Adeus, Troika, até à próxima

Isto não fica assim
O governo PSD/CDS anunciou que em 2015 os trabalhadores por conta de outrem vão ter uma diminuição do seu rendimento por força do aumento da TSU.
Anunciou também que os consumidores irão poder dispor menos do seu rendimento, por efeito do aumento do IVA.
Tais medidas são realizadas em favor dos pensionistas com pensões mais elevadas e dos funcionários públicos. E em prejuízo de todos quantos ainda tem trabalho e daqueles que estão sujeitos ao risco de desemprego, os trabalhadores privados. Os do costume.
É ano eleitoral.
Já faltam os qualificativos publicáveis no espaço público para classificar tais medidas, as quais se tem repetido vezes sem conta nos últimos anos. Ou a falta de termos para com que nos devemos dirigir aos seus autores e irresponsáveis. Nem é tanto a questão de realizarem o contrário do que dizem dias antes. Já não se espera outra coisa de quem tantas fez. Por vezes a credibilidade de um governante ou politico pode ocasionalemnte sofrer um tropeção. Mas quando ela estava já no ao nível do chão, apenas pode descer para uma cova. Cada vez mais profunda.
Mas quando alguém que ainda é primeiro-ministro diz «não apresentamos nenhuma medida de mais impostos nem redução nos salários»(*), sendo tal repetido no dia seguinte pelo seu vice-primeiro-ministro(*), deixamos o dominio da política e entra-se ou na área da saúde mental dos intervenientes ou na pura ofensa gratuita. Na falta de diagnóstico, ficamo-nos apenas com a última hipótese.
Que Passos Coelho e Paulo Portas mintam descaradamente, sendo obviamente reprovável, apenas se espantará quem não acompanhe a sua actuação recente. Mas que queiram ofender e insultar os portugueses em geral, issso já não é de todo admissível. Isto não fica sssim! Bem podem os dois, mais as suas trupes, ir para o raio-que-os-parta, ou serem apeados dos seus postos e colocados a pão e água como merecem. Mas não vão andar a gozar connosco. Basta.
Para quando o dia das barrigas alugadas?
Amanhã é dia da Mãe. Vão falar mto de mães, da importância das mães…. contudo não perdem uns segundos sequer a pensar que está neste momento em discussão em Portugal legislação em que se equaciona a possibilidade de existirem aquilo a que num processo de despersonalização chamam “barrigas de aluguer”. Ou seja mães cujo papel é apagado, sendo reduzidas e definidas enquanto barrigas ainda para mais alugadas, para que outras mulheres se possam dizer mães.
Não existem nem o direito nem a obrigação de ser mãe. Há pessoas que nunca o serão por razões médicas. Sofrem certamente com isso. Mas a vida adulta é feita também do aprendermos a viver com a impossibilidade e percebermos que não vale tudo para que nós possamos ter o tudo a que aspiramos. As “barrigas de aluguer” são um dos casos em que a possibilidade de uma mulher poder ter a alegria de ouvir uma criança chamar-lhe mãe não deve suplantar-se ao apagamento da maternidade noutra mulher a que se chama barriga.
E porque amanhã é dia da Mãe deixo aqui a história de mães
Jean McConville: The Disappeared mother-of-ten
La increíble historia de las mellizas que estuvieron separadas 78 años (os jornalistas puseram a ênfase nas gémeas mas o que me impressionou foi a história da mãe e da forma como ela escolheu a filha com que ficaria)
Pôr as coisas em perspectiva
Às vezes dá-me para isto: olhar para os números, fazer umas contas, e ver como elas coincidem, ou não, com algumas narrativas dos tempos correntes.
Primeira conta: quanto nos custou a austeridade?
Quem leia os jornais ou veja televisão achará que o país está mais pobre do que nunca e que a nossa austeridade foi a pior de todas, porventura com excepção da grega. Vamos então ver quanto é que o rendimento nacional caiu desde o último ano sem crise, 2007. Os números são os seguintes, começando pelos países onde a recessão foi maior (base de dados AMECO):
| Grécia | -20,96% |
| Luxemburgo | -14,65% |
| Irlanda | -10,26% |
| Croácia | -9,85% |
| Itália | -9,22% |
| Islândia | -9,18% |
| Eslovénia | -6,40% |
| Lituânia | -6,13% |
| Portugal | -6,01% |
| Finlândia | -4,54% |
| Espanha | -4,32% |
| Reino Unido | -2,65% |
A ler
Henrique Raposo: Foto de banana é brincadeira. Já desceram a Calçada de Carriche? Ó Henrique a Calçada de Carriche, o Fogueteiro ou a Damaia são locais onde só se vai integrado em equipas multidisciplinares que fazem levantamentos para observatórios que confirmam o que já se sabia: são necessários mais cientistas sociais deviadamente apetrechados para estudarem as dinâmicas do racismo no contexto das periferias urbanas e económicas e dinamizarem grupos de cruzamento de culturas numa abordagem de aprofundamento das identidades.
