Fim dos exames do 4º ano
Um sistema mastodôntico como o Ministério da Educação dificilmente consegue funcionar se centenas de escolas se mantiverem permanentemente sem avaliação externa. O exame do 4º desempenhou durante algum tempo esse papel. O que permitiu fazer rankings, identificar escolas problemáticas, premiar as boas e ajudar as más a resolver os seus problemas. Sem esses exames o sistema fica cego.
Outro papel dos exames é o de estabelecer um ponto de partida mínimo e comum para os alunos que entram no ciclo seguinte. Sem isso a transição entre ciclos continuará a ser desastrosa para muitos alunos.
Quem é prejudicado com isto? Os alunos pobres das escolas públicas, evidentemente. Nas escolas privadas há formas eficazes de compensar estes problemas.
Curioso que a luta contra os exames é uma causa de adultos que não gostam deles, ou por ideologia, ou porque, lá está, sendo professores e pais, não lhes agrada ver o seu trabalho educativos avaliado pelos exames.
Primeiro levaram os adjectivos, e eu não me importei
Ontem ensaiou-se o mote para qualquer crítica a decisões judiciais em Portugal numa indignação típica sobre a forma como o Correio da Manhã descreveu duas pessoas – cega e cigano – independentemente de todos os outros jornais o fazerem sem serem alvo de críticas.
A partir de ontem, qualquer que seja o caso, faça a ministra da justiça o que fizer, terá salvo-conduto. Quer passe a existir pena de morte por roubar um pão no supermercado ou ausência de crime por violar crianças à guarda de instituições do Estado, quem se atrever a criticar a justiça será taxativamente rotulado de racista, tornando qualquer crítica como a ignomínia de um intolerante e fanático tresloucado. Abundarão as caracterizações de “nojo” e escrever-se-á mais uma página no processo de assimilação da estupidez colectiva que legitima o golpe de Costa rumo à deterioração irreversível da 3ª república.
por causa disto
O desrespeito com que a esquerda, em geral, tem tratado, nos últimos tempos o Presidente da República é mais um prego no caixão da 3ª República, eventualmente aquele que lhe será mais letal. O caso é de entendimento elementar: o regime instituído pela Constituição de 1976 e que, apesar de tudo, as revisões do texto mantiveram no essencial, desenhou, por razões históricas que não vêm agora à baila, um modelo de governo assente em dois pilares – o presidente e o parlamento -, vulgarmente conhecido por «semipresidencialismo». Ora, nunca nos quase quarenta anos da Constituição se assistiu a um tamanho desrespeito pela função presidencial, fazendo de contas que o presidente não pode ser mais do que a rainha de Inglaterra e que tem que aceitar tudo o que venha do parlamento, sem pestanejar. Contudo, é bem sabido que não é isso que diz a Constituição, a tal que a esquerda jura respeitar ao mais ínfimo pormenor. Nem foi essa a prática política dos últimos quarenta anos, onde sempre os presidentes, durante os seus mandatos, tiveram situações de tensão com os parlamentos de então, sem que nunca fosse posta em causa a legitimidade constitucional da sua actuação, como aconteceu agora com Cavaco. Quer Eanes, quer Soares, quer Sampaio colidiram, em momentos dos seus mandatos, com a Assembleia da República, sem que isso deixasse de ser entendido como o normal uso dos seus poderes constitucionais. Com Cavaco, com quem a esquerda tem velhas contas para ajustar, até um breve período de audiências para formar opinião sobre um governo minoritário que lhe foi proposto foi motivo de redução da função presidencial.
O problema está no facto de que se o Presidente da República passar a ser mesmo a rainha de Inglaterra, e nada leva a crer que Marcelo, Belém ou Nóvoa queiram, ou possam vir a ser, muito mais do que isso, o nosso sistema constitucional não estará habilitado para refrear os excessos do parlamentarismo a que assistiremos muito em breve. O sistema político de governo ficará absolutamente indefeso e não se lhe anteveem dias auspiciosos. A 1ª República morreu também por causa disto.
Legislação a granel
DN: “Barriga de aluguer”. Será desta que a lei será aprovada?
O que está a contecer na AR é um processo legislativo a granel. Ao ritmo dos jornalistas com os seus “Será desta” e muitos “momento histórico” está a aprovar-se legislação que é pura engenharia social. O país discute ministros, governos enquanto a AR se assanha com a família.
Há coisas que nunca mudam.
