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A falta de Fé da Igreja

2 Março, 2019

Ontem à noite fui para a cama mais tarde do que é meu costume.

A quebra da rotina foi plenamente justificada e com gosto assisti a uma conversa pública no Porto, organizada por um grupo de leigos católicos, sobre a relação do Liberalismo com a Doutrina Social da Igreja.

A iniciativa e a abertura para discutir estes temas por quem promoveu e acolheu a sessão é desde logo notável e de louvar, além de terem sido simpáticos anfitriões e de hospitalidade irrepreensível.

Todavia, saí de lá irritado.

Neste encontro falou-se com qualidade e conhecimento de causa de muitíssimo mais do que aquilo que aqui vos darei nota a seguir e, portanto, devo desde já referir que não pretendo fazer uma súmula ou um relato completo do evento. Tão só partilharei convosco aquilo a que fui particularmente sensível e que para mim marcou toda esta reunião de gente genuinamente boa.

Lá se afirmou (e bem) que para a Igreja o que mais importa é acudir e resgatar da pobreza todas e cada uma das pessoas que a sofre na pele. Porém toda a narrativa em que foi, é e continuará a ser enquadrado este desiderato, é fortemente carregada – se não mesmo centrada – na condenação moral das desigualdades. Haverá com certeza dentro da Igreja diferentes formas de ver e interpretar a realidade e segundo julgo saber a hierarquia não terá definido uma posição concreta e dogmática a este propósito. Contudo, em geral, os estudiosos dos Evangelhos, os especialistas que se dedicam à análise das encíclicas papais, teólogos e académicos de diferentes áreas não divergem muito ao interpretar as referências bíblicas aos ricos como uma condenação das desigualdades em si mesmas. E no encontro em que participei um dos oradores convidados disse de forma clara e inequívoca que o catolicismo entende que as desigualdades geram pobreza.

Em Janeiro de 2014 já procurei desmontar estas falácias e expôr o meu entendimento de que a luta contra a desigualdade prejudica os pobres, tendo precisamente o efeito contrário aquilo que é pretendido.

Mais recentemente expliquei também por que razão acho que o estado-social é imoral.

Do que ouvi ontem, confirmei infelizmente a minha percepção de que a Igreja, através da sua Doutrina Social, pugna para que o Estado assuma um papel de redistribuidor de riqueza, atribui ao Estado deveres de educação das pessoas para a solidariedade e é complacente com o Estado ser agente de actividade caritativa.

Mas o que verdadeiramente me irritou foi ter percebido também que os crentes, em geral, e os “doutores da Igreja”, em particular, não acreditam que, de forma espontânea, na sociedade se possa gerar actos de caridade, originar laços de solidariedade, estabelecer cooperação voluntária e criar formas de apoio ao próximo com suficiente eficácia e na escala necessária.

Quando Adam Smith parece atribuir à sua “mão-invisível” um valor transcendental, contrista-me concluir do que acima expus que a Igreja sofre de falta de Fé em Deus e nos Homens.

Tal como o socialismo.

 

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25 comentários leave one →
  1. 2 Março, 2019 00:58

    Estou de acordo com o combate às “desigualdades” da igreja.
    Agora cada vez que entrar numa, vou mandar abaixo todos os altares que coloquem figuras humanas divinizadas acima da minha pobre alma mortal. E quando me vierem pedir satisfações dir-lhes-ei, que estou a “combater a pobreza”. E que a entidade suprema deles a quem eles se ajoelham, pode ir mas é dar banho ao cão.

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  2. Arlindo da Costa permalink
    2 Março, 2019 02:47

    Há séculos que a Igreja combate a doutrina de Jesus Cristo. Isso já é histórico…

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  3. Sem Norte permalink
    2 Março, 2019 04:46

    A melhor forma de combater o socialismo é deixar ele continuar a vencer, só assim o povinho descobre quem mais defende os realmente pobres. Ainda não viram reportagens sobre a Venezuela onde várias pessoas assumem perante as câmaras que votaram chavez e maduro e agora são os maiores defensores do capitalismo?

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  4. Andre Miguel permalink
    2 Março, 2019 07:58

    A Igreja sempre teve e, infelizmente, ainda tem essa postura como forma de manter o controlo social, como estrutura que é, feita e alimentada por homens (e mulheres e coisos, que hoje em dia não podemos discriminar).
    No entanto a Igreja é muito mais que as vontades e desejos daqueles que a dirigem, que, como seres humanos que são, estão carregados de defeitos. Por isso tivemos Kierkegaard a afirmar que “a existência de homens livres diantes de Deus, foi a cruz que a filosofia moderna não conseguiu suportar”, depois tivemos Nietzsche e o seu feroz e certeiro ataque à Igreja dos homens (e não de Deus como muitos pensam) e também por isso foi Tolstoi excomungado (por desafiar canones impostos por homens e não por Deus). E temos hoje Jordan Peterson, no 12 Rules for Live, a fazer interpretações da Bíblia que deviam envergonhar qualquer teólogo. Por isso tenhamos esperança. Quiçá um dia as pessoas percebam de uma vez por todas porque Jesus Cristo dizia tantas vezes: “faz a tua escolha”…

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    • 2 Março, 2019 10:01

      Porque motivo as interpretações do Peterson deviam envergonhar qualquer teólogo.
      Li de relance as 12 regras e até me pareceu bem pertinente e com uma boa leitura do Antigo Testamento.

