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A tribo das causas urgentes*

23 Outubro, 2010

Não sei se se deslocam em grupo, se se encontram ocasionalmente ou se os seus espíritos se unem de preferência entre o fim do Verão e o início do Outono. Mas confesso que estou a ficar cansada deles. Quem são eles? A tribo das causas urgentes. Desde há vários anos que vivemos em constante estado de urgência, ouvindo de minuto a minuto que ou fazemos algo muito rapidamente e em força ou será o caos, a desgraça e o opróbrio. Que me recorde, nos últimos anos os profetas do apocalipse mobilizaram-nos para combater a ameaça da escassez dos alimentos, a gripe A e sobretudo as alterações climáticas. Agora vivem no arrebatamento orçamental. De repente Portugal tem de ter um orçamento para mostrar ao estrangeiro, custe o que custar e independentemente do que lá estiver inscrito. Mesmo que os mercados e o estrangeiro nos fizessem a gentileza de acreditar num orçamento que prevê crescimento para o próximo ano e em que as contas do deve e haver não batem certas, há o detalhe de o Orçamento ir ser pago por nós, cá dentro. Logo, discuti-lo é não só o nosso direito mas também o nosso dever, tanto mais que o Governo é minoritário. E a não ser que se considere que agora os governos minoritários em situação de crise têm os orçamentos automaticamente aprovados não se vê nem como nem por quê se há-de temer ou abreviar essa discussão. Muito menos porque, como defendeu o ministro Silva Pereira, deve essa discussão decorrer à porta fechada. Os portugueses só são responsáveis para pagarem a dívida que os seus governantes geraram?
Sim, a discussão deve ser feita na praça pública porque é da publicidade dessa discussão que pode resultar um orçamento com impactos menos desastrosos no espaço privado dos cidadãos, das famílias e das empresas.
Depois de anos a desprezarem quem lhes falava de números e a responderem com prosa poética de 3.ª categoria aos avisos sobre o endividamento, os membros da tribo das causas urgentes descobriram que a nossa redenção está neste Orçamento. E só nos resta esperar que o transe lhes passe. Ou mais propriamente que a razão deste transe seja substituída por outra.
Porque uma das características desta espécie de tribo informal das causas urgentíssimas é que o extraordinário frenesi que se apodera deles no momento em que descobrem uma causa só tem paralelo na sua capacidade de esquecer essa causa quando a trocam por outra. Assim e apenas por isso não causa espanto que ninguém se tenha escandalizado com a extinção do Secretariado Técnico da Comissão das Alterações Climáticas. Recordo que ainda não há muito tempo as alterações climáticas nos eram apresentadas não só como uma grande questão mas como aquilo que devia ser a preocupação central de quem nos governava e de nós mesmos. Chegou a equacionar-se a criação de uma espécie de ONU para o clima, para lá de coisas tão disparatadas quanto a criminalização do simples acto de negar as ditas alterações climáticas. Esse era o tempo em que a senhora Merkel viajava até umas paragens marítimas geladas e olhava para os icebergues que lhe diziam ameaçados pelo aquecimento global com a expressão compungida que agora reserva às contas de Portugal, Espanha e Grécia.
Entretanto, como é óbvio, o ambiente na Terra, com ou sem alterações climáticas provocadas pelo Homem, continua a colocar questões muito sérias. Mas isso agora não interessa nada. O que conta agora é ter um orçamento. O paradoxo é tal que as pessoas que durante anos foram tratadas como excêntricas ou quase paranóicas por procurarem chamar a atenção para a insustentabilidade das nossas contas se arriscam agora a passar por irresponsáveis quando defendem que este Orçamento deve ser discutido.
Tudo aquilo que nos está agora a acontecer era mais que previsto e anunciado há anos. E desde 2009 que se tornou irreversível. Simplesmente não o quisemos ver. Até porque nessa fase a tribo das causas urgentes andava entretida com umas causas intercalares, como o casamento entre duas pessoas do mesmo sexo que supostamente nos manteria entretidos por algum tempo, sobretudo se o Presidente da República tivesse vetado o diploma. Este aliás é um dos casos em que a tribo era mais numerosa do que aqueles que urgentemente pretendia libertar: até Setembro de 2010 realizaram-se, em Portugal, 131 casamentos entre pessoas do mesmo sexo. O que dá 262 homossexuais casados, número francamente muito inferior ao mobilizado pela tribo das causas urgentes quando se arrebatou com esta questão que garantiam de relevância cósmica.
Não sei qual será a próxima causa urgentíssima da tribo das causas urgentes. Mas tenho a certeza que em matéria orçamental muita coisa de que nos arrependeremos mais tarde será aprovada quase sem darmos por isso caso nos deixemos mais uma vez dominar pelo folclore da urgência.
*PÚBLICO

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14 comentários leave one →
  1. José Pedro permalink
    23 Outubro, 2010 21:34

    Assino por baixo.