Não, não é uma conclusão do estudo: é uma premissa
Ontem houve algumas reacções a quente à nova subida de impostos. Como todas as reacções a quente, não expressam a história toda, só o ângulo mais notório.
As pessoas querem mesmo aumento de impostos, essa é a realidade. Talvez não todas as pessoas mas as que têm acesso a greves, marchas, protestos e indignação diária com destaque mediático. É o lobby do reumático, dos que têm emprego que, apesar da falência, nunca vai à falência: funcionários públicos, pensionistas, subsidiados e pendurados. É muita gente; é uma ampla maioria. É esta gente, as crias do monstro, que define a maioria parlamentar.
Não é preciso outro 25 de Abril: este está de perfeita saúde. O Atlas continua a encolher em perfeita sintonia com o desejo suicida de um povo cuja noção de democracia é clamorosamente oportunista; cuja noção de solidariedade consiste em esmifrar a formiga, seja alemã, seja a dona do talho do bairro.
Na realidade nem estou zangado com o governo. Limitou-se a ser um governo português, bonzinho, dos que desde sempre tomam conta dos seus em detrimento dos que têm a ousadia de abrir um quiosque.
O mais giro é este aumento transitório de IVA, com duas casas decimais, denotando uma insignificância que, decerto, até será real perante as verdadeiras necessidades de financiamento do monstro, com as suas reposições salariais que farão o bicho atingir os 25% mais cedo do que tarde.
Todos a bordo: não se avista terra firme. Preparados para navegação às cegas com a cereja no topo do bolo de uma “saída limpa”?
Gerontocracia-Estatista
O Estado Social está a tornar-se numa Gerontocracia-Estatista. Quem vier depois que se amanhe.
DEO provisório
O DEO é um documento provisório que será actualizado mal saia a decisão do Tribunal Constiitucional sobre o orçamento de 2014.
Note-se que nos próximos anos os orçamentos continuarão a ser definidos pelo Tribunal Constitucional, que a qualquer altura poderá decidir que as medidas provisórias de cortes de salários e pensões não podem continuar (TC só aceita estas medidas se forem provisórias, e a noção de “provisórias” será o que eles quiserem e quando quiserem). A primeira decisão nesse sentido pode vir já nas fiscalizações que estão pendentes. Decisão deve sair dentro de 1 mês.
DEO la deu, DEO a levou
Desde Abril de 2013 que as propostas do governo para baixar o défice são insuficientes e metade delas virtuais. A metade que não é virtual raramente passa no Tribunal Constitucional. Esta abordagem do governo não tem merecido contestação porque consiste em adiar o problema do défice e deixar derrapar o défice é popular à esquerda e à direita. De vez em quando a Troika força medidas mais concretas, que contribuam mesmo para reduzir o fdéfice, e quando isso acontece há unanimidade à esquerda e à direita contra mais cortes e mais impostos. E depois há aquela unanimidade mais pura e ingénua de que a solução é a “reforma do Estado, que corte no Estado e não nas pessoas”, isto é, “não faço ideia como isto se resolve”.
Consensual
Este aumento de impostos é consensual. Toda a gente quer reposição dos cortes, um TGV e aumento do salário mínimo. E toda a gente quer que a Manuela Ferreira Leite possa ver a pensão reposta.
Estamos todos de acordo com a rua que diz que isto não se aguenta. E pronto, não custa nada: só não há pizza grátis.
Quem se lixa é sempre o mexilhão
Num país onde quase um em cada quatro eleitores tem mais de 65 anos, o que é que acontece quando se fala de reformar o sistema de pensões em ano de eleições?
Não acontece nada. Mesmo o que tinha acontecido antes é revertido.
Num país com cada vez menos eleitores jovens e cada vez menor participação eleitoral dos jovens, o que é que acontece quando, para não mudar o sistema de pensões, se aumentam taxas e impostos?
Não acontece nada. A dor, dizem, é “repartida” e, acrescentam, o fardo assim pesa pouco.
É neste ponto que estamos. Ainda não tive tempo de ler o famoso DEO mas já ouvi a conferência de imprensa de Maria Luís Albuquerque e, sobretudo, Pedro Mota Soares. A síntese é simples de fazer: aliviam-se os reformados (e também os funcionários públicos), sacrificam-se os contribuintes, em especial os que estão empregados e descontam para a TSU.
