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Papa Francisco faz do melhor amigo dos pobres um inimigo

24 Outubro, 2021

Abaixo deixo uma tradução livre de um artigo de opinião de hoje do Pe. Robert Sirico:


Papa Francisco faz do melhor amigo dos pobres um inimigo – o mercado livre

Como podemos alimentar os famintos?

É uma pergunta que o Papa Francisco trouxe à tona no Dia Mundial da Alimentação em uma série de tweets. “A luta contra a fome exige que superemos a lógica fria do mercado avidamente focada no mero lucro económico e na redução dos alimentos a uma commodity, e que fortaleçamos a lógica da solidariedade”.

Mas sem mercado, como alimentamos alguém?

Sim, a comunidade cristã deve exigir a alimentação de todos os homens. Mas a mensagem anti-mercado do Papa deixa muita gente questionando-se sobre como serão produzidos os alimentos para alimentar os famintos. A mensagem do Papa Francisco justapõe duas abordagens contrastantes para o escândalo da fome: uma expressa essa solidariedade e outra cria empresas e produtores que tentam atender às necessidades dos famintos.

Em Mateus 21: 28-32, Jesus apresenta um dilema aos líderes religiosos de sua época. É a história de um pai que manda dois filhos trabalharem na sua vinha. O primeiro recusa a ordem, mas muda de ideias e vai para a vinha. O segundo prontamente responde que vai trabalhar, mas nunca o faz.

Jesus pergunta: Qual dos filhos fez a vontade do pai? Claro, foi o primeiro filho – aquele que no final cumpriu efectivamente o que seu pai ordenou.

O efeito subjacente do texto é marginalizar os líderes religiosos da sua época que professavam cumprir a palavra de Deus, mas nunca actuaram em conformidade. O julgamento de Jesus é claro: para ele, são os muito marginalizados – “os cobradores de impostos e as prostitutas (podemos incluir aqui os capitalistas?)” – que entram no reino de Deus antes dos piedosos que professam a missão Deus.

Tudo isto inundou a minha mente enquanto lia as palavras do Papa condenando o próprio sistema de mercado que alimenta mais pessoas famintas hoje do que antes na história do mundo.

Então, como responderia o Papa Francisco à mesma pergunta: “Quem fez a vontade do pai?” É a pessoa que apoia publicamente a posição de que destruir o mercado é a melhor maneira de alimentar os famintos? Ou é a pessoa que traz a colheita capaz de alimentar multidões?

O Papa fala da “lógica fria do mercado” que ele associa a um foco ganancioso no “mero lucro económico” e na redução da “comida a uma mercadoria (commodity)”.

Pode-se presumir que por “lógica fria” o Papa está preocupado com o facto de o mercado carecer de uma intimidade pessoal e subjetiva. Isso é verdade, mas apenas na medida em que um mercado, quando desobstruído por várias intervenções, fornece informações vitais para coisas como a oferta e a procura.

Sem dados implacavelmente precisos, toda a capacidade de atender às necessidades das pessoas seria mal calibrada e as pessoas morreriam de fome. Paradoxalmente, a informação que se ajusta é tudo menos objectiva, pois reflete um conhecimento muito íntimo e subjetivo que vem de trabalhadores, investidores e produtores que actuam no mercado – não apenas por ganância – mas por conhecimento das necessidades das suas famílias.

Os lucros, muitas vezes descritos como resultado da “ganância”, são na verdade apenas um sinal de que o processo de “colheita” da produção foi bem planeado. O antecessor do Papa Francisco, S. João Paulo II afirmou isto mesmo na sua encíclica Centesimus annus de 1991: “A Igreja reconhece o papel legítimo do lucro como uma indicação de que uma empresa está funcionando bem. Quando uma empresa tem lucro, isso significa que os factores produtivos foram devidamente alocados e as correspondentes necessidades humanas foram devidamente satisfeitas. “

Uma economia sem preocupação com o lucro é como um navio sem leme – simplesmente não teria a capacidade de dirigir a si mesmo. Como podemos combater a fome se não podermos produzir de forma segura abundância de alimentos?

Talvez a afirmação menos coerente do Papa seja seu lamento de “reduzir a comida a uma mercadoria”. Podemos ter diferentes definições de mercadoria, mas a maioria entende o conceito como um bem básico que é produzido e pode ser comprado ou vendido – ou doado. Mas tem que ser produzido primeiro. O pai da parábola acima mencionada estava, no fundo, a pedir aos seus filhos que se envolvessem numa produção lucrativa.

Como padre, fico perplexo quando colegas meus (até mesmo o Papa), sem dúvida com a melhor das intenções morais, apesar disso insistem em tornar como inimiga a própria instituição que foi e pode continuar a ser a mais eficaz ferramenta para combater a fome e a pobreza — o mercado livre.

Sem dúvida é apenas uma ferramenta, não um deus. Mas, nas mãos certas, o mercado livre pode-nos ajudar a cumprir concretamente as nossas responsabilidades morais, muito mais do que meras boas intenções.

11 comentários leave one →
  1. Francisco Miguel Colaço permalink
    24 Outubro, 2021 20:44

    O mercado funciona melhor quando as pessoas são morais; e razoavelmente quando não são, o caso presente. Mas à medida que as pessoas enriquecem e encontram recompensa no trabalho, o mercado livre cria as sua própria sociedade moral e industriosa.

