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Uma história exemplar da parolice nacional

23 Abril, 2014
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Estávamos em 1998, Fernando Gomes presidia à Câmara Municipal do Porto, Manuel Maria Carrilho reinava como ministro da Cultura e Manoel de Oliveira ia fazer 90 anos. Para aquelas almas profundamente imbuídas de paixões culturais nada melhor do que fazer erguer um monumento de betão – mas com pedigree cultural, pois o desenho seria de Souto Moura – com o pomposo nome de “Casa do Cinema”. Escolheram a melhor e mais refinada zona da cidade do Porto – a Foz, como não podia eixr de ser – e lá ergueram as paredes do que seria a futura residência do cineasta (seria ele um sem-abrigo desconhecido?) e, ao lado, as arrecadações para guardar o seu espólio.

A obra levou uns anos a fazer – afinal Portugal nunca deixaou de ser Portugal – e, quando ficou pronta, a câmara não se entendeu com o cineasta. A lindas paredes ficaram ao abandono, ninguém parece ter estado muito incomodado, os anos passaram, tudo se foi degradando, e entretanto Manoel de Oliveira somou mais dez anos, tornou-se centenário, nunca achou que tivesse de mudar os tarecos para um casa nova e acabou a entender-se com a Fundação de Serralves, onde entretanto está a surgir outra casa Manoel de Oliveira, esta da autoria de Siza Vieira (noblesse oblige).

Chegamos assim ao ponto de, dez anos depois, o “betão cultural” que custou mais de dois milhões de euros – não se indignem já, foi para “investimento”, ainda para mais um “investimento cultural” – ir agora à praça por apenas 1,5 milhões.

É o que se chama uma história exemplar da saloice nacional, do encantamento parolo com certos “símbolos da cultura” e da leviandade com que se gasta o dinheiro dos contribuintes. Ao menos que corra bem o leilão. 

Reciprocamente obrigados

22 Abril, 2014

Tema do meu artigo de hoje no DE: Não é apenas o País que está em dívida para com os militares. Os militares também estão em dívida para com o País. E não lhe devem pouco. Os militares portugueses devem ao País terem conseguido sair de forma honrada de um dos momentos mais tenebrosos da sua história – a forma como impuseram a saída de África e de Timor – e devem-lhe também poderem manter a mentira conveniente de que em Abril estavam unidos. Não é verdade: estiveram unidos na guerra. Mas dividiram-se criminosa e perigosamente na hora de negociar a paz. Por isso ainda hoje se sentem mais à vontade a falar da ditadura e da guerra do que da democracia e dos países independentes. Em boa verdade o país não tinha escolha: havia que defender as Forças Armadas. De quem? Delas mesmas. Mesmo que tal implicasse pactuar com quem atacava os interesses do País e desdenhava das suas populações mais frágeis, os civis residentes nos territórios africanos. Desfeita a hierarquia de comando nas FAP, só os sectores esquerdistas pareciam capazes de garantir um mínimo de ordem e salvar as aparências entre as tropas estacionadas em África. Daí chegavam histórias que o País não podia conhecer a bem já não da nação mas sim das suas Forças Armadas. Comandantes que por iniciativa e ideologia próprias resolviam confraternizar ou dialogar com os mesmos que combatiam na véspera e que levaram as suas companhias a cair emboscadas com mortos, feridos e sequestrados (Bambandica, Guiné)…

os equívocos de abril

22 Abril, 2014
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O 25 de Abril, que celebra 40 anos nos próximos dias, foi fonte de inúmeros equívocos que macularam indelevelmente o regime e o país. O mais grave de todos foi ter-nos legado uma “direita” cujo principal representante à data o celebra agora de cravo vermelho na lapela, lado a lado com a esquerda e a extrema-esquerda desse e do nosso tempo. Por mais que nos esforçássemos, dificilmente haveria melhor síntese dos motivos históricos que explicam o estado a que o país chegou.

Eu acuso!

21 Abril, 2014
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Este título da Ránio Renascença é todo um programa:

Freitas do Amaral acusa Governo de ser “o mais à direita dos últimos 40 anos”

A palavra chave é, naturalmente, acusa. Pois é uma palavra com sentido pejorativo. Ninguém imagina um título ao contrário. Por exemplo:

Mário Soares acusa direcção do PS de ser “a mais à esquerda dos últimos 40 anos”

Não se trata de saber qual das frases é verdadeira – nenhuma é. Trata-se de verificar que é natural “acusar” alguém de ser de direita mas nem sequer se imagina “acusar” outro alguém de ser de esquerda. Mesmo na católica Renascença. Assim vai a “neutralidade” jornalística.

