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Da gestão política da crise ao salário mínimo

10 Novembro, 2008
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Ou a insistência no intervencionismo económico por parte de quem ignora os fundamentos da economia. Por João César das Neves, no DN de hoje:

Imagine uma empresa de pombos correios com uma epidemia de gripe das aves; perante a catástrofe a administração decide passar a enviar as mensagens por… coelhos. Esta escolha insólita seria paralela ao que se prepara na actual crise financeira, com políticos a manipular o complexo sistema económico. Tal tolice, mesmo se recorrente de anteriores turbulências, é mesmo muito estúpida.

A crise nasceu por graves erros e crimes de economistas, gestores e financeiros. Embriagados de sucesso, caíram em euforias que agora ameaçam o mundo. Eles têm, sem dúvida, a responsabilidade principal na catástrofe, pelo que é necessário e urgente punir e substituir esses especialistas infectados. Mas têm de ser trocados por outros financeiros, os únicos que percebem alguma coisa do complexo sistema. Se um médico mata, por erro ou negligência, não se confia o tratamento a contabilistas ou ministros. Com políticos tratando destes assuntos, a única certeza é desastre. Coelhos voam menos que pombos doentes.

Treinados na luta partidária e marketing eleitoral, os políticos são hoje chamados a intervir em tudo, da família ao clima. Será espantoso que corra mal? O mecanismo económico é incrivelmente delicado e subtil, como aliás manifestam os acontecimentos recentes. Muitas ideias populares e certezas evidentes provêm de erros com efeitos devastadores. O inefável Sarkozy a alinhar soluções e os líderes do G20 reunidos a reformar o sistema monetário mundial constitui um pesadelo pior que a própria crise.

Caso semelhante de interferência trapalhona num delicado fenómeno económico é a recente discussão sobre a fixação do salário mínimo. Esse indicador é de enorme importância para uma das classes mais sensíveis da nossa sociedade, os pobres. Mas quem o determina não percebe nada dessa realidade e decide baseado em mitos, anseios, boas intenções. Não admira que o resultado seja por vezes o oposto do desejado, porque coelhos não são pombos correios.

Ao contrário do que se diz, o salário mínimo não é contributo do Governo para a justiça, porque nele o Estado não gasta um tostão de ajuda. O que faz é interferir nas decisões dos pobres. Nem tem nada de solidariedade, porque se trata de uma imposição regulamentar. Senão, porque não fixar já nos mil euros, aumentando imenso a justiça e a solidariedade?

A imposição de um salário mínimo constitui uma proibição legal de todos os empregos que paguem menos que isso. Os pobres que mantenham o trabalho ficam claramente beneficiados. Mas aqueles que virem os seus postos eliminados ou passados à clandestinidade sofrem muito. Para quem se preocupa mesmo com a pobreza, e não com a própria imagem política, essa possibilidade deveria fazer pensar. Legaliza-se aborto e consumo de droga, proíbe-se o emprego barato. Medidas simplistas têm efeitos inesperados.

O Governo desde que entrou em funções subiu o salário mínimo acima da inflação e outros salários. O valor, de 374,7 euros em 2005, foi aumentado 3% em 2006, 4,4% em 2007 e 5,7% este ano. A proposta de 450 euros para 2009 significa mais um aumento de 5,6%. A acumulação destas quatro subidas representa um acréscimo total em termos reais superior a qualquer período equivalente desde o 25 de Abril, com excepção de 1978-1981 e 1989-1993, épocas com crescimento acima do dobro do actual.

Tal aceleração política parece rematada loucura económica, aumentando a rigidez quando se aproxima uma crise. As associações de empresários, protestando inicialmente, acabaram por aceitar. Mas eles e o Governo são ricos, ignorando alegremente a realidade dos pobres. As associações das pequenas e médias empresas – compostas, não por capitalistas abastados, mas também por pobres – silenciosas em anos anteriores, ficaram horrorizadas com o valor anunciado. Devem conhecer muito melhor o impacto da medida que o ministro ou a CIP. Entretanto, “Vieira da Silva garante que não é um aumento de 24 euros no salário mínimo que vai abalar o desempenho das empresas e da economia” (RR, 20/Out). Como é que sabe?

20 comentários leave one →
  1. Desconhecida's avatar
    Anónimo permalink
    10 Novembro, 2008 12:25

    O melhor era começar a diminuir os ordenados de Césares das Neves e afins. Ainda leva à falencia a universidade catolica que depois fica sem mpoder pagar os ordenados minimos que estão a aumentar muito.

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  2. Desconhecida's avatar
    Anónimo permalink
    10 Novembro, 2008 12:26

    .. e claro suspender todas as reformas que tiver do estado.

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  3. rxcorreia's avatar
    rxcorreia permalink
    10 Novembro, 2008 12:59

    Off-topic: Judge Andrew Napolitano – Nation Of Sheep (ao cuidado dos Bushistas da praça).

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  4. rxcorreia's avatar
    rxcorreia permalink
    10 Novembro, 2008 13:00

    Ratos e companhias…

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  5. Desconhecida's avatar
    10 Novembro, 2008 13:05

    Barbaridades! Ninguém devia viver com menos de 500 Euros mensais porque isso é o mínimo que se precisa para viver. Os empregos que possivelmente valem menos do que 500 Euros deveriam ser proibidos em todo o mundo (variando os valores com os níveis de vida de cada país). Mesmo que o emprego produza menos de 500 Euros porque o problema é que tanta riqueza criada dava para tal, porque os recursos naturais que sustentam muita da riqueza produzida são no fim um bem da humanidade, um bem criado pela natureza de um planeta que foi de todos no seu ínicio. Senão mais vale regressar à escravatura.

