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A questão da verdadeira questão que nunca é a questão que devia ser

25 Agosto, 2019

A contestação ao despacho sobre os alunos transexuais revelou duas coisas: uma que existe capacidade de contestação à ditadura das causas. Outra que essa contestação está armadilhada.  Há décadas uma parte da sociedade começou por alienar o seu direito a impor questões chegando-se ao presente paradoxo de termos agora como as verdadeiras questões as questões outrora classificadas como falsas: a violência doméstica antes de se ter tornado na presente arma de arremesso contra o heteropatriarcado branco foi apresentada, pelos gestores da verdade das questões, como um drama de faca e alguidar que nem valia a pena abordar porque a luta de classes resolveria esses desvios pequeno-burgueses. Idem para a defesa do ambiente em que a solidariedade socialista com “mon ami Mitterrand” levou até a que Portugal tenha praticamente silenciado o assassínio, em 1985, pelos serviços secretos franceses, do fotógrafo português Fernando Pereira, activista do Greenpeace. E no caso dos refugiados, os mesmos – e em alguns casos são rigorosa e fisicamente os mesmos – que em 1975, em nome do apoio à descolonização, tentaram impedir portugueses brancos e negros de deixar África agora se pudessem transferiam a população dessa mesma África para a Europa.

Sim, chegámos aqui porque enquanto uma parte da sociedade foi recuando porque as suas questões nunca eram as verdadeiras questões, a outra conseguiu impor não só as suas questões como também fazê-lo a  um ritmo cada vez mais alucinante. Mal se sai de um assunto-causa já outro aí está e assim sucessivamente sem que haja tempo para reflectir no que se acabou de aprovar. Se por acaso um escolho se levanta nessa marcha logo somos avisados, como aconteceu no caso da eutanásia, que “haverá lei”.

Ao contrário do que escreveu o Miguel Pinheiro a propósito do Despacho n.º 7247/2019, acho que de facto existe uma guerra cultural. Ou melhor uma situação de controlo cultural de que a estupefação por este despacho ter sido contestado é um sinal.

Com a esquerda a fazer a apologia das contas em dia e a sociedade portuguesa a ficar aprisionada na tenaz de uma ditadura fiscal versus um Estado que não assegura os serviços mínimos aos cidadãos, a oligarquia já nem esconde ao que vem: “Bloco quer mais funcionários públicos e quotas por raça nas universidades”; “António Costa: Vou analisar o parecer [da PGR sobre as incompatibilidades] e, se concordar homologo, se não concordar não homologo”… a armadilha da verdadeira questão tornou-se no instrumento de controlo do pensamento não alinhado. Mas se à primeira todos caem e à segunda só cai quem quer, à terceira só cai quem é parvo.

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4 comentários leave one →
  1. Manuel Assis Teixeira permalink
    25 Agosto, 2019 10:04

    Uma enorme verdade! Muito bom! Mas uma prova da teia em que estamos enredados!

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  2. 25 Agosto, 2019 10:09

    Desalinhados de todo o Mundo, uni-vos! … foi o maior estratega desses esquerdalhos que nos ensinou …

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  3. Jorge MRA permalink
    25 Agosto, 2019 21:37

    Mas parvos acéfalos em Portugal é o que não falta D. Helena!

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  4. abrolhos permalink
    25 Agosto, 2019 21:59

    Excelente artigo. Parabéns.

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