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A “folga”

27 Abril, 2018

am

 

“Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo” é um verso famoso de Alexandre O’Neill, parte crucial de um poema em que se conjuga a biografia do país com a autobiografia do autor. Se Portugal fosse um poeta e quisesse imitar O´Neill, o verso decisivo não poderia ser outro que não “Folga: questão que eu tenho comigo mesmo”.

A “folga” é a palavra-fetiche da nação lusa. Se vamos ao mecânico, logo nos descobrem uma folga na direcção; se interrogados sobre prazos de entrega, há certamente uma folga na resposta que sairá da nossa boca; se pretendemos um novo serviço público, é uma questão de segundos até identificarmos uma folga orçamental que o possibilitará. A “folga” é a muleta de todos os pedidos, de todas as desculpas e de todas as opiniões. E é algo que desejamos mesmo quando nos encontramos envolvidos em tarefas agradáveis. Recordemos o Conjunto António Mafra e a música Domingo. O protagonista, radioso, anda perdido entre rabos-de-saia: namora com a Rosalina à segunda-feira, fala à Miquelina na terça, encontra-se com a Manuela na quarta, sai com a Felisbela na quinta, telefona à Ivone na sexta, está com a Olga no sábado. No entanto, apesar de tão animada e prazenteira semana laboral, é com indisfarçável prazer que nos comunica que ao domingo está de folga. Só uma obsessão de grande envergadura pode justificar que o próprio folguedo seja preterido em benefício da folga.

Não espanta por isso que o debate político dos últimos tempos ande concentrado na “folga”. O Governo quer usar a “folga” orçamental para baixar o défice em mais umas décimas, o Bloco de Esquerda exige que a “folga” seja investida nos serviços públicos, Silva Peneda prefere aproveitar a “folga” para baixar a carga fiscal das empresas. Eu, assustado, corro ao oftalmologista para me aumentar a graduação. É que, por mais que me esforce, não vejo folga em lado nenhum: a dívida pública mantém-se assustadoramente alta e o Estado continua a viver em défice, gastando mais do que aquilo que consegue cobrar em impostos. É verdade que essa diferença entre receitas e despesas é menos má do que a previsão inicial, mas o saldo continua a ser negativo. E não estamos a falar de trocos.

Uma vez, no final de um exame que correu mal, disse aos meus pais que ia reprovar com 6 ou 7 valores, mas uns dias depois, surpreendentemente, apareceu na pauta que tinha reprovado com um 8! Estivesse já em vigor a definição contemporânea de “folga” e tinha-lhes pedido um presente que recompensasse o meu desempenho.

 

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15 comentários leave one →
  1. Carlos permalink
    27 Abril, 2018 13:06

    A foleirice tuga. Já o catálogo do D. Giovanni era muito mais extenso.

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  2. Procópio permalink
    27 Abril, 2018 16:23

    Eu sigo o provérbio antigo:
    “COME E FOLGA, TERÁS BOA VIDA”.
    Acompanho no Procópio a enfiar uma bujecas, pois então?
    Outros, mais vorazes, vão folgando com os amigos e com as amigas.
    Não sou invejoso, senão tinha que me enfiar no tal partido.
    Sou fácil de contentar.
    Como foi lindo ver os cravos de Abril na lapela!
    Excitante vai ser as rosas de Maio desabrocharem!
    O povo vive feliz e contente, os ladrões vivem na sua azáfama, os revolucionários. o che morto, lambem o varoufakis e asseguram o futuro das próximas gerações.

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    • Mário Fernandes permalink
      27 Abril, 2018 19:23

      Ora nem mais!

      Eu não estou no Procópio a »castigar« as famosas tostas mistas mas estou em casa a »mamá-las« com o devido rigor.

      E, sim, tudo aquilo foi lindo. E, claro, também vai ser esfuziante ver as esganiçadas de Maio desabrocharem (não me soa muito bem).

      Boas jolas!

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  3. Mario Figueiredo permalink
    27 Abril, 2018 19:43

    A folga financeira até dá para voltar a pagar férias a reformados. Pelo andar da carruagem, de comboio passamos a TGV.

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  4. 27 Abril, 2018 20:37

    As férias a reformados do Tó Costa, manhoso…….:

    -Segura e ganha votos (votantes no PS e potenciais votantes no PS vão de férias pagas pela folga)

    -E ainda, como os xuxas gostam de dizer, passa-se folga para os cofres do Inatel (coio dos xuxas recebedores de dinheiro do Estado) porque aquilo do Inatel já funciona há muito tempo na mama xuxa e por isso o dinheiro que lá cai é como manteiga em focinho de cão.

