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Os zumbidos

10 Janeiro, 2020

É sabido que há duas principais correntes de educação dos filhos: a de que sem perseverança é impossível alcançar conhecimento em qualquer área, a começar pelo desenvolvimento de gostos próprios; e a de que quem manda em tudo é o pirralho, o que, dando azo ao seu moderno défice de atenção, pode, perante determinadas circunstâncias, até florescer na ignorância necessária para chegar a ministro da educação.

Infelizmente, a providência amaldiçoou-me com o vexame da incompatibilidade com a segunda, tornando os meus descendentes em dotados do engenho necessário para suportar más escolhas de actividades extra-curriculares durante todo o ano lectivo. Contudo, vim a saber pelo descendente de espécimen feminino, muito mais dado a reivindicações avulsas por inconformação com o saco roto em que estas caem, que “muitos meninos desistiram do ballet para irem para o teatro”. Num estado de quasi-assombro por ter ouvido este derradeiro argumento – não por ter sido proferido e sim por o ter compreendido além dos habituais murmúrios que qualquer pai que se preze aprendeu a ignorar como se de zumbidos se tratassem -, tratei de tranquilizar a petiz dando-lhe uma janela de esperança: “a professora de ballet dá-vos crack a fumar ou tenta tocar-vos nas partes privadas? Fora essas situações, o ballet é para manter até ao fim do ano lectivo”.

Um típico xoninhas desses que aí anda a identificar-se como pai cairia facilmente na tentação de permitir que as escolhas da criança – em particular da pressão que as outras crianças exercem – fossem tão voláteis como a ideologia do Partido Socialista. Todavia, eu estou impedido de o fazer por um defeito fatal a que doravante designarei por “integridade”. A escolha pelo ballet foi feita há pouco mais de três meses, pelo que, a consequência dessa escolha é a obrigação de a levar até ao fim. Foi mal escolhido? Azar: para a próxima escolhe de forma mais avisada.

O leitor mais atento já percebeu que este relato se relaciona com a teatral farsa hoje decorrida a que se convencionou chamar “votação do orçamento de estado”. Não faltaram intervenções acerca “do que o povo quer”. Pois eu, como amaldiçoado pela previdência para o método educativo da perseverança, sei exactamente “o que o povo quer”: quer quatro anos de orçamentos do Partido Socialista, como decidido a 6 de Outubro do ano passado. Qualquer outra afirmação, venha de quem vier, não passa de um zumbido.

4 comentários leave one →
  1. Procópio permalink
    10 Janeiro, 2020 23:08

    É bonito ver o povo a querer o melhor para si, apesar de ainda não saber o que poderá ser mesmo o melhor para si e para os seus. Com tempo lá chegaremos, é preciso dar tempo ao tempo.Não são precisas armas, basta corromper progressivamente as mentes fracas, infiltrar as escolas, ocupar lugares estratégicos a nível central e regional de forma a avançar sempre em direcção aquela igualdade desigual em que muitos poucos passam a mandar na carneirada sem dar a menor hipótese de refilar.
    O “nosso povo” merecia, mas há sempre o imponderável.
    A gora, vitor, eu suspeito que o seu rebento anda numa escola privada. Está mal.

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  2. JCA permalink
    11 Janeiro, 2020 07:54

    .
    Relatam estes:
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    Two Earthquakes Hit Iran ‘Close to Nuclear Power Plant’
    .
    The earthquakes come just hours after Iranian officials said late Tuesday that it had conducted missile strikes on Iraqi military bases
    .
    Hours after the missiles were fired, a Ukrainian plane carrying at least 170 passengers and crew crashed shortly after taking off from Tehran’s Imam Khomeini Airport.
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    https://www.theepochtimes.com/two-earthquakes-hit-iran-close-to-nuclear-power-plant_3197262.html
    .
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  3. Carlos Rosa permalink
    11 Janeiro, 2020 13:18

    Estive indeciso até hoje. Agora decidi. Entre o Rio, o Montenegro e o Luz, vou votar Ventura.

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  4. 11 Janeiro, 2020 17:09

    Oh Vitor e o mov5.7 sempre avança, ou apenas vai servir como autocolante para anúncios de tertulias?

    É que zumbiram-me aqui no ouvido que na verdade, aquilo foi apenas e só criado com pompa e circunstancia para fazerem bluff na disputazinha interna contra o Rui Rio durante a aproximação das eleições.

    Ou então devem estar satisfeitos em continuar a manter a vossa audiência, a pastar no capim do psd e cds.

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