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Nem nos deixam ser assassinados em paz

2 Fevereiro, 2017

Uma pessoa que chegue hoje a Portugal vinda de um resquício de civilização ocidental, talvez uma ilha não cartografada no Mar do Norte, fica sem saber de onde vem esta ridícula discussão sobre a eutanásia.

Em primeiro lugar, porque a discussão não é sobre eutanásia, é sobre homicídio legalizado em condições que ninguém sabe sequer definir. Passo a explicar:

Suicídio é o que acontece quando disparamos a arma sobre nós; eutanásia é quando nos dão a arma para que possamos disparar sobre nós; homicídio legalizado é quando alguém tem o poder legal de disparar a arma por nós. Para se tratar de uma discussão sobre eutanásia, o ponto a discutir seria se quem fornece o dispositivo que permite o suicídio – que, para o efeito, pode ser uma mistura de fármacos letais – deve ser criminalizado. Para tal, a pessoa que solicita a eutanásia, tem que ser unicamente responsável pelo uso desse dispositivo, o seu operador e único interveniente no processo que origina o suicídio. Sublinho “suicídio”. Ora, os casos de morte medicamente assistida não podem ser considerados suicídio porque a droga letal é administrada por outra pessoa – o médico ou o enfermeiro. É ridículo chamar a isto suicídio, da mesma forma que é ridículo chamar suicídio ao acto de alguém atirar outro de uma ponte. Toda a discussão com a palavra eutanásia é uma fraude.

Em segundo lugar, porque nenhum proponente desta aberração consegue apresentar um único caso pendente que possa ser enquadrado pela lei como solicitação de eutanásia. Os proponentes são pessoas habituadas às ditas causas fracturantes, profissionais do engodo nacional que consiste em promover eventuais necessidades de uma micro-minoria, por vezes imaginária, a casos de urgência nacional. Colocam a maior parte dos portugueses a discutirem palermices como se a vida devesse ser suspensa até chegarmos à conclusão de que é impossível continuar a viver (literalmente) sem concluirmos o que fazer. Após a aprovação destas aberrações, viram costas, neste caso aos velhos acamados, e passam ao assunto seguinte na lista de “avanços civilizacionais” a tratar. Naturalmente, à medida que o tempo vai passando, os potenciais “beneficiários” (merece as aspas) destes “avanços civilizacionais” vão diminuindo: há mais gente disposta a abortar do que a casar com alguém do mesmo sexo; há mais gente disposta a casar com alguém do mesmo sexo do que a ser assassinada a pedido e de forma legal.

Em terceiro lugar, porque o efeito destas discussões é dividir os portugueses em dois grupos de forma sistematica. Ao contrário da divisão natural entre portugueses, a dos que consideram António Costa um imbecil e os que são imbecis eles próprios, esta divisão efectua-se entre o grupo dos crentes na benevolência da intervenção estatal na vida (e agora morte) das pessoas e o grupo dos ateus sobre tudo que profissionais dos “avanços civilizacionais” propõem. É deveras estranho encontrar alguém fora do espectro do socialismo que possa apoiar esta aberração, nem que não seja mais nada pelo motivo abordado neste ponto. Estaline, o maior prestador europeu de serviços de eutanásia.

Em quarto lugar, porque a sociedade é um conceito abstracto sem conexão com o mundo real. Não existe um ente que possa unificar as virtudes e defeitos de um grupo de pessoas cujo único ponto em comum é falarem a mesma língua e terem nascido no território associado à república, daí que não possa existir o conceito de “bem comum” e, muito menos, o conceito de “benefício social”. Essas merdas de Kumbaya morreram no final dos anos 60 e começa a ser altura de alguém avisar o coveiro.

Em quinto lugar, porque uma discussão séria sobre os limites admissíveis para a intervenção que coloque em causa o término da vida humana não pode ter origem num parlamento eleito à revelia deste assunto por mero golpe aritmético. Sejam meninos grandinhos, deixem de ser covardes, e apresentem ao eleitorado a proposta nestes termos: se votarem no grande governo unitário de esquerda (inclui partidos que equiparam seres humanos a vacas), estejam cientes que será legalizado o homicídio a quem o solicitar mediante a aprovação burocrática de painel de especialistas que são pressionados diariamente para vagar camas de hospital.

