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Os clubes de Tae-Kwon-Do de Pedrouços

11 Julho, 2018

O Senhor Martins foi o primeiro a abrir um ginásio de Tae-Kwon-Do em Pedrouços. Ele treinava com o Mestre Fagundes, que já era quase cinto castanho, num sótão no Porto que tresandava a suor masculino — mais ou menos como uma sauna progressista, pelo que me contam —, mas com menos humidade. Íamos todos, alegremente, motivados pela inocente convicção de que, rapidamente, aprenderíamos a dar cabo do canastro de um daqueles ninjas do Canidelo que atacam na dianteira de uma formação-em-cunha de um homem só na noite de São João, aprender umas palavras em coreano e a gritar do goto sempre que exalávamos. Que mais poderia pedir ao mundo um rapaz de 12 anos?

Um dia, descobrimos que o Senhor Martins delegava as aulas ao Berto, o nosso cinto amarelo, para ter reuniões com a sua secretária pessoal, a Deolinda, uma moça muito bonita que tinha chegado há pouco de França, onde nascera. A burocracia de manter um ginásio a funcionar num prédio inacabado por obra embargada era areia a mais para a nossa camioneta de compreensão, exigindo reuniões constantes entre o Senhor Martins e a Deolinda numa zona a que era necessário aceder por uma escada de alumínio e que, na altura, não compreendíamos. Eu, na altura, era tão inocente que até suspeitava, na candura típica da infância, que iam era lá para cima mas é para terem relações sexuais.

O Tae-Kwon-Do é um desporto espectacular que consiste em fazer duas vénias, uma ao adversário, outra ao mestre, antes de se iniciar a arte que consiste em ver quem primeiro parte uma costela ao outro. O desporto faz sempre bem às crianças, que hoje em dia andam perdidas com coisas como jogos de computador ou pornografia da internet, ambos um autêntico nojo para as aprendizagens necessárias a um homem dos subúrbios.

Fartos de tanta papelada a tratar entre o Senhor Martins e a Deolinda, um sub-grupo dos atletas (em sentido lato) decidiu formar a sua própria escola. Saímos todos (não todos, mas, como tínhamos razão, é melhor usar um pequeno exagero), deixando a Deolinda quase desempregada das suas funções associativas, mesmo que as reuniões com o Senhor Martins continuassem, agora mais frequentemente na Pensão Zulmira. Fundamos, cheios de orgulho, o Grupo Renovador de Tae-Kwon-Do de Pedrouços.

No primeiro campeonato da autarquia tivemos oportunidade de competir uns contra os outros. Foi lindo: é preciso treino para, com as protecções de corpo que o desporto exige, conseguir acertar exactamente no ponto desprotegido do nariz de forma a que este parta sem grande alarido, só com algum sangue, como na matança do porco mas sem guinchos; o Alfredo era exímio nessa técnica. Depois mete-se um bocado de algodão nas narinas, o que não ajuda muito a respirar, mas estanca o sangue, e o desporto segue o seu curso normal, o de conseguir o mesmo feito no nariz do adversário. Para quem gosta de fluidos corporais, terei que admitir que é mesmo muito bonito, como uma explosão de cor e som.

Bem, depois desse campeonato houve uma cisão no grupo por motivos não especificados e formou-se a nova escola de Pedrouços, o Grupo de Tae-Kwon-Do de Pedrouços Norte, situado no extremo este da freguesia. O Tae-Kwon-Do de Pedrouços era uma referência nacional, apenas superado pelo do Sporting, do Amora, de uns gajos de Faro, de Coimbra, do Porto (quatro ou cinco), de Esmoriz, de Vila Chã, de Valença do Minho, de Ponte da Barca, de Freixo de Espada à Cinta e só mais uns vinte ou vinte e dois clubes das maiores vilas dos concelhos menos populosos do país.

Depois, com os jogos olímpicos de Seul, aquilo banalizou-se. Perdeu a piada. Quer dizer, houve quem continuasse, mas já toda a gente estava um bocado farta da coisa: a Deolinda engordara, a mulher do Senhor Martins suicidara-se e a Luísa engravidara do Berto (que já era cinto verde na altura, destruindo-lhe a carreira desportiva).

Contei esta história porque o Tae-Kwon-Do mundial continuou, apesar do declínio da potência do Tae-Kwon-Do de Pedrouços. O mundo seguiu sem nós, ou nós sem ele, o que vai dar ao mesmo para o caso. Podia dizer que me arrependo, mas não o vou fazer: foi uma experiência positiva, aprender a partir o nariz, principalmente o meu, e, para todos os efeitos, era só Tae-Kwon-Do, não era um partido político.

 

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5 comentários leave one →
  1. Euro2cent permalink
    11 Julho, 2018 23:03

    Carago, parecia que estava a ler a história das seitas marxistas-leninistas em Portugal.

    Excepto a parte de Pedrouços. Os locais eram clandestinos.

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    • The Mole permalink
      12 Julho, 2018 12:12

      O pior é que não é só a história dessas seitas; é mesmo do país!

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  2. Procópio permalink
    12 Julho, 2018 00:07

    “…. O mundo seguiu sem nós”, sim mas já não é a mesma coisa!
    Ainda não há local como Pedrouços, é o que eu sinto quando estou em Xangai naquela poluição toda, televigiado … e a ter que comer a bicharada que me põem no prato.

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  3. Mario Figueiredo permalink
    12 Julho, 2018 02:24

    O mundo continuou sem nós, e tem mais: O mundo não tá-com-dó.

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  4. Arlindo da Costa permalink
    12 Julho, 2018 22:28

    Sempre ouvi dizer que Pedrouços tem tido um incremento notável desse desporto. Não és o primeiro a fazer essa louvável referência.

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