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  5. Arlindo da Costa permalink
    27 Abril, 2018 22:06

    É sexta-feira. Estou de folga…dou lugar aos comentadores residentes cuja sapiência é por todos reconhecida…

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  6. Procópio permalink
    27 Abril, 2018 23:50

    A folga deve ter que ver com os 80 miliões que o BCE está a imprimir mensalmente.
    As migalhas que chegam cá vão dando para muita festa. Dizem as más linguas que depois do Draghi se ir embora se seguirá a bancarrota do sistema financeiro europeu.

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  7. Artista português permalink
    28 Abril, 2018 10:31

    Mesmo quando o vendedor garante ao freguês a data da entrega com um “pode estar descansado”, na fórmula está implícita a ideia de uma “folga”. É um descanso!

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  8. 28 Abril, 2018 12:00

    Folga tenho é nos bolsos.

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  9. 28 Abril, 2018 16:02

    Mais este encanto: O Hospital de São João adjudicou 44 contratos no valor de 2 milhões de euros a cinco empresas duma mesma família.
    País maravilhante e motivante, quem duvida ?
    Notícia in SAPO, já anteontem a Bastonária da Ordem dos Enfermeiros tinha denunciado o caso.

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  10. Isabel silva permalink
    28 Abril, 2018 17:10

    Para mim todos os dias são de folga. É o que acontece a quem tem de estar reformado, com a família fugida para outras paragens, neste ou noutros mundos desconhecidos.
    Ha dias em que acordo e a minha folga me aparece como uma dávida do destino pois que posso fazer só o que me agrada, sem limitações nem deveres. E programo uma utilização do tempo que sei que me vai trazer grande satisfação.
    Mas há outros dias em que a folga aparece mais como a imposição de um viver sem qualquer perspectiva. Em que uma música ouvida não traz o sentimento de felicidade do momento em que foi descoberta, em que a saudade sentida é infeliz, em que os amigos recordados não passaram de conhecimentos ocasionais, em que tudo foi precário. Nesses dias aproveito para meditar. E sei que vou acabar a concluir, como Sartre, que o inferno são os outros; porém, quando adormeço, sou levada a reconhecer que os meus momentos de inferno nada mais eram, ou foram, do que ausência daqueles que tinham o dom de me levar ao paraíso.
    Outro dia nasce, outra folga se apresenta. Afinal, só eu sou responsável pelo sucesso da tarefa que decidir executar. Em qualquer dos casos é sempre mais um dia bem passado.

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  11. 28 Abril, 2018 17:47

    Em Portugal 14,5% dos bebés que nascem são filhos de imigrantes.
    Entretanto mais jovens continuam a abandonar as terras portuguesas.
    Assim se dilui o Portugal que os nossos antepassados criaram e fortaleceram, de Reis a plebeus.
    Portugal está a desaparecer. Como alguns já lhe chamam, isto já é apenas um sítio.
    Os partidos políticos em geral são associações oficiais de interesse particular.
    Os portugueses precisam urgentemente de ver e rever a pouca vergonha que andam a permitir. Não viram já que a chefes de Governo e a ministros já chegaram pulhas da pior espécie?
    Então o que estão à espera?
    O pastel de nata já é confeccionado em Paris com a mesma qualidade do pastel de Belém.
    Levantai-vos contra a podridão!
    Nobre povo, Nação valente!

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  12. Procópio permalink
    28 Abril, 2018 19:08

    David, o percurso da história é mesmo esse. As nações só sobrevivem se os seus alicerces não se desmoronarem. No sítio andam há décadas a desfazer dos fundamentos que levaram à fundação da nacionalidade, a provocar ruturas cirúrgicas progamadas de valores seculares, a arrazar as consciências em direção à anomia e a tanatos.
    Primeiro foi o internacionalismo parido pela esquerda dita proletária, agora a globalização arquitectada pela direita monstruosa. O nobre povo jaz exaurido. Não se levanta.
    A bovinidade tornou-se regra. Direi mais, antes que este blog pudesse acordar os bois, alguém se encarregaria de o liquidar. Há sempre alguém que diz sim.

    Em tempos idos

    Mesmo na noite mais triste
    Em tempo de servidão
    Há sempre alguém que resiste
    Há sempre alguém que diz não.

    Há sempre alguém que resiste
    Há sempre alguém que diz não.

    Agora é diferente

    Mesmo na dia mais triste
    Em tempo de servidão
    Já ninguém resiste ao ladrão
    Pudesse eu imitar-te espertalhão…

    Resistir à corrupção, ao pilim?
    Mais fácil é encolher e dizer sim

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  13. Gabriel Orfao Goncalves permalink
    30 Abril, 2018 21:05

    A “folga” orçamental resume-se a isto:

    Com a maior carga fiscal de sempre (não a pior, na minha opinião, dada a composição dessa carga) tivemos…

    3% de défice!

    Provavelmente teremos orçamentos de défice zero quando a carga fiscal for de 40 ou de 45%.

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