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Vitória do entrismo e o mundo ao contrário

29 Janeiro, 2020

Anos de discurso em volta de políticas identitárias teriam que gerar a inevitável reacção. Quando, perante uma proposta descabida e francamente pusilânime da deputada Joacine Katar Moreira, o deputado maravilha André Ventura atira um “eu proponho que a própria deputada Joacine seja devolvida ao seu país de origem”, sabemos que atingimos o ponto mais baixo de sempre na desorientação nacional. Muito malabarismo será feito nos próximos dias, sem qualquer sucesso, para que a frase não seja interpretada como o “vai para a tua terra, preto” que efectivamente é.

Mais do que entrar na dialéctica marxista de o racismo ser isto e o seu contrário, a questão que aqui se coloca é se a frase de André Ventura o prejudicará ou o beneficiará. Eu tendo para a última. Após tantos anos da acusação pela esquerda de que a direita é racista, nada como a grande esperança de salvação da direita a atirar a toalha para o ringue onde a esquerda combatia, então agora, a batalha sozinha. Parabéns à esquerda por mais uma vitória do entrismo: a direita destrói-se por dentro.

É pena. Já tínhamos tido a eleição de um deputado dito liberal que é conhecido por nos fazer gastar dinheiro com essa fantochada new age de culto ao palhaço Paddy Cosgrave e que se designa Web Summit. Agora temos o deputado “que diz as verdades” a institucionalizar o pensamento que nos fez trocar os táxis por Uber e Cabify. O mundo está mesmo ao contrário.

24 comentários leave one →
  1. Cristóvão permalink
    29 Janeiro, 2020 09:39

    “Muito malabarismo será feito nos próximos dias, sem qualquer sucesso, para que a frase não seja interpretada como o “vai para a tua terra, preto” que efectivamente é.”

    Realmente, é preciso muito malabarismo para insinuar que se trata de uma questão racial (onde é que a raça ou etnia de quem quer que seja foi mencionado, quer explicar?), mesmo depois de admitir que foi uma resposta à “proposta descabida e francamente pusilânime da deputada Joacine Katar Moreira”. É preciso uma desonestidade intelectual enorme para interpretar o que o deputado André Ventura disse foi “vai para a tua terra, preto”. Mas o racista é ele…

    A discussão e resposta não tem nada a ver com a raça. Quanto muito tem a ver com nacionalidade. E com a hipocrisia e dualidade de critérios da Joacine.

    Mas é sempre bom ver intelligentsia fazer o típico teatrinho do virtue signaling para alimentar o ego e a vaidade, e fazem-se de ignorantes e desentendidos para tal. Ainda não preceberam que o apelo do André Ventura é mesmo o estar a borrifar-se e desmascar todo esse circo falso. Ou para ser mais directo, dizer Chega!

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  2. FreakOnALeash permalink
    29 Janeiro, 2020 09:40

    O André Ventura arriscou uma resposta que eu não arriscava no palco em que ele se encontra. Mas não condeno a resposta, pois já anda entalada na garganta de muitos portugueses, e já se sabe que ficar com emoções entaladas faz mal à saúde. A malta que pensa como a deputada única do Livre já anda a pedir uma resposta deste calibre à muito tempo e finalmente a tampa saltou…embora no caso do André Ventura, terá sido, certamente calculado…uma forma de separar as águas e mostrar mais uma vez perante o povo quem realmente sente-se e mostra-se PORTUGUÊS ou não.
    A resposta do IL foi muito melhor, mais ponderada, mas não é carne nem é peixe, que é o meu incómodo com este partido, no qual até votei, no entanto gostei do “deixem-se de criancices” porrada no André e porrada na Joacine.

    Uma proposta daquele calibre com “ativistas anti-racistas” pelo meio é uma injúria ao Nosso património histórico, cultural…enfim à nossa identidade. Fizemos muitas coisas boas e outras tantas más, como de resto todas as Nações fizeram ao longo da sua história. Joacine Nunca sentiu-se portuguesa uma vez na vida…que faz ela aqui? Ainda por cima no Nosso parlamento!?

