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A crónica de Rui Tavares (comentada)

17 Fevereiro, 2010
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Lembram-se? No primeiro ato desta história, diziam-nos algo assim: é preciso deixar os ricos contentes e todos ganharemos com isso. Por “ricos” entendia-se uma série de eufemismos: os “grandes empresários”, as “companhias mais dinâmicas”, os “investidores arrojados”, etc.

No primeiro acto desta crónica inventa-se um pressuposto. O Rui ainda acha que temos que chatear os ricos. Há coisas que nunca mudam. O que temos é que não chatear ninguém.

Esta gente precisava de um especialíssimo ambiente para poder prosperar: um ambiente onde nada os contrariasse e, ainda assim, se criassem regras especiais para os atrair, seduzir e manter felizes.

Toda a gente precisa de um ambiente para prosperar, mas esse ambiente não tem nada de especialíssimo. Basta que as regras sejam iguais para todos e que o estado não impeça a tomada de riscos por quem está disposto a corrê-los. Absurdo é o regime que necessita regras especiais para permitir o investimento.

Era necessário que pagassem menos impostos do que nós todos, como era necessário que nos pudessem despedir com mais facilidade.

É necessário que todos os investidores saibam as regras e que as leis fiscais sejam iguais para todos. É necessário que as empresas não sejam obrigadas a funcionar como Segurança Social e que possam adequar os recursos às necessidades sem serem forçadas a falir.

Era necessário que o estado gastasse menos dinheiro connosco; a classe média (e até a classe baixa) compensariam a perda através do cartão de crédito, das dívidas em geral,

Tudo ao contrário. era necessário que a gente gastasse menos dinheiro com o estado. Era e é. A parte dos cartões de crédito é tontice. O Rui também tem cartão de crédito. Quer proibir aos outros?

… e do empréstimo para continuar os estudos.

Uma excelente ideia. Empréstimos para licenciaturas e mestrados, a pagar através de um acréscimo de impostos em anos posteriores. A ideia é não obrigar os mais necessitados a pagar os estudos de pessoas como eu ou o Rui Tavares. Para quem tem sempre a justiça social na ponta da língua, esta é elementar.

E foi assim que os estados – em princípio, feitos de cidadãos como você e eu – e os governos eleitos pela maioria de nós passaram décadas preocupando-se principalmente em mimar uma minoria em detrimento da maioria.

O que os estados fizeram foi preocupar-se em mimar uma cada vez maior minoria – os que vivem do estado, através de salários, subsídios ou outras benesses em detrimento dos que pagam cada vez mais impostos.

Em “detrimento” não, peço perdão! Para nosso bem: era o tempo de metáforas como “se fizermos crescer o bolo haverá mais para toda a gente” ou “é preciso criar riqueza para depois a distribuir” ou “se chover para os mais ricos acaba por pingar para todos”.

Infelizmente, o que se tem feito nos últimos anos, particularmente em Portugal é encolher o bolo deixando menos para (quase) toda a gente. Distribui-se cada vez mais de um bolo cada vez menor e mandamos os ricos apanhar chuva para outras paragens.

Para bem das pedras que aguentavam a base da pirâmide era necessário que chovesse apenas na pedra lá do topo; alguma coisa haveria de escorrer por aí abaixo.

Como escorre cada vez menos do topo da pirâmide, o governo espreme cada vez mais a base. Para estes governos não interessa quanto chove. Consomem sempre mais água, independentemente da chuva.

Alguém perguntava se em vez de criar riqueza para depois a distribuir não haveria forma de, desde logo, criar riqueza de forma mais distribuída.

Até hoje ninguém descobriu. Já tentaram, mais de 40 vezes, distribuir a riqueza antes de criá-la, e nunca deu resultado. Como é que se faz? A crédito?

Mas não era escutado. Para perguntar como criar riqueza bastava a opinião dos ricos.

Tontice. Para criar riqueza é preciso que alguém invista em projectos com retorno. Tantos anos nisto e ainda falha o bê-a-bá.

O segundo ato foi quando este belo mundo implodiu. Afinal, deixar a alta finança sem regulação não garante crescimento infinito.

