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Maputo, 17 de Maio de 1998

21 Março, 2019

Há 21 anos estava eu a viver em Moçambique e nessa altura era provavelmente o trabalhador “expatriado” de Portugal mais jovem em Maputo.

Em 1998, portanto, escrevi um texto sobre a minha vivência e observação do quotidiano local. Em jeito de solidariedade para com todos os afectados pelos desastres naturais dos últimos dias, reproduzo abaixo aquilo que na altura me ia na alma.

 


Crónica de África

Mia Couto (escritor moçambicano) tem alguma razão quando diz que em Moçambique “Portugal não é visto”. Ele explica melhor dizendo que Portugal não é visto de maneira diferente dos outros países.

Assim é de facto no que respeita, por exemplo, às leis de investimento. À luz da legislação os investidores têm exactamente o mesmo quadro normativo independentemente da sua nacionalidade.

Este não sobressair é explicável também pelo facto de esta nação estar no lado oposto do mundo em que está Portugal. É no Sul da África que estão os seus interesses e no Índico que tem os seus olhos.

A visão da Europa e, em particular, de Portugal que se tem aqui ganha o distânciamento de um continente inteiro, mesmo na era da comunicação global e da Internet.

Mas talvez não seja esta a verdade inteira. Dizia-me um dos grandes fotógrafos da actualidade e o maior de todos os fotógrafos moçambicanos – Ricardo Rangel – que a relação de Moçambique com Portugal é de amor-ódio, o que contradiz um pouco as palavras de Mia Couto.

Moçambique é independente há mais de 20 anos mas ainda se sente o estigma de país colonizado. O complexo de vítima subsiste em alguns sectores da sociedade. Na apresentação de um livro a que assisti, a mãe de Malangatana (pintor) proferiu algumas palavras sobre o autor da obra e enfatizou de tal modo e com tal veemência a resistência ao colonizador que quase parecia estarmos ainda perante uma nação subjugada à opressão do império.

Ora, esta imagem criada em função do “outro”, de resistência, que alguns moçambicanos têm de si próprios, não é partilhada por aqueles que não encaram os portugueses de maneira particular.

“Como podemos nós estar ressentidos com os portugueses? Foram eles que construiram este belo país e foram eles que nos evangelizaram!” Palavras do Cardeal D. Alexandre José Maria dos Santos a que deve ser dado o desconto de serem proferidas por um homem de fé e que talvez sejam mais um desejo do que uma realidade de facto. Aliás, ele próprio me dizia que ficava muito desgostoso com o racismo dos portugueses e com a arrogância de alguns em quererem voltar a dominar este povo.

Moçambique continua um país extraordinariamente pobre e embora as reformas e melhorias em curso estejam a levar o país para o bom caminho, os benefícios da liberalização da economia e do investimento estrangeiro tardam em se fazer sentir no quotidiano da maioria dos moçambicanos.

A esmagadora maioria das pessoas luta pela sobrevivência. O “médio-prazo” é conceito que pouco diz a esta gente. O que interessa às famílias é o dia seguinte.

Assim, compreende-se que os moçambicanos acolham de braços abertos os investimentos estrangeiros no país se isso significar a abertura de uma nova fábrica e, por consequência, novos postos de trabalho forem criados. O salário é uma questão menor se a cantina da indústria lhes der as refeições diárias.

Já a liberalização da economia não é vista com tanto entusiasmo pois os seus benefícios não são imediatos e quase invariavelmente representam sacrifícios o curto prazo. E pedir sacrifícios a quem luta pela sobrevivência…

É natural que acolham mal e até sintam inveja se uma empresa portuguesa se instalar em Moçambique contratando trabalhadores portugueses. Esta reacção acontece não por serem empresários portugueses, mas por os critérios económicos que pesaram para tal opção não serem apreendidos pelos trabalhadores moçambicanos, nomeadamente a diferença de produtividade.

Mas também há os portugueses com o sonho do “regresso” a Moçambique em estilo neo- colonizador e os empresários que chegam cá com objectivos quase predatórios.

A arrogância desta gente é imediatamente percebida pelos moçambicanos e isso cria tensões. Para estes portugueses os vinte anos de Moçambique independente foram um pequeno interregno e agora pensam refazer as suas vidas a partir do seu exercício “natural” do poder. E é vê-los a falarem alto no Hotel Polana e a destratar os empregados de mesa…

O escritor dizia: “onde os portugueses marcaram o tecido social moçambicano foi exactamente na sua capacidade de se dissolverem, de perderem identidade”.

