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A violência das palavras

8 Março, 2019

Quando se ouve falar em violência doméstica associa-se logo às agressões físicas, àquelas que deixam marcas profundas no corpo visíveis a qualquer um. Mas há outra forma de violentar quase  tão “mortífera” como a primeira: a violência psicológica. Nesta o agressor não precisa de se munir de facas ou espingardas. Precisa apenas de abrir a boca e usar a força das palavras cruéis e vis que destroem  até à alma. E por não ser entendida, na maior partes da vezes, esta forma bárbara de relacionamento é confundida com mau feitio. É desculpada pela vítima que pensa apenas tratar-se de um carácter “forte” ou difícil como tão banalmente é apelidado. Mas não é. A violência psicológica é praticada por gente com patologias e tem de ser denunciada. Também.

O agressor psicológico é por natureza, um indivíduo que  não valoriza a mulher nem a respeita. Olha-a como ser inferior, seu subalterno que lhe deve toda a obediência sem pestanejar. Para reforçar este estatuto, humilha-a e despreza-a a cada minuto elevando o seu ego até à altura do chão onde assim o pode pisar sempre que quer, fazendo nascer na sua vítima o sentimento de pessoa sem valor.

Frequentemente culpabiliza-a por tudo o que lhe acontece: se perdeu o emprego, a culpa é dela; se está aborrecido, a culpa é dela; se os filhos andam mal na escola, a culpa é dela; se não é bem sucedido na vida, a culpa é sempre dela. Pelo meio, expressa-se com violência, de forma gratuita e vã enquanto ainda exige sorrisos e boa disposição todos os dias quando chega a casa… Vê-lhe apenas obrigações sem direitos e não perde uma oportunidade de apontar falhas ignorando por completo o elogio quando ela o merece. Não se interessa pelos seus sentimentos nem deixa que fale neles. Não entende a tristeza da vítima nem lhe admite lágrimas. Afinal de que se queixa ela se ele só  está a reagir assim por aquilo que supostamente ela não lhe dá?

Para o agressor, tudo nela  é irritante e motivo de discussão: ou porque conversa demais, ou porque conversa de menos; ou porque se exprime demais, ou porque se exprime de menos; ou tem iniciativas a mais, ou iniciativas a menos… Sempre assim. Irrita-se facilmente quando ela fala ou faz algo por muito inocente que seja. Corta a palavra ao meio, levanta-se da mesa abruptamente, atira objectos contra as paredes, bate  as portas com violência pontapeando tudo o que se atravessa na frente. Responde com atitudes violentas à irritabilidade que ela lhe provoca.

A agressividade é quase diária sem motivo aparente. E a vida passa a ser como um jogo de póquer: nunca sabemos qual a cartada seguinte que vai ser jogada… Não se importa que ela vá mal vestida ou mal cuidada para o trabalho mas ai dela se ousar um dia colocar um pouco de batom antes de sair. Logo lhe inventará amantes escondidos à espera dela ao sair do trabalho. E basta uns minutos de atraso para que lhe massacre violentamente a mente com comentários sinuosos de sexo fora de casa. Por isso frequentemente lhe exigirá bom sexo como prova de amor e de fidelidade.  E se nada corresponder ao esperado rebentará de raiva como se estivesse a ser traído. Pouco se importa se as razões da vítima são a falta de mimo, atenção e apreço e que com esse défice não se consiga entregar como gostaria.

Em contrapartida, ele terá muitos “affairs” fora do casamento que ele justificará como inevitáveis pela falta de atenção que ela lhe dá. Do ponto de vista do agressor, ele não é culpado de nada. E se a vítima não corresponde é porque não o ama. Na verdade, são abundantes as vezes que lhe repete essa tão desejada palavra. Quase com a mesma frequência com que a violenta, repete-lhe que é a mulher da vida dele e que não vive sem ela.  É o paradoxo em pessoa confundindo a sua vítima e prolongando assim uma relação que sem isso já teria morrido há muito tempo.

Pelo caminho fica uma mulher totalmente destruída, castrada de vida e sentimentos, manipulada e controlada até ao limite, aprisionada a uma relação mortífera sem o saber. Ama o homem que conheceu, acredita que ele continua ali, mas desculpa-o constantemente por acreditar ou querer acreditar que tudo não passa de uma má fase, de um feitio difícil originado por qualquer trauma de vida.

