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Regulação e desresponsabilização

17 Setembro, 2008

Ecreve João Pinto e Castro:

Os especialistas em confusões diversas fingem agora não entender o que está em discussão.

O problema não é o crédito ter risco, é créditos de altíssimo risco terem sido revendidos várias vezes a instituições e pessoas em todo o mundo que acreditavam estar a comprar títulos de baixo risco. É como vender carne estragada, e chama-se a isso vigarice. Acontece que não havia – e continua a não haver – protecção contra este tipo de crime.

Como é evidente, num mercado a sério, quem compra produtos financeiros acreditando falsamente que esses produtos têm baixo risco merece ir à falência.

Mas, de acordo com esta visão dos mercados de João Pinto e Castro, o comprador de um produto não tem qualquer responsabilidade em verificar o risco dos produtos que compra. Tal responsabilidade seria do vendedor. Claro que, como o vendedor é quem menos interesse tem em identificar os riscos do que vende, são necessários reguladores. Percebe-se agora um pouco mais um dos efeitos da regulação. A regulação infantiliza os agentes de mercado criando uma super-estrutura de regulação que faz de forma centralizada que anteriormente era feito por cada um dos agentes de forma descentralizada. De um sistema de responsabilidade individual em que as falências ficam contidas nos agentes que correm mais risco, passamos a um sistema de responsabilidade colectiva em que os riscos são os mesmos para todos e as falências tendem a ocorrer em cadeia.

21 comentários leave one →
  1. lucklucky permalink
    17 Setembro, 2008 14:26

    O sistema de educação está como está porque a responsabilidade passou toda para o regulador: Estado.

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  2. Pi-Erre permalink
    17 Setembro, 2008 14:28

    “A regulação infantiliza os agentes de mercado criando uma super-estrutura de regulação que faz de forma centralizada que anteriormente era feito por cada um dos agentes de forma descentralizada.”

    Portanto, anteriormente é que era bom. Mas quando? Quando é que isso foi?

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  3. 17 Setembro, 2008 14:31

    Mas, o João Pinto e Castro percebe alguma coisa de Banca? Sabe ele, se a Banca que comprava o risco, avaliou ou não a compra dos tais títulos?

    Evidentemente, que quem comprou os títulos “estragados” é que não avaliou ou não quis avaliar o risco. Chama-se isto, “gestão de risco”. A Banca neglicenciou claramente este aspecto. A culpa foi de quem comprou e de quem audita e verifica os Balanços dos bancos e entidades financeiras.

    É a ignorância, é que faz com que gente como o JP fale sobre o que não sabe.

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  4. Zé do Boné permalink
    17 Setembro, 2008 14:34

    JM diz :

    Como é evidente, num mercado a sério…..

    E a questão começa exactamente aqui: o que é e onde existe um mercado a sério?
    Nesse mercado, diria que a credibilidade e fiabilidade dos intervenientes são condições fundamentais para o seu bom funcionamento, no qual não existiriam assimetrias de informação, etc e tal.
    E o JM deveria saber que esse mercado não existe em lado nenhum, a não ser na cabeça de alguns teóricos.
    E neste mercado dos “derivados” a assimetria da informação é uma das suas caracteristicas, no qual não é dificil vender “carne estragada”

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  5. 17 Setembro, 2008 14:36

    «Percebe-se agora um pouco mais um dos efeitos da regulação. A regulação infantiliza os agentes de mercado criando uma super-estrutura de regulação que faz de forma centralizada que anteriormente era feito por cada um dos agentes de forma descentralizada. De um sistema de responsabilidade individual em que as falências ficam contidas nos agentes que correm mais risco, passamos a um sistema de responsabilidade colectiva em que os riscos são os mesmos para todos e as falências tendem a ocorrer em cadeia.»

    O mesmo se passa com a carne de vaca estragada. A responsabilidade deve ser apenas do comprador, para não ficar infantilizado (embora ficar intoxicado).
    .