A ascendência cigana
Deixem-se de folclores: como se sabe que uns portugueses são ciganos e outros não? Porque dizem. Houve e há quem não ache relevante dar essa informação sobre si.No governo e na AR.
25 de novembro
O 25 de Novembro de 1975, que ontem apenas alguns celebraram, marcou uma viragem no processo revolucionário iniciado a 25 de Abril de 1974 e pôs cobro aos desmandos do PREC, o famigerado «Processo Revolucionário em Curso». Verdadeiramente, não foi um 18 de Brumário, porque nem Eanes tinha categoria para Bonaparte (embora o tentasse), nem a revolução terminou nesse dia, tendo sido mais um 9 Termidor, onde, como na França do Terror, se mudou alguma coisa para se conseguir salvar o essencial. E, do ponto de vista dos termidorianos portugueses, o essencial era manter o Partido Comunista na legalidade, como Melo Antunes imediatamente se prontificou a assegurar, poupando o partido de Álvaro Cunhal a um desfecho popular que lhe poderia ter sido muito desfavorável, evitar a reversão das nacionalizações e das expropriações, consolidar a descolonização, salvar a guarda pretoriana do regime, o que ficou assegurado, até 1982, pelo Conselho da Revolução e marcar a Constituição em gestação com a ideologia saída da revolução. Por consequência, ao invés do que se pretende divulgar, o 25 de Novembro estabilizou a revolução e pôs cobro aos desmandos do PREC, é certo, mas, por outro lado, salvou-a, a ela e aos revolucionários, no que lhes era essencial. Não se compreende, por isso, por que motivos provoca tanta animosidade à esquerda.
O que aí vem; ai vem, vem
Racista! Xenófobo! Opressor! Beato!
Ladrão! Vigarista, Porco Fascista!
Não mais que u’Merkel no sapato,
Meu bandalho anti-comunista!
–Ouvido no elevador
A partir de hoje e durante vários meses ocorrerá a caça ao fásssssista. Carradas de memes sobre o que se imagina ter dito este, sobre a sexualidade daquele, sobre uma obscura conta bancária de outro, sobre o Cavaco, sobre o Portas, sobre o Passos Coelho, sobre a prima do Passos Coelho, sobre racistas, sobre xenófobos, sobre islamofóbicos, sobre refugiadofóbicos, sobre nazis, sobre liberais – os neo-, ultra- e hiper-mega-animais -, sobre a pequenez do Marques Mendes, sobre o peso daquele, sobre a falta de peso daquela, sobre o Novo Banco, sobre submarinos, sobre o Relvas, sobre misoginia, sobre insultos, sobre calúnias, sobre ignomínia da imprensa livre, sobre acusações vis a Sócrates, sobre anonimato nas redes sociais exceptuando Abrantes e Valupis, sobre avenças, sobre azia, sobre falsa democracia, sobre piropagem, sobre ladroagem, sobre a chantagem, sobre desvantagem, sobre imagem e espionagem com lavagem da percentagem que é miragem numa peritagem sem portagem da vadiagem pronta à vassalagem.
Sua Santidade anda nas nuvens não é?
“O terrorismo nasce da pobreza”, disse Francisco aos quenianos
o governo iceberg
O governo de António Costa é um governo iceberg, do qual foi hoje apresentado apenas o vértice superior: na verdade, tão ou mais importantes do que os ministros e secretários de estado que amanhã tomarão posse são os que ficam debaixo de água, do Bloco e do PC, e que mandarão mais do que muitos dos outros. Resta saber quem encalhará primeiro.
costa vs. santana
Começam a ser mais do que muitas as semelhanças entre o recém-“indicado” governo Costa e o defunto governo de Pedro Santana Lopes. Assim:
1º Ambos foram/são presididos por ex-presidentes da Câmara Municipal de Lisboa, saídos deste pelouro para se habilitarem a essas funções;
2º Ambos contaram com a animosidade do presidente da República em funções no momento em que foram empossados;
3º Aos dois primeiros-ministros o Presidente da República impôs condições severas para aceitar a indigitação;
4º Nenhum dos dois chefes de governo ganhou eleições legislativas;
5º Ambos tiveram de aguardar semanas pela decisão presidencial favorável;
6º Os dois governos anunciaram o mesmo propósito de porem cobro à «crise» e o de Santana Lopes chegou mesmo a anunciar o seu fim. Presume-se que o de Costa só não fez ainda o mesmo por falta de tempo;
7º São os maiores governos, em número de ministros, da 3ª República.
