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O segundo país mais pobre da União Europeia

25 Novembro, 2017
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Na imagem temos as regiões Norte e Centro. Estas regiões têm cerca de 60% da população, mas as duas taxas de fertilidade mais baixas do país a seguir à Madeira. O saldo migratório é tão negativo que, sem estas duas regiões, o país como um todo teria um saldo migratório positivo. São responsáveis por 56% dos alunos diplomados anualmente, mas apenas 34% dos trabalhadores a ganhar mais de 2 mil euros e 27% dos trabalhadores a ganhar mais de 5 mil euros. Por outro lado, têm 64% dos trabalhadores do país com salários abaixo de 600 euros. Têm 56% de todos os trabalhadores por conta de outrém, mas apenas 47% do PIB.

Se estas regiões se transformassem num país, esse país seria o segundo mais pobre da União Europeia, entalado entre a Bulgária (que continuaria a ser o mais pobre) e a Roménia  (que passaria a terceiro). No entanto, seria um dos poucos países com uma balança comercial de bens positiva. Em % do PIB, apenas a Irlanda e a Alemanha teriam um saldo positivo maior.

Apesar do forte sector exportador, este país formado pelo Norte e Centro teria muito poucos organismos públicos nacionais e empresas dedicadas ao consumo interno. Nem sempre foi assim. Ao longo dos últimos 30 anos dois fenómenos contribuiram para esta evolução. Por um lado o estado assumiu um papel cada vez mais importante na economia. As empresas (pequenas, médias e grandes) tornaram-se cada vez mais dependentes do estado, com o seu sucesso a depender de forma crescente da proximidade aos centros de poder. Por outro lado, os serviços do estado foram-se centralizando  cada vez mais em Lisboa, arrastando as empresas consigo.

Como este impulso centralizador incluiu os orgãos de comunicação social, ele foi acontecendo sem que houvesse um debate sério sobre as suas consequências. Coincidência ou não, este período de centralização culminou na década de mais fraco crescimento económico no país desde os anos 40. As teias de poder e o nepotismo que a centralização excessiva alimentam são negativas para a economia como um todo, como os recentes casos da PT, do BES, da CGD, do BCP ou a relação próxima entre reguladores e regulados tão bem demonstram.

Há, no entanto, uma luz de esperança. Enquanto tudo se centralizava, houve algo que se descentralizou violentamente: a criação e distribuição de informação e opinião. Os orgãos de comunicação social podem estar centrados em Lisboa, mas já não controlam toda a informação e opinião que chega ao eleitorado. É esta pequena grande mudança que pode vir a gerar as próximas, haja pessoas em número e qualidade suficientes dispostas a fazer a sua parte. Vamos a isso.

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22 comentários leave one →
  1. Rui permalink
    25 Novembro, 2017 16:51

    Espetacular este artigo. Parabéns. Gostei muito de ler.
    Acho que os partidos que se preocupam com a igualdade e equidade dos cidadãos deveriam dar muito mais atenção a este tipo de desigualdade. desigualdade de nascer e residir em diferentes pontos de um país tão pequeno como o nosso.
    A solução a meu ver não passar pela regionalização que penso que iria criar mais problemas do que resolver, mas sim por uma descentralização do emprego público e dos centros de tomada de decisão.
    Nunca tinha pensado na questão dos meios de comunicação social mas de facto está muito bem visto. Por exemplo a atenção mediática que é dada à questão dos preços das casas em Lisboa, não só em termos do numero de noticias mas também do seu prolongamento no tempo, uma questão relativamente menor face aos problemas do resto do país, demonstra a meu ver esta questão de os jornalistas estarem todos em Lisboa e os problemas de Lisboa terem uma atenção desmesurada.

    Também gostei muito de ler o que escreveu sobre as perspectivas de futuro, Esperemos que se realizem.