Juche-ifica-nos

21 Abril, 2014

Esqueçam resultados. O que importa é que este é o governo “mais à direita dos últimos 40 anos” e, portanto, violador do princípio sagrado e constituicional de bondade humana. Isto implica, naturalmente, que quem não é de esquerda não é filho de boa gente.

O problema de Freitas do Amaral, como de muitas outras pessoas, é a extrema necessidade do “parecer” ser mais relevante que o “ser”; portanto, para agradar aos velhos portugueses que namoram com o poder há 40 anos, a solução é fazer o que for necessário sem olhar a esquerdas e direitas mas dizer sempre que o objectivo é tão de esquerda que faça Juche soar a extrema-direita.

Alguns gráficos interessantes da 11ª avaliação do FMI

21 Abril, 2014
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A leitura dos relatórios do FMI sobre as sucessivas avaliações é sempre muito útil, e o mesmo sucede com o que foi hoje revelado. Nesta altura em que estamos a chegar ao fim do período da troika, há alguns balanços interessantes. E algumas ideias feitas que podem e devem ser desfeitas.

Gastos sociais

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Em 2012 Portugal gastava 22% do PIB com o chamado “estado social”. Isso compara com os 20,4% de média da Zona Euro e com os 18% da União Europeia como um todo. Não está mal como resultado depois do “maior retrocesso social de sempre”, ou do famoso “recuo civilizacional”, ou de tantas outras barbaridades que por aí se proclamaram.

Como se escreve no relatório:

Public pension expenditure in Portugal more than doubled relative to national income over the last 20 years, with changes only in part justified by demographic developments.1 In 2012, social benefit spending—of which pensions account for over 80 percent—stood well above European and euro area averages.

Os salários

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Este relatório fornece-nos alguma informação interessante sobre a forma como se distribuem os salários entre os vários sectores da economia portuguesa. 

Tomemos este primeiro gráfico. Alguns só verão nele a diferença salarial existente entre Portugal e países como a França, a Alemanha e a Itália. Eu vejo outra coisa: enquanto nesses países é no sector exportador que se pagam os melhores salários, em Portugal são os trabalhadores do sector não transaccionável os que, comparativamente, são melhor pagos. Isto mostra até que ponto este sector esteve protegido da competição – e até que ponto nele pesam os trabalhadores do sector público. 

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Quando olhamos para a forma como os custos salariais unitários evoluiram nos últimos anos verificamos que, se tomarmos por ponto de comparação 1995, os custos no sector não transacionável aumentaram mais de 60% (é aqui que está o Estado, que está a Banca, que estão as telecomunicações, a energia, etc), enquanto no sector transaccionável não chegaram a crescer 10%. Quando olhamos para o que se passou nestes anos de crise (desde 2009), verificamos que os custos unitários do trabalho cairam quase 15% no sector transaccionável (mesmo assim uma queda inferior à ocorrida na Irlanda e em Espanha) e, no sector não transaccionável, a dominuição desse indicador foi marginal.  Ler Mais…

O fanatismo dos “anti-fanáticos”

17 Abril, 2014
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Francisco Assis não é conhecido por ser um político radical. Pelo contrário. Que lhe deu então para, na sua coluna semanal, insultar Pedro Lomba – “pequeno apparatchik ligeiramente alfabetizado” – e Bruno Maçães – um aparente “pateta” que escreve “num inglês próprio de quem nunca leu Shakespeare”?

O texto, ao contrário do que é habitual em Assis, não argumenta, vai apenas de bordão em bordão, atirando com Hayek para um lado, Pinochet para o outro, num amontoado de lugares comuns sobre o “governo dogmático” com “uma mentalidade escassamente democrática”. É, porventura, um texto eleitoral: Assis necessita de aumentar o tom de voz para que, no PS, não desconfiem dos seus galões. Mas não deixa por isso de se um texto revelador.

Quando chama a Lomba e Maçães “dois pequenos génios condenados à incompreensão” Assis revela ao vem, pois a palavra-chave da frase é “pequenos”. “Pequenos” porque novos, porque jovens, porque exteriores ao círculo autorizado dos políticos experientes e sensatos.

É curioso que Assis, um político que ocupou o seu primeiro cargo público aos 25 anos (presidente da Câmara de Amarante) se junte ao coro dos que procuram desqualificar os mais novos apenas por serem mais novos – ou “pequenos”, na sua linguagem alegórica. É curioso mas vai bem com os espírito do tempo. Depois de o 25 de Abril ter proporcionado uma ruptura geracional que permitir que gente com menos de trinta anos chegasse a secretário de Estado e a ministro (para não falar dos que chegaram a directores de jornais ou a presidentes de empresa), agora, que supostamente temos à nossa disposição “a geração mais bem preparada de sempre”, um exército de “senadores” passa a vida a desqualificar os Ler Mais…

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