Falta, apenas, estabelecer uma comparação: o governo de Santana durou pouco tempo. E o de Costa durará muito?
India delta india oscar tango alfa sierra
Seria suposto, como muita gente faz, que tentasse analisar os nomes do governo da Frente de Esquerda. Porém, os nomes são indiferentes, algo a que até António Costa terá anuído perante um “olha, pázinho, mete aí a minha filha” ou um “nomeie aí a minha mulher também, invente um ministério parvo como o mar, terra, fogo ou ar”. Pronto, pode dizer-se que o governo tem uma “não branca” (não se pode dizer preta, negra também não e african-american soa demasiado parvo em português), se é que isso é relevante para alguma coisa – por exemplo, admissões de que o governo até pode ser mau mas, ao menos (e “ao menos” é mortal que chegue) tem uma senhora cuja cor é diferente de rosa pálido-aveludado, por isso, brindemos!
A composição do governo é mais facilmente descrita como “metade esteve em governos Sócrates, outra metade gostaria de ter estado mas não teve oportunidade”. As únicas surpresas notórias, pelo menos para eles próprios e não para quem vê as tristes figuras na televisão, são a manutenção de João Galamba como torpedeiro parlamentar e Porfírio Silva como tonto da vila em sentido lato. De resto, tudo como dantes no quartel dos Abrantes.
Se o feriado do 1º de Dezembro for reposto
Tão importante quanto aquilo que fizeram a 25 de Novembro
Foi aquilo que não fizeram a 26 de Novembro: retaliar.
40

As coisas estão a voltar à sua ordem natural
uma crença
Este governo de António Costa tem uma crença: a de que as contas públicas se irão compor com a recuperação da economia e que a economia se recomporá com o regresso do consumo aos níveis anteriores aos do início declarado da crise. Se nada for feito para impedir a concretização deste fundamentalismo costista, serão necessários dois anos para termos eleições antecipadas: o primeiro, para gastar o que não temos para repor «o rendimento das famílias»; e o segundo, para introduzir no orçamento de estado as medidas necessárias ao reequilíbrio orçamental exigido por Bruxelas, que o PC e o Bloco jamais poderão aprovar. Caso estas últimas fiquem na gaveta, serão, então, suficientes apenas mais uns meses para o regresso da troika. É escolher à la carte.
ACABOU A AUSTERIDADE!!!
A partir deste momento, declaro encerrado o capítulo negro da austeridade, da ignomínia anti-expansionista, da volúpia financeira e da ditadura dos mercados sobre a vontade do povo soberano, povo este que maioritariamente dispersou os votos pela solução governativa pretendida, o 2º, 3º e 4º classificados – com uma pequena ajuda do 5º – em coligação positiva que permite o crescimento expansionista, a reposição dos cortes, o fim do mau-estar nacional, a educação conveniente das crianças, o fim da fome, justiça para os presos políticos e reforma sem sobressaltos para o doutor Salgado. Finalmente, um país a funcionar como é suposto um país latino funcionar.

Primeiro-ministro e reformada com pensão reposta
NATO 2015

Fascinante
É fascinante que, com a Europa a ser obrigada pela força de bomba humana a olhar para si própria, as prioridades do parlamento português sejam os 7,75€ por aborto e a possibilidade de duzentas pessoas acederem à rejeição por motivo hipocritamente inserido no politicamente correcto no processo de adopção de crianças.
Uma dúvida que me assalta
O amigo Santos Silva foi ao almoço? Afinal quem se não o amigo Silva pagou o almoço do amigo José que vive com tantas dificuldades?
Apagar incêndios com conta-gotas

Em Novembro de 2016 falamos
O PS mudou de campo mas vai haver um momento algures no futuro em que vai querer voltar ao centro. Não tanto para poder governar mas sobretudo para se salvar a si mesmo.
E é nesse momento que o novo ciclo da política se vai decidir: qual vai ser o novo partido do regime? Qual líder se vai tornar indispensável? Em Novembro de 2016 falamos.
Saiu um memorando: acabou a crispação
O candidato presidencial do partido cujas bases programáticas estão definidas desde que Stalin passou a controlar o partido comunista russo, há quase 100 anos, diz que “há uma múmia em Belém”.
Mérito seja dado a quem o tem: a Frente de Esquerda Transitoriamente Aliada (FETA) que quer chegar ao poder em Portugal esforça-se bastante para que os portugueses simpatizem com Cavaco Silva.