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  6. 17 Setembro, 2008 14:37

    Jon Stewart – a propaganda do Pentágono sobre a guerra do Iraque

    Jon Stewart, do Daily show, com uma excelente dose de humor, desmascara a propaganda do Pentágono acerca da guerra do Iraque. O alvo são os falsos “analistas militares”:

    Stewart: “Pois parece que muitos destes ex-militares não eram assim tão “ex”, trabalhando para empresas de armamento e para o Pentágono. Enquanto os canais televisivos lhes chamavam “analistas militares”, o Pentágono, em memorandos vindos a público há pouco tempo, refere-se a eles como “multiplicadores de mensagens”. O que soa muito melhor do que velhos matreiros.”

    “Olhem para estas adoráveis e bondosas ex-máquinas de matar. Os canais televisivos contrataram-nos para dar opiniões de especialistas acerca do esforço bélico do nosso país.”

    Analista 1: “Estamos a vencer a guerra contra o terrorismo.”

    Analista 2: “Esta é a força mais bem preparada que já tivemos.”

    Analista 3: “Esta é a melhor liderança que os militares já tiveram.”

    Analista 4: “Quando pergunto a amigos meus de longa data do exército que não vão mentir-me, como estamos a sair-nos, e se estamos a ganhar ou a perder, eles dizem que estamos a ganhar.”

    Stewart: “Esta gente é idosa e de confiança. Como o meu avô que esteve na 2ª Guerra. Eles não iriam mentir-me. Pois não avô? O avô matou o Hitler, não foi?. E nunca enganou a minha avó com uma prostituta francesa.”

    Vídeo (legendado em português) – 2:14m
    …….

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  7. rxc permalink
    17 Setembro, 2008 14:53

    JM, se nos EUA não há um “mercado a sério”, onde haverá? E o papel das agências de rating, como é?
    Parece que a ideologia é óptima, a sua aplicação é que é difícil. Onde já vimos isto?

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  8. JoaoMiranda permalink*
    17 Setembro, 2008 14:56

    ««E o papel das agências de rating, como é?»»

    Maa há alguma razão para confiar cegamente em agências de rating?

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  9. Minhoto permalink
    17 Setembro, 2008 14:57

    Ó JM como chegar a esse mercado a sério? Através da auto-regulação? Qual acto de contrição mercantil! Cabe ao comprador ficar com toda a responsabilidade? Sabe que isso implica desconfiança e pouca circulação de dinheiro.
    Quem regula a auto-regulação? ah já sei o mercado!
    Quem regula o mercado para regular a auto-regulação? A auto-regulação do mercado!
    Num mercado a sério tinham que ser todos sérios e a mafia como parte enganosa era mais fraca logo exclui-se pois o mercado assim a faz auto-excluir-se pois o mercado é que sabe, passado o processo iterativo temporal vamos acabar com um único operador de mercado a vender um produto que vai ter o monopólio pois ganha o mais forte. É isto que quer JM?
    Pá perdoem-me (quem sabe de economia) este raciocínio disparatado mas para isto “quem compra produtos financeiros acreditando falsamente que esses produtos têm baixo risco merece ir à falência” não há resposta responsável e sabedora.

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  10. 17 Setembro, 2008 15:19

    “Como é evidente, num mercado a sério, quem compra produtos financeiros acreditando falsamente que esses produtos têm baixo risco merece ir à falência.”

    A não ser, claro, que haja burla, omissão de informação relevante, ou outros.

    Em todo o caso, a ganância tem um preço elevado a pagar…

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  11. lucklucky permalink
    17 Setembro, 2008 17:17

    Parece que as pessoas não entendem sequer que é possível fazer uma decisão válida pelos dados disponíveis no ano 2006 e que 2 anos depois se verifica um desastre. Meteram na cabeça que é possível prever tudo ou quase.
    Claro num país onde nada acontece tal é possível…

    Pelo que se vê das reacções há uma recusa total do risco e da falha. E um apelo total a uma entidade que sabe tudo regula tudo e que velará por nós. Ora as famílias portuguesas fizeram esse contrato com o Ministério da Educação…os resultados estão aí.

