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Pode alguém ser quem não é?*

19 Março, 2008

Na vida real não sei. Na política não vale a pena. Infelizmente alguém um dia convenceu os políticos que eles deviam mostrar que são pessoas como as outras, entendendo-se por tal estratégia colocá-los a fazer, encenadamente, as mesmas coisas que as pessoas comuns fazem todos os dias e que, em boa verdade, a maior parte desses mesmos políticos também faz quotidianamente.

Alguns, pouquíssimos, tiram partido deste tipo de exposição. Entre aqueles que entre nós o conseguiram contam-se privilegiados como Mário Soares que usufruem duma invejável desenvoltura que não só lhes permite movimentar-se agilmente em todas as situações, sobretudo nas mais embaraçosas, como somos levados a crer que o poder neles é aristocraticamente natural. Há também os que aprenderam, após muitos anos na política e vários passos em falso, a resguardar-se nessas operações, como acontece actualmente com Cavaco Silva. O que sobra é a restante maioria.

Essa maioria que nos chega devidamente encaixilhada em molduras de encenada intimidade onde, com evidente desconforto, exibem não o que são mas sim o que gostavam de ser. Daí que no fim nos apeteça invariavelmente perguntar: pode alguém ser quem não é?

No caso de José Sócrates seria muito melhor que seus assessores o convencessem a ser ele mesmo. Como foi no dia em que, contra a risota nacional nascida das fotografias que chegavam dumas casas situadas nos arredores da Guarda, declarou que os projectos daquelas casas eram seus. E sobretudo como devia ter sido quando confrontado com o enredo do seu percurso académico. Mas o que mediaticamente vigora como sinal de autenticidade são estas encenações da intimidade no fim das quais os protagonistas, à semelhança do Cruges n’Os Maias, devem desabafar para quem os aconselha: “Vocês dizem-me que me ponha de ceremonia, calço uns sapatos novos de verniz, estive toda a tarde n’um tormento!  E não se conteve mais, arrancou o sapato, pallido, com um medonho suspiro de consolação.”

No século XXI não se encena a cerimónia mas sim a intimidade. Por isso substitua-se “cerimónia” por familiar e o desabafo do Cruges não deve andar longe daquilo que se ouve no interior dos gabinetes do poder quando se tem a certeza que os jornalistas, fotógrafos e operadores de câmara já dobraram a esquina.

No caso de Sócrates é tentador mas também demasiado óbvio substituir os “sapatos novos de verniz” do Cruges pelos ténis das corridas matinais. Os “sapatos novos de verniz” de Sócrates estão sobretudo naquela necessidade  de provar que é muito culto e daí a profusão das citações, das referências a livros e aos “filósofos espanhóis” que passam quase imutáveis dumas entrevistas para outras. Os “sapatos novos de verniz” do nosso primeiro-ministro estão também no inevitável telefonema para o estrangeiro, pretexto para mostrar não só que  trata tu cá tu lá os grandes mas também  que domina outras línguas. Ora se Sócrates fosse Soares, após o telefonema, riria e diria que não só não sabe falar espanhol mas também que não podia falar inglês porque o inglês de Zapatero é muito pior que o seu. Se Sócrates fosse Cavaco ou tinha falado bem espanhol ou não o falava em frente aos jornalistas. Mas Sócrates quer que acreditemos que alguém pode ser quem não é.

Mas este desacerto entre o que se é, o que se quer aparentar e o que se julga ser não condiciona apenas a exposição mediática dos líderes. Portugal é ele mesmo um país que vive na ilusão de que pode ser e viver como quem não é. Nos anos 70, os portugueses acreditaram que, para terem uma riqueza semelhante à dos alemães, bastaria que decretos vários, qual encarnação revolucionária do Génesis, inscrevessem idênticas regalias. Três décadas depois os portugueses voltaram à rua em defesa do que lhes disseram ser possível.

O grande problema da manifestação dos professores não foram por isso os comunistas ali presentes.  É óbvio que foram os comunistas a organizá-la. E por isso a manifestação foi bem organizada. Mas isso não é motivo de preocupação para qualquer primeiro-ministro português há muitos anos.

O grande problema em Portugal, como se viu no buzinão, é quando o PS desce à rua. E Sócrates sabe bem que sem socialistas a avenida da Liberdade tinha ficado meio vazia, do ponto de vista do governo. Ou quando muito meio cheia, do ponto de vista da oposição. Mas os socialistas estiveram lá e por isso a avenida ficou cheia. Os socialistas  marcharam certamentecom muito mais indignação do que os comunistas, sociais-democratas ou populares que os ladeavam. Os socialistas, muito mais do que os manifestantes das outras filiações políticas, tinham e têm razões para estar indignados. Afinal eles votaram e votam exactamente para que nada mude. Quando muito acreditaram e querem continuar a acreditar  que é possível mudar qualquer coisa  para que tudo fique na mesma. Por isso ao contrário do que possa ter parecido, as declarações de Santos Silva sobre o PCP e Salazar não foram o resultado de alguma alucinação momentânea. Santos Silva não desconhece que o sucesso eleitoral do PS nasceu da sua capacidade de, tal como Cunhal, prometer o socialismo a um povo que não estava disposto a deixar o “viver habitualmente” de Salazar.