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  2. maria costa permalink
    25 Novembro, 2017 17:00

    Realmente a revolução que está no ar é a que os MSM já não controlam a informação e que o controlo do saber/informação sempre foi o alicerce de todos os poderes, sobretudo o seu controlo total pelas ditaduras.

    Já viram a polémica que está instalada a nível mundial pelo State Dep. ter dado milhões para imprensa anti governamental na Hungria?
    Os EUA e Soros aliados contra Órban. Bem os MAGA já fazem petições contr os seus diplomatas e apelam a Trump -atenção ver os próximos capítulos desta novela real live.

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  3. Tiro ao Alvo permalink
    25 Novembro, 2017 17:09

    Esqueceu-se de referir a Banca. Noutros tempos alguns Bancos tinham a sua sede no Porto e os outros, todos, tinham, na Invicta, Centros de Apoio, alguns com elevada competência técnica e de razoável dimensão. Hoje alguns Bancos estrangeiros têm no Porto centros de apoio administrativo de carácter universal e, pelo menos um, está a concentrar, nesta cidade, todos os seus serviços de apoio informático, enquanto a Banca que opera em Portugal concentrou todos esses serviços em Lisboa e, alguns, até transferiram uma boa parte para Madrid ou Barcelona, tudo a contrastar com a o elevado prestígio dos cursos universitários ministrados no Norte, cujos licenciados (e mestres e doutores) têm que procurar ganhar o pão noutras paragens, muitas vezes emigrando.
    Razão tinha o Eça quando dizia que Portugal é Lisboa. As coisas estavam a melhorar, mas nos últimos 30/40 anos o Norte começou andar para trás e, agora, parece-me que estará apenas a marcar passo…

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  4. Procópio permalink
    25 Novembro, 2017 17:42

    Notável prosa. Vem finalmente levantar a ponta do véu espesso que nos submete.
    Como tem sido atacado um povo laborioso? Como se justifica a sua emigração macissa?
    No tempo da monarquia já o Brasil era promessa. A África veio pouco a pouca.
    Nos anos 60, o salazarismo e a guerra colonial, sem dúvida
    E depois do 25A? Quem perde sempre e quem vive no bom bom e no fala barato?
    Que atilhos prendem pessoas de bem que não as deixam ser gente?
    Porque, tendo amor à sua terra fabulosa são obrigados a abandoná-la?
    Que filósufus, pulhíticos, dinossauros, amigos de ladrões, ladrões de inocência na lapela,
    amigos dos amigos dos ladrões, internacionalistas arreganhados, vigaristas encartados que carregam condecorações, jornalistas vendidos, editores chefe, flausinas dos telejornais,
    quantos, quantos se têm empenhado à sucapa na decadência inexorável das nossa terras e das nossa gentes?
    Quantas palavras ocas, quantos impostos injustos, quantos negócios falhados, quantos bancos falidos, quantas bactérias ladinas, quantos incêndios, quantos beijos de judas, quantas bandeirinhas negras, quantas promessas malditas, quantos abraços pornográficos serão precisos para acordar do sono profundo?

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  5. 25 Novembro, 2017 18:01

    Parabéns, Carlos.
    Excelente artigo. Consubstancia muita informação dispersa que tenho visto em diversos textos.
    Seria interessante citar as fontes para os dados. Não duvido da sua veracidade, mas daria credibilidade à mensagem.
    Interrogo-me porque os organismos regionais – CCDRN, Universidades, etc – não publicam estudos deste tipo.

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  6. Kapagrillos permalink
    25 Novembro, 2017 18:05

    Muitos parabéns!

    Depois de uns dias de lamentos pelos pobres chamuscados das terrinhas parece que passámos a outras preocupações, por isso é bom nunca esquecer que o país tem desigualdades não só nas periferias de Lisboa.

    Adoraria ver este exercício feito dividindo a mesma área, mas com a divisão litoral/interior.