      Leu o livro?

      Não sei de onde vem tanta animosidade contra o psicólogo. Ele é sincero, pensa de verdade as questões e dá guias úteis para quem tem problemas.

      Quanto muito tem trauma a mais com o holocausto, Mas isso é ao lado.
      A leitura do Antigo Testamento e o modo de a usar para aconselhar comportamentos, foi até o que lhe achei mais pertinente.

      Considerei mesmo muito pertinente esse regresso ao Antigo Testamento, já que a Igreja Católica anda demasiado frouxa e é sempre tudo absolvido com beijinhos.

      Ele regressa ao Antigo Testamento dos profetas. Não ao da lei da Thora.

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      • Andre Miguel permalink
        3 Março, 2019 11:49

        Li e adorei. Não tenho animosidade alguma.

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  5. Velho do Restelo permalink
    2 Março, 2019 09:40

    Primeiro, é muito difícil enriquecer sendo católico (à séria)!
    Ainda que o consiga, das duas uma :
    – Ou se afasta do catolicismo para poder manter a sua “riqueza”.
    – Ou partilha a sua riqueza com os mais necessitados, e deixa de ser rico.
    Talvez o Telmo tenha demasiada fé nos homens, quanto a Deus não comento porque desconheço.

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    • 2 Março, 2019 09:52

      Enriquecer à séria só herdando e pode ser excelente pessoa.

      Por iniciativa própria, basta entrar na idade adulta para qualquer um ter oportunidades para se estragar.

      Estragam-se mais facilmente aqueles que apenas temem ser apanhados pela polícia, já que com a Justiça a coisa pode ser contornada.

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    • 2 Março, 2019 09:55

      E nem é preciso falar na Igreja (no sentido de Vaticano). a Eclesia é mais que isso.
      Bastaria falar-se em acreditar em Deus.

      Quem acredita, necessariamente tem um imperativo moral com maior fundamentação que quem não acredita.
      Daí não se pode retirar que um ateu não seja um ser humano melhor formado que um crente.
      Mas pode-se retirar que sem temor na consciência, todos estão mais libertos para se lixarem uns aos outros,

      A moral é em parte inata e em parte adquirida. Por alguma razão existem tantos ateus a colocarem os filhos a estudar em colégios católicos (ou religiosos)

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  6. 2 Março, 2019 09:50

    A Igreja não passa atestados de pobreza. Isso é a Junta de Freguesia.

    Quanto muito ensina a todos a caridade.

    Debaixo do manto da Virgem da Misericórdia sempre se representaram todos os grupos sociais.

    Mas é verdade que desde o Vaticano II a coisa tendeu a ser escardalha e acho que até já negam o Inferno, o Diabo e o resto é simbólico, para não perturbar a cientóinice iluminada em vigor

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  7. Mario Figueiredo permalink
    2 Março, 2019 09:57

    O Telmo diz que não sabe se a igreja tomou uma posição dogmática acerca do assunto e o comuna do Arlindo logo vem envenenar o poço ao afirmar que a Igreja se afastou de Jesus.

    Bom, Jesus e S. Paulo foram categóricos na necessidade de pagar impostos aos Romanos. E Jesus em particular deixou claro que também não se pode discutir o pagamento de impostos à luz de bons ou maus impérios. Não pagar impostos é um pecado. É esta a posição oficial da Igreja que está presente inclusivamente no actual Catecismo.

    A Igreja sempre tomou uma posição de redistribuição da riqueza patrocinada pelo Estado. Devias estar feliz, ó Arlindo. Mas eu sei porque não estás. A Igreja é bem melhor do que vocês a juntar o rebanho.

    Não me choca o Socialismo patente na Igreja. Existem muitos outros e mais importantes aspectos no Catolicismo que merecem ser celebrados. Esta ainda é, com todos os seus defeitos, conservadora.

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    • Mario Figueiredo permalink
      2 Março, 2019 10:01

      E a Zazie tocou no ponto central do meu último parágrafo. A grande orientação da Igreja é a Caridade. convém lembrar de cada vez que nos insurgirmos contra a sua doutrina social.

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      • 2 Março, 2019 10:03

        Sim. claro. A caridade é individual. A caridade não se substitui por essa palavra jacobina e mal-cheirosa da “solidariedade social”.

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      • 2 Março, 2019 10:07

        Os jacobinos é que retiraram a caridade ao substituírem os padres pelos políticos do partido.

        O grande problema foi mesmo esse- as pessoas passarem a ter a doutrina polícia e a esmola da Segurança Social e a polícia, em vez da Igreja onde tudo o que era comunitário se tratava primeiro.

        Ainda acontece assim no interior e nas Ilhas e mesmo em bairros citadinos e essa é a única grande mais valia que ainda temos.

