Até agora, com quase um ano de mandato, o XIX Governo Constitucional, presidido por Pedro Passos Coelho, tem apostado numa estratégia de redução do desequilíbrio orçamental essencialmente feita à custa do aumento da receita fiscal, tal e qual sucedeu com os governos anteriores de José Sócrates. É certo que as loucuras das obras públicas faraónicas – os tgvs, as autoestradas sem fim e os aeroportos internacionais - , as pps e as grandiosas medidas de incentivo à economia e de fomento ao emprego ficaram no tinteiro, mas, perdoe-se-me a desconfiança, provavelmente mais devido à absoluta falta de dinheiro e ao controlo externo da troika, do que propriamente à bondade dos governantes, que neste género de coisas tendem sempre à facilidade. Todavia, sem reformas estruturais profundas, os resultados da operação são estes que aqui vemos. Ou seja, se o aumento da carga fiscal tiver como único fim suportar a despesa pública e pagar aos credores para contrair mais dívida, em vez de servir para sustentar uma profunda reforma do estado, que ajuste uma receita razoável para os contribuintes a uma despesa contida, apenas contribuirá para nos empobrecer mais ainda.
E, ao fim de um ano de mandato, não há, verdadeiramente, uma única reforma digna desse nome, as privatizações continuam a marcar passo e o estado permanece exactamente nos mesmos sectores da vida social em que estava e do modo em que lá estava. A milagrosa lei das rendas já entrou nos tradicionais períodos de transição que caracterizam o imobilismo nacional, a TAP por aí anda a acumular prejuízos, a RTP não pode, pura e simplesmente, ser privatizada (mas pode continuar a ser paga pelos contribuintes…), a Caixa Geral de Depósitos ocupa ainda, com as suas talentosas administrações políticas, o faraónico palácio da João XXI, a educação, a saúde e a justiça continuam a implodir alegremente por falta de dinheiro que as sustente e de talento que as reforme e privatize. Em contrapartida, sejamos justos, acrescentamos quatro dias por ano à produtividade nacional…
Quem anda, por isso, a dizer por aí que, ao invés da Grécia, Portugal está no bom caminho, anda a ver mal o filme: no último ano limitámo-nos a subir impostos e a agravar o estado das nossas coisas. Por este andar, vamos ver-nos tão gregos ou mais gregos do que os gregos.