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Choro por ti, Lisboa

25 Setembro, 2016

Ontem estive em Lisboa. Como rústico grosseiro e ultramontano que sou – como qualquer pessoa que me lê pode instantaneamente aferir – fiquei chocado com o estado de depauperação da capital. Não se pode andar nas ruas, há turistas por todo o lado, alguns até a fotografarem coisas que eu, como português, considero minhas, e sem qualquer pedido de autorização prévio ao Senhor Presidente da Câmara Municipal mediante pagamento da taxa fotográfica. Há gente a falar estrangeiro nas ruas. Nos estabelecimentos comerciais vê-se gente a falar em Inglês, uma língua que já nem devia ser usada após auto-remoção do Reino Unido da União Europeia. Vi gente, inclusivamente, que comia pasteis de nata servidos sem a indicação dos ingredientes, aferição calórica e código de cores para doses diárias recomendadas de proteínas, lípidos e E621. Como é possível vender assim produtos alimentares, sem caixa, celofane, código de barras e sugestão para contactar o médico em caso de engasgamento? Algumas mulheres envergavam vestidos e outras peças colonialistas que lhes expunham as pernas e, em alguns casos, até os próprios joelhos. É isto que queremos para a capital? Que pareça uma cidade europeia sem decoro, tradição e genuinidade de um povo analfabeto residente em barracos com rendas controladas? Um atentado ao cosmopolitismo verdadeiro e à assimilação cultural dos refugiados. Não faria muito mais sentido, como a Maria João Marques nos confidenciou ontem num necessário evento de educação da população portuguesa, que todas as portuguesas vestissem burka para acolher respeitosamente os oito refugiados que imaginaram que Portugal tinha fronteira com a Noruega?

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Imagem que ilustra a falta de decoro de mulheres lisboetas. Não admira a quebra da natalidade. Quem acha esta falta de vergonha agradável à vista merece bem o que está a acontecer à cidade.

O Porto está a ficar assim, cheio de gente que vem para aqui gastar dinheiro. Uma ostentação incompatível com a humildade das gentes locais, com honra e ordeira, como o doutor Salazar soube, tão bem, caracterizar. Onde estão as cestas de vime com listas de cores onde se transporta o lanche do verdadeiro português, a feijoada, para comer à beira-rio com os filhos deslumbrados por verem o mar pela primeira vez logo ali na Praça do Comércio*? E o trânsito? Que faz tanta gente em carros em dia de descanso? Vão ver o quê? Exposições, teatro, filmes, parques e outras manifestações contra-natura de um capitalismo condenado?

Lisboa não vai longe. Depois deste hedonismo todo, que restará? Depois das filas, encontrões, riso e momentos de prazer efémero, vem sempre a depressão. Ou instauramos imediatamente quotas para turistas na rua ou arriscamo-nos a cruzar constantemente com gente desprovida de ideologia e que não acrescenta nada – só retira – às nossas necessidades sócio-culturais. Não é esta a sociedade que queremos. Queremos “uma sociedade onde cada um contribui para o bem comum de acordo com as suas capacidades, e cada um recebe de acordo com as suas necessidades”, como tão bem disse o nosso Querido Primeiro. Ou Lisboa acaba com os turistas, ou os turistas acabam com a nossa memória de como Lisboa era mais bonita quando cheirava a urina.


* Eu sei que da Praça do Comércio não é bem o mar que se vê, mas, repito, para quem nunca viu o mar, já é uma aproximação razoável. Água é água.

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  1. Eleutério Viegas permalink
    25 Setembro, 2016 09:12

    Há o reverso da medalha para os residentes… Obras desnecessárias e perturbadoras que são o sorvedouro das taxas e taxinhas sobre tudo o que mexe, Ruas esburacadas e sujas que não merecem qualquer atenção, a praga dos grafftti, sem qualquer controlo e repressão… Enfim, Lisboa é linda, mas só vista de longe.

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  2. Miguel Lx permalink
    25 Setembro, 2016 09:23

    Grande VC!

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    • Jocas permalink
      25 Setembro, 2016 20:10

      Essa coisa das taxas e taxinhas, para quem taxou até mais não, já está um pouco fora de moda. Sobretudo porque foi devido ao facto destas terem começado a ser cobradas, que o palácio da Ajuda vai ser terminado. Não sei porque razão certa gente se escandaliza tanto com o pagamento de taxas turísticas quando em grande parte das cidades Europeias, nomeadamente Barcelona, e até nas aldeias turísticas de Ski na Suiça elas são cobradas. É tempo de pararmos de pensar que somos tão pobrezinhos e tão pequeninos, que ninguém cá volta apenas porque lhes vão cobrar €1,00 por noite de taxa turística.. Talvez nas mentes pequeninas dos que são contra essas taxas e taxinhas o sejamos, mas enfim…

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      • Carlos Alberto Ilharco permalink
        26 Setembro, 2016 11:14

        Se o Palácio da Ajuda for terminado nos termos em que se consegue vislumbrar qualquer coisa nos retratos futuristas até agora mostrados, eu acredito que em Portugal os pato bravos já chegaram ao topo.
        Estou espantado como aquele aborto não tem provocado nenhuma contestação.