Nos anos 70, os socialistas prometeram ao seu eleitorado um socialismo sem revolução nem PREC. Presumo que já não acreditavam em socialismo algum mas não só dava jeito falar da utopia e da esquerda naqueles temos em que o PCP era uma ameaça como, a pretexto dum socialismo longínquo, foram estabelecendo boas relações com o capital e aumentando o peso do Estado sobre os cidadãos. Depois o PS deixou de falar de socialismo e tratou sim de adequar ao capitalismo a sua visão Canderel do mundo: prometeu uma a globalização humanizada, regulada e de esquerda.

E o eleitorado PS – de facto maioritário num país que adora o centro e,o nde à excepção do mundo do futebol, parece mal discordar ou lutar por algo – mais uma vez acreditou. Como agora o PS não tem mais nada para prometer nem mais nenhum fantasma de que livrar o país, o que sobra é a imagem desfocada dum povo, e sobretudo do maioritário povo socialista, na rua, exigindo não mudar de vida. Exige-o aos mesmos que lhes garantiram que isso era o sonho tornado realidade.

Ser e viver como quem não somos: é este o nosso objectivo. Ou melhor dizendo, a nossa estratégia de sobrevivência.

*PÚBLICO, 18 de Abril 

10 comentários leave one →
  1. 19 Março, 2008 10:47

    Por alguma razão, Soares e Cavaco são os únicos políticos que contribuiram realmente para que Portugal ainda seja uma nação pequena, com alguma dignidade.

    Soares percebeu que Portugal era insustentável e entregou o país à UE (ainda bem…..antes a UE, que qualquer Salazar ou Sidónio Pais).

    Cavaco colocou o país a funcionar durante 6 anos (os últimos 4 anos de Cavaquismo, já era mais a corrupção que o resto…).

    Fora estes 2, não houve mais nenhum.

    Houve outro que alvitrou um “pantano”, e só por ter visto mais do que todos os outros, merece estar a dar a sopa aos pobres….

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  2. Anónimo permalink
    19 Março, 2008 10:52

    Cavaco?
    O que fez?

    É conhecido nalgum lugar?

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  3. Anónimo permalink
    19 Março, 2008 10:55

    Pode alguém ser quem não é?
    Se calhar pode. Os media tratam Cavaco Silva como o Deus.Os comentadores interpretam o que ele balbucia e fazem-lhe vénias. Os mesmos comentadores que nao conseguem ve para além do dedo.

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  4. 19 Março, 2008 11:02

    Pode alguém ser quem não é?

    Se não pudesse, não haveria Oscars.

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  5. Anónimo permalink
    19 Março, 2008 11:10

    Alguém consegue entender como sendo Cavaco Silva tao importante para o país, nao substutuiu Durao Barroso como PM? Se ele queisesse fazer algo importante para o país ou quisessem que fizesse tinha sido aí.

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  6. Beirão, o Velho do Restelo permalink
    19 Março, 2008 11:41

    Gostei dessa do poder “aristocraticamente natural”.Eu diria mesmo “o estado sou eu”…

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  7. Anónimo permalink
    19 Março, 2008 12:16

    “No caso de José Sócrates seria muito melhor que seus assessores o convencessem a ser ele mesmo. Como foi no dia em que, contra a risota nacional nascida das fotografias que chegavam dumas casas situadas nos arredores da Guarda, declarou que os projectos daquelas casas eram seus. E sobretudo como devia ter sido quando confrontado com o enredo do seu percurso académico.”

    Desconfio que a maior parte das pessoas nao riu. Só os verdadeiros parolos.

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  8. "Zé do Telhado" permalink
    19 Março, 2008 12:34

    O Balanço destes mais de 30 anos de Democracia é, em muitos aspectos, lamentável.
    Posso concordar que, neste deserto de ideias e de personalidades que é Portugal, Soares e Cavaco se destacaram. No entanto; o primeiro ficará para sempre ligado um processo de descolonização vergonhoso e a uma Presidência da República que, para além de interferir negativamente com o governo, viajou o equivalente 7 (!) voltas ao Mundo; o segundo, se bem que desenvolveu algo o País durante os seus dois primeiros mandatos, ficou muito longe do que se necessitava. Como dizem os brasileiros – “asfaltar não é governar” e ísso vêmo-lo nós todos os dias.

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  9. frei de jesus permalink
    19 Março, 2008 12:42

    «(…)Nos anos 70, os portugueses acreditaram que, para terem uma riqueza semelhante à dos alemães, bastaria que decretos vários, qual encarnação revolucionária do Génesis, inscrevessem idênticas regalias. Três décadas depois os portugueses voltaram à rua em defesa do que lhes disseram ser possível(…)».

    Isto é, depois de trinta anos, persistem com denodo e convicção na mesma fantasia : “ser e viver como quem não somos”.
    É nunca visto em país nenhum !

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  10. Saloio permalink
    19 Março, 2008 20:26

    Estimada Helena Matos: certeira e oportuna.

    Só os assessores de Sócrates é que não foram capazes de compreender o ridículo do telefonema dele a Zapatero – o tratamento por tu, as palavras em espanholêz, a atitude de aparente à vontade na rua…

    Em Sócrates tudo é falso, a começar pelas “corridas” ensaiadas apenas quando os jornalistas estão presentes.

    Soares era “ami” de Miterrand, de Olaf Palm, do Betino Craxi e do chanceler Willy Brant. Cavaco era amigo do Bush pai e do John Major.

    Sócrates não tem amigos…tem empregados.

    Digo eu…

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