    Este tipo de reacções mostram porque é que o País está como está. A mente está completemente impreparada para viver num mundo globalizado onde está tudo em transformação. Onde fazer uma empresa que pode falir faz parte da natureza e onde os grandes também podem perder e desaparecer. Inovação é por definição arriscar, especular não basta tirar um curso ou ter a paixão da educação para ter inovação como por cá parece que é a verdade universal.

    Os EUA sairão desta e vão para outra. Eles estão sempre a crescer e inovar de crise em crise.

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  12. 18 Setembro, 2008 12:04

    Só uma pergunts de um ignorante: alguem percebe alguma coisa do assunto? Ou só estamos todos par aqui a cuspir para o ar?

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  13. Luis Rainha permalink
    18 Setembro, 2008 12:48

    Só pode estar a brincar, JM. Então quem adquirisse produtos financeiros do Lehman tinha de saber que este se tinha exposto em demasia a coisas maradas? Senão devia ir à falência por cupidez ou burrice em excesso? E se o LB tivesse ocultado tal exposição arriscada?
    Palpita-me que nunca teve nada a ver com qualquer decisão real neste campo, JM…

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  14. Pedro Orleans permalink
    18 Setembro, 2008 13:44

    É despropositado colocar a questão se saber em qual dos dois, comprador ou vendedor, colocar o ónus da verificação do risco. O que acontece muitas vezes, se não estou enganado, é que ambos têm perfeito conhecimento dos riscos que envolvem as opoerações e, ainda assim, preferem corrê-los. Tratam-se de profissionais e não há motivo para dar mais protecção a uma das partes. Não faz sentido. Tal como eu, se quiser ir ao casino, sei que aumento as probabilidades de ficar milionário se lá gastar todos os meus parcos recursos, em vez duns meros 5€ na slot machine. A questão é se estou ou não disposto a correr esse risco. A questão é se estou ou não disposto a andar sem cinto de segurança na estrada porque me sinto mais confortável, apesar do risco de multa e acidente. A questão é também a partir de que ponto o Estado reconhece que uma determinada situação deve ser regulada, considerando que os intervenientes não conseguem, por diversos motivos, que não se prendem tanto com a percepção do risco, mas com a tendência natural de alguns agentes para arriscar para além da conta. Portanto, o que faz sentido, sim, é criar um conjunto de regras que, em vez de proteger um agente em detrimento do outro, crie condições e regras para que ambos tomem as melhores decisões possíveis. Isto é regular sem dar vantagem a nenhuma das partes. Nesse caso, sou totalmente a favor da regulação. A discussão, como se tem vindo a desenrolar, desloca o problema para a infantil questão de descobrir o bonzinho e o vilão na história. Não faz sentido.

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  15. l.rodrigues permalink
    18 Setembro, 2008 14:14

    “Parece que as pessoas não entendem sequer que é possível fazer uma decisão válida pelos dados disponíveis no ano 2006 e que 2 anos depois se verifica um desastre”

    Acontece apenas que havia quem previsse o problema pelo menos desde 2004. E essas vozes foram sempre descartadas por razões ideológicas. Só foi surpresa para os que tinham a boca na teta e se recusavam a ver. Aliás, são os mesmos que há uns meses diziam que o pior já tinha passado…

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  16. Luis Rainha permalink
    18 Setembro, 2008 15:18

    Pedro Orleans,

    Não é nada “despropositado”. Aliás, já houve pelo menos um Nobel atribuído à análise de situações onde impera a assimetria no acesso à informação.
    http://en.wikipedia.org/wiki/The_Market_for_Lemons

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  17. 18 Setembro, 2008 21:22

    Mas há aí alguém que ainda se lembre da “Bolha” da Internet ou já se terão passado assim tantas eras geológicas sobre os factos que ninguém se lembra que a história se repete?