Fui vítima de violência psicológica e  apesar de já terem decorrido 30 anos desde que fugi do meu agressor, as marcas que me deixou continuam abertas. Jamais me vou esquecer do quanto ele me aprisionou impedindo-me de voar, de ser “eu”. Confinada a viver dentro de uma “caixa” cuja chave só ele tinha, tudo me era imposto: a forma de falar, de agir, de vestir, de viver… Não me esqueço das humilhações na frente de todos, em qualquer lugar, em qualquer momento. Dos choros constantes. Dos sorrisos ausentes. Da dureza de viver. Era manipulada para não ser nada, e “morri” em vida. Quando o deixei no meio de uma coragem sem igual, renasci. Ao ponto de me tornar irreconhecível aos olhos de quem me viu.

Pôr um basta numa relação destas não é fácil. Mas também não é impossível. Exige muita coragem, determinação e resiliência. Há que ter presente que o agressor não vai desistir facilmente e que não aceitará um “não quero mais” com leveza. Usará da maior violência para exercer o seu sentimento de posse de “coisa” que ele pensa ser sua.

Mas no fim, por muito machucada que saia, ficará feliz por ter sobrevivido e verá que a vida, mesmo sozinha, é bela. Aprenderá que o amor maior é o seu por si e que por nada deste mundo deverá permitir que o destruam.

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29 comentários leave one →
  1. Oscar Maximo permalink
    8 Março, 2019 11:59

    A intenção é boa, mas penso que os tribunais terão de se focar apenas e em geral na violência física, quando não houver crianças em jogo. Caso contrário, a arbitrariedade e o policiamento terão de subir para níveis inadmissíveis. Note-se que enquanto a violência física é muito maioritariamente exercida por homens sobre mulheres, a psicológica é provavelmente muito mais balanceada. Suponho que a razão principal das autoras femininas será que o homem não corresponde ás suas ambições monetárias.

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  2. 8 Março, 2019 12:08

    A violência psicológica é essencialmente feminina.

    Sempre foi, sempre será. As diferenças físicas implicam compensações.

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    • sam permalink
      8 Março, 2019 12:18

      Para culpabilizar de forma “mortífera” uma mulher, ninguém melhor que uma mulher (seja outra, seja ela mesma).

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      • 8 Março, 2019 12:26

        Sim, é tremendo. E na violência contra crianças creio que acontece o mesmo- é o mais abominável que existe.

        Mas essas não votam…

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      • 8 Março, 2019 12:28

        A forma psicológica contra homens não é culpabilizadora. É manipuladora.

        A manipulação pode ter arte bem curiosa na sedução. Chama-se “dar a volta”

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      • 8 Março, 2019 12:29

        Este caso que a CM conta não tem a ver com características genericamente masculinas mas com outro problema maior- a falta de família a apoiar.

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      • 8 Março, 2019 12:34

        Por exemplo- no caso da Uzebque que eu contei, quando ela fugiu do segundo homem e ele levou a filha para a aldeia, foi o pai dela que foi até lá e trouxe a criança para casa dos avós. E criaram-lhe os filhos, ajudaram-na a fugir e agora estão bem e são felizes.

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      • Oscar Maximo permalink
        8 Março, 2019 13:10

        Muito bem. Oscar Wilde e muitos outros viram isso.

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  3. 8 Março, 2019 12:09

    Mas seria mais saudável falar-se do que é bom e necessário.
    O José do Portadaloja colocou uma música que diz tudo.

    On a toutes besoin d’un homme

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  4. 8 Março, 2019 12:12

    E as relações entre homens e mulheres têm um espectro muito mais vasto que essa ideia dramática de cara-metade e ciúmes.

    Podem ser tanta coisa tão bonita… amigos, namorados, flirts, pretendentes, mais-ou-menos qualquer coisa que ainda nem se sabe.

    Imprevistos.

    Coleccionar essas variantes é um grande dom.
    Permitem que tudo se compense quando algo está em falta.

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  5. 8 Março, 2019 12:13

    Eu até penso que uma relação a dois tem sempre de ser incompleta.

    O erro é querer tudo numa só pessoa. Tudo demasiado aberto e demasiado falado.

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  6. 8 Março, 2019 12:16

    Por outro lado, já disse mil vezes e volto a repetir- uma mulher que deixa as coisas chegar a esse ponto, foi uma mulher a quem a mãe ou avó não souberam ensinar nada de nada.

    Não há luta de classes nem justificação social de espécie alguma para uma pessoa não se saber dar ao respeito.

    Chama-se a isso – personalidade.