Estar no lado inconveniente da história
Francisco Seixas da Costa relembra uma historieta, como lhe chama, ocorrida durante o Verão quente, sobre uns fulanos dispostos a vandalizarem o seu automóvel para retirarem um autocolante com o símbolo do MES.
Hoje em dia, 40 anos depois, seria interessante analisar o percurso de todos os envolvidos. Já sabemos que o simpatizante do Movimento Esquerda Socialista com o autocolante no carro chegou a embaixador no Brasil e posteriormente em França. O mais provável é que os reaccionários não tenham tido semelhante fortuna.
Os explosivos do alegado terrorista serão verdadeiros ou também é um caso de alegados explosivos?
SIC: Polícia belga procura dois alegados terroristas e teme que um tenha explosivos
Por mim acho que o alegado terrorista transporta smarties. Quer matar-nos com açúcar coisa que de ciência certa mata.
Molenbeek é bué da fixe

Verdadeiro mapa de Bruxelas para um turista.
“Marisa Matias” mostra o Berlaymont (já desprovido de amianto)
e “Montras de gajas” mostra precisamente isso e o serviço de registo de veículos lá do sítio.
“Basílica” é esta e Forest National é
um Coliseu mas para 8000 pessoas que podem incluir – ou não – o Rui Tavares.
José Luís foi viver para o bairro há uns anos porque, como diz, “Gostei, o bairro pareceu-me pacífico e um bom exemplo de convivência cultural”. Um bom exemplo de convivência cultural que José Luís reforça como possuindo “a riqueza da diferença cultural com o ocidente”. José Luís acha que “é uma injustiça que aquela zona fique estigmatizada”, já que foi “muito bem recebido ali”, inclusivamente quando “a minha namorada da altura veio a minha casa sozinha e não se sentiu confortável” porque “as mulheres na rua estão de véu”.
O artigo descreve algumas pequenas desvantagens, como “a cultura árabe” ser “muito forte”, a não existência de quiosques com jornais belgas e a frequência de cafés ser exclusivamente masculina. Tirando esses pequenos detalhes numa capital europeia, onde “é frequente ver cartazes de apoio à Palestina” e colectas na mercearia para ajudar o povo palestiniano de forma “muito discreta”, um local onde não há restaurantes com influências ocidentais – o que só pode merecer o epíteto de “pacífico e um bom exemplo de convivência cultural” -, e apesar do necessário “cuidado para não assimilarmos a totalidade do bairro, coisas que se passam em certos pontos”, pontos esses onde, diz José Luís, tem a “impressão de que os terroristas só se esconderam ali”, é um sítio muito muito muito agradável.
Não existe o direito a ser mãe
Está neste momento a ser discutida no parlamento legislação em que se equaciona a possibilidade de existirem aquilo a que num processo de despersonalização chamam “barrigas de aluguer”. Ou seja mães cujo papel é apagado, sendo reduzidas e definidas enquanto barrigas ainda para mais alugadas, para que outras mulheres se possam dizer mães.
Não existem nem o direito nem a obrigação de ser mãe. Há pessoas que nunca o serão por razões médicas. Sofrem certamente com isso. Mas a vida adulta é feita também do aprendermos a viver com a impossibilidade e percebermos que não vale tudo para que nós possamos ter o tudo a que aspiramos. As “barrigas de aluguer” são um dos casos em que a possibilidade de uma mulher poder ter a alegria de ouvir uma criança chamar-lhe mãe não deve suplantar-se ao apagamento da maternidade noutra mulher a que se chama barriga
Os engenheiros sociais
O que está a acontecer neste momento no parlamento português é uma loucura mas é a loucura habitual dos processos revolucionários: legisla-se com caracter de urgência sobre a família. INventam-se causas, problemas, discriminações. Repete-se à exaustão a palavra direitos. No fim vão votar com a mesma inconsciência com que no passado votaram em idêntico clima de histeria. Daqui a uns anos vão dizer que não era para ser assim.
Expliquem-me que eu não entendo
O que leva a que uma mulher seja automaticamente isenta de pagar taxa moderadora se fizer um aborto mas tenha de pagar uma muito mais elevada taxa moderadora para os exames complementares de diagnóstico nomeradamente aqueles que visam despistar o cancro da mama e do útero?
Não se arranja uma causa fracturante a legitimar essa isenção?
