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o 25 de abril foram três revoluções

25 Abril, 2017
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30-(1)

A primeira, que hoje comemora 43 anos, derrubou um regime velho e caduco, que não se soubera modernizar e, pior que tudo, que não foi capaz de resolver politicamente uma guerra com treze anos e sem solução militar à vista. A guerra colonial foi, muito mais do que a questão democrática, o motivo principal que fez com que as Forças Armadas executassem um golpe de estado que, quase imediatamente, se transformou em revolução. Com excepção da tentativa do golpe de Botelho Moniz, em 61, Salazar conseguira sempre assegurar a lealdade das chefias militares, o que Marcello Caetano não foi capaz. A perda de Spínola e Costa Gomes, que surgem, na noite de 24 para 25 de Abril, como os chefes do movimento militar, foi fatal para o regime. A revolução só foi pacífica porque o regime deposto estava anquilosado e não teve reacção. Envelhecido por quarenta anos de salazarismo e por uma sucessão que se mostrou incapaz de cumprir a renovação que prometera e o país aguardava, já nem aqueles que o dirigiam acreditavam nele. O regime foi derrubado, mas não caiu: desfaleceu.

A segunda revolução só surpreendeu os incautos. Teve duas datas: o 28 de Setembro de 1974 e o 11 de Março do ano seguinte. Verdadeiramente, principiara logo uma semana depois do dia em que Marcello Caetano foi preso no Largo do Caldas, quando, no Dia do Trabalhador, o Dr. Cunhal explicou ao Dr. Soares e ao país que o entendeu, aquilo que ele queria dizer com «as mais amplas liberdades». Quem não ignorar a história, sabe que em qualquer revolução democrática, após o romantismo das primeiras intenções, conhece inevitavelmente um momento de radicalização para fazer triunfar a «verdadeira» revolução e partir os dentes aos «reaccionários». É esse o momento em que a escumalha tenta assaltar violentamente o poder e onde, se não houver reacção forte, se fazem os banhos de sangue. Sempre em nome das mais belas intenções e dos mais honestos propósitos. A Revolução Francesa, logo após 89, explica bem como é que essas coisas se fazem. E como infelizmente terminam. Para todos.

A reacção forte aos planos dos Dr. Cunhal veio de dentro e de fora do país, e corporizou-se no 25 de Novembro de 1975, verdadeiramente, o terceiro 25 de Abril, e aquele que instituiu a democracia e o Estado de direito em Portugal. De fora – pasme-se! – da própria União Soviética, que já tinha conseguido o que queria – as independências africanas – e não estava disposta a ceder aos ímpetos leninistas do seu agente em Lisboa, e provocar, com isso, um casus belli de consequências imprevisíveis com os EUA. O rectângulo peninsular não valia esse risco, e quem duvidar das verdadeiras intenções do Dr. Cunhal (que a pequena história tem feito passar por um poço de moderação e sensatez nestas alturas) que leia o livro do José Milhazes intitulado Cunhal, Brejnev e o 25 de Abril… A segunda reacção veio de dentro, do país profundo, e devemo-la a Mário Soares, Jaime Neves, Ramalho Eanes, Sá Carneiro, Emídio Guerreiro, Salgado Zenha, os homens que travaram o Partido Comunista e a radicalização revolucionária. Só com eles – e graças a eles – os propósitos iniciais da revolução foram cumpridos.

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25 comentários leave one →
  1. 25 Abril, 2017 20:43

    Sucinto e certeiro post !

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  2. PiErre permalink
    25 Abril, 2017 20:59

    Na lista dos nossos credores da 2ª reacção há nomes que estão a mais. Salvam-se Jaime Neves e Sá Carneiro. O resto é lixo.