Em sexto lugar, e por último, porque da última vez que fizeram uma grande discussão pública, em concreto a perguntar se mulher que aborte deve ser criminalizada – e o termo “interrupção da gravidez” está focado na grávida, não no ser que é abortado, daí que seja um eufemismo bacoco para morte -, o resultado final foi que mulheres passaram directamente da prisão para a casa partida, recebendo o aborto subsidiado pelo contribuinte e os dias de baixa necessários para lidar com o trauma numa praia espanhola. Pensem nisso da próxima vez que se queixarem do caos nas urgências e da falta de camas nos serviços hospitalares.

Podem disparatar. Não respondo a esganiçadas.

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28 comentários leave one →
  1. 2 Fevereiro, 2017 02:25

    eita, caneco, tiraram o homem do sério… Dou-lhe razão no argumentário .
    Mas prontos lá vou ter que me atirar de uma ponte quando chegar hora. Pelo menos irei exprerimentar por breve momento, a adrenalina de voar…

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  2. bst permalink
    2 Fevereiro, 2017 04:25

    Ahaha

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  3. Rão Arques permalink
    2 Fevereiro, 2017 07:31

    Testamento: Deixem-se de penalizações e entreguem essa coisa da aceleração ou retardamento á classe médica que tem normas e código deontológico para cumprir.

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  4. Baptista da Silva permalink
    2 Fevereiro, 2017 09:38

    O Estado gasta muito dinheiro com lares de 3ª idade e em cuidados paliativos. Eis a solução para esses custos desnecessários que tanta falta fazem essas verbas para desbloquear a progressão nas carreiras dos FP.

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  5. Alain Bick permalink
    2 Fevereiro, 2017 10:00

    para a sustentabilidade da ss
    deviam abater os que chegam aos 60 anos
    e todos os deficientes

    porreiro!

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    • carlos alberto ilharco permalink
      2 Fevereiro, 2017 14:49

      Já foi feito.
      As ss abatiam-nos de todas as idades, cores e feitios.
      Mesmo assim não resultou.

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  6. Rocco permalink
    2 Fevereiro, 2017 10:29

    De facto, a argumentação com estes imbecis tem que subir de tom. Não há pachorra para aturar a pretensa superioridade intelectual e a altíssima preocupação com todos os dramas de todos os coitadinhos…

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  7. Jorge permalink
    2 Fevereiro, 2017 10:37

    Num assunto tão sério não me parece que argumentos ditados pela irritação adiantem alguma coisa. Alguns deles são irrelevantes, como o terceiro lugar.
    Usar a capacidade de raciocinar e escrever para produzir um texto destes é desperdício.
    Quanto às esganiçadas, agora temos mais uma, do outro lado.

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  8. 2 Fevereiro, 2017 10:50

    “eutanásia é quando nos dão a arma para que possamos disparar sobre nós”

    Acho que o Vitor Cunha está um bocado confundido sobre o significado do termo “eutanásia” (nota – eu também não gosto do termo, mas por razões completamente opostas): “eutanásia” não tem nada a ver com ser voluntário ou involuntário – “eutanásia” significa “morte ideal” (ou confortável, ou coisa assim…) – “eu” (ideal, ótimo) + “tanatos” (morte); compare-se com “eugenia” (que pretende significar “reprodução ideal”). Quando se eutanasia animais (como quando o meu Kitty partiu a bacia), não se lhe dá um arma para se sucididarem, nem se lhes pede opinião – e não deixa de ser chamado “eutanásia” por causa disso. “Eutanásia” significa que a morte é feita sem sofrimento e/ou para evitar o sofrimento (admito que este “e/ou” pode dar pano para mangas).

    A razão porque eu não gosto do termo “eutanásia” é exatamente por isso – porque acho que o ponto central não deve ser o “confortável”, mas o “voluntário” – sou contra se dar um injeção letal indolor a alguém contra a sua vontade, por mais sofrimento em que essa pessoa possa estar e por mais “opiniões da família” a favor da injeção que possa haver; e sou a favor de alguém poder pedir para ser lentamente dissolvido (vivo e consciente) numa cuba de ácido sulfúricio, por mais doloroso que tal possa ser (duvido que alguém queira morrer assim, mas quem sou eu para avaliar isso? Vejo piercings tão estranhos pela rua…).

    «os potenciais “beneficiários” (merece as aspas) »

    O VC deveria pedir aos seus amigos adeptos da “escola austríaca” para eles lhe explicarem a teoria subjetiva do valor.

    « esta divisão efectua-se entre o grupo dos crentes na benevolência da intervenção estatal na vida (e agora morte) das pessoas e o grupo dos ateus sobre tudo que profissionais dos “avanços civilizacionais” propõem.»