Custa a compreender em que coisas é que o Rui acredita. Acreditará que não havia regulação na ‘alta finança’. Talvez houvesse alguma na ‘baixa’, não sabemos. Vamos ver se explica na próxima crónica.

Afinal, despedir gente para aumentar valor em bolsa não é melhor do que ter empresas sólidas com produtos que as pessoas queiram.

Uma empresa não aumenta o valor em bolsa por ‘despedir’ gente. Aumenta o valor em bolsa se os accionistas esperarem maiores lucros ou menores prejuízos futuros. O que faz crescer o valor duma empresa são os investimentos com sucesso que vai fazendo ao longo do tempo e que raramente são notícia. O despedimento é quase sempre uma medida de salvaguarda em tempo de dificuldades. Claro que o Rui Tavares nunca foi gestor duma empresa em dificuldades. Nesse caso, gostaria de vê-lo a ter de decidir entre falir ou despedir, embora quase certamente o Rui escolhesse ficar de fora a criticar os que têm de tomar as decisões.

Afinal, as pessoas que faziam “gestão de risco” não sabiam que os preços das casas não sobem para sempre. Afinal, toda a gente percebeu que o bolo tinha diminuído e não aumentado.
E foi então que tivemos de os salvar.

Tivemos, não. “Quisemos”. Nem todos estavam de acordo com esse ‘salvamento’.

Sem a ajuda pública, o sistema financeiro teria colapsado após Setembro de 2008. Os bancos, tal como os conhecemos, não existiriam se não os tivéssemos salvo. Para isso gastámos o dinheiro que deveria ter ido para os nossos hospitais, escolas, jardins e bibliotecas.

Os bancos que o estado não quis deixar falir, deviam ter falido. A opção de enterrar dinheiro nesses bancos foi do governo. Os outros, ou não usaram os dinheiros públicos, ou já pagaram. Logo, o dinheiro podia ter ido para hospitais, escolas, jardins ou bibliotecas mas podia também ter ido para pagar dívida pública e desonerar a próxima geração.

O terceiro ato faz de tudo isto uma obra-prima do teatro do absurdo. Porque o terceiro ato é igualzinho ao primeiro: os altos executivos continuam a ter os mesmos bónus que tinham antes,

Se tivessem deixado falir os bancos, não havia bónus. Se os bancos já não devem nada a ninguém e são privados, problema deles. Problema nosso são os governos que acham que se devem meter.

… os lucros dos bancos que nós salvámos continuam a pagar menos impostos do que nós pagamos…

Nós somos pessoas e não empresas. Os bancos pagam IRC, nós pagamos IRS. Os empregados dos bancos pagam os mesmos impostos que nós pagamos. Os bancos pagam os impostos previstos na lei. Se acham que é pouco, aumentem outra vez os impostos, mas depois não se queixem das crises do sistema.

… e o sistema financeiro não teve ainda reforma que se visse. Tudo igual, com a diferença de já não ser preciso justificá-lo. Já não acontece “para nosso bem”. Acontece porque sim.

Nunca tanta gente pediu reformas sem ter a mínima noção sobre as quais são as reformas necessárias. Querem reformas. Querem porque sim.

Para lançar sal na ferida, no quarto ato regressam reputados economistas que não previram a crise e descobrem que o estado está falido.

E está. Quase. Não foi no quarto acto. Foi muito antes do primeiro. Os que alertavam para a situação eram conhecidos por ‘catastrofistas’.

E dizem-nos que, para salvar o estado, precisamos de “medidas radicais”, entre as quais se conta baixar os salários da classe média em cerca de quinze por cento ou mais, naturalmente que para nosso bem.

O Rui ainda não distingue muito bem entre estado e não-estado. O que precisamos é de baixar os gastos do estado, e precisamos de baixá-los muito. Muitíssimo. Claro, vai ter implicações sobre os salários dos funcionários públicos e dos funcionários dos instituições suportadas pelos contribuintes. A alternativa de aumentar impostos para deixar intacto o sector público, tendo em atenção os montantes necessários para atingir o equilíbrio, significaria baixar significativamente os salários dos funcionários do sector privado, fechar empresas e estrangular a galinha dos ovos de ouro.