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  3. carlos alberto ilharco permalink
    25 Abril, 2017 21:02

    Infelizmente há muito romantismo no post.
    Cunhal e a camarilha que o acompanhava, conseguiram naquele breve período cimentar todos os princípios da cartilha comunista.
    Hoje, Portugal ainda sofre na Constituição, no poder absolutista dos sindicatos onde bonzos se eternizam há quarenta anos, numa representação comunista e proto-comunista sem paralelo em nenhuma democracia ocidental os males desta orientação política.
    Num povo com meio milhão de analfabetos e certamente mais dois ou três milhões de analfabetos funcionais, eles conseguem com aquela tom de voz de padrecas continuar a prometer muitos sóis.
    Para amanhã.

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    • 25 Abril, 2017 21:21

      “Tá a ver” como os comunistas às vezes acertam ? É que amanhã está Sol em Portugal.

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      • carlos alberto ilharco permalink
        25 Abril, 2017 21:28

        Veremos.
        Prometer é a coisa em que eles são profissionais.
        Que haja gente que ainda acredite, para mim equivale-se ao milagre de Fátima.
        Aliás o Accu Weather para Massamá prevê nuvens bem grossas para quarta e quinta e chuvisco sexta e sábado.
        Acredito mais neles do que nos comunas.

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  4. 25 Abril, 2017 21:37

    CAIlharco,

    eu estava a ironizar, só isso. E viva a Cristina Ferreira que está boa como o milho !

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    • carlos alberto ilharco permalink
      25 Abril, 2017 22:05

      Nem de borla, imagino que será ela a gritar quando tem um orgasmo (se tiver).
      Pode ser dilacerante.

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      • 25 Abril, 2017 22:21

        CAIlharco,

        Vc. imaginou-se logo com uma maçaroca dentro e perante um orgasmo da moça… Eu só afirmei que está boa como o milho.

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  5. lucklucky permalink
    25 Abril, 2017 21:42

    ” os propósitos iniciais da revolução foram cumpridos.”

    Revolução ou Golpe?
    Os propósitos da revolução variavam com quem a fez.

    Os do PCP queriam o poder totalitário, para isso teríamos o fim da propriedade individual , o gulag em dezenas ou centenas de fortes de Peniche, e muitas parede para fuzilamentos sumários.
    O MRPP, UDP e restante extrema esquerda queriam o mesmo, os símbolos eram um pouco diferente. Talvez a maneira de assassinar fosse um pouco diferente também.

    O PS é o partido que mais se aproxima do Fascismo-União Nacional-Monarquia dos Privilégios e dos Favores e por isso domina o regime do 25 de Abril.

    O PSD e o CDS queriam parecer “modernos”. Só algumas das vezes sabiam o que não queriam.

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    • 25 Abril, 2017 21:45

      O PPD do FSá Carneiro sabia o que queria e era nessa época, moderno sem modernices tolas.

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  6. A. R permalink
    25 Abril, 2017 22:01

    Não esquecer o Cónego Melo: a sua coragem e determinação impediu que fossemos uma Cuba ibérica.

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  7. Luis permalink
    26 Abril, 2017 00:15

    Apesar de tudo, ainda hoje no Porto e arredores, oiço gente pobre, que vive em bairros sociais, dizer que o comunismo é algo mau. Votam PS, mas rejeitam o PCP e o BE. O mesmo não sucede nem nunca sucedeu no Alentejo, arredores de Lisboa ou em algumas terras algarvias. Um país? Só na língua…

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  8. Cipião Numantino da Boina, anti comunofóbico. permalink
    26 Abril, 2017 02:08

    Muito boa ficção.
    Já lhe compraram o guião, para fazer um filme?

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  9. Carlos Guerreiro permalink
    26 Abril, 2017 06:16

    Não houve nenhuma revolução. Houve um golpe de estado, mudaram-se apenas as moscas.
    No 25 de Novembro esquece-se do papel da Igreja Católica e do facto de o Jaime Neves ter sido impedido de o completar (as armas são para disparar, não são canteiros para flores)

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  10. Manuel permalink
    26 Abril, 2017 08:30

    Excelente narrativa, comprovada por quem viveu os acontecimentos. Penso que faltou uma recomendação, devemos permanecer vigilantes, pois o regime apresenta muita fragilidades e a sua insolvência crónica é o fermento para novas convulsões, a situação é muito parecida ao pré-28 de Maio de 1926, os partidos são problema e não solução; a unanimidade que se vive lembra os tempos da “união Nacional”, algo de muito grave se passa.