    E o VC fica tão traumatizado por, ao contrário do que imagino seja a sua auto-imagem, desta vez estar no primeiro grupo, que prefere que a questão não seja levantada.

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    • 2 Fevereiro, 2017 11:02

      É como calculadora. Está mal chamar calculadora a algo que não seja feito de calhaus.

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    • Filipe permalink
      2 Fevereiro, 2017 11:11

      O meu conceito a eutanásia é exactamente o oposto de voluntário.
      Para mim “eutanásia a pedido” é homicidio ou suicidio.
      Eutanásia é tirar a vida a alguém sem a concordância desse alguém e fazê-lo por misericórdia. Claro que nisso de conceitos é sempre dificil chegar a acordo.

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    • António C. Mendes permalink
      2 Fevereiro, 2017 11:48

      “Morte ideal”!!! É isso!!! No fundo, é só o embrião de uma possibilidade de padronização do tipo de morte, o objectivo será: proporcionar a todos uma “morte ideal”!!! Avança civilização, avança!!!
      Já agora, trazer para esta discussão a eutanásia animal, em qualquer âmbito, parece-me sempre despropositado, o seu Kitty desconhecia o conceito de finitide humana e dela estava liberto!!

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      • 2 Fevereiro, 2017 17:02

        Estamos a discutir o que significa a palavra “eutanásia”, pelo que me parece relevante a forma como é usada noutros contextos; mas, se vamos falar só de humanos, creio que o programa T4 da Alemanha nazi também é frequentemente chamado de “eutanásia”.

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      • 2 Fevereiro, 2017 19:01

        Não estou a discutir semântica. E você também não!!!

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  9. Anónimo permalink
    2 Fevereiro, 2017 12:06

    Concordando ou não, excelente “post”.
    Realmente o pessoal nomeado para “trabalhar” naquele edifício acha quem tem que mostrar “trabalho”.

    Vai daí o terem que inventar temas. Mas cuidadosamente. Que sejam relativamente inócuos para quem os nomeou. Convém não mencionar a mais que duvidosa gestão do País. Daí esta anacrónica selecção de temas a “legislar” …

    Só que lhes falta o necessário “substracto”, (como diría Herman José) representação política real.
    Por vezes aquilo parece discuções de jóvens no intervalo das aulas. Apenas tornam mais do que evidente a “loja de paleio” “talking shop” a que eles mesmos se reduziram. No que está transformada a democracia. Percebeu Sr. Jorge?. Não creio.

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  10. ABC permalink
    2 Fevereiro, 2017 13:20

