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Democracia é soltar Barrabás

3 Novembro, 2018

Eu escrevo para a minha família e para os meus amigos. Sobretudo, escrevo para mim próprio na esperança de cativar aqueles de quem gosto a pensarem sobre os mesmos assuntos. Por isso, perco muito pouco tempo a usar o “eu” excepto quando me dá jeito dar azo a sarcasmo. O meu uso do “eu” é quase sempre irónico e desejo que assim seja interpretado, tenha eu o engenho para o conseguir transmitir (repararam?). Contudo, não é assim nos média: o uso do “eu” nos média é uma lembrança indelével de que o colunista é uma autoridade no assunto, que habitualmente significa “todos os assuntos”. Essa autoridade é, quase sempre, auto-atribuída, tornando tudo numa espécie de freak show à moda antiga, daqueles onde se pode ver a mulher barbuda, o bebé demónio ou a galinha de três patas. A diferença fundamental das colunas de opinião para o circo de horrores é que, nos média, os espécimes em exibição somos nós.

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É verdade que Francisco Louçã escreveu mais um artigo indigente, daqueles que apenas a mente de um catedrático português conseguiria engendrar. Deve ser lido? Deve, particularmente se lido em conjunto com o seu complemento, o “A grande guerra da direita” de David Dinis. Separados por apenas três dias, como da morte à ressureição de Cristo, ambos os artigos são dedicados a dizer que você, caro leitor, é um mero estúpido que anseia por um Botas qualquer, por um Pinochet mais camp, uma versão Eurovisão de um Hitler para satisfação das fantasias homoeróticas de dominação aliadas a fetiche por couro. Devem ser levados a sério? Devem: afinal, estas pessoas são autoridades, certo? As mesmas pessoas que não conseguiram prever a inevitável vitória de Trump, que pintam a democracia húngara como se estivessem a reescrever o guião para o Rocky IV e que encontram moderação na ausência de discurso (é de admirar como Nuno Garoupa, citado por David Dinis, nunca escreveu episódios de uma telenovela de 600 episódios onde algo está prestes a acontecer desde o episódio 1 e ainda não aconteceu ao episódio 589).

Foi muito ’Allo ’Allo! nos inicio dos anos 90. Muitas fantasias com o Tenente Gruber e o seu tanquezinho. Onde Diabo encontram estes tipos “[o] entusiasmo que lhes falta em ideias para copiar”? Diz-nos, David Dinis, que no julgamento de José Sócrates. Respeitinho! A verdadeira democracia está em países que não conseguem levar governantes à barra do tribunal. A moderação é saber aceitar uns pecaditos de ex-PM desde que este seja simpático para com os média dos amigos do regime. Ou, às tantas, estou a ver mal as coisas: às tantas é nos tais países moderados, nos bastiões de democracia, que os suspeitos de corrupção vivem as reformas em tranquilidade, sem essa maçada que é responder pelos seus crimes. Pelo menos, na imprensa, assim parece ser.

Democracia e moderação deve ser mesmo tratar por fascistas e desejosos por ditaduras musculadas quem deseja que a corrupção seja punida. O “eu” é mesmo um problema se usado sem ironia.

 

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2 comentários leave one →
  1. pitosga permalink
    3 Novembro, 2018 13:36

    A Democracia é um regime bom. O mau é o povo que não sabe o que é melhor para si. A primeira consulta democrática de que há memória foi a de Pôncio Pilatos ao povo judeu: “Quem quereis que vos solte, Cristo ou Barrabás?”. E o povo escolheu o ladrão.

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  2. Zé Manel Tonto permalink
    4 Novembro, 2018 10:22

    “E o povo escolheu o ladrão.”

    E quando tem hipóteses, costuma repetir a escolha.

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