Skip to content

A prancha

11 Maio, 2018

4-PISCINA-ESPINHO-600x450

 

Uma das frases mais fascinantes e ambíguas sobre a política foi cunhada no Brasil há mais de 60 anos. “Rouba, mas faz”, que tinha como destinatário Adhemar de Barros, figura cimeira da governação paulista, foi lançada pelos seus adversários como um ataque aos métodos pouco ortodoxos do influente político; no entanto, numa daquelas deliciosas ironias da vida, a expressão acabou por ser aproveitada pelos apoiantes do próprio como um poderoso slogan de campanha, provando que a opinião pública e as avaliações dos eleitores são lugares ainda mais estranhos do que o amor.

Nos últimos dias, deste lado do Atlântico, destacados elementos do Partido Socialista têm-se destacado, ainda que involuntariamente, na aplicação da máxima brasileira ao legado do ex-primeiro-ministro José Sócrates, alternando entre a “vergonha” que sentem das suas manigâncias (o que roubou) e o “orgulho” que experimentam em relação à sua obra governamental (o que fez). Como acontece muitas vezes quando importamos teorias e conceitos do estrangeiro, há um grande problema nesta adaptação. O “roubou, mas fez” não representa, neste caso, a oposição entre uma coisa má e uma coisa boa; representa, sim, a composição de duas coisas más, sendo a segunda bastante pior do que a primeira. Se Sócrates tivesse roubado o dobro e feito apenas metade, ter-nos-ia ficado mais em conta. O grande azar do país foi ter tido um PM com aquelas características a utilizar o pensamento de Adhemar em vez de se dedicar a um muito menos cansativo “rouba e não faz”. Imaginem que José Sócrates, em vez de assinar contratos, despachos e decretos, tinha passado a totalidade dos seus anos como chefe do governo a transportar barras de ouro do cofre do Banco de Portugal para o sótão da casa de Carlos Santos Silva. Isso teria significado, na pior das hipóteses, um prejuízo de 12 mil milhões de euros para os contribuintes, valor total das reservas douradas da nação. Para verem o que representou essa obsessão contemporânea com o “deixar obra feita”, só o resgate da troika foi de 78 mil milhões! É mais do que tempo de legislarmos no sentido da proibição do uso de canetas na sala do Conselho de Ministros e no Palacete de São Bento.

Em relação à dúvida do momento – são os partidos todos iguais ou o PS abusa mais do que os outros? –, deixo aqui um episódio que me contaram, verídico como todos os que vos vou transmitindo nos meus textos:

Uma vez, num clube de natação frequentado por forças partidárias, o director do equipamento chamou o Partido Socialista e disse-lhe:

– Caro PS, o senhor vai ser expulso por fazer xixi na piscina.

– Mas, Sr. Director – respondeu o PS –, todos os partidos fazem!

– Talvez, mas da prancha de saltos você é o único.

 

Anúncios
9 comentários leave one →
  1. Manuel permalink
    11 Maio, 2018 12:35

    Excelente!

    Gostar

  2. 11 Maio, 2018 13:14

    SBCosta,

    Brilhante, cristalino post !

    Gostar

  3. The Mole permalink
    11 Maio, 2018 16:47

    Quem me dera que houvesse mais políticos do género “Rouba mas não mexe!”.
    Melhor ainda seria que fossem sérios e sériamente perguiçosos: que se limitassem a aparecer no fim de mês para receber o seu salário, como bons funcionário público. Estávamos bem melhor.

    Gostar

  4. Chopin permalink
    11 Maio, 2018 17:43

    “Imaginem que José Sócrates, em vez de assinar contratos, despachos e decretos, tinha passado a totalidade dos seus anos como chefe do governo a transportar barras de ouro do cofre do Banco de Portugal para o sótão da casa de Carlos Santos Silva.”

    Ele não é invejoso. Para quê roubar o trabalho do Vitor Constâncio?

    Gostar

  5. Lucklucky permalink
    11 Maio, 2018 20:10

    Para se perceber como o jornalismo funciona, vejam como nesta notícia e em muitas outras nunca aparece o nome do Partido Socialista.

    http://www.sabado.pt/portugal/detalhe/ministros-de-socrates-sob-escuta?ref=HP_Ultimas

    Tal como no jornalismo nos EUA raramente aparece o nome do Partido Democrata quando um político caído em desgraça é desse partido.

    Hoje temos os ministros de Sócrates, o Governo de Sócrates, E só Sócrates.

    Gostar

  6. Arlindo da Costa permalink
    11 Maio, 2018 23:13

    Durante o venal cavaquismo essa divisa classifica muito bem o regime em Portugal dessa altura.

    Cheguei a falar com amigos brasileiros e eles até ficavam admirados como se roubava tanto em Portugal.

    Gostar

    • António C.Mendes permalink
      12 Maio, 2018 10:43

      Imagino! Pessoal do PT, não? Ó Arlindo e ires levar uns cigarrinhos ao Lula, hã? Lavavas um bocadinho a alma e desamparavas a loja!?!?!?
      Quando é que tu aprendes que aqui ninguém defende pulhas, independentemente da cor?

      Gostar

  7. pitosga permalink
    16 Maio, 2018 11:18

    «… verídico como todos os que vos vou transmitindo nos meus textos:»

    Mais um comentário para censurar, para apagar. Até lhe digo mais, aldrabão!

    Gostar

Indigne-se aqui.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

w

Connecting to %s

%d bloggers like this: