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O Galambismo

3 Maio, 2017

Há uma nova corrente ideológica “made in” Portugal. Depois do comunismo, liberalismo, socialismo e outros tantos “ismos”, eis que neste nobre país de descobridores, inventou-se o Galambismo. O conceito é simples: defender qualquer coisa hoje (mesmo que indefensável) para contradizer amanhã se for necessário, consoante os ventos e as marés, usando todos os argumentos à mão por muito ridículos que sejam, fazendo-os parecer válidos e inteligentes, nem que seja à custa do insulto ou rebaixamento intelectual do opositor. Esta nova ideologia política, inspirada noutra já extinta, o Socratismo, despontou para servir a Geringonça na sua propaganda política. Serve essencialmente para propagar ideias feitas, por vezes sem nexo, para delas fazer umas “grandes verdades”  depois de repetidas até à exaustão. Confusos? Eu explico.

Num exemplo prático, é a mesma teoria de que se servem os nossos queridos adolescentes lá em casa quando, querendo fazer valer seus “direitos”, apanhados em falso a mentirem ou a fazerem asneiras,  argumentam tudo e mais alguma coisa para nos convencerem a mudar de ideias ou a justificarem o acto ilícito, usando explicações que vão da estória da Carochinha à do Robin dos Bosques, sem pestanejarem e convictos que estão a ter um discurso “mega” inteligente, válido e coerente. Estão a ver o filme? Quem é pai destes “piquenos” sabe do que falo.

O Galambismo é a consequência de vir directamente das universidades para o Parlamento sem passar pela dureza da vida activa, o que leva estes adultos a viverem num estado permanente “da adolescência”, protegidos pelo “lar” que os “acolheu”, sem nunca terem tido possibilidade de crescer em experiências profissionais  à custa da severidade do dia a dia dos comuns mortais.

Sem conhecimento de causa no terreno, os Galambistas, essas criaturas ainda na “puberdade profissional”,  conseguem defender, por exemplo,  que a sustentabilidade da dívida pública se resolve com o aumento dos dividendos pagos pelo Banco Portugal ao Estado. E dizem-no com o ar mais sério do mundo. Ora, sabendo que se o BP não constituísse mais provisões até 2023  o Estado arrecadaria 5,75 mil milhões de euros, estes  apenas dariam fôlego para 7 meses tendo em conta que em 2016 a dívida pública aumentou 9,5 mil milhões!!! E continua a aumentar… No fundo é o mesmo que pôr um penso rápido numa hemorragia arterial.

Se queremos recuperar a nossa soberania temos de seguir outros caminhos que ponham fim ao descontrolo  da dívida pública e consequentemente conseguir baixá-la com reformas estruturais corajosas. Estancar o mal definindo na nossa Constituição um tecto para o endividamento para que não haja possibilidade de derrapagens inesperadas futuras. Cumprir com as amortizações. E depois, com um percurso  a não falhar com as nossas obrigações, não faltará espaço para negociações num futuro próximo com as instituições europeias no âmbito de uma possível reestruturação da dívida, devidamente apoiada pelos nossos credores.  Quem não se lembra das palavras de Schauble sussurradas a Gaspar onde lhe prometiam mais ajuda se fosse preciso? Porque sem a confiança de quem nos emprestou, confiança essa que só se consegue demonstrando vontade em honrar acordos (como foi o caso de Vítor Gaspar  e Maria Luis Albuquerque) jamais conseguiremos recuperar a soberania que perdemos por termos desfalcado as finanças do país. É preciso não esquecer que se estamos hoje  nas mãos dos credores foi porque levamos o país por 3 vezes a uma pré-falência. É obra! Só isto já nos coloca numa posição de desconfiança. Se juntarmos, “relatórios de sustentabilidade da treta”, numa altura em que se reverteu tudo e mais alguma coisa sem critérios nem almofada financeira, temos o cenário ideal para que todas as agências de rating e investidores sintonizem os radares na posição de “perigo à vista”.

O problema dos Galambistas é que, por muito que se explique isto, jamais entenderão devido à sua natureza de cigarras que planeia tudo para o curto prazo. Não conseguem ter uma atitude de poupança para prevenir futuras intempéries. Tudo é pensado ao momento e depois logo se vê. Acontece que ninguém sabe o que vai acontecer quando o BCE deixar de comprar dívida portuguesa e num futuro tão incerto, é importante o país ter uma boa almofada financeira. Já sabemos que cabe ao Estado português as decisões sobre as provisões mas cabe também ao Estado evitar tomar posições que não resolvem absolutamente nada em termos estruturais, só pontuais, recorrendo DE NOVO a medidas extraordinárias para resolver uma questão que não sabe ou não quer resolver: o aumento galopante da dívida pública portuguesa.

Ir às provisões do Banco de Portugal é fazer cosmética com as poupanças do país.

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23 comentários leave one →
  1. Manuel permalink
    3 Maio, 2017 17:32

    Brilhante texto.

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  2. Manuel Assis Teixeira permalink
    3 Maio, 2017 17:43

    E temos mesmo que os aturar? Já não consigo mesmo! Os Galambas as Mortaguas e outros palermas, politicos ou comentadores! Debitando cassetes, mais elaboradas é certo, mais pós modernas, seguramente, mais ” casual chic gauche” é claro! Mas não deixaram de ser cassetes! Já não são da feira de Carcavelos, são do Principe Real ou do Cais do Sodré mas são cassetes ! A direita está a ser muito castigada mesmo… só pode ser vingança! Na verdade tambem lhes inpingimos os Relvas os Marcos Antonios os Joãos Almeidas! É vingança! Temos que estar preparados!

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  3. Barão Marquês permalink
    3 Maio, 2017 18:35

    Galambismo não existe, o que há é uma marcha de carregadores com Costa ás Costas em que para além dos serventes da caseiros e arregimentados publicadores de engodos e esgotos, até Marcelo entra e se verga a cada passada.
    No rol de excessos deste pastorinho presidente, entre palpites e aparições, consta a inaceitável declaração sobre cenários de lideranças partidárias a propósito do actual líder do próprio partido, admitindo que até pode continuar.
    O que não deveria admitir é que um Costa fanfarrão depois de assaltar o poder se eleve a dono do parlamento, ditando as próprias regras para o que deve ou não deve explicar e impondo o próprio conceito para o que não lhe convém responder. Tudo isto enquanto se vai domando perante os que lhe amparam o andor, ou iludindo as situações com piruetas mais próprias para banda desenhada de traço infantil.
    Sem pudor, é com toda esta amalgama de contrafeitos que o Sr. presidente vai pactuando. Tudo bem, só se for na salvaguarda do seu palácio.

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  4. Tiro ao Alvo permalink
    3 Maio, 2017 19:24

    O Galamba já ouviu das boas, mas não aprende. Hoje, no Observador, leva amis umas boas palmadas do Aguiar-Conraria: http://observador.pt/opiniao/uma-proposta-mesmo-radical-para-reduzir-o-peso-da-divida/

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  5. 3 Maio, 2017 19:36

    Deveria ser obrigatório um X mínimo de anos de experiência laboral antes de poder servir como deputado; um X mínimo que fosse equivalente ao salário que os governantes e os deputado(a)s ganham, porque “vida partidária” não é uma aceitável competência laboral para quem gere e decide sobre o rumo das nossas vidas.

    Dou um simples exemplo: para ingressar numa carreira pública como assessor parlamentar é necessário ter no mínimo um Mestrado com uma licenciatura pré-bolonha, ser fluente numa língua estrangeira (Inglés, que com o Brexit quero ver se se mantém como uma língua oficial), demonstrar conhecimentos avançados de ferramentas de trabalho como o Excel, Word, Powerpoint, Outlook, etc, mais uma prova de conhecimentos variadissimos sobre procedimentos e regimentos parlamentares sem fim que verdade seja dita podem ser fácilmente procurados com o Google ou um Ctrl+F num nesses documentos em PDF. É tudo isso e mais uma entrevista com o mínimo de 3 pessoas, para quiçá, com sorte, vir a ganhar metade do que os deputados recebem, entrevista que serve para relatar e discutir um currículo, que pela primeira vez é avaliado de facto (dado que todos hoje em dia exageram os seus CVs, já ninguém acredita o que lá anda, e cursos e diplomas já não são validação de nada pois a cábula é o prato do dia nas faculdades).

    Do outro lado, a única coisa que os deputados têm que demonstrar é uma capacidade sobre humana de engolir sapos ao longo de anos, abandonar princípios e valores individuais em prol dos interesses dos “partido” e da sua “liderança”, para pouco a pouco ir conquistando posições, começando pelos órgãos internos do partido, passando para as autarquias e com sorte, consoante a direção do vento, o governo ou o parlamento. A meritocracia que aqui reina é a de quem consegue aguentar anos de humilhação ao indivíduo. Aonde as pessoas que de facto pensam por si, que são de facto os melhores que a nossa sociedade conseguiu produzir, que têm a vontade, a dignidade e quiçá uma gota valiosa de ingenuidade idealista para servir o nosso país/mundo, são esmifrados, humilhados e pontapeados, vítimas das politiquices, inveja e maquinações intrapartidárias para filtrar todas as ideias alheias e estranhas ao dogma interno. Tudo o que é novo, moderno, diferente, inovador, competente, com ideais vai porta fora porque não estão para aguentar tal tratamento por pessoas em quem não reconhecem serem merecedoras do seu respeito, e mais, do seu tempo.

    Este fenómeno não é único a um só partido, e onde este Galambismo surge, os outros partidos não estão imunes, de longe! Maldito seria eu em tentar generalizar, pois tenho a certeza que existem umas poucas aves raras espalhadas por entre os 230 que têm de facto uma resistência de aço à brutalidade do graxismo perpétuo e da interceirisse constante da vida partidária, e que de facto estão a tentar zelar pelos maiores interesses do país. Mas o que é que isso serve quando têm que votar em linha com o partido, por vezes contra as suas convicções?

    Mas à pergunta “porque é que os jovens não se interessam pela política”, eu respondo que muitos já passaram por lá, e que muitos viraram as costas devido às extremas injustiças que por lá são praticadas, e o clima praxista e humilhante que lá se vive. Falam da meritocracia, mas o único mérito que é dado é quem sabe acenar e seguir em fila e servir como alguém que preenche as cadeiras em comícios e afins.

    Mas quem sou eu para me queixar, pois também me fartei e procurei outras maneiras para de facto servir, para de facto contribuir. Garanto que existem muitos cidadãos assim e é só uma questão de perguntar por aí que vos garanto que irão encontra eco ao que digo. O problema é que assim a coisa não vai a lado nenhum, e não podemos esperar que os que lá estão tenham o altruísmo e patriotismo necessário para reformar e contrariar o sistema em que são eles os principais beneficiários. É óbvio que não irão reformar o sistema a não ser de uma maneira que os possa beneficiar também. Então o que fazer? No mínimo discutir e tentar influenciar qualquer tipo de mudança.

    A minha grande dificuldade com isto tudo é que o esquema está montado de uma maneira de facto muito inteligente, que impossibilita que os melhores, os mais competentes, os mais experientes, os que têm de facto noção do que se passa com a maioria das pessoas, são empurrados para o lado, abrindo única e exclusivamente o caminho a quem quer jogar o jogo com as regras que foram préviamente estabelecidas, colocando por lá dirigentes que têm muita pouca noção da arrogância que demonstram, do quão flácido é o seu elitismo, e da falsa prepotência com que emitem as suas opiniões.

    Não interessa a cor da bandeira, se voa para a esquerda ou para a direita, estamos num século em que não podemos operar sobre princípios e regras desenhadas no século passado, baseado num sistema desenvolvido há séculos, com ideias que hoje em dia são vocalizadas mas não sentidas.

    Indignei-me…

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    • Cristina Miranda permalink
      4 Maio, 2017 09:24

      Excelente! Subscrevo cada linha. Sou precisamente 1 dessas q descreveu é muito bem!

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      • 4 Maio, 2017 15:55

        E como fazemos então? Denunciar e escrever como a Cristina já é meio caminho andado, mas qual será o limite da nossa indignação?

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      • Cristina Miranda permalink
        4 Maio, 2017 17:47

        Neste momento vou dar andamento a 1 canal no you tube. Desde que descobri com 1 texto que acidentalmente se tornou viral e notícia, acredito na força da palavra como forma de motivar e acordar consciências para 1 cidadania mais activa e exigente. Acredito na mudança. Dá trabalho. Muito trabalho. Mas temos de começar onde está o mal: nas pessoas. Despertar as pessoas para que sejam mais interventivas. É por aí que eu começo.

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    • Viriato de Viseu permalink
      4 Maio, 2017 13:53

      Assino por baixo.

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    • Tiro ao Alvo permalink
      5 Maio, 2017 20:54

      Inteiramente de acordo, miguelgalaz.
      Isto mudaria um bocado se, pelo menos, metade dos deputados fossem eleitos em círculos uninominais, garantindo-se a proporcionalidade com um círculo nacional. Mas, como sabe, a maioria dos actuais não quer, exactamente pelas razões que o miguelgalaz aduziu.

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  6. PiErre permalink
    3 Maio, 2017 19:56

    O Socratismo não foi extinto. A ideologia existe e resume-se a isto: – A dívida soberana não se paga, empurra-se com a barriga.

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  7. Elmano permalink
    3 Maio, 2017 20:21

    Excelente artigo Cristina (desculpe a intimidade, não a conheço, mas admiro-a). Traçou um retrato fiel duma pessoas onde o bom senso não impera. Tenho vindo sempre a dizer, desde Sócrates e agora com os seus herdeiros, que estamos lixados, para não dizer outra coisa.

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  8. José Domingos permalink
    3 Maio, 2017 22:05

    Mais uma vez, um bom artigo, sobre um fulano, que não sei porquê, faz-me lembrar o pinto de sousa, de má memória, que ainda lhe vão arranjando espaço (frete), para dar opinião.
    Faz-me lembrar outra eminência parda, cá do burgo, que escrevia num jornal da Madeira, a quem chamavam o tontinho, se bem me lembro, o jornal era do tio. E era só loas ao Marcelo Caetano e afins.
    Os democratas do 26A.
    Agora o fulano, em questão, é mais um dos iluminados, que falam sobre tudo, acreditam no que dizem e não admitem serem questionados, porque são donos da verdade e principalmente, são de esquerda, dizem eles.
    Claro que nunca fizeram nada na vida.

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  9. Arlindo da Costa permalink
    3 Maio, 2017 22:48

    Galambismo é sinal de resistência, viabialidade e lucidez. Ao contrário do neo-comunismo do Sr. dos Passos.

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  10. Viriato de Viseu permalink
    4 Maio, 2017 13:56

    A continuar a escrever desta maneira, a Cristina arrisca-se a ganhar o PULITZER !!!

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  11. ABC permalink
    4 Maio, 2017 15:08

    A política tornou-se um feudo dos profissionais da política. Mesmo que não tenham a menor idéia do que é a realidade, a verdade é que se sabem governar a si próprios cada vez melhor. O resto é paisagem.

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  12. Arlindo da Costa permalink
    4 Maio, 2017 19:53

    A ilustre autora do post bem pode fazer (também) umas teses ou uns ensaios políticos sobre o Relvismo, sobre o Marcoantonismo ou mesmo sobre o Passismo de Massamá, ideologias políticas que competem directamente com o Integralismo Lusitano ou mesmo com o Marxismo-Grouchismo.
    Vou estar atento a essas investigações.
    Cpmts,
    AdaC

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  13. Cipião Numantino da Boina, anti comunofóbico. permalink
    5 Maio, 2017 01:42

    É bom não esquecer a amplitude que o parvoismo pafioso tem vindo a ganhar, desde 26/11/2015.
    Já é hoje um caso de estudo.

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  14. TheBones permalink
    5 Maio, 2017 23:06

    Ja tinha ouvido falar do Culambismo, pratica muito vulgar em terras lusas e que permitem auferir bons rendimentos e progressão fácil e rápida dos “mais” capazes da sociedade, mas do Galambismo é a primeira vez…imagino que sejam ismos dos mesmo saco!

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