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Lisboa, a cidade deles

15 Setembro, 2018

Esta entrevista de Fernando Nunes da Silva antigo vereador da Mobilidade da Câmara de Lisboa dá conta linha a linha de uma Lisboa capturada por interesses em que a autarquia usa os seus poderes para manobrar negócios. O caso do edifício novo da Fontes Pereira de Melo é exemplar dessa forma de poder exercido na cidade:

Acha que Manuel Salgado pode ser condenado?

Sabe porque saí da Assembleia Municipal? Porque o apanhei numa coisa que dá perda de mandato e eventualmente cadeia, que é o edifício novo da Fontes Pereira de Melo. O processo esteve na PJ… O terreno é do Armando Martins, dono do Atrium Saldanha. Ainda no tempo do Abecassis ele ligou ao Armando a dizer que lhe comprasse o terreno. Ele comprou, fez vários projetos, e durante 20 e tal anos nunca lhe aprovaram nenhum projeto, por uma razão extremamente simples: os vários PDM só admitiam à volta de 10, 12 ou 14 mil metros quadrados de construção e naquela altura, para viabilizar o que lá estava, era preciso um pouco mais – 16 ou 17 mil. E um dos Espírito Santo com que ele trabalhava aconselhou-o a fazer uma hipoteca sobre o terreno, e ele fez, uns 15 milhões. Entretanto há o estoiro da economia, tem uma proposta da KPMG que estava no Monumental e precisava de expandir. Isto já se passa com o Salgado, ele diz não ao projeto por causa do PDM. E há uma carta em que os homens da KPMG escrevem ao Armando Martins a dizer que não vão falar mais com a CML porque não são pessoas de confiança. O Armando Martins faz um pedido de informação prévia para ficar com um documento escrito, que é assinado pelo Salgado e diz que se pode chegar a 12 mil metros quadrados para escritórios ou a cerca de 14 mil e tal para habitação. E o Armando entregou o terreno por um euro ao Banco Espírito Santo.

Mas porquê?

Tinha a hipoteca e não tinha como pagar. No ano seguinte, o mesmo Manuel Salgado aprova 24 mil metros quadrados de construção ao Banco Espírito Santo. E é por isso que saio, porque entreguei um dossiê disto ao Medina com os documentos todos numa reunião de duas horas e tal. O Medina agradeceu muito e não fez nada. O Vítor Gonçalves do PSD entregou ao Costa, porque o Costa julgava que era uma guerra pessoal minha com o Salgado. Mas o Costa estava de saída e já não conseguiu fazer grande coisa, o terreno já tinha sido entregue.

Por que é que Armando Martins não processou Salgado?

Foi a meu conselho, porque ele tinha dois grandes projetos em Lisboa para serem licenciados, além de interesses em Loures, outra câmara do PS. Eu fui ouvido pela PJ.

E a PJ não fez nada?

É muito grave. A PJ ouviu, isto veio cá para fora para os jornais, foi investigado. O Armando Martins foi ouvido, o Vítor Gonçalves do PSD também e depois de nós sermos ouvidos passam meses e o Vítor Gonçalves telefona à inspetora e pergunta pelo processo. E ela diz que o processo tinha sido avocado a nível superior e não sabia o que tinha acontecido. Foi abafado. Mas há aqui uma coisa: é que quando ele assina aquela carta ao Armando já tinha sido aprovado na CML o regulamento do novo PDM e a planta de ordenamento do novo PDM que estava na altura em discussão pública e o novo regulamento permitia o que o Armando queria. O que o Salgado devia ter dito ao Armando era para ele esperar mais uns cinco meses até isto estar aprovado porque o novo regulamento já permita fazer o que ele tinha pedido. O que lixou o Salgado? É que como eu estava a trabalhar com eles na CML, na redação do regulamento do novo PDM, eu guardei as cópias todas dos vários documentos. E tenho aquilo que tinha sido aprovado para ser submetido em discussão pública na sessão de câmara, onde, antes do despacho do Salgado para o Armando Martins a dizer que não podia construir, já era permitido construir o necessário. Isto é ocultação de informação, abuso de poder, etc. Por que é que ao fim deste tempo todo ele não foi preso? Por causa dos interesses do grupo Espírito Santo. Aliás, eu continuo a achar que face a alguns processos que continuam a ocorrer na câmara, como a Quinta da Matinha, muita coisa ainda se vai descobrir. Esses terrenos eram da família Espírito Santo que passaram para um fundo fechado de que ninguém sabe quem são os verdadeiros proprietários…

Quando revela tudo isso não tem medo?

Tenho algum, mas neste momento estou a um ano da reforma, os meus filhos estão empregados, a minha mulher está reformada, tenho casa própria, tenho a licença de utilização passada, respeitei tudo.

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10 comentários leave one →
  1. 15 Setembro, 2018 14:03

    Business as usual, portanto…

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  2. José Domingos permalink
    15 Setembro, 2018 14:17

    Os xuxialista donos disto tudo, até quando?

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  3. LTR permalink
    15 Setembro, 2018 16:10

    Para quem quiser perceber por que razão não rebenta quase nada nas autarquias pelo país fora tem apenas de ler o último parágrafo.

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  4. Manuel permalink
    15 Setembro, 2018 16:39

    Não me espanta, é precisamente este esquema e outros parecidos que o Paulo Morais denuncia como acontecendo em todo o país. Um exemplo:tenho um terreno florestal interdito à construção, mas se conseguir “alterar” o PDM passa a ser legal construir. “Compra-se” a legalidade.

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  5. Terry Malloy permalink
    15 Setembro, 2018 17:04

    A parte final do sublinhado é deliciosa:

    “tenho a licença de utilização passada, respeitei tudo”.

    Tradução: “eles não me conseguem f***r”.

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  6. Leunam permalink
    15 Setembro, 2018 18:30

    O país entregue a comunistas.
    O que esperais?

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  7. 15 Setembro, 2018 21:48

    Esse caso Salgados, e não esqueçamos outro, o do modelar quartel dos bombeiros contíguo ao Hospital da Luz, demolido ao fim de 11 anos, terreno vendido baratucho ao bes saúde (claro !) então ainda do primo. Hoje nesses terrenos, estão a erigir a extensão –e que extensão…– do dito hospital.
    Famiglias, famiglias…

    Liked by 1 person

    • 15 Setembro, 2018 22:06

      Bem lembrado!
      Milhões dispendidos no Quartel, para 11 anos depois serem deitados ao Lixo.
      E a Câmara, pelas tantas da noite, retirou os pertences do Museu – para que ninguém visse o que se estava a planear . . .

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      • 15 Setembro, 2018 22:17

        E esse caso do Museu tem subcasos !…

        Nenhum partido discutiu o cambalacho publicamente ou nas assembleias da República e Municipal, nenhum cidadão meteu uma providência cautelar logo após a derrube do Quartel…

        Este país está, como eu previ há cerca de 10 anos, cada vez mais manietado por bandidos de colarinho branco, máfias. Por vígaros na política, no futebol, na justiça, nos negócios. Embora atento, “disto” já só me apetece rir e sorrir até ao momento em que…

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  8. JgMenos permalink
    15 Setembro, 2018 22:15

    Cambada de corruptos que enxameiam a função pública.

    Regulamentos, datas, interpretações e ninguém com tomates para sacudir o enxame.

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