Parafraseando uma crónica recente de Daniel Oliveira no Expresso: se eu disser “os ricos que paguem a crise”, sou um populista irresponsável; se eu disser “os pobres que paguem a crise”, sou um lúcido realista.

Não há ricos que cheguem para pagar o desbragamento do estado e o excesso de gastos do sector público. A crise não precisa de ser paga. As economias ajustam-se normalmente aos tempos de crise, se as deixarem. Ao estado, vamos todos pagar e pagar cada vez mais. E pagaríamos ainda mais se as politicas que o Rui defende fossem postas em prática.

E assim chegamos ao quinto ato. É aquele que não está escrito ainda.

Ainda bem. O excesso de planeamento nunca deu grandes resultados.

17 comentários leave one →
  1. Anónimo permalink
    17 Fevereiro, 2010 23:37

    o 5º acto é a população activa privada ( uns míseros 3 milhões e meio , cabemos num cantinho ) cá do sítio bazar toda prá australia ou um país em declínio deomgráfico ( noruega , talvez? ) e o rui tavares fica cá de anjo da guarda do estado.

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  2. lucklucky permalink
    18 Fevereiro, 2010 00:21

    Assustador como coisas básicas não entram na cabeça de algumas pessoas. Quando o regulador baixa juros para quase zero é evidente que fabrica uma bolha de crédito.

    Não percebe que o Estado colocou da economia privada em sobreaceleração para cobrir cada vez mais o desiquilíbrio estrutural entre os Privados e um Estado cada vez maior.
    Só na Inglaterra 57% dos empregos nos últimos 10 anos foram no Estado se a economia privada não estivesse acelerada artificialmente a diferença seria ainda maior.

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  3. Joaquim permalink
    18 Fevereiro, 2010 00:38

    Obrigado por ter posto aqui esta excelente crónica.
    Sim, li apenas o que está em itálico a vermelho e saltei umas linhas a preto, mal me apercebi que eram umas bocas apalermadas.

    Nota: percebi agora na perfeição porque é que a Zazie ridiculariza este blogueiro.

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  4. blargh permalink
    18 Fevereiro, 2010 01:23

    «atos»? Assim se pagam as carreiras universitárias nas universidades do brasil.

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  5. 18 Fevereiro, 2010 01:27

    Rui Tavares tem uma qualidade que nem todos têm.
    Assina as crónicas dizendo que é deputado independente pelo BE.
    Portanto não engana ninguém.

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  6. Nightwish permalink
    18 Fevereiro, 2010 01:50

    Pensei que os libertários estavam extintos. Parece que ainda não. É pena.

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  7. Amonino permalink
    18 Fevereiro, 2010 01:57

    .
    5º acto, as ‘elites’ governaram e lideraram para enfiar os Portugueses também nisto ? Adivinhe.
    .
    -THIS Is the Real List Of Countries Verging On A Sovereign Crisis (And, Yes, The US Is On It)
    http://www.businessinsider.com/top-20-soverign-default-risks-2010-2#indonesia-overall-risk-score-265-1
    .
    -There’s No Deal Yet: Here Are The Banks, Insurers, And Sovereigns Who Will Get Crushed In A Greece Collapse
    http://www.businessinsider.com/look-whos-going-to-get-slammed-when-greece-collapses-2010-2#french-banks-represent-over-25-of-claims-1
    .

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  8. 18 Fevereiro, 2010 01:59

    Esses neo-comunistas como o Rui Tavares dizem essas coisas, porque sabem que há muita gente que bebe esse discurso. Infelizmente eles difundido por quase todo o lado. Se formos a ver bem, os pontos de vista do BE são doutrina em muitas áreas. A educação é uma delas.

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  9. 18 Fevereiro, 2010 10:21

    Rui Tavares veio dizer que efectivamente o capitalismo ao permitir a salvação dos bancos perdeu toda a credibilidade. Na prática não há capitalismo, há sim crony capitalism:

    «Crony capitalism is a pejorative term describing an allegedly capitalist economy in which success in business depends on close relationships between businesspeople and government officials.»
    http://en.wikipedia.org/wiki/Crony_capitalism

    E o JCD ao ter trabalhado para as mafiosas Parcerias Publico-Privadas da Brisa ou afins, é também um dos que favorece o crony, capitalism e que dá argumentos aos Ruis Tavares.

