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O fascismo que aí vem e o fascismo que aí está (2)

28 Outubro, 2018

O Rui A. assinala, e bem, o carácter fascista do regime venezuelano. Mas julgo conveniente realçar que neste caso não estamos apenas a usar o termo «fascista», como faz grande parte da esquerda mais radical, como mero adorno retórico,  visando denegrir, desvalorizar, criticar um qualquer movimento ou situação politica que não seja do seu agrado (técnica politica aliás com raízes fascistas….). Para a esquerda radical e de visão mais totalitária, a eventual  vitoria de Freitas do Amaral sobre Soares seria o fascismo, a Aliança Democrática era o retorno do fascismo,  Cavaco teria tido práticas fascistas, Passos Coelho era o introito a um período fascista, Bush, Sarkozy, Tatcher, e agora Macron todos eles seriam uma frente avançada de cariz fascista. De tal forma usam esse termo que, como bem assinala o Rui A., esquecem ou melhor dizendo, propositadamente evitam falar sobre fenómenos, eles sim, marcadamente fascistas.

A Venezuela de hoje é, nas ultimas décadas, o projecto politico mais próximo das teorias fascistas dos anos 20 do século passado. O Fascismo foi um projecto e prática politica assente em algumas ideias base: movimento de massas  dirigido por líder carismático;  com significativo enraizamento nas classes operárias; marcadamente anti-burguesia; anti-liberal; contrário à democracia parlamentar e liberal; advogando o uso da violência como prática politica de controle e assumpção do poder; defensores do controle e expropriação das grandes empresas e dos grandes proprietários de terra; contrários à livre associação fosse ela sindical, civil ou politica; defensores do modelo corporativo onde as diversas formas de organização social fossem agrupadas consoante a sua classe económica e social sob a tutela do Estado; defensores de um visão totalitária do Estado, sendo este o representante único e exclusivo da nação e da sociedade; nacionalismo extremo baseado em mitologias do passado que se pretendiam recuperar e reviver; utilização de milícias e militarização das estruturas do Estado.

Ora, em grande parte é o que sucede na Venezuela. Chaves e Maduro criaram e alimentam o mito do bolivarismo como base ideológica que sustente as suas politicas, baseadas num conceito de socialismo colectivista e nacionalismo hiper-exacerbado.

Criaram e utilizam milícias populares sob a designação Milícia Nacional da Venezuela  a qual integra mais de um milhão de membros e que tem sido instrumento de repressão e ameaça sobre forças opositoras; tomada do controle e propriedade de quase toda a força económica do país (petróleo; siderurgia, bancos; telecomunicações; energia eléctrica, cimenteiras; nacionalizou mais de 5,2 milhões de hectares de terrenos agrícolas;

O regime persegue, prende, tortura e mata opositores políticos; organizou umas «eleições» para uma Assembleia Constituinte onde os partidos não podiam apresentar candidatos, sendo os eleitos escolhidos de acordo com critérios corporativistas (municípios, sindicatos, conselhos comunais, grupos indígenas, agricultores, estudantes e pensionistas); o regime perdeu as eleições para a Assembleia Nacional, o orgão legislativo em 2016, mas o Presidente Maduro impediu o seu regular funcionamento e os poderes legislativos foram posteriormente trespassados para a Assembleia Constituinte onde não existe oposição, significando na prática o arresto do poder legislativo pelo poder executivo e por um único partido; deputados viram retirada a sua imunidade e foram presos, tiveram de se exilar ou são acusados e perseguidos por crimes políticos;

O regime militarizou toda a economia, sendo militares 11 dos 32 ministros, incluindo Fazenda, Agricultura e Alimentação. O ministro da Defesa chegou ao ponto de indicar «um general ou um almirante» responsável pela produção ou importação e distribuição de 18 produtos alimentares e também dos medicamentos. Pelo menos a casta militar não passa fome e é uma forma de fazer com que a corrupção se infiltre totalmente nas FA, vital para a manutenção de Maduro do poder. Qualquer regime totalitário vigora sem problemas quanto mais igualitários na pobreza, miséria e dependência forem os seus cidadãos. É esse o caminho que está a ser feito, propositadamente, na Venezuela. O descalabro financeiro, económico e social da Venezuela é fruto, não de algum acidente, não como consequência exterior, mas fruto de uma vontade politica do seu próprio governo. Quem ainda pode foge, e o regime agradece, pois reforça o seu poder.

