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Jorge, o sofredor

7 Maio, 2018

Tive um amigo na faculdade que teve uma namorada rica. Enquanto os outros três do grupo (no qual me incluía) juntavam moedas na perspectiva de conseguirem quinhentos escudos que nos permitissem pedir o velho Peugeot emprestado ao pai de um deles, o outro passeava com a namorada no seu Mercedes de depósito cheio. Constava que o pai dela tinha uma empresa de não-sei-bem-o-quê que tinha muito sucesso. Mais um ou outro depósito de combustível eram trocos para aquela gente que vivia numa quinta de três hectares com vista sobre o Douro entre Gondomar e Paredes.

O Zé chegou um dia com um novíssimo Macintosh PowerBook 170, prenda da moça por celebrarem três meses de namoro. Aos quatro meses, convidaram o grupo tudo para um jantar informal, a primeira vez que provei ostras na minha vida. Recordo a sabedoria com que nos explicou que ostras a sério é na baía de Arcachon, sempre acompanhadas de um Bordéus de 1961. Recordo especialmente a data pela advertência: nunca cair no erro de aceitar um Bordéus de 1960, uma zurrapa intragável. E logo eu, que achava que os píncaros da sofisticação eram atingidos com uma Super Bock fresquinha e tremoços da mesma água em que a Dona Elvira lavava os dentes postiços (a Dona Elvira tinha uma mercearia vintage: infelizmente, o comércio tradicional está em franco declínio, não tendo sobrevivido à abertura de um Minipreço a 3 km).

Um dia perguntei ao Jorge o que pensava a sua namorada dos seus pais, que, reformados por invalidez, viviam com o filho numa ilha com retrete partilhada. Desviou o assunto para as férias de Verão que iria ter com a Carlota Josefina num resort exclusivo da Polinésia Francesa. Dois dias antes de partirem, o pai da Carlota Josefina foi preso.

Quando regressaram, compraram um duplex no Algarve e ficaram uns tempos por Vilamoura, para espairecer da desgraça. De regresso ao Porto, tive oportunidade de me sentar no banco do Testarossa do Jorge, que agora vestia Armani sobre T-shirt com mocassins à lá Miami Vice. Contou-me que num concerto da banda de covers naquele bar de Valbom tinha destruído uma Gibson Les Paul de 1959 só pelo gozo no fim de Don’t Stop Believing, apesar de os filisteus acharam tratar-se de uma guitarra barata, o que o deixou fulo ao ponto de arrancar as válvulas do JTM45 à dentada.

A casa do Jorge e da Carlota Josefina era espectacular. Com uma entrada em mármore Carrara transportada em carroças por líbios desde Lunigiana, motivaria pelo menos trezentas páginas queirosianas numa introdução aos Maias revisto. O requinte das criadas, envergando avental de seda, stilettos e mais nada, fez-me sentir inveja pelo aconchego financeiro que o princípio constitucional da igualdade garante.

Com a penhora, começaram as dificuldades. Aparentemente, o pai da Carlota Josefina tinha desfalcado sete câmaras municipais e tipos menos escrupulosos em algumas centenas de milhões de euros e o bordel onde estagiavam as criadas do Jorge não gerava receita suficiente para as despesas de manter a Interpol calada sobre a proveniência geográfica das serviçais. A cocaína estava cada vez mais cara e o Ferrari consumia gasolina a mais para se acautelarem as contas dos restantes bens de primeira necessidade do casal, como o mordomo do mastim.

Quando a Carlota Joaquina deixou o Jorge por uma albanesa ex-funcionária da casa de alterne, o Jorge disse que nunca desconfiou que o dinheiro pudesse ter sido obtido de forma ilícita. Garantiu que foi enganado pela Carlota, que não seria por o pai ter sido preso que teria motivos para desconfiar de qualquer ilicitude ou motivos para lhe partirem as pernas na prisão.

Para ler o resto da história, siga este link.

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15 comentários leave one →
  1. Manuel permalink
    7 Maio, 2018 10:03

    Excelente artigo! Só posso dizer que as mulheres são muito cruéis.

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  2. Manuel Traquina permalink
    7 Maio, 2018 10:34

    Brilhante texto.

    Liked by 1 person

  3. Juromenha permalink
    7 Maio, 2018 10:56

    Chiça ! Lê-se e não se acredita ! Em termos tauromáquicos , a tipa dá-lhe a “puntilla”…
    Uma boa parelha, esta e o galamba…

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    • Manuel permalink
      7 Maio, 2018 10:59

      A fêmea do louva-a-Deus é conhecida por comer a cabeça do companheiro após o ato sexual.

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  4. 7 Maio, 2018 12:57

    VCunha,
    mais uma vez magnífico.

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  5. Artista português permalink
    7 Maio, 2018 12:58

    Será coincidência que os artigos desta odalisca são os únicos que não estão sujeitos a comentários?

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    • Manuel permalink
      7 Maio, 2018 13:03

      Querias o quê? Ainda li alguns comentários das mulheres e são de crueldade sem fim, insultavam-na de fruta para cima. A senhora não pode ter os comentários abertos, só com censura prévia à Salazar.

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      • Artista português permalink
        7 Maio, 2018 13:48

        O Alberto Gonçalves foi corrido do DN. O que é isso senão censura prévia?

        Liked by 1 person

  6. Mário Fernandes permalink
    7 Maio, 2018 13:33

    Excelente.

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  7. José Ribeiro permalink
    7 Maio, 2018 13:43

    Que post magnífico, caro VC!
    Então o link… Está 1000 estrelas!

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  8. António C. Mendes permalink
    7 Maio, 2018 19:41

    F. Câncio, João Galamba, António Costa, Pedro Silva Pereira, Augusto Santos Silva, Vieira da Silva, Carlos César, Mario Lino, Maria de Lurdes Rodrigues, Eduardo Cabrita, Jorge Lacão, José Magalhães; Pedro Marques, Fernando Medina, Manuel Pizarro, Marcos Perestrello… estava aqui o resto da noite a dar o nome aos…
    O PS há-de conseguir que eu venha a ter pena de um gajo como o Sócrates!! É obra!!

    Liked by 2 people

  9. Arlindo da Costa permalink
    7 Maio, 2018 21:02

    Isto parece o guião do BPN, do Dias Loureiro e do lucro exponencial das acções da Velha Múmia.

    Muito bom 🙂

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  10. 8 Maio, 2018 00:43

    Sinceramente, que é que vocês veem nesta treta?
    Este Vitor Cunha bem queria ser um Alberto Gonçalves mas,… coitado.

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  11. Bal permalink
    8 Maio, 2018 11:40

    Ah! Ah! Ah!
    Bela posta, sim senhor!

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  12. 8 Maio, 2018 13:28

    ehehehe

    A maluka é estúpida todos os dias. Mais valia continuar calada

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