    Há mais de um ano que já se sabe que isto ia rebentar. Quem continuou a entrar nisto foi porque quis. Não sei porquê mas faz-me sempre lembrar os jogadores viciados que acham que, mesmo depois de já terem empenhado tudo e deverem à MAFIA, ainda acham que a próxima mão é que lhes vai trazer a fortuna.

    Haja pachorra. Arriscaram. Deviam falir e pronto.

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  18. o tinhoso permalink
    18 Setembro, 2008 22:48

    Media sexus: o desfile.

    As coelhinhas chegaram. Eram seis elegantes assistentes dos 19 anos aos 23, contratadas para um show lésbico que o patrão queria autentico. A Vala dos Moinhos, nome que os empregados davam ao poço para onde eram atirados os corpos crivados de balas das mulheres que fingiam o sexo, nessa noite já estava meio cheio, e não iria ficar por ali. Havia noites assim, noites em que mais de metade das putas contratadas não saia dali com vida. A fábrica de salsichas para onde eram enviados os corpos já não aceitava mais matéria – prima, porque, queixou – se o gerente, a qualidade do produto final tinha baixado para níveis intoleráveis, devido ao uso excessivo, disse, de putas velhas. Não que a sua queixa tivesse muito peso, mas pensado o assunto conclui – se que uma puta nova e pouco usada, com o corpo rijo e um grande amor à vida, iria dar mais diversão aos clientes, além de ter alguma vantagem também no que concerne ao sangue a correr sobre a pele, depois do tiroteio que os clientes faziam com grande diversão sobre o corpo das putas, quando por qualquer razão não gostavam delas.
    O sangue não era aproveitado para nada, até ao dia em que um cliente, por brincadeira, sugeriu que se vendesse aos hospitais, sempre escassos desse produto, as centenas de litros produzidas nas festas. Como o cliente era ministro, fácil se tornou de ver que ali havia negocio chorudo, e mesmo antes do fim dessa noite, se sentaram à mesa na sala privada, para combinar os detalhes do comércio, com o ministro a garantir o escoamento fácil do produto, através dos organismos em que mandava. Para avolumar a facturação, fizeram – se alterações, baixando a idade das putas, e aumentando a quantidade das contratações. Estas medidas tiveram um tal impacto no aumento de entradas de capital na firma, que novos e importantes clientes se perfilaram como sócios, obrigando a gerência a uma criteriosa escolha, negando a entrada aos que, sendo figuras públicas reconhecidas pela fortuna e importância dos cargos, punham alguma relutância em disparar sobre as mulheres, sobretudo quando eram de origem nacional.
    As festas não aconteciam sempre no mesmo local, para não aborrecer os sócios com cenários repetitivos, nem cair no tédio de transformar os acontecimentos numa espécie de tiro ao alvo, onde o cliente mal via uma puta cujo penteado não lhe agradava, pedia ao empregado de fraque uma pistola, e descarregava todas as balas naquele corpo nu, esbelto e jovem. Assim, no país, haviam casas diversas espalhadas por cidades ou campos, que iam de Trás – os – Montes ao Algarve, com Lisboa como capital, centralizando a matança em quatro casas distintas.
    O critério subjacente a essa restrição, não escrito mas aplicado, com raras excepções, referia – se a pessoas provenientes de vários sectores profissionais, com especial incidência no futebol, e muito escrutínio nos políticos e magistrados, por se verificar que a falta de controlo desses profissionais, levava a que, não raras vezes as putas eram todas mortas antes do fim da festa, com queixas permanentes daqueles mais calmos que, pagando tanto como os outros, chegavam ao fim, e não tinham uma puta para lhe dar um tiro. Outra medida que foi sugerida por um dos responsáveis de sala, e bem acolhida no seio da administração, foi a de ter sempre um grupo de putas de reserva, para os casos em que um cliente com mais dinheiro pedia um grupo de putas só para ele. Esses casos não eram raros, e assim resolviam – se os vários problemas a contento de todos, com fartura de putas para toda a gente, sem reclamações, e com a facturação a subir.