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  7. Daniel Ferreira permalink
    8 Março, 2019 12:18

    Dª Cristina,

    vou cair na “ratoeira” e entrar na discussão, mas isso da “violência” psicológica é vernáculo para os advogados-soldados da escumalha destruirem a Família.

    Estamos numa altura em que dizem que um Homem cortejar uma Mulher é “assédio” e “assédio” é “violência”, amar os avós é “violência” e apesar de sermos um dos países mais pacíficos do Mundo, anunciam um “Dia de luto nacional das vítimas de violência doméstica”, colocado estrategicamente no dia antes do dia da Mulher, que torna agora esta altura no duplo dia de “Odeiem os homens”. a saga do #metoo sobre outras palavras.
    Se vamos começar a ter a “psicologia” no mesmo patamar do “físico”, eles ganham. Entramos no mundo do relativo e nisso são Milenarmente exímios em distorcer à sua vontade. E estamos numa altura em que a discriminação contra os homens está a todo o vapor, e seja por “quotas” nos empregos, seja pela total mentira da diferença salarial, seja a comprar bilhetes… É incrível como as mais flagrantes ilegalidades baseadas em totais mentiras passam incólumes.

    E convém relembrar, só por exemplo, que se uma senhora trair o seu marido e tiver um filho fora do casamento, é o marido que tem que o sustentar, mesmo que se divorcie.
    E se acha difícil agir contra a violência “psicológica”, onde BASTA A PESSOA SAIR DE CASA, diga-me onde é que é comparável sequer com ter q trabalhar durante 18 anos com o maior par de chifres na cabeça e manter um filho que não é seu, com a pena de ir preso se recusar 1 mês que seja.

    Digo e repito, toda e qualquer pessoa com o mínimo de acesso a plataformas sociais que não diga que Homem e Mulher só terão hipóteses JUNTOS, está aqui só para dividir ainda mais.

    Feliz dia da Mulher! Adorava estar enganado, mas não irão haver muitos mais, aproveitem!

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  8. 8 Março, 2019 12:24

    Sei histórias espantosas de imigrantes que contrariam essa ideia de “destino” ou mesmo de explicação por “mentalidade de uma sociedade”.

    Uma senhora do Uzebquistão que vem cá, era casada, primeiro por casamento feito pela sogra, como é tradição lá. As mulheres escolhem a mulher para o filho.

    Esse casamento acabou estragado pela sogra que fez com que ele se divorciasse dela, tendo já um filho.

    Ela não fez mais nada. Como tem muita personalidade e se sentiu ofendida, juntou-se logo com outro homem de quem nem gostava. Não contou sequer à família- foi para “atirar à cara da ex-sogra”

    Teve uma filha dessa ligação. Separou-se dele logo a seguir.

    Como o sujeito não a deixava, ela fugiu para Portugal aos 29 anos. Só sabia dizer uma palavra- Leiria e foi lá ter e trabalhar com velhos, como ainda trabalha. Lá trabalhava num banco.

    E vive em Portugal há 17 anos, com o filho, é uma mulher independente, respeitada cá e na sua terra. Não sabe o que são desgostos amorosos e nunca ninguém lhe faltou ao respeito.

    Nota- é de um país que foi ocupado pela URSS mas que é islâmico.

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    • 8 Março, 2019 12:25

      Ainda hoje se dá com o primeiro marido. Ficaram amigos.

      Isto no islão. Não é no Ocidente…

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  9. 8 Março, 2019 12:40

    Também sabemos que se o texto de violencia psicologica fosse invertido em genero, também sería util para ensinar mutos homens que é o indicio que devem acabar com a relação.

    Se muitos dos assassinos fizessem isto, seriam psicologicamente aptos e muitas mulheres sobreviviam

    Muitos destes assassinos deixam a sua vida ser contolada pela violencia psicológica. Estes assassinos deixam de ser humanos quando se deixam submeter a essa violencia. Não tem desculpa.

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  10. sam permalink
    8 Março, 2019 13:05

    Já agora: sempre quero ver se é contabilizada como a 14a. vítima de violência doméstica deste ano a menina de 10 anos que morreu ontem carbonizada em Sesimbra, assassinada pela mãe…

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  11. 8 Março, 2019 13:21

    Resumindo, à Schopennhauer:

    Existirmos. A que será que se destina…

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  12. Maria da Luz Moutinho permalink
    8 Março, 2019 14:40