    O socialismo funciona sempre mal, porque a ausência de recompensa distintiva cria a sua própria ociosidade.

    É por isso que o Estado nunca se deve meter na economia, salvo em guerra.

    Eu até fui a favor de o Estado manter algum programa de redistribuição. Deixei há muito de o ser. A redistribuição deve ser feita pelas organizações privadas — igrejas, sinagogas, templos e mesquitas, IPSS e outras organizações afins —, com o beneplácito da dedução à colecta dos valores ofertados pelos indivíduos inscrito em lei pelo Estado.

    Reduziria a pobreza dos pobres e a riqueza confiscada a outrem pelos incapazes disfuncionais impúdicos.

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  2. 25 Outubro, 2021 00:44

    A Maria Antonieta perdeu a cabeça quando a maior parte de seus súbditos era tão pobre, e os nobres e burgueses eram tão ricos que a diferença de classes conduziu à revolução. O Mesmo aconteceu na Rússia, na China, etc.
    As revoluções são acontecimentos gerados pelas sociedades humanas sempre que se criam desigualdades obscenas entre ricos e pobres. Quando estes últimos se apercebem que mais vale arriscar a morrer na revolução, e conseguir melhoria de vida, que não fazer nada e morrer à fome.

    A pobreza extrema de hoje, deve-se à explosão demográfica e à expansão das ideias liberais segundo as quais as nações devem comprar o que necessitam, aonde for mais barato, abdicando de produzir em seu território quando é mais cara essa produção… Compram mais barato do que conseguem produzir, mas em troca têm que vender as riquezas da nação. Em poucos anos, no computo geral, fica tudo bem mais caro…

    O Papa Francisco tem fama de ser comunista, mas nem marxista ele é! se fosse sabia que “é o homem que faz a história, mas não sabe a história que faz”. Isto é, os capitalistas não se apercebem das consequências da perseguição tenaz que fazem ao lucro. Só sabem que, no dia em que mudarem de atitude, são “comidos” pelos capitalistas que continuam focados no lucro.

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    • lucklucky permalink
      25 Outubro, 2021 01:43

      Tretas,
      As revoluções acontecem quando a burguesia e a a elite cresce muito em número e subgrupos jovens vêem que não tem hipótese de chegar ao poder aliam-se a aristocratas desafectos. Quer antes da revolução Francesa e do golpe na Russa assistiu-se a um aumento considerável do número de nobres e de burgueses.

      O povo não faz revoluções pois o povo não tem voz e em boa parte é iletrado. São sempre os aristocratas e burguesia.
      Não me diga que julga por cá foi o povo que fez o 25 de Abril ?

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      • Andre Miguel permalink
        25 Outubro, 2021 09:51

        Nem mais. Esta gente é ignorante até mais não. É ler o ensaio de Arendt “A liberdade de ser livres” que explica tudo bem explicadinho. Alem disso esta gente anda sempre com a revolução francesa na boca, que foi um desastre, mas omite a revolução norte-americana, um enorme sucesso que criou a maior potencia do mundo ocidental…

        Liked by 1 person

      • lucklucky permalink
        25 Outubro, 2021 15:12

        Pessoas como o Oavlag têm a cultura messiânica do poder. Logo deve estar nas mãos de muito poucos, além de terem apetência para guilhotinas, massacres e genocídios.

        Por isso para eles a Revolução Americana 1765 logo antes da Francesa 1789 não conta para nada, pois tem separação de poderes e cultura de poder limitado do Estado. A negação do fanatismo que defendem.

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      • Mário Marques permalink
        25 Outubro, 2021 18:05

        O oavlag/Galvão gosta muito de contos infantis, o povo (na sua maioria) segue os lideres populistas, veja-se o caso da nossa sociedade presentemente, acho que não preciso de dizer mais …

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  3. Jorge Moreira permalink
    25 Outubro, 2021 10:41

    Quando a tristeza me bate à porta venho aqui ver se encontro um arrazoado à la Galvão. A receita nunca falha. É só só rir.

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  4. 25 Outubro, 2021 12:21

    isso começa logo mal …a perguntaria deveria ser : como os famintos se poderão alimentar ? e a resposta : dando-lhes um bocado de terra , sementes e uma enxada. serviu durante milhares de anos para alimentar os famintos , suponho que continuará a servir para fazer comida. ainda não se faz comida no pc , pois não?

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  5. 25 Outubro, 2021 13:02

    O Francisco enganou-se de igreja…

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    • Mário Marques permalink
      25 Outubro, 2021 18:10

      O francisco (o papão) não se enganou, aliás nem engana ninguém, ele prega por quem paga melhor.

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  6. 28 Outubro, 2021 08:48

    Gostava de saber a opinião deste sacerdote sobre a passagem Atos dos Apostolos 4:34-35 – “Não havia uma só pessoa necessitada entre eles, pois os que possuíam terras ou casas as vendiam, traziam o dinheiro da venda 35e o depositavam aos pés dos apóstolos, que por sua vez, o repartiam conforme a necessidade de cada um.”. E também sobre a passagem Atos 2:45 “Vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade.”. Será que o cristianismo foi criado por socialistas ou São Lucas, ou quem foi o autor, era um perigoso socialista venezuelano que viajou no tempo?

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