        Em matando isso, podem fazer harakiri à sociedade Ocidental- fica entregue aos que não abdicaram dessa enorme base social.

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      • 2 Março, 2019 10:08

        Queria dizer a “doutrina política”. No lugar da religiosa.

        O marxismo ateu e materialista entrou em todo o lado. Incluindo no liberalismo…

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    • Cristóvão permalink
      4 Março, 2019 17:21

      Salvo erro, e corrija-me se estiver enganado, o pecado está em fugir aos impostos. Em lado nenhum me lembro de ler a defesa de impostos ou a sua necessidade por parte de Jesus e seus discípulos.

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      • Mario Figueiredo permalink
        4 Março, 2019 19:53

        Correcto. Será nossa obrigação como Cristãos pagar os impostos devidos. Muitas das razões para isto são encontrado nas Cartas. Em particular “Romanos”. Mas se existe uma razão que eu aprecio acima de todas as outras é “Não devas nada a ninguém, excepto amor”. Só por causa disto já me encontro no grupo dos pecadores, Mas enfim…

        Já o nosso dever de lutar por um mundo melhor e mais justo que inclua entre outras coisas a redução dos impostos e do peso do estado, isso está espalhado por toda a Bíblia. Na verdade, faz parte do dever de qualquer Cristão pelo amor que tem a Deus e ao próximo.

        Como Ateu que sou pode achar estranho que saiba estas coisas. Na verdade, para além de ter sido criado por um pai e uma mãe devotos, a introdução do tema das taxas no Catecismo Português lá para meados da década de 90 foi um dos catalisadores do meu abandono da Igreja. Pertencia na altura a um grupo de jovens Salesianos e era também catequista do 1º e 2º livros.

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  8. Mario Figueiredo permalink
    2 Março, 2019 10:13

    Bem dito. Esse é realmente o grande problema. A substituição da doutrina da caridade pela doutrina politica da segurança social

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  9. Contumaz permalink
    2 Março, 2019 10:52

    Tretas!

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  10. 2 Março, 2019 12:21

    E não se informa do autor deste quadro que faz parar qualquer um na primeira vez que o vê?

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  11. Artista Português permalink
    4 Março, 2019 09:00

    Eu cá só sei que, desde que a palavra socialismo entrou na Constituição, nunca mais as desigualdades deixaram de intensificar-se. Basta ler as estatísticas…e os adeptos do socialismo, tudo a enriquecer à custa dos outros, não à custa de esforço e trabalho. Vejam-se os exemplos dos Sócrates, dos Varas, dos Robles, dos genros dos Jerónimos. É sempre à custa de artimanhas e de truques.

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  12. Cristóvão permalink
    4 Março, 2019 17:28

    “Mas o que verdadeiramente me irritou foi ter percebido também que os crentes, em geral, e os “doutores da Igreja”, em particular, não acreditam que, de forma espontânea, na sociedade se possa gerar actos de caridade, originar laços de solidariedade, estabelecer cooperação voluntária e criar formas de apoio ao próximo com suficiente eficácia e na escala necessária.”

    Como católico, sinto a mesma irritação pois é algo que se vê em muito lado (mas não em todos, felizmente. Já tive a oportunidade de ouvir muito padre a expor essa falácia). Até porque a ICAR devia ser exactamente isso que descreve, até porque começou assim. Uma associação de cooperação voluntária que origina actos de caridade, solidariedade e formas de apoio ao próximo, com a particularidade de espalhar a palavra de Deus.

    Muita gente infelizmente acha legítimo descartar a sua responsabilidade individual e empurrá-la para o Estado (que não é, nem nunca, foi responsável).

    https://pbs.twimg.com/media/DV8kd40W0AU_Z5D.jpg:large

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  13. Velho do Restelo permalink
    4 Março, 2019 18:12

    Esta questão da “caridade” fez-me lembrar um debate na década de 80, em que Mário Soares justificava a recusa da profissionalização aos BV com o seguinte argumento:
    – O altruísmo é uma característica do povo português, que se perderia com a profissionalização dos bombeiros.
    Claro que a razão era (e ainda é) a falta de dinheiro, e para quê criar mais impostos, se o povo já está habituado a contribuir “voluntáriamente” para essas necessidades?
    Não é necessário grande poder de abstração para ver a semelhança entre os dois casos.
    Além disso, a “caridade”, bem utilizada é um instrumento de captação de votos a não descurar. Até o pateta de Pedrógão sabe disso, e nem precisou de “fazer caridade”, bastou assumir aquela posição de “quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é burro ou não tem arte”, e que artista ele é …

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  14. Carlos Santos permalink
    4 Março, 2019 22:17

    Não sei que especialista ouviu em Doutrina Social da Igreja, mas pela amostra esteve a perder tempo.

    Ouça o João César das Neves ou o Pedro Arroja.

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  15. Hugo permalink
    7 Março, 2019 21:01

    Ouvidos diferentes, diferentes interpretações. A Doutrina social da Igreja não tem nada a ver com a interpretação a que chegou. Concordo inteiramente com o Carlos Santos. Sobretudo no que ao Prof. César das Neves diz respeito.

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