    Gosto deste blog. Quase todos os dias dou uma vista de olhos ao que aqui se discute, e às vezes participo. É uma forma de descomprimir, os dias são muitas vezes aborrecidos, repetitivos, com mil e uma coisinhas a fazer, e dessas mil e uma, pelo menos metade está ligada a um complicómetro que é o governo, e correm mal.
    Há momentos em que vejo muito claramente a pequenez. A minha, e a de quem me rodeia, mas sobretudo a pequenez de quem nos “governa” – a palavra entre aspas, porque perde o sentido dentro do contexto político actual, nós estamos mais a ser roubados do que governados.
    A vida não pode ser só isto. Não pode. Acredito que o trabalho é importante, que os sonhos são importantes. Não acredito na incrível perda de tempo – perdido e irrrecuperável – a preencher formulários, licenças, requisições, a esperar em filas, a queimar os olhos em frente dum monitor, a trabalhar para o governo, quer queiramos quer não. A vida não pode ser uma colecção de formulários e e-facturas, e intimações erradas. Não pode. E é.
    Os governos tornaram o estado tão enorme que já não há vida para além dele. Não há sonhos, não há tempo. O tempo que não se passa a trabalhar para alimentar o governo, é perdido a tentar esquecer o governo, ou a magicar como escapar a este garrote. Seja como fôr, o governo tornou-se omnipresente. Como Deus. Só que o governo não cura leprosos, não multiplica pães, não é, por mais que o diga, Deus. Nem é sequer minimamente bondoso. A única coisa onde o governo rivaliza com Deus é na capacidade de lançar pragas sobre o povo.
    E no entanto, toda esta balofa volumetria governativa esconde uma tremenda pequenez. O que querem os nossos “governantes”? Fama, poder, e dinheiro. Sobretudo dinheiro.
    Não vão mais longe que esse mesquinho objectivo, e arrastam todos os outros.
    Os esquemas, os roubos, os tráficos de influências, as selfies, os tempos de antena, as declarações pomposas e bombásticas, servem para quê? A ambição desta gente é, no leito de morte, ficarem satisfeitos pela sua passagem no mundo porque tiveram uma vida abastada à conta dos outros? Porque conseguiram saltar de vigarice em vigarice sem serem presos? Alguém no seu perfeito juízo vai morrer tranquilo porque cumpriu o seu sonho de ser assistente do subsecretário de estado? E de caminho conseguiu desviar uns dinheiros para comprar um Mercedes?
    No processo, os políticos fazem com que milhões de pessoas, cujas vidas pouco lhes interessam, também se tornem pequenas, com pequenas versões dos mesmos esquemas, para tentar sobreviver-lhes.
    Se a lápide de uns pode resumir-se a “morreu feliz porque andou sempre de barriga cheia à conta do povo”, a dos outros é o quê, “morreu com os papéis em dia”?
    É este o nível a que se chegou?
    A vida é um milagre, merece respeito. Por aquilo que vejo, nem governantes nem governados andam a vivê-la, uns porque a ambição de ter mais lhes consome o tempo, outros porque perdem o seu tempo a pagar a ambição dos primeiros. A evolução parou numa barreira de decretos. A vida é tão mesquinha para quem a perde a criá-los como para quem a perde a cumpri-los.
    É que dum lado e doutro falta tempo, para os cônjuges, filhos, família, amigos. Falta tempo para ler, para ver, para sonhar, mesmo para trabalhar com dedicação – e isso é a vida, a vida não é certamente uma sucessão de datas limite para cumprir burocracias.
    Eu gostava que, quem acha que deve estar à frente disto, tentasse melhorar a vida dos governados. Taxem-nos, multem-nos, prendam-nos se fôr o caso, mas deixem-nos viver em paz. Não nos obriguem a gastar algo tão maravilhoso, breve, e irrepetível, com pequenices.
    E, principalmente, saiam das nossas cabeças. Os governos actuais, e os grupinhos de pressão agrafados ao poder, acham-se agora no direito de nos dizerem o certo e o errado, de legislar sobre como devemos pensar. É uma Sharia laica e terá como resposta uma Jihad laica.
    Acontece que nem têm autoridade moral, nem esse é o lugar deles. No nosso bolso já é muito questionável, mas nas nossas cabeças mandamos nós ou quem nós deixamos. Somos livres. Livres para gostar ou não de brancos, negros, gays, heterossexuais, muçulmanos, judeus, fascistas, comunistas.
    Não somos livres a ponto de andar por aí a apedrejar e matar pessoas, mas coarctar a liberdade de pensar é inaceitável – e não está a ser aceite. A tirania provoca repulsa natural no ser humano, mesmo travestida de tolerância.
    Tempos perigosos. Para todos. Provocar divisões e guerras é um crime horrível. Mais ainda quando quem as provoca apenas pretende esconder o que anda a roubar

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  11. Luis permalink
    2 Fevereiro, 2017 14:08

    Muito bom. Faço mais uma pergunta: se existe o direito de quem quiser pedir ao Estado para o matar num estabelecimento de saúde, por que razão esse direito é só para doentes? Se há o direito a morrer com dignidade quando se entende, esse direito deveria ser para todos, incluindo os saudáveis que não quisessem mais viver.

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    • 2 Fevereiro, 2017 14:11

      Defensores da igualdade contra a igualdade.

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    • oscar maximo permalink
      3 Fevereiro, 2017 15:00

      Esses têm a Ponte 25 Abril, mas ainda falta facilitar o acesso a peões. Não só os condutores têm direito.

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  12. João Manuel permalink
    2 Fevereiro, 2017 18:04

    Gosto.
    Só queria ter o seu jeito para a escrita.

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  13. piscoiso permalink
    2 Fevereiro, 2017 18:12

    Não tarda aparece uma aplicação para telemóvel com a tecla “”Eutanásia”. Pressiona-se e adeusinho.

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  14. Arlindo da Costa permalink
    2 Fevereiro, 2017 18:18

    O distinto articulista não quer que os seus adversários (ou serão inimigos?) que se se suicidem assim nem mais nem menos.

    Ainda há gente que acredita no Ser Humano.

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  1. Submissão e Liberdade, da Abstinência à Eutanásia – Távola Redonda

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