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o rei vai nu

24 Setembro, 2014
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Passos Coelho escondeu, há cerca de vinte anos, umas massas ganhas numa empresa, não as declarando ao fisco e tendo-as recebido a latere do seu estatuto de deputado, que o obrigaria à exclusividade. Cometeu, assim, várias ilegalidades, embora naquele tempo não incidissem ainda sobre nenhuma delas o juízo censório que hoje as condena às penas do inferno, cada uma delas agora mais gravemente punida do que um homicídio qualificado, cometido com requintes de malvadez.

Por mim, que entendo não existirem, no plano metajurídico, crimes económicos contra o estado e que defendo que os únicos crimes desse género são os que o estado insistentemente comete contra a propriedade privada, Passos Coelho não seria incomodado. Até porque, como ele, nessa altura, antes e depois, muitos outros fizeram igual ou pior, isto admitindo que é mau e merecedor de responsabilização jurídico-criminal não entregar coervivamente ao estado aquilo que legitimamente nos pertence.

O problema é outro e está no facto de Passos Coelho chefiar um governo que promoveu o maior saque fiscal de que há memória aos contribuintes portugueses, e que ameaça os incumpridores com as penas do inferno, cuja execução efectiva tem sido motivo de especial orgulho dos responsáveis pelo ministério da tutela, desde logo do respectivo secretário de estado, por sinal saído das hostes do “partido dos contribuintes”.

Ora, mais do que a duplicidade de atitudes (quanto aos critérios, só nos poderemos pronunciar depois de haver uma conclusão sobre os factos), o que incomoda aqui é a hipocrisia do poder em relação a muita gente honesta que não entrega ao estado aquilo que ganha, por razões, por vezes, de mera sobrevivência, o que não terá sido certamente o caso de Passos Coelho, caso o tenha feito. Vejam-se, por exemplo, os milhares de gestores de empresas em risco de falência, que pagam salários com o que deveriam entregar ao estado, para ver se conseguem salvar as empresas e os postos de trabalho, e que se vêem a braços com processos-crime, condenações, penhoras e penas de prisão.

É para esta realidade de um país falido e asfixiado fiscalmente que os governos deveriam olhar quando põem os seus responsáveis a dizer baboseiras sobre a evasão fiscal e o que vão fazer a quem a comete. Até porque, quando menos se espera, em cima do melhor pano cai a nódoa.

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26 comentários leave one →
  1. neotontono permalink
    24 Setembro, 2014 18:30

    melhor pano,melhor pano. Melhores panos?
    Voltemos a olhar para a China. Vamos re-descobrir novas rotas da seda…

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  2. NaoMAlembro permalink
    24 Setembro, 2014 18:48

    Gosto de o ler, embora nem sempre concorde. Continue assim. Só não percebo o que faz neste blog.

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  3. Alexandre Carvalho da Silveira permalink
    24 Setembro, 2014 18:50

    Não há dúvida de uma coisa: Passos Coelho tem permitido que esta história o vá cozendo em lume brando. Se ele cometeu alguma ilegalidade, mesmo que já prescrita, quanto mais depressa a explicar melhor para todos, inclusivamente para ele que terá de arrumar os papéis que tem sobre a secretária e abalar para Massamá.
    Não quero discutir aqui a maneira como tudo isto está a ser tratado nos media, no entanto há uma coisa que ele disse ontem na conferência de imprensa que deu com o presidente do Parlamento Europeu ao lado (que raio de oportunidade), e que parece não interessar aos jornalistas e comentadores, mas que pode fazer toda a diferença: afirmou o 1º ministro que só trabalhou para a Tecnoforma depois de sair do Parlamento, entre 2000 e 2004 como consta aqui:

    http://avaria.no.sapo.pt/cv_ppc.pdf

    Não quero fazer o papel do advogado do Diabo, mas se este curriculo é autêntico, confirma o que ele disse ontem à tarde e que não vi mais ninguém citar.
    Também se pode dar o caso de ele não ter declarado os rendimentos que auferiu da Tecnoforma entre 2000 e 2004, mas isso não tem nada a ver com o estatuto de deputado e do que o Parlamento lhe pagou. É uma fuga ao fisco e como tal tem de ser responsabilizado.