Papoilas loucas
O Bloco de Esquerda, esganiçando o seu caminho para a demência regimental, promete “resgatar os direitos das mulheres e a sua dignidade”, posta em risco com o pagamento de 7,75€, correspondentes a 1,53% do salário mínimo, por cada aborto efectuado.
Do cherne ao atum

É perfeitamente natural que a esquerda unida não veja motivos para festejar o 25 de Novembro se, após as eleições de Outubro, se mostra muito mais disponível para festejar o 28 de Maio.
Em breve competirá a Cavaco Silva a nomeação de um indivíduo que possa começar a limpar a palha húmida da cavalariça do regime, esperando-se que o alegado Homem Providencial seja capaz de sair quando o penetra regimental, António Costa, o mãos cheias de nada, perceber que o sacrifício pessoal é o único caminho para a redenção.
Agora que tanto se fala de prevenção do terrorismo
convém lembrar que em Portugal aquilo em que na prática se traduz a prevenção do terrorismo não é constitucional.
PS e o 25 de Novembro
Das indignações que manifestam a ilusória dor interior
Há motivo para certos temas, declarações ou adjectivos causarem grande comoção enquanto outros escapam ao crivo da grande indignação colectiva.
Em primeiro lugar, as redes sociais, grande meio de difusão da indignação (incluo aqui também o sistema de comentários dos jornais), têm a sua génese na propagação e amplificação do “eu”. Quanto mais viral é a indignação de um “eu”, mais “eus” estão dispostos a embarcar no grande colectivo indignado, a grande marcha para o abismo. As pessoas são assim, gostam de pertencer a grupos que parecem estar na mó de cima, independentemente da queda abrupta que se possa avizinhar. Esta indignação do “eu” tem muito menos que ver com uma visão individualista assente em ideias, como se oriunda de uma tradição de pensamento liberal, e sim em sentimentos abstractos, indefiníveis, suficientemente vagos para assumirem a importância de um todo, o segundo factor que determina a fase presente da ditadura do direito vago a um bem estar emocional sem o stress do confronto.
Em segundo lugar, o direito a ofender-se tornou-se um acto de introspecção. Não são apontados motivos comparativos nem aceites premissas lógicas na discussão porque, essencialmente, a ideia da própria discussão é ofensiva. Ninguém discute, por exemplo, o aborto. Hoje em dia, temas controversos não estão na mesa porque podem ofender. Não o acto de abortar e sim o acto de discutir o aborto, sempre caracterizado como um direito e cuja discussão seria equivalente à sua remoção: alegando uma ofensa interior sem substância palpável ou que possa ser instanciada em argumentos concretos, está ofensa materializa-se na dor sofrida pela sugestão de discussão de um tema que, decerto, seria causador de grande transtorno pela mera exposição, assim abafado, para o bem e paz social. Tornando-se garantido que algo é um direito, a sugestão de discussão é, por si só, uma retrocesso civilizacional. Naturalmente, o que isto indica é uma total insegurança sobre a validade dos argumentos que geraram o direito em primeiro lugar, insegurança esta que não pode ser confrontada sob risco de ruir.
Ao definirmos o que pode ser dito pelo potencial de não originar um polémica indutora de “grande sofrimento pessoal”, criamos a geração mais estúpida de todas, a que substituiu definitivamente o saber pelo sentimento difuso da emoção indefinível porque fechada num “eu” tão individualizado que, pela unicidade inerente, nem faz sentido questionar. Não é de surpreender que em vez de rebelião contra o estabelecido, jovens prefiram o controlo e conforto das regras, pela segurança emocional que origina não ser confrontado com sentimentos de insegurança.
Por isso, ideias de igualdade, de correcto e de justo convivem com as suas antíteses na mesma declaração, num doublethink diferente mas igualmente assustador ao de Orwell, porque intocável, não vá causar grande transtorno à redoma de emoções que cada um sente sempre que se considera abordar a hipótese de usar o cérebro para pensar.
Do protectorado ao chalupado
Ponderei um pouco sobre a escrita de um artigo dedicado a deputados chalupas e, como de costume, decidi ignorar o instinto de sobrevivência que um jornalista tenderia a contemplar em meio dado a salamaleques, optando, mais uma vez, pela designação correcta das coisas: só há predominância de chalupas no parlamento porque as pessoas votam em partidos para formar governo e não em deputados; ora, isso gera terreno fértil para camiões destravados.
Os feriados
O anterior Governo (ou melhor, o anterior parlamento) eliminou ou suspendeu os feriados do Corpo de Deus, de 5 de Outubro, de 1 de Novembro e de 1 de Dezembro?