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      • sam permalink
        26 Setembro, 2016 11:24

        Dá ideia de ser apenas um exercício de algum atelier de arquitectura, talvez para efeitos de mestrado.
        Depois do que aconteceu com a obras da Segunda Circular, já ninguém acredita que o Medina passe dos trabalhos de calceteiro.

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  3. Manuel permalink
    25 Setembro, 2016 09:44

    Essa tua ironia não está deslocada. Em Barcelona discute-se o excesso de turismo e a alcaide Colau mais a sua directora de comunicação já devem ter transmitido a mensagem ao partido da “abécula”. Aguardo por uma mijadela na Praça do Comércio.

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  4. LTR permalink
    25 Setembro, 2016 10:18

    Quem já deu cabo da Red Bull Air Race também pode dar cabo do turismo todo e do país.
    É ter esperança.

    http://oreivaivestido.blogspot.pt/2012/10/red-bull-air-race-o-naufragio-de.html

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  5. Almeida permalink
    25 Setembro, 2016 10:40

    Nos anos 70, havia quem fizesse o mesmo discurso sobre o Algarve…

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  6. A.R permalink
    25 Setembro, 2016 14:22

    Cada vez melhor Vitor! É preciso gente a indignar-se por estes pequenos detalhes! Se a moda pega pode ser que um dia se comecem a indignar pelas coisas sérias!

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  7. lucklucky permalink
    25 Setembro, 2016 17:55

    Não há cidade com espirito mais totalitário mais Orwell-Kafka-Socialista-Fascista que Lisboa.

    O PM António Costa criatura desse ambiente até teve a arrogância de usar duas das frases mais anti-liberdade existem.

    Responsáveis qualquer das duas por mais de dezenas de milhões de mortos na História.

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  8. 25 Setembro, 2016 18:49

    Convem avisar que o mar por vezes quase deita por fora.Cuidado

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  9. Euro2cent permalink
    25 Setembro, 2016 21:22

    Tenho aqui umas argilas babilónias a dizer o mesmo …

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  10. Arlindo da Costa permalink
    26 Setembro, 2016 01:59

    Desde que António Costa foi eleito para Presidente de Câmara de Lisboa, esta cidade nunca mais parou.

    Hoje em dia é das mais cosmopolitas da Europa e quiçá do Mundo!

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    • sam permalink
      26 Setembro, 2016 10:47

      Arlindinho, tens jeito, pá!
      Experimenta cantar à santa Luzia.
      Vais virar milionário.

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  11. carolina lobo permalink
    26 Setembro, 2016 10:11

    Tanta ironia! Temos a sorte(?) de ter paisagens,luz,mar ,gastronomia ,simpatia .Temos o azar de termos sido um Grande Império ,que perdemos,ficando reduzidos ao tempo de D.João I.Neste momento,as nossas mais valias são as que já enunciei e acredito que se quem tem dinheiro ,pudesse comprar o sol de Lisboa,a capital já viveria às escuras há muito tempo.A independência política passa pela independência monetária…….

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  12. Licas permalink
    26 Setembro, 2016 10:42

    olha,este indignado com o turista.olha,o ted cruz compreende-te,perfeitamente.Fundem um partido liberal em Portugal…e deixem o psd em paz.

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    • sam permalink
      26 Setembro, 2016 10:51

      Liquinhas, revelas ser bom conselheiro.
      Aproveita o lanço e vai explicar aos venezuelanos o que é o papel higiénico.

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  13. honi soit qui mal y pense permalink
    27 Setembro, 2016 10:46

    alcantara

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  14. honi soit qui mal y pense permalink
    27 Setembro, 2016 10:47

    saldanha

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  15. honi soit qui mal y pense permalink
    27 Setembro, 2016 10:48

    junto ao cais das colunas

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  16. honi soit qui mal y pense permalink
    27 Setembro, 2016 15:04

    NOVO PROJECTO DA SEGUNDA CIRCULAR . Pavimento em azulejo .