    Outro problema que se levantou, e que neste caso fui eu a resolver, prendia – se com a qualidade das balas. Enquanto as putas foram velhas, ninguém se importou com os buracos que as balas faziam no corpo delas, alguns deles com o tamanho de uma bola de futebol. Porque nenhum dos sócios era exímio atirador, muitas vezes acertavam nos braços ou no pescoço da mulher, arrancando – lhe o membro ou a cabeça, consoante os casos. Quando era a cabeça, os limpadores atiravam com ela para a Vala dos Moinhos, sem qualquer alvoroço, mas vários clientes ficavam indispostos quando os mesmos limpadores eram obrigados a meter uma bala na cabeça da puta, porque o cliente só lhe tinha arrancado um braço, e os gritos de dor mais a cara de espanto da mulher, disturbavam o normal sururu das festas. O problema foi praticamente resolvido com a chegada das novas balas encomendadas a uma empresa suíça, especializada no fabrico de armas e munições.
    Esta reorganização foi do agrado geral, tanto mais que não se ficou por aqui. Em assembleia de executivos, foi decidido proporcionar aos clientes associados a escolha de balas, cujo leque ia do chumbo, o mais barato, até ao ouro e platina, com balas feitas na Bélgica, em diamante angolano, para alguns clientes que as pediam em exclusivo, para matar putas de cor negra. Em geral, a esses clientes a conta não lhes era entregue ali. Era – lhes entregue mais tarde, por um estafeta da firma, no local que previamente comunicavam. O serviço refinou – se na escolha dos menus. Cada cliente podia consultar livremente a oferta do dia, que tanto podia ser do género “ Russa mais uma amiga, para massagem tântrica sueca, drenagem linfática, e terapia de pedras quentes”, como para arrepiar cabelos e dar calafrios de ânsia e desejo aos mais frios dos sócios, poderia ter como apresentação de teor, “ Portuguesa de alto nível, olhar de serpente, oral arrepiante, bebe tudo!”, ou ainda, “ Angolana meiga, desinibida, massagem sensual, atrás adoro!”.
    A satisfação dos sócios era evidente. As novas balas faziam pequenos buracos no corpo das putas, sem lhes destruir as feições, o que favorecia a mania de alguns em tirar fotografias às mulheres por eles abatidas, como recordação, e também deixou contentes os limpadores, por não terem de andar a recolher os pedaços dos corpos, como acontecia não raras vezes com as balas antigas. A quantidade de sangue espalhado no chão também diminuiu, contribuindo para uma maior matança, pois os sócios mais sensíveis, no lugar de pedir o balde para vomitar, encomendavam era mais balas. Até o sangue encaminhado para o ministério, e posteriormente para estabelecimentos de saúde pública, melhorou, ao manter – se mais tempo no corpo da ex – proprietária, mantendo dessa forma qualidades que antes eram difíceis de manter. A fábrica de salsichas associada e responsável pelo escoamento dos corpos, parou com as reclamações, e até se prontificou a pagar um preço mais elevado pela matéria – prima, mantendo ela, como frisou a gerência, aquela juventude e qualidade.
    Com este sucesso, a firma tornou – se num santuário de romaria para empresários em busca de ideias, e políticos à procura de reeleição. As escolas organizaram visitas de estudo para os alunos, e a firma empenhou – se no mecenato às artes e letras. Devido aos processos modernos de processamento da mercadoria, foi – lhe atribuído o símbolo de qualidade pelo Instituto competente. A dada altura começou a pensar – se na internacionalização, e para tanto reuniu – se, de entre os associados, um comité para estudar a viabilidade de tal estratégia.