Quão diferente é esta atitude louvada pelos moçambicanos da “elite” lusa em Maputo. São empresários, administradores, altos quadros que vêm a Moçambique ganhar duas ou três vezes mais do que os seus salários em Portugal e que tentam criar na capital de Moçambique um oásis, um mundo “limpo” e de luxo.

Vivem em círculo fechado e ficam indispostos com quem não é do “seu” mundo. Nem todos os portugueses que cá vivem têm acesso aos cocktails e aos programas organizados por estes que “sabem” e “podem”, mas pelo menos os portugueses que ficam de fora já conhecem a fauna das “tias” e “tios”. Mas tentar reeditar a “sociedade” de Cascais ou da Foz num país em que o povo não tem a “côr certa” é especialmente bizarro e profundamente desrespeitador da condição humana.

Moçambique não é um país de língua portuguesa. Aliás os moçambicanos gostam pouco da sigla “PALOP” e preferem serem vistos apenas como “Moçambique”. O Português é falado por uma minoria e, em geral, como segundo idioma.

É curioso observar que em pleno Maputo e dentro da própria Embaixada de Portugal os funcionários negros falam entre si no dialeto da região e o Português é a língua de trabalho.

No entanto é o Português que ajuda a manter um traço comum a todos os moçambicanos e a histeria e nervosismo que se instalou em alguns sectores em Portugal aquando da integração de Moçambique na Commonwealth foi algo perfeitamente escusado e que feriu os próprios moçambicanos.

Nunca a opção pelo inglês esteve no horizonte de Moçambique. O Português que se fala neste país é dos moçambicanos, não é a língua “portuguesa”.

Aliás, esta é uma questão reveladora da ausência de uma visão estratégia para África dos nossos actuais responsáveis políticos. Não resisto a citar o Prof. João Gomes Cravinho quando escreveu no “Janus 98” que “é notória a desvalorização relativa das relações (de Portugal) com África que aconteceu com a mudança de governo em finais de 1995”.

É necessária uma política africana descomplexada que não se funde na glorificação da pátria e na defesa provinciana da língua portuguesa.

Com que imagem ficarão também os moçambicanos da recente visita da segunda figura do Estado português quando aproveitou uma deslocação oficial a Moçambique para “paralelamente” tratar dos seus interesses económicos pessoais no Vale do Zambeze? Na imprensa local, chamaram-lhe a “delegação fantasma de Almeida Santos”…

Haja respeito e transparência!

Portugal tem de aprender que Moçambique está a construir a sua identidade e a criar a sua própria imagem com o Português dos moçambicanos. Tem de aprender a ser visto pela sua ex-colónia como um país num Mundo que é visto numa perspectiva que não é a sua.

A história comum entre os dois países tem de ser entendida como um relacionamento dos dois povos sem sentimentos de culpa, sem feridas e sobretudo, sem nostalgias.

Maputo, 17 de Maio de 1998


 

img013

Na foto, eu junto a um dos mais antigos embondeiros da África Sub-Sahariana.

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6 comentários leave one →
  1. Jornaleco permalink
    21 Março, 2019 21:46

    Que bela fotografia.

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  2. Jornaleco permalink
    21 Março, 2019 22:23

    a.
    Dizem que o Botswana é o ou um dos países mais bem governados em África. Alguém o pode confirmar?

    b.
    A evangelização de Moçambique foi o melhor que sucedeu ao país. É a excelência absoluta. Não há melhor.

    Em relação a isto, o ateísmo é esterco, sem a mínima dúvida.

    c.
    Quando uma parte de Moçambique começou a namorar a esquerda fascista e enganadora, que só sabe roubar e fazer vigarices, a vender gato por lebre, eles não ficaram contentes. Quem é que o fica?

    d. Citação:
    “Moçambique continua um país extraordinariamente pobre […]”

    Isso não é bem assim. O país é muito, muito rico. Mas agora vai-se ver, como os moçambicanos e os políticos lá, vão distribuir a riqueza. Meteram-se com os burros do comunismo, de livre vontade em parte. Agora vamos ver se eles querer re-inventar a roda ou aplicar o melhor saber. E se os deixam. Porque os ladrões e os tubarões já devem por lá andar.