    Aleluia …que vejo aqui escrito algo sem ser radicalizado e com um testemunho impressionante!! Se as Palavras Pudessem Matar…são como uma arma ..”martelos” na cabeça!
    A comunicação perde o seu sentido… É pervertida para se transformar numa arma de controlo e de poder?..
    Conhecemos a incidência catastrófica das depreciações regulares dos pais sobre a evolução da criança…. És uma nulidade!! Que fazer contigo?…poderão dar completamente cabo de uma criança…e isto ao longo da vida o marcar e poderá ser usado como arma de arremesso nas relações que se tenham..
    O efeito é do mesmo modo devastador no adulto…pois o que foi construído poderá ser destruído em alguns anos…. é uma violência inacreditável …é o tudo ou o nada!
    Dou-lhe os meus parabéns …por ter vencido e pela clareza que demonstrou na sua crónica…vestida de muitas vidas já vividas assim…a manipulação vem o medo, esquecimento a memória!

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  13. sam permalink
    8 Março, 2019 17:27

    Para defender uma mulher da violência às mãos de um homem, ninguém melhor que outro homem.
    Não o Estado; não a polícia; não a justiça; não a sociedade. Um homem (ou dois, se fizer falta).

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  14. sam permalink
    8 Março, 2019 21:48

    Embora haja nuances necessariamente a considerar, penso que a Cristina Miranda toca no verdadeiro nó górdio da questão da violência doméstica: o sentimento de posse. Mas parece não conseguir conjugar o aspecto subjectivo com a realidade objectiva da noção de propriedade.

    A Autora sublinha também com acerto o lado terrível e catastrófico do fenómeno, que é inegável, mas sem parecer conseguir vislumbrar o outro lado da moeda (ou a moeda no seu todo) que consiste no dado primário, profundo, básico, inconsciente, instintivo, animal dessa realidade enquanto experimentada pelo ser humano.

    Talvez valha a pena examinar por uns breves momentos o decálogo bíblico (um abraço, Neto de Moura!), numa simples perspectiva de direito apodítico, e tratar de reconhecer que os interditos têm esse denominador comum: a defesa da propriedade. (Não atentarás contra Deus, contra o que Lhe pertence: o seu lugar, o seu nome, o seu dia. Não atentarás contra o outro humano, contra o que lhe pertence: a sua vida, a sua mulher, os seus campos e animais, o seu bom-nome. Não te é permitido nem mesmo desejar a mulher do outro, as coisas do outro.)

    Ou talvez, para melhor tentar entender o que está em causa, dar uma volta pela nossa aldeia e lembrar histórias não tão antigas em que os homens estavam dispostos a matar e a morrer para defender a sua água; ou então o que as mulheres faziam (e fazem) à galdéria da rua para defenderem o seu homem.

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    • 8 Março, 2019 22:38

      E matavam-se para defenderem a [sua] honra.

      Mas isso de posso é o desejo de ter. Matar há-de ser loucura.

      (nunca conheci nenhum caso destes, apenas algumas ameaças em que ambos estavam envolvidos numa relação doentia e mais que acabada

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    • 8 Março, 2019 22:42

      Se lhe chamar ciúmes, sim. Creio que será mais isso.

      Neste caso tão falado do sujeito da pulseira, lê-se no acórdão coisas estranhas.

      Por exemplo, que ela ficou muito impressionada pelo facto do próprio se ter cortado a ele próprio diante dela.

      Isto só pode ter sido acto de desespero de um sujeito preso a uma mulher que lhe escapava.
      Depois as agressões vêm no seguimento. Mas ele esfaqueou-se a ele próprio. E nunca a esfaqueou a ela.

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    • 8 Março, 2019 22:43

      A “posse” entra aqui, mas num sentido metafórico de “matar o que mais se ama”

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  15. JMS permalink
    8 Março, 2019 21:49

    Grande Cristina! Excelente prestação no “Deus e o Diabo” na TVI. Até que em fim alguém tenta demonstrar onde estamos metidos. Homens e Mulheres. Não teve foi muito tempo, como seria de esperar.

    Não sei quem era a Filipa que veio depois mas também lhe cortaram a palavra.

    Enfim, o habitual em Portugal. Vai contra o “establishment” socialista do politicamente correcto.

    Obrigado Cristina.

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  16. JMS permalink
    8 Março, 2019 21:54

    O Blasfemias a censurar comentários?

    Foi a primeira vez.

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    • JMS permalink
      8 Março, 2019 22:12

      Não censurou mas foi a primeira vez que foi esquisito.

      Já foi aprovada a censura à net na UE, em nome do pulhiticamente correcto?

      Tanto quanto saiba ainda não.

      Mas isto anda esquisito…

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