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  6. causavossa's avatar
    10 Novembro, 2008 13:33

    Para César das Neves a solução é simples. Mantenha-se os ordenados minímos a nível da miséria, pois assim o equilíbrio do mercado rapidamente se dará com alguns milhões a morrerem de fome. Aí, então, os ordenados subirão por equilíbrio natural!

    Mas, César das Neves, não haverá outra solução diminuindo as ganâncias secularmente instaladas, destruindo monopólios, custos de contexto, aumentando produtividades por via de minímos reais de subsistência?

    Não é essa a esperança corporizada em Obama? Um mercado mais amigo da igualdade, contribuindo para a felicidade dos povos? Ou temos que continuar a comer e calar, sob a falsa candura e inexorabilidade dos mercados os milhões das Edp´s, Teixeira Pinto’s, Cadilhe´s e muitos outros milhares de exemplos de um mercado perfeito?

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  7. Desconhecida's avatar
    Anónimo permalink
    10 Novembro, 2008 14:19

    Acho o máximo haver quem considere que o aumento do salário mínimo é a completa desgraça, e os salários milionários prémios e regalias como carros, motoristas, telemoveis, etc são para estimular a competitividade.

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  8. alice's avatar
    alice permalink
    10 Novembro, 2008 14:19

    Tal tolice, mesmo …

    Ai, esse dito das Neves, além de pap’hóstias, é tolo, retolo e mais enfraçado ca deus ma livre.

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  9. alice's avatar
    alice permalink
    10 Novembro, 2008 14:20

    e mais engraçado, sério.

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  10. alice's avatar
    alice permalink
    10 Novembro, 2008 14:23

    E não é que não tem vergonha, o descarado, parvíssimo?!

    Que sempre os tereis convosco, disse o Cristo, referente ao César das Neves, aos tolos e parvos.

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  11. alice's avatar
    alice permalink
    10 Novembro, 2008 14:25

    Eu gosto do César das Nebes, ihihi.

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  12. LR's avatar
    10 Novembro, 2008 15:23

    B (5),

    Porque não põe em prática tão belas teorias? Poderia montar uma empresa industrial (vg., têxtil) ou de serviços (vg., um “call center”) pagando salários mínimos decentes (digamos 1.000 euros, que é bem mais digno do que 500). Não teria problema em arranjar mão-de-obra, pois com tais salários, poderia ir buscá-la à concorrência. Mas para ser competitivo teria de, com custos maiores, ter preços do seu produto ou serviço menores ou iguais do que os dos seus concorrentes. Pode ser que fizesse a quadratura do círculo…

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  13. Miguel's avatar
    Miguel permalink
    10 Novembro, 2008 15:23

    “Coelhos voam menos que pombos doentes.”

    Esta esta linda… Digam ao Cesar que os coelhos não voam mas de saude correm pa c$#lh%.

    “As associações das pequenas e médias empresas – compostas, não por capitalistas abastados, mas também por pobres – silenciosas em anos anteriores, ficaram horrorizadas com o valor anunciado.”

    Lol.

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  14. Desconhecida's avatar
    Anónimo permalink
    10 Novembro, 2008 16:14

    Mas para ser competitivo teria de, com custos maiores, ter preços do seu produto ou serviço menores ou iguais do que os dos seus concorrentes

    Quem lhe disse? Os meus trabalhadores bem pagos e motivados produziam o dobro em energia. Só na poupança de energia dava para compensar.

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  15. goodfeeling's avatar
    goodfeeling permalink
    10 Novembro, 2008 16:15

    Solução simples: aplicar o salário mínimo a quem puplicamente concorda com ele, quer seja 430 ou 450 euros. (se é isso que costumam declarar ao fisco ainda me sai o tiro pela culatra).

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  16. LR's avatar
    10 Novembro, 2008 17:00

    “Quem lhe disse? Os meus trabalhadores bem pagos e motivados produziam o dobro em energia. Só na poupança de energia dava para compensar.”

    Já fez a experiência? Há muita gente aqui a comentar e que não conhece minimamente as realidades empresariais.

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  17. zé's avatar
    permalink
    10 Novembro, 2008 18:43

    “Há muita gente aqui a comentar e que não conhece minimamente as realidades empresariais.”

    Esta é que era de homem explicar bem explicada…

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  18. Desconhecida's avatar
    Eu ou outro, tanto faz permalink
    10 Novembro, 2008 21:48

    O DN faz bem em ter uma página humorística.

    À falta de melhor sempre tem o César das Neves.

    (um dia ainda se vai descobrir que joga no mesmo clube do austríaco que bateu a bota….)

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  19. CATRAPILA's avatar
    10 Novembro, 2008 22:00

    ALGUEDM SE LEMBROU QUE HA IMENSOS ORDENADOS NO ESTADO INDEXADOS AO SALARIO MINIMO,ASSIM COMO IMENSAS COISAS QUE NO DIA A DIA ENCONTRAMOS RELACIONADOS COM O SALARIO MINIMO.
    AQUI E QUE ESTA A QUESTÃO. OS 450.00 OU 500.00 EUROS SÃO CURTOS PARA O NOSSO
    CUSTO DE VIDA.
    ISTO NÃO FAZ SENTIDO,POIS HA O DISCURSO,SOBRE EDUCAÇÃO ETC ETC ETC

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  20. Desconhecida's avatar
    12 Novembro, 2008 10:18

    LR não percebe, Não é 1 problema de 1 empresa, é um problema de organização social, de 1 sociedade, de sociedades, do mundo.

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