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Da importância política da sopa*

15 Novembro, 2010

A sopa é uma espécie de barómetro das nossas crises. Como não podia deixar de ser, neste ano da graça de 2010 ou da desgraça da dívida pública a 7,22% , aí está ela, a sopa, nas notícias sobre o aumento da procura nas cantinas escolares e nas instituições de solidariedade. Algumas escolas já terão cantinas a funcionar aos fins-de-semana. Tudo isto é acompanhado por aquele vox populi do “que comam pelo menos uma sopa”.
E contudo ainda há algumas décadas a sopa era um sinal do nosso atraso. Nos anos 60 e 70 era um dado adquirido que no dia em que fossemos todos evoluídos e europeus a sopa seria substituída pelos iogurtes e pelas saladas. Enquanto não se atingia esse depurado patamar civilizacional devia pelo menos tentar-se que os etéreos purés de cenoura substituíssem, nas nossas toscas mesas, aquelas sopas de feijão e grão que, a par da roupa pendurada à janela, eram um sinal inequívoco do luso atavismo, com a agravante estética que as ditas sopas nem para postal ilustrado serviam. Convém registar que nesses tempos em que o frango assado, os bifes e os combinados passavam por alimentos modernos, o top da boçalidade era ocupado por aqueles que preferiam o azeite ao óleo no momento de temperar a salada.
Ao fim de alguns anos gastronomicamente muito difíceis percebemos que podemos invejar o regular funcionamento das instituições holandesas sem que tenhamos de colocar nos nossos pratos aquilo a que chamam comida os muito democráticos e evoluídos holandeses. As palavras, neste domínio tal como na política, querem dizer uma coisa hoje e amanhã o seu contrário: aquilo que, como acontecia com as açordas e as feijoadas, anteriormente se chamava pejorativamente farta-brutos passou agora a designar-se sofisticadamente por dieta mediterrânica.
Enfim, atrás de tempos, tempos vêm. E ao menos nesta crise já não parece coisa de pobre comer-se sopa pois quando as crises nos visitam nós voltamos à sopa. E as crianças voltam às cantinas. Note-se que até há bem pouco tempo as cantinas escolares confrontavam-se não com o aumento da procura mas sim com a debandada dos adolescentes que na hora das refeições trocavam a antiquada cantina pelo bar mais próximo, onde invariavelmente gastavam mais dinheiro e comiam muito pior. (Por ironia nos estabelecimentos particulares de ensino, os alunos, até ao 9º ano, comem quase sempre nas cantinas, o que custa menos às famílias do que a opção pelo bar de muitos alunos do ensino público.) O aumento da procura das cantinas escolares não é portanto necessariamente uma má notícia. O que já me parece uma má notícia é o anúncio da abertura das cantinas escolares nas férias e sobretudo aos fins-de-semana, como já está a acontecer ou poderá vir a ocorrer em alguns agrupamentos de Faro, Trofa, Setúbal e Rio de Mouro.
Se o objectivo é ajudar famílias em dificuldades disponibilizem-se-lhes alimentos que as crianças e as suas famílias confeccionem e comam em casa. Não se transforme a crise num pretexto para assistencializar as pessoas e quebrar os laços familiares. Quando as crianças vão comer à cantina escolar no sábado ou no domingo onde é que estão as suas famílias? Ficam em casa à espera que a junta de freguesia ou a paróquia abram uma cantina que sirva adultos? Ou talvez as famílias não existam ou funcionem muito mal e nesse caso falar de crise económica é um eufemismo para algo que de económico tem pouco.
Quando num dos seus livros de cozinha Jamie Oliver dá conta de que a resposta invariável dos seus interlocutores italianos sobre o local onde se comem as melhores massas ou a melhor polenta é a casa da “mamma” de cada um deles está a falar de muito mais do que de cozinha.
Por cada criança que não acha a sopa da sua casa a melhor de todas ou que pelo menos não tem memória dos cheiros da sua cozinha pagamos um enorme custo social, económico e moral. Crianças a comerem ao fim-de-semana na cantina da escola pode ser uma solução numa emergência mas não é uma resposta para a crise.
*PÚBLICO

26 comentários leave one →
  1. 15 Novembro, 2010 09:51

    Entre as suas crónicas de carácter científico (nomeadamente sobre geologia e paleontologia), o Prof. Galopim de Carvalho publica, no seu blogue «Sopas de Pedra», uma ou outra receita de sopas alentejanas. Quem nunca provou uma não sabe o que perde…

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  2. balde-de-cal permalink
    15 Novembro, 2010 10:16

    nacionalizem quanto antes os bens dos xuxas e de quantos
    enriqueceram à custa dos contribuintes

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  3. 15 Novembro, 2010 10:45

    Não é por acaso que El Bulli, de Barcelona, tem sido considerado um dos melhores restaurantes do mundo, demonstrando que a inovação pelo gosto e a imaginação, também pela técnica, atingem patamares que pouco têm a ver com a sopinha da avó.
    Ao pé de Ferran Adriá, Jamie Oliver é um vendedor de farturas.

