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Se isto não é falhar, o que será falhar?*

25 Setembro, 2009

Casa Pia. Freeport. Escutas em Belém – estes casos têm em comum o não estarem encerrados e envolverem os máximos dirigentes de Portugal, respectivamente o Presidente da Assembleia da República, o Primeiro-Ministro e o Presidente da República. Enquanto estes casos decorriam e decorrem, segundo os números apresentados por Medina Carreira e até agora não desmentidos, o nosso endividamento externo tem crescido ao ritmo de 34 milhões de euros por dia. E entre os 27 países da UE conseguimos o paradoxo de o PIB per capita nos atirar para o 19º lugar, enquanto na hora de pagarmos impostos já subirmos para o 14º e no momento de o Estado gastar chegarmos ao 7º.
Enquanto os escândalos correm e a prestação negativa do país se agudiza a classe política declarou-se empenhada em salvar os portugueses do aquecimento global, agora denominado mais abrangentemente por alterações climáticas. Da gripe das aves e da gripe A. Da escassez de petróleo. Dos frangos com nitrofuranos. Da escassez de alimentos. Quando a crise económica se tornou mundial e ganhou foros de catástrofe tornou-se finalmente enquadrável neste discurso do salvamento do povo português em relação a inimigos longínquos e sem rosto.  Afinal os líderes estão muito mais à vontade para falar da salvação do mundo do que dos problemas concretos.

Vivemos o dia a dia na voragem trepidante do ‘escândalo médio seguido de ameaça de catástrofe natural  a que logo sucede outro escândalo até aí de caracerísticas inimagináveis mas que logo dá lugar à ansiedade gerada por outra ameça ambiental que pode levar a espécie ao extermínio.’ E assim, entre escândalos que se arrastam e a prontidão de quem nos governa para nos salvar do apocalipse, temos empobrecido paulatinamente. Pela primeira vez em muitas décadas, as gerações que estão no poder vão legar aos filhos e aos netos um país mais pobre e mais fraco do que aquele que receberam. Se isto não é o falhanço da classe política o que será falhar?

 
A consequência mais visível deste esvaziamento do discurso político é o protagonismo dos jornalistas.  Não é por acaso que os jornalistas se tornaram nos principais protagonistas desta campanha eleitoral. Foi das redacções e não das palavras dos seus opositores que vieram os dados que ao longo destes quatro anos mais incomodaram o primeiro-ministro. São jornalistas e não os líderes da oposição os visados na vaia de honra no último congresso do PS. São jornalistas aqueles que desde que esta campanha começou têm literalmente dado o corpo ao manifesto protagonizando os casos que podem fazer a diferença no dia 27 de Setembro.  E isto acontece não apenas porque existem casos – e a comunicação social não faz mais do que o seu dever ao revelá-los. Isto acontece porque os casos, naturalmente relatados pelos jornalistas,  se substituíram ao debate ideológico que deveria ser protagonizado pelos políticos.
Infelizmente enquanto que as espécies têm evoluído diferenciando-se umas das outras, o debate político em Portugal tem feito o caminho inverso: todos apostam em mostrar que não são assim tão diferentes. Existe um  horror e temor profundo por parte dos líderes políticos em relação à diferenciação ideológica. Aliás o argumentário das campanhas é uma espécie de mundo às avessas: o PCP e o BE procuram mostrar que não são comunistas nem totalitários. Para o efeito Loução cita “Fátima Missionária” – imagine-se a risota se tivesse sido Ferreira Leite ou Paulo Portas a referir tal leitura! – e Jerónimo de Sousa mostra-se preocupado com  os pequenos e médios empresários que nos restantes dias do ano trata como patrões, capitalistas e empresários beduínos.
Já o PS, o PSD e o PP parecem regressar ao tempo do Pacto MFA-Partidos em que o socialismo era um objectivo inquestionável, admitindo contudo estes partidos divergências com os comunistas e com os socialistas quanto ao processo e ao timing necessários para lá chegar. O medo da diferenciação ideológica a par da recusa em discutir a diferença entre o prometido e a realidade, tem feito emergir o estilo, a personalidade e cada vez mais os escândalos dos líderes como o factor que pode determinar a sorte e o azar dos partidos. À excepção das agências de marketing político ninguém ganha com isto.

