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Dívida externa: o culpado é o Estado

5 Setembro, 2018

Para quem não queira seguir a lengalenga mercantilista e bacoca sobre a promoção das exportações ser um desígnio nacional e o défice da balança comercial significar mais dívidas para os portugueses, pode ler o que eu já escrevi, por exemplo, aqui.

Complemento o meu post anterior “Balança Comercial: défice e dívidas” com este gráfico que ilustra a relação entre o crescimento do PIB, o défice da balança comercial e as variáveis explicativas do fenómeno: Poupança e Investimento.

SI_TradeDeficit

Aproveito tPeso_ExpImpambém para juntar um quadro que normalmente é esquecido por quem tende a louvar as exportações e a ajuizar como más ou menos boas as importações. Verifica-se uma subida muito acentuada do peso das exportações, passando de 15% do PIB em 1961 para 43,27% em 2017, mas é de assinalar também a impressiva subida do peso das importações. Ademais, nos últimos 22 anos (desde 1996), em valor absoluto, enquanto o PIB duplicou, as exportações multiplicaram-se por um factor de 3,4 e as importações cresceram 2,5 vezes.

Mas queria chegar finalmente ao ponto deste post que partilho com os leitores do Blasfémias e que tem a ver com a dívida externa, coisa bem diferente do saldo da balança comercial ou sequer do saldo da balança corrente.

A dívida externa líquida, entendida como a diferença entre a soma total de instrumentos de dívida (empréstimos, títulos de dívida, numerário, depósitos e outros) dos residentes face a não residentes e vice-versa, tinha em 31/Dez/2017 um valor acumulado de stock de 178.556 milhões de euros. Em termos de fluxo, durante 2017, a dívida externa aumentou  3.328 milhões de euros.

O que é curioso, mas triste, é que 75% do stock da nossa dívida externa é da responsabilidade das Administrações Públicas. Se somarmos a contribuição de outros sectores institucionais como o Banco Central e instituições financeiras, o peso relativo será superior a 90%.

É pois importante que fique claro que quem anda sempre a pregar que o país tem de exportar mais para não ficar a dever ao estrangeiro nos anda a vender banha da cobra. O saldo da balança comercial é um cálculo estatístico sem relevância para as dinâmicas da economia real e o problema da sustentabilidade da dívida externa do país não tem origem nos particulares nem nas empresas.

O culpado é o Estado!

 

(todos os dados computados a partir das estatísticas oficiais do Banco de Portugal e INE)

*

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8 comentários leave one →
  1. JgMenos permalink
    5 Setembro, 2018 23:55

    Agora só se fala em dívida como percentagem do PIB. O efeito do endividamento no crescimento da economia era algo que gostaria de ver expresso.

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  2. Aónio Lourenço permalink
    6 Setembro, 2018 14:16

    Ora aqui um excelente artigo, pelo qual ainda vale a pena ler o Blasfémias. Parabéns!

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  3. Aónio Lourenço permalink
    6 Setembro, 2018 14:18

    E não esquecer ainda, que na parte que diz respeito aos particulares com referência à balança de bens e serviços, 1/4 desse valor é apenas para carros mais combustíveis para os locomover, valor que tem andado perto do défice da balança de bens e serviços.

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  4. Arlindo da Costa permalink
    6 Setembro, 2018 19:10

    Tudo é culpa do Estado!

    E a vossa culpa, seus cidadãos abúlicos e preguiçosos?

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  5. 6 Setembro, 2018 23:04

    Criou-se dívida para financiar as infraestruturas que são indispensáveis ao desenvolvimento.
    Qual é o drama ?
    Tinha sido melhor deixar tudo como estava ?

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    • Aónio Lourenço permalink
      7 Setembro, 2018 14:32

      Quais “indispensáveis”!?

      Para quê uma AE faraónica para Bragança, quando aquele gente na maioria dos casos ainda anda de carroça? Não bastava um bom IP?
      Um aeroporto em Beja que no ano passado teve pouco mais de cem passageiros no ano todo?
      A A10 que tem 3 “faixas” em cada sentido e está quase sempre vazia?
      Os estádios de futebol do Euro que estão putrefactos e alguns ninguém os quer nem dados
      https://www.veraveritas.eu/2013/06/estadios-do-euro-2004-as-catedrais-do.html
      Barragens em excesso para o nosso consumo energético?

      O estado sob o anátema do “investimento público” é uma autêntica máquina de queimar dinheiro dos contribuintes.

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  6. Aónio Lourenço permalink
    7 Setembro, 2018 14:36

    Caro Telmo Azevedo

    Parece, soube hoje, que já posso votar em PT mesmo estando emigrado há alguns anos, mas ando um pouco afastado do panorama partidário nacional, particularmente dos novos partidos.

    Há por aí em Portugal algum partido liberal, europeísta e não-xenófobo, para eu votar, congénere ao D66 daqui da Holanda? (a pergunta é séria, e não irónica)

    Agradecido de antemão

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    • Aónio Lourenço permalink
      7 Setembro, 2018 14:39

      Quando digo liberal, digo mesmo liberal, ou seja, a antítese total do PC/BE nas questões económicas

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