião de quem assistiu à ópera e tem hábitos culturais e musicais. Neste blogue ninguém os tem, nem ninguém sabe o que é uma coisa chamada arte contemporânea. Voltando a Henrique Silveira, aquilo que disse é muito genérico. Quem assistiu à ópera leia o blogue do crítico e espere por textos menos genéricos (que o blogger prometeu). Neste blogue aqui há uns tempos passou-se uma ária de Handel cantada por uma cantora ligeira pirosa como sendo de Handel, e isso foi a propósito do sofrimento do espectador da selecção de futebol (pois, futebol, tinha de ser).
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O Sr Carlos Loureiro, que suponho escrever neste blogue, disse algo muito sintomático, que o crítico H. Silveira nunca diria: Não estive na ópera de E. Nunes nem tenciono estar. o «não tenciono estar» diz tudo, por isso cale-se.
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“o «não tenciono estar» diz tudo, por isso cale-se.”
Não estás a perceber, Carlos, que o teu papel é apenas pagar e calar?
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É ser honesto e falar do que vê. Se não viu, veja, ouça.
Além disso, há mais críticos para além de H. Silveira. Há o Letra de Forma de Augusto M. Seabra, com uma crítica muito diferente no tom e conclusão. E Seabra acompanha E. Nunes há muitos anos, quer dizer, criticamente (apreciando umas obra e não apreciando outras). O vosso problema, liberais, é que só estão interessados no preço da produção e nos impostos que pagam uma cadeira no S. Carlos. Por isso se assanham contra qualquer (mesmo que não conseguida) manifestação da arte contemporânea.
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Toda a gente está a reclamar pelo dinheiro gasto, mas isto são peanuts comparado com outras festas que vocês pagaram e ainda continuam a pagar alegremente.
Carlos Loureiro: a ópera não foi composta em 26 anos, nota-se que quem disse isso (e você que o repete) não tem a mínima noção de quem é Nunes ou como ele trabalha. E nota-se também, que você não ouviu a transmissão da Antena 2. No intervalo houve uma entrevista ao musicólogo Paulo de Assis que explicou o processo: Desde que Nunes leu o conto de Goethe e decidiu fazer algo com isso até hoje passaram 26 anos. Apenas uma porção desse tempo foi passada a trabalhar na ópera.
Estranho, há anos que Nunes é tocado por várias orquestras nacionais, ele já ocupou os Coliseus do Porto e Lisboa várias vezes, mas só agora é notado. Felizmente há por aqui pessoas atentas que ligam à cultura.
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