Em suma, praticamente todas as características do Fascismo estão já presentes no Estado venezuelano. E a sua «constituinte» prepara-se para acelerar tal projecto. Ao contrário dos anos 20 e 30 do século XX, nenhum regime tem hoje interesse em assumir claramente o seu projecto totalitário. Ainda há partidos na Venezuela, mas os seus principais dirigentes estão presos, são perseguidos ou impedidos de agir; ainda há meios de comunicação, mas são ameaçados, os jornalistas espancados ou perseguidos; ainda há manifestações, mas a repressão das milícias e dos grupos para-militares e das forças do Governo é brutal e impiedosa. Na prática toda e qualquer oposição é intolerada, qualquer veleidade democrática impedida, qualquer brisa de liberdade ou de protesto reprimida.

Há vários regime totalitários no mundo, alguns ainda mais repressivos e sanguinários, mas apenas a Venezuela assume uma prática e fundamentação claramente fascista. Para desgraça daquele povo e no silêncio e cegueira voluntária de todos os que à esquerda clamam contra os «fascismos».

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8 comentários leave one →
  1. Manuel Peleteiro permalink
    28 Outubro, 2018 15:56

    Discordo. Aqui, no nosso país, quem discorda de um determinado partido (que, “por acaso”, é governo), é despedido, ainda não leva umas cacetadas, mas já não deve tardar muito. Lamento, mas o nosso actual regime, politicamente, não difere em nada do Fascismo.

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  2. colono permalink
    28 Outubro, 2018 16:05

    Juro por todos os santos da Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana, que me filio imediatamente no BE se a Tia Catarina me provar que o governo da Venezuela é democrático….

    Juro, jurarei

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  3. weltenbummler permalink
    28 Outubro, 2018 16:10

    o actual poder que reina no rectângulo a seu belo prazer
    dirigido por antonio das mortes tem característica de social-fascismo

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  4. licas permalink
    28 Outubro, 2018 21:35

    weltenbummler PERMALINK
    28 Outubro, 2018 16:10

    Tem, sem dúvida, e não deveria. . .

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  5. 28 Outubro, 2018 23:41

    “com significativo enraizamento nas classes operárias; marcadamente anti-burguesia” (…) “defensores do controle e expropriação das grandes empresas e dos grandes proprietários de terra”

    Não me parece que isso corresponda à prática, nem do fascismo italiano, nem do nacional-socialismo alemão – a sua principal base de apoio eram os pequenos empresários e trabalhadores por conta própria,, e não me parece que tenham feito grandes expropriações (controlo sim, mas mantendo a propriedade e a gestão operacional nas mães dos donos).

    Realmente havia fações minoritárias nesses movimentos (os irmãos Strasser na Alemanha, , Ugo Spirito em Itália, etc.) que provavelmente defenderiam mais ou menos isso (a expropriação e/ou divisão das grandes propriedades), mas identificar o fascismo com Strasser ou Sprito seria um bocado como identificar o comunismo com Pannekoek, Bordiga ou Trotsky e não com os regimes que ficaram historicamente conhecidos como “comunistas”.

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  6. Daniel Ferreira permalink
    29 Outubro, 2018 10:00

    O senhora Gabriel continua a vir aqui propositadamente misturar políticos com ideologias de esquerda/direita…

    Veja lá o “fascista” que o é senhor Sarkozy – (((Sarkozy))) – ao vivo e a cores, para todo o Mundo ver:

    Algué se importa de me explicar porque é que querer que um país continue com 90% de pessoas da mesma demografia que SEMPRE teve é algo muito mau – Racismo!! dizem eles – e ver um presidente de um país Europeu dizer que as mulheres do seu país vão ser obrigadas!!!!! a procriar com “migrantes” já é aceitável??

    Conhecem a palavra ‘Genocídio’?

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  7. Velho do Restelo permalink
    29 Outubro, 2018 15:10

    Caro Gabriel, ainda não tinha visto uma definição tão clara do fascismo.Confesso que também nunca a procurei. Na minha juventude havia um calhamaço chamado “4 ISMOS”, agora bem que podiam publicar os “6 ISMOS” (… + Liberalismo + Populismo), ou quem sabe 8 ou 10 ISMOS pois ideias é o que não falta!
    Mas pela sua descrição de “fascismo” confesso que a coisa até não parece assim tão tenebrosa!
    Por exemplo : o Gabriel refere as “milícias populares” como algo maléfico !
    Mau é termos a PSP dedicada a guardar as prateleiras do pingo açucarado, e não fazer mais nada porque são tantos os delegados sindicais que não sobra ninguém (nem vontade / motivação) para fazer o trabalho que lhes competia.
    Mau é terem acabado com o serviço militar obrigatório precisamente quando o estado estava falido sem capacidade financeira para suportar uma solução profissional.
    Se analisar bem (sem preconceitos) o período que antecedeu o “estado novo”, talvez encontre algumas semelhanças com a actualidade, e talvez entenda que estes ciclos não são obra do belzebu mas sim de quem governou na etapa anterior.

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Trackbacks

  1. Jair e voltar | BLASFÉMIAS

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