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  4. 15 Novembro, 2010 10:51

    Sobre a cozinha molecular:
    Piscoiso

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  5. 15 Novembro, 2010 13:16

    São os tais avanços civilizacionais que, vistas bem as coisas, acabam muitas vezes por revelarem a nossa tacanhez e, no fundo, representam atrasos.
    Portugal, ao contrário do que se faz parecer, é cada vez mais um país de preconceitos. Em relação a si próprio.

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  6. Rita permalink
    15 Novembro, 2010 13:45

    está tudo bem…

    Já anda por aí um iluminado norte-americano a garantir que 100 mil pessoas na rua são 10 mil para todos os efeitos que se limitem ao dia 24 de Novembro.
    Rita

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  7. 15 Novembro, 2010 14:15

    Crise, Qual Crise?
    Governo fez 270 nomeações num mês e meio
    http://educar.wordpress.com/2010/11/15/crise/

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  8. 15 Novembro, 2010 14:17

    Agilizações, Parece Que É Assim Que Se Chamam Estes Procedimentos
    Concursos-relâmpago garantem obras de 93 milhões de euros
    Mas depois não há dinheiro para pagar aos fornecedores das refeições e papel higiénico nas escolas…
    http://educar.wordpress.com/2010/11/15/agilizacoes-parece-que-e-assim-que-se-chamam-estes-procedimentos/

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  9. 15 Novembro, 2010 14:18

    Crise, Qual Crise? – 2

    TGV até ao Poceirão custa quase dois pacotes de austeridade
    Governo tem anunciado uma despesa inferior a metade
    http://educar.wordpress.com/2010/11/15/crise-qual-crise-2/

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  10. 15 Novembro, 2010 14:21

    Um quinto dos alunos das escolas portuguesas são de famílias em pobreza extrema, antes da “crise” (claro)

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  11. 15 Novembro, 2010 14:23

    Correcção ao comentário anterior !!! …

    Um QUARTO (25%) dos alunos das escolas portuguesas são de famílias em pobreza extrema, antes da “crise” (claro)

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  12. Renato permalink
    15 Novembro, 2010 14:26

    A primeira parte do seu texto, retoma uma polémica que já não tem sentido nenhum, Nem sei a que propósito vem agora a questão das qualidades nutricionais da sopa… De acordo com a segunda parte do texto, segundo percebi, as escolas deviam fornecer a comida para fora, em marmitas, em vez de a servir na escola, ou que deviam fornecer as couves e as cenoras para as famílias confeccionarem em casa, para ficarem a comer todos juntos à mesa. Tudo bem. Duvido é que seja essa realmente a preocupação dessas crianças e suas famílias. Mas pronto, a Helena Matos aproveitou para uma pequena aula de moralismo doméstico.

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  13. Luís permalink
    15 Novembro, 2010 14:51

    Ora a cronista pretende que não se assista a criança mas logo toda a família… e acusa os outros de serem assistencialistas!!! curioso
    relativamente ao facto de os alunos nas escolas privadas comerem “quase todos” nas cantinas escolares (afirmação que é assim a olhómetro um prodígio de rigor) tem uma explicação simples; tira-se aos que pouco ou nada têm e dá-se aos abonados, é só ver quanto paga o estado por cada aluno de uma escola “privada”, que de privada só tem a sua designação….
    estou seriamente a pensar em privatizar desta forma o meu crédito à habitação…eu tenho casa e o Estado paga…pim

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  14. Pi-Erre permalink
    15 Novembro, 2010 15:16

    Ainda se, ao menos, as cantinas servissem uma boa sopa da pedra…

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  15. 15 Novembro, 2010 15:35

    Com as declarações do Min das Obras dos amigalhaços hj na A.R., só há uma solução.
    RESPONSABILIZAR CRIMINALMENTE QUEM ANDA A LEVAR O PAÍS PARA A POBREZA EXTREMA por conta de contratos dolosos que prejudicam o Estado-cidadão em muitos milhões.