    Sempre vi pessoas de côr por todos os caminhos da vida, inclusive naqueles bem mais altos do que o meu, a TV mostra-o, as metrópoles mostram-no. Para quê as palavras de Joacine!? Quem se integrou na Nossa sociedade vive como nós…uns pobres outros remediados. Olhem para chineses, ucranianos, russos e sim, também africanos…ou não é nossa ministra da justiça de origem africana? O elevador social potenciado pelo parco capitalismo que ainda nos resta continua a funcionar independente da raça ou credo de cada um.

    Em suma – “Oh Joacine, epah…vai-te catar!”

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  3. JPT permalink
    29 Janeiro, 2020 10:20

    Concordo com tudo neste post. Mesmo que seja (e é) precisamente a resposta que a deputada Katar e a sua proposta imbecil “pedem”, não há lugar para este tipo de “bocas” no discurso político civilizado (que deve ser mantido, mesmo quando os interlocutores não o merecem). E sim, concordo que, apesar disso, vai trazer votos ao Chega, tal como aquelas descargas fecais, escritas e faladas, do Sr. Trump lhe trazem, manifestamente, votos.

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  4. lucklucky permalink
    29 Janeiro, 2020 10:22

    “Muito malabarismo será feito nos próximos dias, sem qualquer sucesso, para que a frase não seja interpretada como o “vai para a tua terra, preto” que efectivamente é.”

    Para isso ser verdade o Ventura teria dito isso de todos os pretos, ou então parece-me que há alguma coisa que falha na sua lógica. Não me parece que Joacine seja a única pessoa de origem africana por cá.

    O único argumento que pode opor a tal é que o Ventura esconde esse sentimento e aproveitou a oportunidade, mas para isso precisa de mais.

    Foi a deputada que falou na “origem” e reclamou que a “origem” deve voltar à “sua terra.”

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    • JPT permalink
      29 Janeiro, 2020 10:31

      Por isso mesmo, que tão bem explica, é que (a) o deputado Ventura deu precisamente a resposta que a deputada Katar e a sua proposta imbecil “pedem”; (b) o deputado Ventura não devia ter dado essa resposta, salvo no recato da sua casa. A seita onde se integra de deputada Katar vive para este género de “polémicas”, e, pela amostra, já percebemos o deputado Ventura escolheu o mesmo “modus vivendi” para pagar a casa e o carro. Acha que, realmente, o país tem alguma coisa a ganhar com este “diálogo”?

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  5. lucklucky permalink
    29 Janeiro, 2020 11:16

    Sim. Quer que a chantagem “deste género de polémicas” continue?

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    • 29 Janeiro, 2020 12:00

      Não. Resposta aceitável: “vamos abrir uma comissão de inquérito para averiguar quais das obras que temos enfiadas em caixotes no grande espólio da nobre riqueza cultural do país merecem ser alvo de tratamento futuro que poderá ou não passar por trocas de outros caixotes aí espalhados nas casas de alguns déspotas”. Pronto. Está resolvido.

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      • lucklucky permalink
        30 Janeiro, 2020 05:09

        Em que é que isso impede a esquerda de continuar a usar as tácticas da raça, da “origem” “a terra deles” quando quer?

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  6. 29 Janeiro, 2020 12:38

    A proposta do Livre é completamente absurda e, para uma proposta absurda, nada como uma resposta ainda mais absurda, para ver se as pessoas acordam para o divisionismo que estes rancorosos de esquerda radical pretender desenvolver na nossa sociedade.

    O autor acha que a resposta aceitável era outra. Forme um partido, candidate-se, seja eleito e dê outra resposta.

    Há também quem considere que este tipo de argumento não deve ser dado em público, ainda que no recato do seu lar ou da sua consciência lhe pareça ser a única resposta possível a tal disparate. Porque carga de água? Se é isso que os seus eleitores pensam e, provavelmente, eleitores de outros partidos também o sentem, deve ficar calado apenas porque é tabú?