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  17. 27 Setembro, 2016 21:34

    O que o Cunha se esqueceu de mencionar, é que Lisboa está cada vez mais “na moda”, com mais turistas, porque o Costa quando lá esteve, em parte, devolveu a cidade, mais particularmente a beira-rio, às pessoas. Questione-se se Lisboa teria tantos turistas como está a ter se a praça de onde posa a menina loira, estivesse neste estado:

    Vê Cunha, retirar a praga automóvel da cidade, faz haver mais turistas, que trazem mais dinheiro e receita fiscal. Moro na Holanda, e Amesterdão com um tempo merdoso tem ainda mais turistas que Lisboa; e não, não é para irem ao bairro das meninas nem para fumar ganzas, é porque é uma cidade cujo espaço público acolhe bem as pessoas.

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    • 27 Setembro, 2016 22:24

      Talvez o Ferreira possa levar o Costa para aí para fazer desaparecer o cheiro a urina. É o homem certo para o trabalho.

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    • honi soit qui mal y pense permalink
      28 Setembro, 2016 12:46

      Sim . É de facto mais bonito .
      Mas se reparar a sua foto é da altura em que havia mais actividades económicas em Portugal além do turismo .
      Certamente para procurar melhor condições foi para a Holanda, porque não pensou quer fosse viável abrir um serviço de tuk tuks . Quer voltar ? A praça está bestial para você assentar e consumir , como outro qualquer turista .

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      • 28 Setembro, 2016 16:50

        Acha que fui para a Holanda porque se decidiu tirar os carros do Terreiro do Paço? Não sei se sabe – falando em economia – todas aquelas latas na foto eram já na altura importadas e locomoviam-se a “petról” que já comprávamos lá fora. E sim meu caro, quando andava por aí, e não ganhava assim tão, frequentava amiúde os restaurantes do Terreiro do Paço, que geram receita fiscal e empregam muita gente, ao contrário do amontoado de latas imóveis.

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      • honi soit qui mal y pense permalink
        30 Setembro, 2016 13:27

        Estou a querer lhe dizer que não devemos basear o desenvolvimento de um país numa monoactividade apenas … seja o algodão , ou nós agora , com o turismo .
        A praça está muito melhor assim , mas os carros na altura não eram de turismo , eram de trabalhadores provavelmente que tinham trabalho, e emprego .
        Agora não tem lá nenhum veiculo , e há muito mais desemprego , já de facto alguns empregos sazonais no turismo desses tais novos restaurantes , e outras actividades conexas … todas dependentes de haver um fluxo anormal de turistas face á barbárie instalada no norte de africa , e turquia … quando isso acalmar, e os preços comparativos valerem a viagem … e caso a parvoíce da hiperfiscalidade continue para os residentes estrangeiros se assustarem, e irem embora … isto pode acabar … e o Terreiro do Paço fica para os pombos .

        Entende ?

        De resto , o nível de desemprego é ainda alto agora , os trabalhos remunerados são de baixo valor e precários , e aqueles mais expeditos e audazes , por falta de alternativa tem de ir para fora graças á mobilidade da UE e globalização do saber para procurar melhores condições de vida .

        A foto , que estimo dos finais dos anos 70 , onde os problemas á época seriam basicamente , baixos salários , produtividade baixa, forte intervenção estatal na economia , inflação altíssima galopante , desemprego estável , alto nível de endividamento externo devido ás importações de todo o tipo de bens sobretudo combustível , nível de poupança razoável .
        Não seriam todas as viaturas importadas pois , pois pela amostra , estávamos numa época em que algumas , e várias destas marcas tinham cadeias de montagem em Portugal , hoje contam-se pelos dedos de uma só mão , e muito robotizadas .
        Havia uma larga dispersão e emprego do comercio local , pois as grandes superfícies comerciais eram diminutas . e quase inexistentes .Na baixa de lisboa aqui retratada , restaurantes no Terreiro do Paço não creio , era só ministérios .Á volta sim existiam , e muito comércio .
        Em suma , emprego e trabalho havia para além do turismo , as actividades produtivas eram variadas , mas a produtividade não era elevada , e era altamente deficitária no sector estatal que ia para além do razoável numa economia de mercado moderna , a inflação era enorme e fazia com que o valor do dinheiro fosse reduzido .

        Em conclusão : nenhuma das situações serão as ideias .

        Agora você tem um alto nível de desemprego , um endividamento elevado , uma fraca diversidade da actividade económica , ora alicerçada no turismo e pouca mais especialização que acresce mais valia técnica ou cientifica … uma economia virada para o consumo interno que não consome por falta de liquidez e constatação de muito bom senso …

        mas tem uma praça bonita …

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