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  2. A. R permalink
    23 Outubro, 2010 21:39

    Cara Helena bem visto.

    Temos porém que ter mais “tolerância” e “responsabilidade” com a “urgência” talvez até recorrendo a equipas de “psicólogos”, “equipas multidisciplinares” e “peritos”.

    Aqui fica uma idéia: escreva qualquer coisa sobre “equipas multidisciplinares” pois o futuro estará de certeza nelas.

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  3. 23 Outubro, 2010 22:02

    A Helena tem certamente razão nas partes, mas não percebo a articulação. Só faria sentido falar de 1 tribo das causas urgentes se fossem sempre os mesmos, mas é óbvio que não são.

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  4. Nuno permalink
    23 Outubro, 2010 22:29


    Muita gente não dará por isso mas o certo é que vão pagar na conta da EDP as despesas da RTP e RDP e do seu muito bem pago pessoal de papagaios ignorantes.

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  5. 23 Outubro, 2010 22:29

    «Tudo aquilo que nos está agora a acontecer era mais que previsto e anunciado há anos. E desde 2009 que se tornou irreversível. Simplesmente não o quisemos ver.»

    E o que é que «nós» não quisemos ver, querida Helena? Que crise é essa? Donde veio? Causada por quem? Houve alguma guerra nos EUA ou na Europa? Ou uma peste ou calamidade? Já se deu ao trabalho de pensar nisso?

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  6. Tiradentes permalink
    23 Outubro, 2010 23:06

    O Dioguito ainda não percebeu que é a crise dos caloteiros com a dos agiotas.
    Que todo o caloteiro sabe que um dia a corda rebenta e que todo agiota se aproveita até a corda rebentar.
    Qual é a novidade?
    A novidade para os diogos deste mundo e apenas que eles querem pensar que só há agiotas neste mundo, isto porque ele pertencerá ao outro grupo.
    È isso que queria dizer?
    Já agora diga-me qual foi a especulação ou agiotagem que fez implodir o mundo maravilhoso do anti-capitalismo?Aquele onde o sol brilhava mais, lembra-se?
    Já se deu ao trabalho de pensar nisso?
    Houve alguma peste? calamidade? Houve alguma guerra?

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  7. A. R permalink
    23 Outubro, 2010 23:06

    A crise em Portugal foi devido a Wallstreet e Bush. Já um ébrio se me queixava sempre da maldita vinicultura como a causa da sua permanente embriaguez.

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  8. henrique pereira dos santos permalink
    23 Outubro, 2010 23:49

    Pois a helena mede a urgência ou não da discussão sobre as alterações climáticas de acordo com a existência ou não de um secretariado técnico para coisa.
    Aparentemente a discussão na sociedade (para a qual o dito secretariado é irrelevante) continua a bom ritmo, mas a helena acha que acabou.
    Está bem, abelha.
    henrique pereira dos santos

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  9. aequanimus permalink
    24 Outubro, 2010 03:00

    Bem visto, Helena.
    Com ou sem secretariado, o nosso comprometimento com as quotas de CO2 e investimentos exdrúxulos subsidiados (por todos) das eólicas e fotovoltaicas só agrava a dívida e compromete o desenvolvimento económico de um País obre como o nosso.
    Urgência por urgência …

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  10. aequanimus permalink
    24 Outubro, 2010 03:01

    * pobre

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  11. 24 Outubro, 2010 11:50

    “Causa Urgente” em Lisboa: um dia destes, perante uma valente chuvada, mandar limpar as sarjetas das suas ruas e avenidas. Nas últimas chuvas, a avenida frente ao estádio do Restelo, com a ribeira habitual, indiferente ás sarjetas entupidas.
    «Que crise é essa?»
    No caso Tuga:
    a) A que deriva do falhanço da formação, instrução e escolas do regime.
    b) A que deriva da falta de visão dos (ir) responsáveis governamentais: alimentar a população, com base em importações maciças. Deixar quase destruir, Agricultura e Pescas.
    c) A que deriva dos (ir) responsáveis, a construir pavilhões desportivos e piscinas em cada esquina – cidades, vilas e aldeias; em Lisboa, com 6 novas piscinas, modelo PSL;
    (Ir) responsáveis nas Autarquias, (ir) responsáveis na tutela/Governo.
    d) A que deriva dos criminosos autores da rede de auto estradas, tendo esquecido o comboio e a melhoria das existentes
    e) A que deriva de um País entregue à cambada de ‘Devoristas’ do século XX/XXI.
    Os do século XIX, estão documentados por VPV.
    “Felizmente há luar”
    Ou crise.

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  12. lucklucky permalink
    8 Dezembro, 2011 23:20

    “E o que é que «nós» não quisemos ver, querida Helena?”
    .
    Dívida, Dívida, Dívida para mascarar a falta de produtividade do País.

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