*PÚBLICO

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11 comentários leave one →
  1. oraporra permalink
    25 Setembro, 2009 09:46

    Cara helena Matos
    Há pelo menos mais dois casos de extrema igrvidade pela importancia dos seus intervenientes . Não sei se foi esquecimento seu ou premeditado.
    São os casos do BPN e do emprendimento Portucale.

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  2. Anónimo permalink
    25 Setembro, 2009 09:55

    E não haverá por acaso por ai um heroi nacional que consiga roubar mais emails a conspiradores para ficarmos a saber porque?!?

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  3. 25 Setembro, 2009 10:12

    Agora podem juntar mais o caso da “Máfia dos Bingos”.

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  4. portela menos 1 permalink
    25 Setembro, 2009 10:35

    até hoje à meia-noite a sra helenafmatos vai-nos brindar com a informação em quem vota!

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  5. lucklucky permalink
    25 Setembro, 2009 11:08

    Bom mas só em parte. Os jornalistas são os maiores normalizadores da política Portuguesa. O PS, o PSD e o PP , PCP e BE comportam-se assim porque é assim que podem transportar uma parte sua mensagem pelos media. Essa tentativa de engano acaba por enganar os próprios porque acabam por se tornar com o tempo na própria mensagem.

    A outra é a Escola tirânica e normalizadora é o que sai do Ministério da Educação Soviético da 5 de Outubro.

    —-

    A propósito alguém se lembra do Protocolo de Kyoto e da Agenda de Lisboa? Foram bem vendidos pelos jornalistas, mas parece que são os jornalistas em cumplicidade com os políticos os mais esquecidos.

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  6. Anónimo permalink
    25 Setembro, 2009 11:30

    missa por missa, prefiro as do louçã, tem mais piada e vai directo ao assunto. lembro que já demos para esse peditório durante 40 anos e não queremos mais e mais não digo porque adormeci antes de chegar ao bold.

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  7. Visto de fora permalink
    25 Setembro, 2009 11:55

    A Fogueira das Vaidades propaga-se qual fogo incendiário propositadamente ateado !

    Chama aqui, chama ali, brasa acolá, brasa cá!

    Espectáculo ! Duas frentes, ora à esquerda ora à direita, trazidas pelo vento de Cima.. HM VS CAA!

    Militância de ideias e crenças onde parcialmente visivel de longe se ignoram as culpas de uns e se gritam as culpas alheias! Bic rosa, Bic laranja, Duas escritas à sua escolha! Faltam as outras côres, que não habituadas aos compromissos instituidos tem uma escrita mais fina!

    Vale Tudo ! Infelizmente só não Vai é Tudo Abaixo !!!

    As hostilidades estão abertas por aqui…devagar,devagarinho o burburinho e a inquietação vai crescendo!

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  8. Anónimo permalink
    25 Setembro, 2009 16:00

    “[…] São jornalistas aqueles que desde que esta campanha começou têm literalmente dado o corpo ao manifesto protagonizando os casos que podem fazer a diferença no dia 27 de Setembro. […]”

