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As causas próprias dos activistas de causas

6 Dezembro, 2013

A culpa não é dos média: os activistas das várias “opressões” é que têm acesso privilegiado aos meios de comunicação pelo motivo principal de serem, eles próprios, parte integrante do ecossistema das redacções.

Os anglo-saxónicos chamam-lhe, de forma muito menos orwelliana, the race card. Em Portugal não se usa uma única expressão, permitindo permutações na forma, tornando o conceito mais esquivo. La politique de la division permite polarizar a opinião pública em torno de um assunto que, antes de ser levantado, não faz parte das preocupações que não de um grupo restrito de activistas. Temas como o aborto ou o casamento gay originam divisões muito maiores numa sociedade que os problemas inerentes à não resolução dessas questões; e a ideia é essa: puxa-se o assunto, exige-se resolução. The race card permite reduzir a questão a algo moralmente censurável através da absolvição moral dos factos: “é perseguido por ser preto”, “discriminação dos gays”, etc., independentemente da causa que gerou a questão em primeiro lugar. Um exemplo nacional recente foi o que foi dito e escrito sobre o homicídio de Carlos Castro por Renato Seabra (ou, como Henrique Raposo colocou a questão: “as pessoas não discutem o assassínio em si mesmo, mas o facto de o rapazinho gostar de mulheres”). Mais à frente voltarei a este artigo de Henrique Raposo.

Dificilmente alguém se lembra de uma mulher negra do Bairro 6 de Maio da Damaia nos média a exigir acesso ao aborto livre…

Os activistas, travando lutas pela igualdade, são tudo menos um grupo heterogéneo. É curioso que, por exemplo, activistas pelo aborto tivessem sido maioritariamente mulheres brancas em idades de pré-menopausa. Dificilmente alguém se lembra de uma mulher negra do Bairro 6 de Maio da Damaia nos média a exigir acesso ao aborto livre até às 10 semanas mas recordar-se-á, certamente, de lisboetas com empregos que poderiam ser caracterizados pela esquerda ultrapassada como sendo “emprego de burgueses”. Vários jornalistas e cronistas alinharam no activismo e, exactamente por isso, não pega o argumento da mulher da Damaia não ter acesso aos média: eles são os média, facilmente dariam voz a tal senhora. A culpa não é dos média: os activistas das várias “opressões” é que têm acesso privilegiado aos meios de comunicação pelo motivo principal de serem, eles próprios, parte integrante do ecossistema das redacções.

Divide et impera de Júlio César foi, ao longo dos tempos, transferido da aplicação da força para a guerrilha mediática. Não deixa de ser curioso que a prole socrática, seguidora de um leitor obsessivo de Kant, utilize as máximas descritas pelo prussiano: “divide et impera é a terceira das três máximas políticas, sendo as outras fac et excusa1 e si fecisti, nega2”. Não será então de estranhar que, no dia da morte de Nelson Mandela, os mesmos activistas tenham usado a morte para atacar o presidente Cavaco Silva. Tal como interrogava Henrique Raposo no artigo supracitado, “digam-me qual é o código moral e religioso que permite esta inversão de prioridades”, também este bullying permanente ao Presidente da República merece interrogação.

A resposta é, infelizmente, trivial: quando alguém parece protestar sem ser em causa própria é porque o leitor ainda não identificou ou não quer identificar a causa própria.

1 Agir agora, arranjar desculpas depois.
2 Cometendo-se crime, negue-se.
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  1. Toca às dez | Declínio e Queda

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