    De qualquer forma, será que Ventura quis dizer com isto “vão todos para a vossa terra” ou é possível que, como eu, pense que quem gosta de cá estar e quer integrar-se deve permanecer e quem não gosta e apenas pretende fracturar a nossa sociedade (revertendo toda a nossa identidade e, pasme-se, a nossa História), como a deputada do Livre pode dar corda aos sapatos e ir para o raio que a parta? Seja guineense, angolano, inglês, espanhol ou marciano, não faz sentido estarem cá se detestam o nosso país e, especialmente, não lembra ao diabo que sejam representantes dos portugueses no parlamento.

    Posto de outra maneira: quando vou a casa de alguém não me sento na poltrona da sala a dizer ao dono que quadro x não fica bem ali, que o lustre não é daqueles a que estou habituado e, por isso, deve ser substituído ou que as molduras que foram retiradas de minha casa quando, por acaso, o dono lá viveu, têm que ser devolvidas. Conhecem alguém que faça isso?

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    • 29 Janeiro, 2020 12:41

      Meu querido amigo,

      Essa ideia de que uma pessoa achar que a resposta aceitável tem que ser dada num partido após candidatura e uma série de votos é das coisas mais perversas que me apareceram à frente e logo a mim, que sou leitor do Marquês de Sade.

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      • 29 Janeiro, 2020 12:58

        Por acaso não costumo ter essa ideia mas a partir do momento em que determina que resposta aceitável é apenas aquela que o Vitor Cunha afirma, não vejo outra solução além de o prezado se candidatar à A.R.

        Quanto a Sade, prefiro a cantora.

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      • 29 Janeiro, 2020 13:12

        Não nasci para pertencer a minorias muito minoritárias dotadas de iluminação própria para conduzirem ovelhas ao pasto. Estou e estarei alegremente na enormíssima maioria dos portugueses cujo pensamento não é determinado por concursos de popularidade.

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      • 29 Janeiro, 2020 13:02

        E quando digo “candidatar à A.R.” seria para deputado, já que para ficar com o lugar deste Presidente da A.R., e definir o que é aceitável ou não, a coisa poderia ficar ela por ela…

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      • Rogerio Alves permalink
        29 Janeiro, 2020 23:10

        Se lê Sade e gosta, dou-lhe os meus parabéns. Sou também um dos (aparentemente) raros apreciadores do Marquês, que tão injustiçado foi (mais pelas suas ideias liberais políticas do que pela sua liberalidade de costumes) e cuja literatura é, para mim, bastante interessante…

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  7. MJRB permalink
    29 Janeiro, 2020 15:02

    Ontem, no post da Helena Matos “Aguarda-se pelo dia em que se comemore…” já coloquei o meu bitaite sobre a patética exigência da deputada do Livre. Hoje, considero não só patética como arrivista, incivilizada, popularucha, a resposta do bitaiteiro Ventura.
    Infere-se facilmente que no partido do pedante-oportunista nunca fará parte da direcção ou aceitará militantes pretos.

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  8. SRG permalink
    29 Janeiro, 2020 17:04

    E que tal, se toda a gente verificasse em que contexto foi a frase do A.V. retirada. Talvez não houvesse tantas virgens ofendidas. Isto faz-me lembrar um antigo governador civil de Braga, que tanto defendeu os ciganos numa polémica racial, mas quando os viu à sua porta, preferiu retirá-los da sua vizinhança.

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    • 29 Janeiro, 2020 17:07

      Tem que se decidir. Se o homem falou bem, falou bem; se acha que falou bem e eu acho que falou mal, certo é deixar-me a pensar errado, não é?

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  9. André Silva permalink
    29 Janeiro, 2020 18:12

    Pela primeira vez (que me recorde) estou frontalmente contra a opinião de Vítor Cunha. E que pena tenha. “Também tu, Brutus?”
    Para não perder tempo a elaborar porquê, socorro-me da tantas vezes justamente elogiada, e que infelizmente muito se perdeu, sabedoria popular. Ora aqui vamos:
    “Quem não se sente, não é filho de boa gente”
    “Quem está mal, que se mude”
    “Porta da rua, serventia da casa”
    “Ela é pobre e mal-agradecida”
    “Ela cospe no prato onde come”
    “Ela morde a mão que lhe deu e dá de comer”
    “Dar a outra face” – esta só quem sabemos; eu sou um simples mortal
    E por aqui me fico, acho que já perceberam o ponto.