    Não são “os jornalistas”, antes algumas raras e corajosas excepções no jornalismo; além de que, muitas vezes, “os jornalistas” limitam-se a explorar o caminho aberto por outros ou, pior, a silenciar pela omissão ou manipulação quem tem a coragem de falar. A acção do Balbino Caldeira é apenas um de vários exemplos recentes. A análise da autora do post é no essencial correcta, mas para que a conclusão principal seja justa é necessário aceitar que este protagonismo contra-natura dos jornalistas que disfarça o silêncio dos grandes responsáveis (quase toda a classse política portuguesa e o seu “sistema”) é parte do problema e não da solução. Os jornais vendem pouco porque os jornalistas não fazem e/ou não os deixam fazer aquilo que é suposto fazer-se de básico nessa profissão: investigar e informar livremente com base na investigação. E não, não trata aqui de um libelo contra os jornalistas. O mesmo é possível dizer dos profissionais da Justiça, da Saúde, do Ensino, etc: há aí algum profissional de uma dada área que possa dizer que, colectivamente, a sua “classe” faz a diferença nesta anommia pantanosa tuga, que não é lambe-botas dos sistemas político e do governo, que não transige todos os dias nos príncípios, regras do seu metier? O país é todo assim: uma imensa maioria cheia de medo de perder o pouco que ainda tem, que sabe muito bem quem são os Sócrates de serviço, mas acha que só desta escumalha de sempre é que pode vir a salvação, não da iniciativa e coragem próprias; e ainda meia dúzia de heróis e heroínas de quem é fácil escarnecer ou silenciar – os idiotas individuais da excepção que confirma a regra. Não sou o Zandinga nem o dono de um grupo económico que controla uma empresa de sondagens; mas não tenho ilusões: no dia 27 vai triunfar de novo o medo e a anomia colectiva tuga

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  9. mir permalink
    25 Setembro, 2009 16:01

    “[…] São jornalistas aqueles que desde que esta campanha começou têm literalmente dado o corpo ao manifesto protagonizando os casos que podem fazer a diferença no dia 27 de Setembro. […]”

    Não são “os jornalistas”, antes algumas raras e corajosas excepções no jornalismo; além de que, muitas vezes, “os jornalistas” limitam-se a explorar o caminho aberto por outros ou, pior, a silenciar pela omissão ou manipulação quem tem a coragem de falar. A acção do Balbino Caldeira é apenas um de vários exemplos recentes. A análise da autora do post é no essencial correcta, mas para que a conclusão principal seja justa é necessário aceitar que este protagonismo contra-natura dos jornalistas que disfarça o silêncio dos grandes responsáveis (quase toda a classse política portuguesa e o seu “sistema”) é parte do problema e não da solução. Os jornais vendem pouco porque os jornalistas não fazem e/ou não os deixam fazer aquilo que é suposto fazer-se de básico nessa profissão: investigar e informar livremente com base na investigação. E não, não trata aqui de um libelo contra os jornalistas. O mesmo é possível dizer dos profissionais da Justiça, da Saúde, do Ensino, etc: há aí algum profissional de uma dada área que possa dizer que, colectivamente, a sua “classe” faz a diferença nesta anommia pantanosa tuga, que não é lambe-botas dos sistemas político e do governo, que não transige todos os dias nos príncípios, regras do seu metier? O país é todo assim: uma imensa maioria cheia de medo de perder o pouco que ainda tem, que sabe muito bem quem são os Sócrates de serviço, mas acha que só desta escumalha de sempre é que pode vir a salvação, não da iniciativa e coragem próprias; e ainda meia dúzia de heróis e heroínas de quem é fácil escarnecer ou silenciar – os idiotas individuais da excepção que confirma a regra. Não sou o Zandinga nem o dono de um grupo económico que controla uma empresa de sondagens; mas não tenho ilusões: no dia 27 vai triunfar de novo o medo e a anomia colectiva tuga

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  10. Ana C permalink
    25 Setembro, 2009 16:02

    “Afinal os líderes estão muito mais à vontade para falar da salvação do mundo do que dos problemas concretos”

    É que dá muitíssimo menos trabalho e rende o mesmo: Os tachos presentes e os lugares nas administrações das empresas, ONUs, Autarquias, etc, num futuro próximo.

    Hoje são estes quem tem os “casos”, ontem foram os outros e amanhã serão os que lá estiverem,porque interesses há-de haver sempre.

    Ou nós, Ingénuos, achamos que vai aparecer o Senhor Independente e HiperEficiente que vai pôr ordem no mundo?

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  11. General permalink
    25 Setembro, 2009 22:21

    Falhar é nada propor, falhar é nada fazer , falhar é apontar os erros dos outros e nunca assumir os próprios .

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