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  7. castanheira antigo permalink
    25 Novembro, 2017 18:18

    A maioria dos Portugueses votam nas ideias dominantes e estas são as que passam nas TVs . O jornalismo nestas é muito mau , não é independente e ai daquele que tente sê-lo.
    O Carlos diz que já há fontes de informação independente , o que é verdade , mas não têm a força da TV que entra em casa das pessoas e inadvertidamente entra nas suas cabeças.

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  8. 25 Novembro, 2017 18:33

    Pois eu escrevo o seguinte.
    Portugal para se desenvolver ainda vai ter que empobrecer mais.
    Não, não pensem que alinho com o paleio dos esquerdalhos.
    Eu explico. Portugal é um país atrasado com um povo ignorante, inculto.
    Enquanto a Europa já está noutro estadio, a evoluir da dita Esquerda do período pós-guerra para a dita Direita, como se vê nos resultados eleitorais dos países mais avançados, que tanto indignam os esquerdalhos, em Portugal o povo ainda vota maioritariamente na Esquerda o que aproveitou ao Costa do nosso descontentamento para formar o Governo que temos. É habilidoso!
    Quer saibam ou não, a Esquerda no Governo só serve para gastar o que os trabalhadores produzem. Os empresários também são trabalhadores.
    Portanto, meus caros, com a Esquerda a gastar os recursos nacionais sem estimular os trabalhadores, o que nos espera é pobreza. E quem mais sofre é sem dúvida o povo que vota na Esquerda. Os senhores de Esquerda, esses amanham-se.
    E quando os recursos se gastarem e a pobreza se instalar em força, pode ser que então o povo mude a agulha e comece a votar naqueles a quem os esquerdalhos chamam de Direita mas que são os percebem as coisas, que empreendem, que trabalham, que sabem montar uma fábrica de moldes ou que sabem cuidar de um pomar.

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  9. Aventino permalink
    25 Novembro, 2017 18:39

    No Norte ainda se sente muito o enxofre do Leviatã.

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  10. David Fernandes permalink
    25 Novembro, 2017 18:53

    A questão que se coloca é: quando é que as forças vivas da região (e principalmente as suas elites) vão se organizar, criar um partido regional e lutar pela independência administrativa, financeira, económica e também social? Como a Catalunha faz com Espanha.

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  11. Ricardo permalink
    25 Novembro, 2017 19:11

    Caro autor,

    Não entendi porque ignora o Sul no seu “país”. Talvez não saiba, mas o Sul não é só Lisboa.
    Como explicar que Lisboa seja tudo isso sem a conivência dos “poderes” do Centro e do Norte (e do Sul também, para não ser acusado de parcialidade) ?

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  12. Filipe Costa permalink
    25 Novembro, 2017 19:26

    Ficou pelo Norte e Centro, corte Lisboa e Vale do Tejo do mapa e veja a miséria completa que paga para os calões da Capital e arredores.

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  13. Arlindo da Costa permalink
    25 Novembro, 2017 20:28

    As políticas agressivas e desartificadoras da direita transformaram o Norte e o Interior do País na Albânia da Península Ibérica.

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  14. João permalink
    25 Novembro, 2017 20:45

    Olá Carlos,
    Obrigado pela análise.
    Que fontes utilizou?
    Abraço

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  15. 25 Novembro, 2017 22:45

    É, “vamos a isso”… Falta saber o que esteve a fazer o CGP entre 2011-2015

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  16. carlos alberto ilharco permalink
    26 Novembro, 2017 15:11

    “Os órgãos de comunicação social podem estar centrados em Lisboa, mas já não controlam toda a informação e opinião que chega ao eleitorado”

    Tanto quanto sei o único órgão de informação do Norte, com média influência, é o Jornal de Notícias.
    O Director, um tal Camões, foi nomeado por Lisboa para servir Lisboa e reporta a Lisboa.

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  17. jose pacheco permalink
    26 Novembro, 2017 18:38

    Infelizmente e dramaticamente é verdade!

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