Há sempre uns que se lixam e há sempre outros que vão às televisões queixar-se – os que por lá andam a carpir mágoas há dois anos e agora ainda são capazes de continuar a queixar-se. É esta a triste moral desta história.
psd e cds já ganharam as próximas eleições
E nós não sabíamos!…
uma proposta com inspiração governamental
Indexar a taxa de contribuição para a Segurança Social à execução orçamental do governo, diminuindo-a na progressão directa do aumento da despesa do estado.
não pára
O saque fiscal aos contribuintes.
Entretanto, a célebre “reforma do estado” permanece no tinteiro, a RTP a labutar, a TAP por vender, a CP a carburar, os gabinetes dos ministros e secretários de estado despudoradamente cheios de boys and girls, e a imaginação do governo e o tempo dos senhores ministros empenhados em coisas como esta, certamente de suma importância no Reino da Patetolândia.
Em cima disto, depois de quatro anos de sacrifícios, que nem sempre o governo mereceu, teremos, em 2015, António José Seguro como primeiro-ministro e o PS no governo, cheios de bondade social e ímpetos justicialistas para distribuirem “justiça social”a montante e a jusante, à custa dos contribuintes.
Salve-se quem puder!
Criminalizar crimes
Criminalizar a praxe faz tanto sentido como criminalizar o enriquecimento ilícito, ou seja, nenhum. Em primeiro lugar, não se pode criminalizar a existência de um ritual por si só sob consequência de ilegalizar o baptizado católico, o casamento gay, os discursos no 25 de Abril ou o Sócrates na RTP. Em segundo lugar porque qualquer ritual envolvendo crimes já constitui… crime.
Uma ideia melhor para o espírito regulador português seria a criação de uma lei de criminalização de crimes.
Onde estavas?
“Onde estavas no 25 de Abril” é pergunta sem qualquer interesse. A pergunta que importa é “onde estavas no 28 de Abril?”
E respondendo a essa pergunta, há sempre outra que a sucede: “e quando deixaste de lá estar?”
Uma possível resposta para os que não aguentam será “ainda estou na função pública”.
Dão-se alvíssaras
para a primeira polémica em que participem elementos da esquerda radical e em que estes logo para início de conversa não invoquem Salazar, o salazarismo e não passem o alvo das suas críticas a tipo ou equiparado. Lendo o livro de Raquel Varela “História do Povo na Revolução Portuguesa” percebe-se bem porque uma das palavras de ordem gritada mas manifestações das segundas-feiras na RDA era precisamente “Nós somos o povo”.
Obs. A ler este retrato feito por RV dos portugueses residentes em África.
Sempre queremos os brioches
Um dos problemas das prosas neorrealistas contemporâneas é que já não vivemos no mesmo Portugal do neorrealismo original. Já não há aqueles miúdos esfarrapados, e tantas vezes descalços, das fotografias de há 40 anos ou 50 anos, como bem ilustrava a capa do Público do passado dia 25 de Abril. Mesmo assim não se deixa de fazer um esforço para retratar um Portugal bem neorrealista e muito sofredor:
Pão há, pelos vistos. Faltam é os brioches. Sob a forma de corn flakes ou, de preferência, chocapic.
O lobby do fibrocimento
Já se aguenta melhor
Abril está a chegar ao fim, graças a Deus.
Depois de 30 dias a antecipar o 40º aniversário de uma revolução com um grau de romance que envergonharia qualquer escritor de canções pimba, tudo (incluindo a peste negra) parece anti-clímax ou, pior, tão insignificante para qualquer português como o efeito da emigração do Fernando Tordo na produção de novas canções.
Vem aí o 1º de Maio e, com isso, nada como providenciar tempo de antena ao braço estalinista da sindicância socialista-nacional, o PCP/CGTP. Conversas de socialismo escandinavo servem de fachada ao objectivo de socialismo hoxhiano: pobres mas honrados, manda cá mais um cravo no caixão da liberdade contratual.
A única verdadeira vantagem dos primeiros meses da Primavera é antecederem a silly season da silly season permanente, a silly-silly season. O calor do Verão e os bikinis, que isto não se aguenta, acalmam a ânsia revolucionária mesmo a tempo do início de novo ano lectivo e armazenamento de lenha para a lareira de mais um ano em que isto não se vai aguentar, mais uma vez.
Pf
Pede-se encarecidamente aos jornalistas que:
a) Não chamem monstro nem repitam “caça ao homem” para referir a perseguição policial a um suspeito de homicídio;
b) Expliquem-me qual é a parte da Primavera árabe que eu não entendi e que levou a isto Egipto recomenda pena de morte para mais 700 islamitas (Se bem que mal pergunte já não varrem a Praça Tahir?)
c) Quando entrevistam aqueles manifestantes muito indignados que estavam a fazer uma manifestação tão legitimamente revoltada junto à AR no dia 25 de Abril? Só quando trocarem os símbolos da extrema-direita pelos da extrema-esquerda que valha a verdade nunca é referida enquanto tal?