    Após alguns meses de estudo, e com o concurso de um banco, conclui – se que seria financeiramente viável a exportação do conceito, e que o poder politico via com bons olhos essa medida. A maioria das empresas do país estava falida, ou a manter – se artificialmente em actividade através de meios fraudulentos, e a auto – estima do povo sairia reforçada com esse sucesso, desde que devidamente publicitado. Neste processo de discussão e decisão, alguém se lembrou de sugerir que a firma fosse colocada na bolsa de valores de Lisboa, e da parte do governo veio a sugestão de se instalar a primeira sucursal estrangeira no Brasil, para facilitar a transacção de matéria prima entre as duas empresas, ao mesmo tempo que, aproveitando as sinergias, se daria um forte contributo para reduzir o desemprego jovem. Para tanto, o governo, através do seu ministério das finanças, tomaria uma parte das acções de bolsa, no sentido de reforçar o capital e prestígio da empresa, naquela fase delicada da internacionalização. O entusiasmo à volta do projecto foi tal, que antes da abertura oficial de venda, as acções já estavam quase todas subscritas. Os bancos e as seguradoras arrecadaram quarenta e cinco por cento, quase tomando o controlo da empresa, e ainda nem tinha terminado o processo de venda, já se transaccionavam acções ao dobro do preço. Quando se soube na Europa o que se estava a passar na bolsa de Lisboa, vários governos, a nível não oficial, enviaram delegações para estudar o fenómeno, e solicitar a instalação de sucursais nos seus países. O tráfego aéreo no aeroporto da Portela cresceu tanto, que se começou logo a pensar na construção de um novo, com ligações ferroviárias de alta velocidade para espalhar rapidamente a boa nova por toda a Europa. O país foi tomado de uma euforia semelhante à dos descobrimentos, se fossem feitos hoje, com a televisão a filmar a chegada de Vasco da Gama à Índia, ou os helicópteros da marinha a fazer uma reportagem sobre a passagem do Cabo das Tormentas.
    Todo este calor esfriou quando alguém teve o desplante de dizer que a actividade da empresa era inconstitucional. Mas durou pouco. Mobilizaram – se as polícias para fazer escutas, registar as receitas de cozinha tradicional que os escutados trocavam entre si, e a edição de um livro em várias línguas patrocinado pelo ministério do interior, aumentou logo a visita de turistas em trinta por cento. Fez – se uma edição em língua chinesa que vendeu para cima de duzentos milhões de exemplares, e levou as tríades a abrir mais setecentos restaurantes no país. Mudou – se a Constituição para calar as más – línguas, e no seu discurso de Natal, o Primeiro – ministro pôde enfim anunciar ao país aquilo por que todos há anos tanto ansiavam: o fim do desemprego e a retoma.

    Guimarães, Janeiro de 2006.
    António Elba

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  19. Pedro Orleans permalink
    18 Setembro, 2008 23:38

    Luis Rainha,
    Pelo que li nesse artigo da wikipedia, que usa extensivamente o exemplo do vendedor e comprador de um carro, estamos a falar de coisas totalmente diferentes. A assimetria de informação é particularmente relevante em situações de compradores inexperientes face a vendedores profissionais. No caso de instituições que adquirem títulos de crédito, não me parece que exista verdadeira assimetria de informação. Tratam-se de empresas especializadas e com know-how na área. E se não têm esse conhecimento, deviam ter e não devem ser admitidas a negociar nesses mercados, para bem de todos nós. Sou totalmente a favor de maior regulação, mas o problema penso que não está na falta de protecção do comprador. O problema é a temeridade e a ganância de muitas instituições que arriscam dinheiro que não lhes pertence. Isso só se resolve com regulação, não com protecção.

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  2. cinco dias » Aos poucos, o João Miranda vai lá

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