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  10. lusitânia permalink
    18 Fevereiro, 2010 10:26

    O Rui Tavares deve andar com saudades das lições na Cova da Moura e dos afectos que o elegeram para o PE.Um dos nosso teóricos da africanização a bem das relações Norte-Sul e do pagamente da dívida histórica que pretensamente somos devedores…
    De descolonizador a colonizador e sem problemas de consciência nenhum e um bom estatuto conseguido por ser mais um “papagaio” na “propaganda” em que se transformou a informação de que aliás o actual PGR não vê nenhum crime derubam-se até às fundações o construido ao longo de séculos pelos nossos antepassados.Seremos o que o mundo quiser que sejamos.Como são maioritariamente africanos a vir para este paraíso seremos portanto africanos…

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  11. javali permalink
    18 Fevereiro, 2010 11:39

    Eu, pura e simplesmente, não leio blogues com erros de ortografia.

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  12. 18 Fevereiro, 2010 13:57

    O Rui Tavares gostava de viver num mundo sem ricos (isto é, sem bancos nem empresários) onde não se produzia nada e onde o estado cuidava de todos nós. O dinheiro crescia nas árvores e todos seriamos felizes.

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  13. Miucha permalink
    18 Fevereiro, 2010 16:47

    Engraçado que tb li esta crónica no Público e me fez imensa comichão na cabeça. As partes que mais comichão me fizeram foram a do BMW do patrão por oposição aos magros salários dos operários, mas fiquei sem saber se era cá por Portugal (onde é que isso já vai …) ou então lá pelas Indonésias e Conchinchinas (o Rui pode sempre ir lá organizar sindicatos…) e aquela velha imagem da CHUVA! Isso, CHUVA – imensa gente fala sempre do dinheiro com a metáfora da chuva. Bolas! A chuva ainda deve ser a única coisa que é de graça – mas o dinheiro pô cara! custa muito trabalho. Acho muito injusto para a chuva ser comparada com o dinheiro, porque a chuva quando cai é para todos e o dinheiro é só para quem trabalha (excepto para o Rui Pedro Soares e Ca). Desconfio sempre que se alguém fala assim do dinheiro é porque a) trabalha para o Estado directamente b) a sua empresa ou pessoa trabalha com o Estado c)ganha a vida com subsídios vários atribuidos pelo Estado d) acumula todos os anteriores f) vive em Lisboa, onde, parafraseando a famosa Guta Moura Guedes a propósito dos subsídios camarários para apoio às suas iniciativas culturais “o dinheiro,se houver boa vontade, aparece.” No meu mundo Ele (omnipotente, omnipresente e qualquer dia omnisciente) não aparece assim como uma alma do outro mundo, por invocação e boa vontade. Enfim, existem os Escolhidos e depois o Purgatório ónde nos encontramos a aturar a malta escolhida.

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  14. JP Ribeiro permalink
    18 Fevereiro, 2010 16:49

    jcd,

    Desculpe mas só consegui ler até metade. Acontecia-me sempre isso nas crónicas do Rui Tavares, até que as deixei de ler.

    Repugna-me ler sentenças sobre o que é a criação de riqueza proferidas por alguém que nunca criou nenhum posto de trabalho na vida, (exceptuando talvez a mulher a dias), e que muito provavelmente sempre viveu do erário publico, isto é, para falar claro, à custa de todos nós.

    Sobre os seus conhecimentos do funcionamento da economia (caseiros ou não) não digo nada. No mais até acho que ele deve ser bom rapaz, tem um coração de ouro, detesta os ricos, preocupa-se tanto com os pobrezinhos e do que é melhor para eles, que tem de ser boa pessoa.

    Será catequista?

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  15. portela menos 1 permalink
    18 Fevereiro, 2010 23:24

    ???

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  16. portela menos 1 permalink
    18 Fevereiro, 2010 23:25

    estava só a tentar perceber a não publicação de 2-3 comentários feitos ontem…

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  1. A propaganda de extrema-esquerda de Rui Tavares « O Insurgente

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