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  11. piscoiso permalink
    26 Abril, 2017 10:02

    E uma boa análise, Rui. Até a minha tia Rosmaninho gostou.

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  12. 26 Abril, 2017 12:12

    Caro Rui A.

    A sua ignorância é grande e nem ao nível do 12º ano está

    Houve , como toda a gente sabe, em 25 de abril uma revolução e três tentativas de contra revolução ( houve mais como o golpe Palma Carlos ) uma a 28 de setembro , outra a 11 de Março ( pode ver a reportagem da TV ao vivo) e outra a 25 de novembro.

    Sempre ao seu dispor

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  13. 26 Abril, 2017 12:35

    Caro Rui a.

    Esqueceu a primeira contra revolução o chamado golpe palaciano Palma Carlos . Foi assim ,A operação palaciana teve por palco o Conselho de Estado, onde, a 5 de Julho de 1974, Spínola apresentou para consideração posterior o plano golpista, alegadamente da iniciativa do primeiro-ministro.
    O plano compreendia os pontos capitais seguintes:
    – Adiamento das eleições para a Assembleia Constituinte até Novembro de 1976 (o Programa do MFA estabelecia que se realizassem no prazo de um ano, isto é até Abril de 1975, como realmente aconteceu).
    – Eleição do Presidente da República no prazo de três meses (o Programa do MFA estabelecia que esta eleição só se fizesse depois de aprovada e de acordo com a Constituição a elaborar pela Assembleia Constituinte, como também aconteceu, em Junho de 1976).
    – Realização de um referendo para aprovação de uma constituição provisória (matéria completamente alheia ao Programa do MFA).
    – Concessão de amplos poderes ao primeiro-ministro.

    Pode sempre consultar os respectivos arquivos para ficar melhor informado

    Sempre ao seu dispor para o ajudar a compreender a recente história de Portugal.

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  14. Arlindo da Costa permalink
    26 Abril, 2017 16:20

    Para mim foram quatro.

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  15. licas permalink
    26 Abril, 2017 20:05

    Otelo Saraiva de Carvalho
    ____________________Oh filho doMaputo!

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  16. Ruah permalink
    27 Abril, 2017 17:13

    43 anos, e são sempre os mesmo a descer a avenida da liberdade, exceto os que já partiram.
    Cada vez que oiço os tais libertadores, me arrepiam os…
    Dizem uns, falta cumprir abril porque há 80 que estão esquecidos.
    Mas Salgueiro Maia não disse que não queria favores de abril? de Capitão chegou a Coronel…
    Mas o Coronel que nem para Cabo servia, na lógica do General de Vila Real, não disse que gozava com os galões na Academia? Mas aguentaram-no lá para quê? Para agora comer à nossa custa.
    Desenganem-se aqueles sobre os direitos e os deveresque a liberade nos trouxe… Zero.
    Digualdades, desigualdades, desigualdades.
    Deixemo-nos de ser hipócritas.
    O País pouco ou nada evoluiu. Tentam-nos vedar um dos olhos da face esquerda e depois veda-nos o olho direito.
    Vivemos num País díspare. Uns trabalham e ao fim de 30 anos de trabalho aposentam-se com 250 €. Os revolucionários, aqueles que aos 26 anos chegavam a capitães, acharam fazer a revolução para chegarem a Coronéis ou Generais, num país que já não tem soldados rasos

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    • Luís permalink
      28 Abril, 2017 13:09

      Que idade é que você tem? E em que toca tem ficado escondido?

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  17. Jorge permalink
    28 Abril, 2017 11:08

    Marcelo Caetano foi preso no Largo do Carmo, ainda não tinha aderido ao CDS.

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