    Os chineses não meteram lá já as suas patas? Eu falo dos cabrões dos comunistas chineses. Moçambique vai-se arrepender mais uma vez, de os ter deixado entrar.

    e.
    África é um continente especial. Sem dúvida. O relógio lá é diferente. Dizem que muitos povos nem sequer têm o vocabulário adequado para explicar o tempo, como Europa o faz.

    f.
    Foram os mesmos cabrões que agora controlam Portugal, que deram cabo de Moçambique.

    g.
    E para não falar das minas (campos de minas), que por lá ficaram, por andarem à guerra. Um dos piores países, em todo o mundo, em relação a esse facto diabólico.

    h.
    E agora as inundações. Parece que sucede muitas vezes, lá, em Moçambique.

    i.
    África do Sul é a prova, que o racismo por lado do preto é muito real. E negar o mesmo, é surrealista, absurdo, pouco inteligente. África do Sul está a preparar-se para se destruir a si próprio. Sem o homem branco.

    j.
    E os moçambicanos não deviam cair na mesma armadilha. Não são os outros os culpados. Somos sempre nós, e primeiro nós. Eles têm muitas culpas também. Gostem ou não.

    Os fascistas da esquerda é que dizem sempre, que não sáo culpados de nada e apontam o dedo ao deserto. Mas nesses casos existem provas, contra a esquerda podre e falsa e mentiroa e ladrona e traidora.

    O namoro com a puta da esquerda estragou muito em Moçambique. Muito.

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  3. JCA permalink
    21 Março, 2019 23:00

    .
    Uma ‘pedrinha na engrenagem’, reparo simples:
    .
    passaram transitoriamente por Moçambique centenas de milhares de brancos da metropole obrigados pela tropa. Eram muito mais proximas e descomplexadas as relações com os negros que com os brancos locais em que a sociablidade normal era distante ou inexistente em muitos casos.
    .
    Tempos passados poder-se-à dizer.
    .
    A ajuda a Manica e Sofala tem de ser em força (aquela linda Beira ddas àguas do Xiveve e do Moulin Rouge para outras àguas, Vila Pery, o Dondo, Inhaminga etc etc ou Matacuane, Manga, o Macuti .. e aquele calor abrasador de noites com uns 90% de humidade — enfim, curtos tempos passados por lá).
    .
    Além da pronta resposta do Governo Português (chapeau) e CPLP tem uma excelente oportunidade (e potencial para isso, Brasil-Angola etc),
    .
    para deixar de ser ‘croquete, palito, salmao fumado e flut na mão” para passar da treta engonhada à pratica duma estrurua humana coletiva pronta a solidariamente responder às catastrofes que ocorram no seu espaço humano,
    .
    e que avance para a Moçambique.,
    .
    conjuntamente o potencial de conhecimento, especialistas avançados, equipamento, meios e financeiro que tem é mais que suficiente para isso. Basta sair do tédio.
    .
    A ver vamos com espernça que a CPLP dê agora esse passo em força.
    .

    .

    Gostar

  4. André Miguel permalink
    22 Março, 2019 08:04

    Podemos esperar sentados pela CPLP. Angola está falida, o Brasil demasiado ocupado com os seus problemas internos. Moçambique está dependente da ajuda Sul Africana e Portuguesa.

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  5. Vasco Silveira permalink
    22 Março, 2019 11:52

    caro sr telmo zevedo Fernandes

    Ainda bem que começou por referir a sua juventude à época em que escreveu o artigo: estive lá (maputo e Boane) dois anos depois , durante seis meses e não foi esse Moçambique que vi.
    Aliás a sua leitura de Moçambique é definida pela referência aos talvez três únicos nomes de Moçambicanos conhecidos no exterior de há 30 anos a esta parte( Mia Couto, Malangatana, …) . è o Moçambique para INGLÊS VER, não é o Moçambique real.
    Quando Portugal abandonou Moçambique ( fugiu ?), era juntamente com Angola, um dos países com maior crescimento económico ( com 10 anos de guerra !).
    Saímos mal, saímos cedo e isso é culpa nossa.
    Mas eles não criaram, apenas alguma mera exploração de recursos naturais por terceiros, e deixaram cair tudo: O Lourenço Marques de 1973 era concerteza uma cidade extraordinária, desenvolvida, bem planeada, equilibrada; o forte de S Sebastião, na ilha de Moçambique, erguido no séc.XVI, foi à data a maior construção a sul do Saara; a barragem de Cabora Bassa, do último quartel do séc XX, era uma das maiores barragensde aproveitamento hidroelétrico do mundo, que , cuja energia eles vieram a vender a preço da uva mijona à áfrica do Sul nos decénios seguintes.

    Os Portugueses chegaram a Moçambique no início do sec XVI: ocuparam-na no final do Séc XIX, e e foram para lá na segunda metade do séc XX. Foi secalhar tarde demais.

    Liked by 1 person

  6. 24 Março, 2019 19:46

    boa memória

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