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    • MJRB permalink
      29 Janeiro, 2020 20:31

      Ah ! Vc. não aceita (tem esse direito) um post correcto do VCunha, mas satisfaz-se, orienta-se, não por o que conclui nas suas vivências, mas sim por bitaites nem sempre correctos da estafada “sabedoria popular”.
      Perante a realidade, quero que alguma –só alguma– “sabedoria popular” se lixe !
      Por ora, só este caso: há anos vi uma “reconstituição histórica” algures em Portugal, cujo “rei” usava sapatilhas sob um traje que não conseguia ocultar as jeans ! A “sabedoria popular” (não só local) aplaudiu “o rigor histórico”.

      Sou racista só quando alguma raça quer impor-se abusiva e violentamente sobre outra.
      No caso da deputada do Livre, teve uma exigência patética, autoritária, inaceitável, e o castiço, bitaiteiro deputado do Chegadinho (sem o SLBenfica via CMTV nunca teria aparecido sequer como “pó” mediático), foi mais uma trauliteira e nauseabunda resposta.
      Se o gajo do Chega é a imagem, o líder da desesperada “direita”, esta está mesmo muito mal e carenciada. Não consigo entender alguns amigos e pessoas que conheço defensores duma política de direita, revendo-se num imberbe trauliteiro como o (normalmente indecoroso e intelectualmente desonesto) comentador de futebol, deste…mundo do futebol tuga. É gajo para apoiar incondicionalmente (!) o Vieira e mandar às malvas a semi-negritude e origens da Isabel dos Santos desde que…
      Ó Ventura !, quatro ou cinco valentes verdades-chapadas verbais públicas e amouchas ! Tens que mamar muita papinha para chegares a político — tiveste sorte dada a conjuntura populista-fascistóide…

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      • MJRB permalink
        29 Janeiro, 2020 21:36

        Resumindo por hoje: tudo isso são patéticos ressentimentos, ressabiamentos, da descolonização sem “chão” político-cultural e da trauliteira, inculta e eleitoralmente oportunista noção de pertença colonialista (há muito e definitivamente perdida).

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  10. MJRB permalink
    29 Janeiro, 2020 21:12

    Este patético Estado (MCThomaz) que permite e apoia esta desgovernança abusiva (do P”S” + a tem-te não caias e mal disfarçada nova geringonça), comprou por 5 milhões de euros a colecção de arte feita por tugas, ao BPN, já intervencionado e pago pela populaça. O Estado compra ao Estado e os tugas voltam a pagar e não mugem, estão-se marimbando para sequer saber o que acontece e muito menos reagem.
    Garanto-vos que o valor total da colecção, numa leiloeira prestigiada (se fosse isenta na avaliação, que também se pode comprar…), não ultrapassaria os 1,8 quanto muito 2 milhões.
    Os desatentos, imberbes e incultos (!) deputados “da nação” fazem o frete por “deixa andar”, desleixo ou conivência.
    Tá certo, viva o arco-íris, o foguetório, mais as futebolices e as selfies !

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  11. Carlos Guerreiro permalink
    30 Janeiro, 2020 15:12

    Não percebo a ideia da Joacine. Não demos a nacionalidade portuguesa a todos esse pechisbeques que vieram do Ultramar e estão nos museus? Agora são portuguesismos de gema, devolvê-los seria uma manifestação de racismo. Ou então acabaríamos por ter de dar razão ao Ventura e ter de empacotar a Joacine e despachá-la para a Guiné.
    Para não ficarem zangados e como prova do multiculturalismo que também deve existir em África, que tal despacharmos a peça que o Cabrita obrou em Leça? Mas o transporte e a instalação ficam por conta deles (o Cabrita manda a conta, e convém avisar que a obra, transporte e instalação incluídas, não tem preço).

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