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  4. Procópio permalink
    24 Setembro, 2014 18:53

    O próximo primeiro ministro, se houver, será impoluto pela certa, os anteriores também foram. O pior é que os pides continuarão ativos. Existe até o risco de transporem os partidos da moralidade e do coletivo.
    Aproxima-se uma fase curiosa e buliçosa da pulhítica camorriana. Desrespeitada a ómertá, a cola que une os excrementos que vão desde o pr, à ar, aos partidos e às autarquias vai derreter-se e emporcalhá-los à vista de todos. Finalmente.
    Só por isso valeria a pena o pm demitir-se. Isto não vai lá com doces.

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    • manuel permalink
      24 Setembro, 2014 20:37

      O problema foi esse, foi quebrada a omertà e espero que a justiça comece uma operação “mãos limpas” pois a corrupção é sistémica e está bem entranhada no estado. Gostaria de continuar a criticar as políticas do sr Passos ,não sei se vou continuar por muito tempo , mas deixemos a justiça funcionar.

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      • lucklucky permalink
        24 Setembro, 2014 21:46

        A maior parte da corrupção é legal o que é normal num Estado Social onde uma parte vota para tirar a outra parte.

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  5. 24 Setembro, 2014 18:56

    Então, se bem compreendo é de opinião que quem recebe RSI indevidamente não deve ser condenado.
    Ou quem rouba o Estado só tem desculpa se for deputado ou Dr.?
    També acho que só devem ser merecedoras de condenação os crimes para os quais a probabilidade de eu os cometer é baixa. E nunca os que os amigos e conhecidos cometem.

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    • rui a. permalink*
      24 Setembro, 2014 19:00

      Não: o que acho é que o RSI é, ele próprio, um crime contra as pessoas que o recebem e aquelas de onde vem o dinheiro que o paga. Espero que tenha agora compreendido bem.

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      • 24 Setembro, 2014 22:16

        O RSI não permite que as pessoas se desenvolvam.
        Já pedir subsídios indevidos à AR apenas revela empreendedorismo. Não se compreende como é que a populaça deu em censurar de uma maneira tão brusca estes crimes.
        Caramba um Dr. deputado do partido tem direitos, não pode ser tratado como um ladrão pelo juízo censório dos tesos deste país.

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  6. Procópio permalink
    24 Setembro, 2014 19:00

    “Quanto mais depressa falarem os que enganaram, mais cedo nos libertaremos da prisão da memória das suas promessas e das suas ilusões”. Joaquim Aguiar
    Rezemos com devoção, mesmo os não crentes, pelo abalo telúrico.

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  7. colono permalink
    24 Setembro, 2014 19:06

    Foi preciso recuar 15 anos para encontrarem um pintelho condenatório…
    É obra!
    Esta mer** parece mais uma troca de condenados e investigados:

    Um Vara por Menezes
    Sócrates (1) por P. Coelho
    Maria Lurdes por ( adiante se verá)

    (1) Segundo o TC não existe equidade entre os dois 1ºs Ministros
    Cova da Beira / Covilhã/ Freeport/ Diploma/

    Isto comparado com o que roubei nas colónias, não passa de tremoços…

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  8. Jorge permalink
    24 Setembro, 2014 19:46

    Excelente posta do Rui A.

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  9. 24 Setembro, 2014 19:56

    Passos Coelho escondeu, há cerca de vinte anos, umas massas ganhas numa empresa, não as declarando ao fisco e tendo-as recebido a latere do seu estatuto de deputado, que o obrigaria à exclusividade.

    Até que enfim que há alguém que sabe o que mais ninguém sabe (e até hoje provou) aqui em Portugal.

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    • Bolota permalink
      24 Setembro, 2014 23:11

      Completamente de acordo…as massas ganhas numa empresa, nem isso se consegue provar porque segundo rezam as más línguas recebeu em papel e assim não deixando vestígios.

