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Um último momento Avante! antes de seguirmos com as nossas vidas

11 Novembro, 2019

To see and to act in advance, to follow new ways, is always the concern only of the few, the leaders.

— in “Socialism: an Economic and Sociological Analysis”, Ludwig von Mises, 1951 [trad. J. Kahane B.Sc. (Econ.)]

Ontem, com a publicação do texto “Da Direita e das direitas” de Jaime Nogueira Pinto, os pequenos circuitos de opinião de onde tenho assistido a tudo oscilaram entre a admiração sem reservas e a crítica à forma como os liberais foram caracterizados, em particular pela utilização de termos como “ultraliberais”, considerando-o uma assimilação do cânone lexical esquerdista com todos os perigos daí decorrentes para subsequentes conclusões.

De facto, e muito especificamente em Portugal, o que se designou por “os liberais” destas últimas décadas foi uma massa homogénea de (poucas) pessoas unidas pela ideia comum de que excesso de intervenção governamental é prejudicial para o desenvolvimento económico e, consequentemente, detrimental para a liberdade. Uns mais preocupados com a soberania do indivíduo sobre as convenções sociais (como irónicos herdeiros da noção de corrupção moral da classe burguesa), outros com a preocupação da legitimidade governamental ter que assentar em pressupostos institucionais como a autoridade reconhecida ao estado e a sua separação de poderes para a implementação de políticas públicas, outros ainda com a igualitária concessão de direitos (podemos chamar-lhes marxistas morais se os quisermos ofender) e ainda os tipicamente jacobinos, os individualistas, os anarquistas, alguns niilistas, alguns trapezistas que encontram na estética libertária um meio de marketing fresco para alcançar poder, progressistas mileniais apanhados no cisma entre ateísmo e a razão, alguns conservadores não reaccionários frequentemente ultramontanos e órfãos de clique, reaccionários, objectivistas randianos, adolescentes confusos após leitura de “The Fountainhead” e uma (pequena) horda de benéficos malucos com a extravagância de pensarem fora da norma que interpretam o liberalismo como laissez faire puro, não laissez décréter. Para que conste, alguns dos grupos sobrepõem-se, ou seja, uma pessoa é isto e aquilo, não é uma coisa só em exclusivo. Eu próprio sou um bocado de tudo isso e mais ainda.

One loves ultimately one’s desires, not the thing desired.

— in “Jenseits von Gut und Böse: Vorspiel einer Philosophie der Zukunft”, Friedrich Nietzsche, 1886 [trad. Helen Zimmern]

No momento em que um partido com o termo liberal no nome surgiu em Portugal, criou-se uma inevitável cisão do grupo que vulgarmente se designa por “os liberais”. Em primeiro lugar, porque há uma génese identitária que força a separação para a incompatibilidade de algumas dessas pessoas com o encalço para o exercício de poder. Em segundo lugar, porque necessita de abstracções filosóficas, de construções grupais fictícias arrogando-se ao direito de “falar pelo povo” sem que consiga definir fora do cânone esquerdista o que é isso do povo. Em terceiro lugar, porque sem “o povo”, só resta a legitimidade concedida pelas instituições, que o são pelo peso da história e prevalência da tradição, significando que o indivíduo não nasce sem a obrigação de identificação com elas – a nação, a língua, a etnia, a cultura, o seu próprio corpo, etc. – o que é impossível de enquadrar quando o alvo a combater é, pela força do poder, o conservadorismo defensor das próprias instituições que enquadram e legitimam o pensamento e acção liberal. Em quarto e último lugar, porque o debate não nasce no parlamento e sim na cabeça, na casa, no café de bairro, na escola e em outras comunidades de tamanho crescente antes que chegue ao parlamento, porque é importante separar entre pensamento e intervencionismo partidário em busca de interferência governamental, qualquer partido dito liberal nunca poderá ser mais que um partido progressista, defensor do marcado livre, mas aliado no esquerdismo reinante da mitigação das instituições que não sirvam o propósito de progresso por aristocrática interpretação de vontades dos súbditos.

Therefore nothing is more important today than to enlighten public opinion about the basic differences between genuine Liberalism, which advocates the free market economy, and the various interventionist parties which are advocating government interference.

—in “Economic Freedom and Interventionism: an Anthology of Articles and Essays”, Ludwig von Mises, retirado de “The Quotable Mises” editor Mark Thornton

Como o tempo não é para indivíduos e sim para grupos identitários, é saboreando a deliciosa ironia daqui decorrente que me afasto de futuras considerações sobre liberalismo, socialismo e qualquer outra doutrina que identifique metas, fins ou objectivos últimos e que guiem a humanidade para a transformação necessária para o alcançar. Já tivemos um Hegel, não precisamos de mais.

5 comentários leave one →
  1. 11 Novembro, 2019 15:27

    Li o maravilhoso texto do Jaime Nogueira Pinto de manhã. À tarde, por mero acaso, cruzei-me com ele no metro.

    Dei-lhe os parabéns pelo texto e comentei que éramos poucos. Ele acha que somos mais do que parece.

    O problema é vê-los, já que liberais são auxiliares dos maus costumes do progressismo canhoto.

    Como disse o José do Portadaloja- mostrar o que foi o Estado Novo- Salazar e Caetano- com fontes coevas, só ele faz.

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    • Expatriado permalink
      11 Novembro, 2019 17:39

      Zazie. Jaime Nogueira Pinto explana certeiramente o que se passa actualmente nos Estados Unidos da América. É lá, e de lá, que se geram as lutas entre os nacionalistas patrióticos e os internacionalistas e não só. Como ele diz, o domínio das escolas e academia, assim como dos meios de comunicação, amestrados, levaram à adopção do “newspeak” castrante da individualidade. Criaram um rebanho de carneiros.
      Cada vez há mais necessidade de multiplicar as “ovelhas negras”, nós, para um regresso à sanidade do mundo.

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  2. Expatriado permalink
    11 Novembro, 2019 17:24

    Li o excelente artigo de Jaime Nogueira Pinto com gosto. Cito apenas uma das primeiras frases:

    “Em síntese, a direita é tendencialmente nacionalista em política, liberal-solidarista em economia e conservadora em costumes. E quando não é conservadora em costumes, deixando a vida privada no domínio do privado, não prescreve a legalização de soluções de rotura.”

    E fica quase tudo dito!!

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  3. Isabel s. permalink
    12 Novembro, 2019 00:20

    Momentos de pensamento em política e não em politiqueirices. Que prazer, que frescura!

    Liked by 1 person

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