    OBRIGAR OS RESPONSÁVEIS A REPÔR DO SEU BOLSO-PATRIMÓNIO os prejuízos causados aos cidadãos.

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  16. Mariana permalink
    15 Novembro, 2010 15:48

    Ó H. Matos, porque não te calas?!?

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  17. Rxc permalink
    15 Novembro, 2010 16:26

    Piscoiso, o El Bulli fechou recentemente certo? A cozinha tecno-emocional é um show de variedades, bom para se visitar mas não para viver.
    A sua divagação culinária faz tanto sentido como comparar a cobertura de transportes públicos numa aldeia do interior com o Space Shuttle. Há muita gente que neste país cheio de progressos e modernidade (se considerarmos a morte legal de bebés por nascer ou a destruição do casamento como progresso) pena por ter uma sopa quente em cima da mesa…Não percebe que perto de onde vive, seja isso onde for, há de certeza alguém que não sabe o que é ter uma refeição decente todos os dias? Pedia-lhe para ter juízo, mas já todos o conhecemos bem…

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  18. e-ko permalink
    15 Novembro, 2010 16:36

    das cantinas como das sopas dos pobres… que se assegurem as condições de vida e de alimentação mínimimas a quem já as perdeu… uma casa, um lar, um conforto mínimo, uma alimentação digna … para não vermos o triste espectáculo da glorificação da falsa modéstia da caridade…

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  19. 15 Novembro, 2010 17:14

    Rxc das 16:26,

    Os seus pressupostos, as suas presunções, os seus preconceitos, ficam com os seus botões.
    El Bulli está aberto, pelo menos até Dezembro, mas apenas com lugares já reservados.
    Isso de “cozinha tecno-emocional” é alguma banda musical?
    Um quadro de Dali não lhe diz nada, só porque há quem não tenha sopa na mesa??

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  20. Centrista permalink
    15 Novembro, 2010 18:17

    Piscoiso, já viu o menú do El Bulli? Prefiro sem dúvida as farturas do Jaime Olivier.

    É óbvio que depois de arrotar 100 ou 200 euros num jantar que reservei com 6 meses de antecedência, só posso dizer bem daquilo. Porque gastar esse dinheiro para no fim dizer que não se gostou… até ficava mal, ainda por cima quando tantos “entendidos” adoraram.
    O rei vai nú, e o El Bulli continuará a fazer muito dinheiro a servir “entranhas com ar de trufas de laranja e espuma de escamas de sardinha” a quem não sabe o que fazer ao dinheiro. Eu, que até gosto de alta cozinha, não caio nessa, e até lhe digo: não há nada como ir ao leitão na Mealhada. O resto, vale pela experiência, mas nem sempre pela comida.

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  21. Centrista permalink
    15 Novembro, 2010 18:19

    Nota: Dalí diz-me muito, quando bom. Já Miró não tem salvação possível.

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  22. 15 Novembro, 2010 18:58

    SOPA DE ALFACE COM QUEIJO E OVOS
    (Do blogue que atrás refiro)

    4 alfaces médias
    1,5 dl de bom azeite
    6 dentes de alho
    1 molho de coentros
    1 folha de louro
    4 ovos
    2 queijos alentejanos (de ovelha, brancos, de meia cura)
    pão alentejano de dois ou três dias
    sal, muito pouco

    NUM TACHO, com o fundo coberto de azeite, aloure os dentes de alho cortados às rodelas, a que junta a folha de louro e, no fim, uma porção de coentros picados. De seguida, junte a alface lavada e cortada à mão, em bocados grandes.

    Em lume brando, vá dando volta com a colher até que toda a alface passe pelo fundo do tacho.
    Tape e deixe que a alface vá vertendo a água. Se necessário, vá acrescentando água aos poucos.
    Quando a alface estiver cozida, junte os ovos para que escalfem e, por fim, os queijos cortados em quartos ou às fatias grossas.

    Se desejar servir como “sopas de pão”, acrescente água na medida exacta. Neste caso, o pão, às fatias, é colocado no fundo da terrina de ir à mesa e, sobre ele, todo o preparado bem quente. Na hora de servir acrescente mais coentro picado.

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  23. 15 Novembro, 2010 19:38

    Centrista, a sua visão consumista pouco tem a ver com a criatividade do autor.

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  24. Licas permalink
    15 Novembro, 2010 20:16

    Brinquem, gozem com a cilindração da classe média baixa : NA PRÓXIMA
    REVOLUÇÃO (se a houver) O VERMELHO DOS CRAVOS SERÁ SUBSTITUIDO
    PELO DO SANGUE . . .

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