Alguns factos para ajudar a clarificar a discussão:
Literalmente, o parlamento eliminou aqueles feriados, através da Lei n.º 23/2012, de 25 de Junho, ao alterar a redacção do artigo 234.º, n.º 1 do Código do Trabalho, retirando aquelas quatro datas da lista de feriados obrigatórios, como o José Ribeiro e Castro aqui explicou.
A proposta de Lei (apresentada pelo Governo) não fazia qualquer referência a suspensão ou a carácter temporário:
“(…) no domínio dos feriados, procede-se à redução do catálogo legal, mediante a eliminação de quatro feriados, correspondentes a dois feriados civis e a dois feriados religiosos. Esta medida, que se pretende que produza efeitos já no ano de 2012, sem prejuízo do cumprimento dos mecanismos decorrentes da Concordata entre o Estado Português e a Santa Sé, permitirá aumentar os níveis de produtividade, contribuindo para o incremento da competitividade e para a aproximação, nesta matéria, de Portugal aos restantes países europeus.”
No entanto, um ano depois da eliminação, foi aprovada uma alteração à Lei, passando a estabelecer-se a obrigatoriedade de revisão da norma sobre os feriados (na parte em que eliminara aqueles quatro) num prazo não superior a 5 anos.
A alteração à Lei foi aprovada na sequência de uma nova iniciativa legislativa do Governo, da qual, porém, não constava qualquer referência à questão dos feriados. A inclusão da revisão obrigatória foi da iniciativa dos grupos parlamentares do PSD e do CDS, sendo assim da exclusiva responsabilidade do Parlamento.
A inclusão da revisão obrigatória dos feriados foi aprovada pela maioria, com os votos contra do PS, PCP, Bloco e Os Verdes.
A obrigatoriedade de revisão prevista na lei, que se mantém em vigor, tem, porém, carácter programático: nada acontecerá se o Parlamento não proceder a qualquer revisão (isto é, aquelas datas continuarão a não ser feriado).
afinal, qual é a pressa?
Pacientemente, aguardou o país que o senhor António Costa, ilustre derrotado das eleições legislativas de 4 de Outubro, negociasse, às escondidas e pela calada da noite, com o Partido Comunista e o Bloco de Esquerda, uma coisa que ainda ninguém sabe ao certo o que é, porque eles se recusam, por enquanto, a explicar. Aquilo que sabemos sobre os famigerados «acordos» é pouco, ou nada, embora tenhamos alguns indícios do que estes três derrotados partidos se preparam para impor ao país, aproveitando circunstâncias constitucionais verdadeiramente excepcionais: o facto de se terem recusado a assinar um único documento que plasmasse um programa de governo comum e, inclusivamente, terem-se recusado a juntar-se numa mesma sala, ao mesmo tempo, para formalizarem um momento desta excepcional importância, augura o pior possível.
Pois bem, depois de tudo isto, em que ninguém se preocupou por aí além, parece que, agora, o Presidente da República tem que andar a toque-de-caixa desta brincadeira e empossar imediatamente o Dr. Costa, como, aliás, já o deveria ter feito sem ter indigitado Passos, para, segundo as mesmas almas, não se perder tempo com futilidades constitucionais.
Ora, qualquer pessoa sensata dirá exactamente o oposto: que Cavaco, como símbolo constitucional do país, o tem de o ouvir a todo, mas a todo, sem excepção, antes de tomar uma decisão final sobre uma coisa tão esdrúxula quanto a que Costa lhe preparou. A pressão sobre Cavaco tem apenas uma finalidade: preparar a guerra para o caso do Presidente se recusar a dar posse incondicional a Costa, e tentar evitar que ele lhe imponha condições rigorosas para governar, que representem o que grande parte do país pensa sobre tudo isto. No fim de contas, é mais um desrespeito deste PS pela Constituição e pela República. Se o Presidente se limitar a ser uma caixa de ressonância de uma parte do país político, então, vale mais tirá-lo da Constituição e entregar a chefia do estado a uma espécie de «rainha de Inglaterra».
Isto está complicado
Pode ver-se a entrevista toda ou ir logo ao minuto 25.20. António Costa não só não tem ideia alguma do impacto das medidas que anunciou como, o que é mais grave, acha que os resultados das suas medidas têm de ser avaliados segundo os critérios que ele mesmo define.
A ler
Pérez-Reverte: «Nos creíamos a salvo en Disneylandia»