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  10. 24 Setembro, 2014 21:33

    Os tugas trabalhadores, honestos, cumpridores e massacrados por este governo têm o direito de saber tudo –mesmo tudo !!– o que aconteceu. E o dever de exigir a Verdade !
    Quanto aos outros tugas (incluindo muitos da “classe” política e judicial) que assobiam para o lado perante este e outros casos, a sua missão é baralhar, empecilhar e dar de novo.

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  11. 24 Setembro, 2014 21:48

    Não se sente isolado neste blog, caro senhor?

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  12. 24 Setembro, 2014 21:51

    Sobre este assunto leia-se o que Lobo Xavier disse e aguarde-se saber de facto alguma coisa, para evitar o eventualmente…

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    • 24 Setembro, 2014 22:21

      Desconheço o que ALXavier disse e o meu anterior comentário não culpa PPCoelho, porque não sei o que verdadeiramente aconteceu.
      Mas exijo a Verdade todinha ! Já me bastou Sócrates-PM, não quero que mais trafulhas governem o país.

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      • 24 Setembro, 2014 22:51

        😉
        O meu comentário não o visava. O que ALX diz prende-se com a forma fabricada como estes assuntos surgem e o conluio entre política, justiça e comunicação social (eu chamo-lhe mercado de receitas paralelas para os oficiais de justiça e outros). A verdade só faz mal a quem a tem a temer e espero que se apure, em comparação vejam-se as escutas: no caso de PPC foram transcritas integralmente na Comunicação Social no caso de Sócrates foram escamoteadas e diligentemente destruídas, começa aí o paralelo entre as verdades que se podem esperar de um e outro lado: mas confesse que dá jeito supor desde já que o PPC prevaricou, mesmo nos eventualmentes…

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  13. zazie permalink
    24 Setembro, 2014 23:04

    O antoninho xavier é que ficou em cuecas:

    http://portadaloja.blogspot.pt/2014/09/a-culpa-das-conspiracoes-o-sindroma-do.html

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  14. 25 Setembro, 2014 00:09

    jorgegabinete,22:51,

    Sei que não me visou com o comentário.
    Desconhecia o que ALXavier afirmou. Em parte tem razão, espero que ALX não omita outros casos que atingem o seu partido.
    De acordo consigo quanto ao caso Sócrates. Não incriminei PPCoelho, só quero e tenho o direito de saber toda a Verdade.

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  15. 25 Setembro, 2014 00:48

    “Mau maria” : a primeira página de hoje do Público não é animadora…

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  16. Algarvio permalink
    26 Setembro, 2014 16:47

    Além de que esses gestores ficarem com a vida estragada porque terão processos ás costas durante 20 ou trinta anos.
    Os filhos também são culpados porque não têm direito a bolsa de estudo porque os pais têm dividas fiscais.
    Pergunto então:
    Que culpa tem o filho do problema que assola o pai?

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  17. 26 Setembro, 2014 21:34

    Acho que ainda não fui claro (mea culpa): o 1º parágrafo deste post atenta contra o bom-nome de Pedro Passos Coelho e sustenta-se em nada. Mais grave: assenta as suas afirmações de existência de recebimentos ilegais/ilegítimos/imorais/censuráveis (será esta sempre a evolução da calúnia) em coisa nenhuma excepto a ignóbil convicção que “já se viu o filme todo”, não sustenta violações de estatuto que afirma e mais tarde reitera dissimuladamente ao invés de arrepiar: vergonhoso! Leva ainda pela trela os de triste hábito de aviltar porque sim, esclarecedor!
    Sendo isto do pior que já aqui li,e não estou habituado, pergunto-me se também tenho andado por aqui enganado?
    Pior que qualquer eventual saque fiscal (termo muito querido) é o completo saque à inteligência que são inflamações oportunistas (veja-se o que é demagogia) numa cruzada anti. Aguardam-se evidências que legitimem as supra funestas afirmações do autor, aguardam-se numa expectativa tumular, claro!

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