Mercado visto por socialistas
Segundo o Jornal de Negócios, o governo estará a estudar a normalização obrigatória das botijas de gás para facilitar a mudança entre concorrentes. O problema, claro, é que a botija do gás não é uma parte neutra do negócio do gás. É um factor de diferenciação através da inovação. Duh!
Penso lentamente removido sobre pêlos
Eu avisei. Basta a omissão de obstetrícia para gerar a confusão desnecessária e a trauliteirice de toda e qualquer imbecilidade. O argumento costuma ser sempre o mesmo: “só quem não conhece a realidade…”. Permitir isto através de documentos alarmistas sem nexo pelo atraso entre a especificação e a concretização é um lamentável tiro no pé. A Portaria nº 82/2014 de 10 de Abril do Ministério da Saúde é um penso a ser removido lenta e dolorosamente em vez de rápida e firmemente.
Como se chama o regime proposto por Vossas Excelências?
Vasco Lourenço: o Governo “tem de ser apeado”
Manuel Alegre: “Este primeiro-ministro acha que a democracia começa e acaba no dia das eleições. Não. Há muitas outras formas de viver e de praticar a democracia e quando um Governo se fecha e não ouve a voz do povo e não ouve a opinião pública, isso pode levar a situações de ruptura que nunca se sabe como começam e nunca se sabe como podem acabar”
alguém que lhe explique
Ao fim de quarenta anos de regime, o presidente da Associação 25 de Abril, o tenente-coronel Vasco Lourenço, parece não ter ainda entendido que, na democracia de que ele se reclama um dos progenitores, existe um método legítimo de “apear” governos: as eleições. Alguém que lhe explique, por favor.
Da revolta do remorso
… à cerimónia do despeito. A revolta do remorso procurem que logo perceberão o que foi e quando foi (mas foi mto antes de 1974). Quanto à cerimónia do despeito teve lugar hoje no Largo do Carmo e nela os participantes deram largas ao seu descontentamento por o 25 de Abril não ter instituído um regime de pensamento único em que éramos livres de escolher a esquerda e de ver o país a ser esfanicado pelas lutas suicidárias que essa mesma esquerda trava entre si.
O povo é quem mais ordena
Eu é que fiz o 25 de Abril
Foi para isto que fiz o 25 de Abril. Sim, eu fiz o 25 de Abril. Não, não andei nas ruas em 1974, só nasceria uns meses mais tarde; mas fiz: fui à escola, pago impostos, vou votar e exijo que o meu voto tenha significado, nomeadamente através da manutenção dos governos eleitos até ao fim do mandato. Os governos podem, por livre iniciativa, deixar mandatos a meio; de resto não reconheço qualquer autoridade a sindicatos, partidos minoritários e sobretudo bancarrotários para que, em nome de uma suposta rua – a que dirigindo-lhe palavra não me responde, sob risco pessoal de diagnóstico de loucura – se fabrique opinião pública.
Eu fiz o 25 de Abril para isto. Escolhendo, aceitando, penalizando – através do voto – quando goradas as minhas expectativas. Eu fiz o 25 de Abril para saber perder eleições. Como eleitor já as perdi muitas vezes. Não me vão tirar isso com cantigas de cravos e muito menos com promessas de unicórnios.
Crónicas da doideira
Em primeiro lugar a performance é de tal forma medonha que deve contribuir para que o teatro perca ainda mais público. Mas o mais espantoso é o que está por trás desta peregrina ideia da TSF em que uma rádio encena valorizando-a a ocupação das suas instalaçõs ou seja o silenciamento dos seus profissionais. Podia pensar-se que a ocupação era feita por censores que queriam continuar a censurar como Estado Novo, ocupantes que os queriam mandar embora como no República e na Rádio Renascença em 1975… Não, nada disso. A performance da ocupação reproduz o actual imaginário da esquerda que acha que pode entrar onde quer, interrompendo quem fala e impondo a sua presença. Logo os ocupantes são vistos como bonzinhos. Enfim ocupa amigo a TSF está contigo. Até ao dia em que trocarem os punhos erguidos, as foicinhas e os martelinhos por outros simbolizinhos mais aerodinâmicos e depois quem sabe lá se na TSF perceberão que há coisas que não se fazem. Nem a brincar.
Não foi para isto que fizemos o 25 de Abril
Já chega. Ao fim de semanas e semanas a ouvir repetir por todo o lado inanidades sobre os “valores de Abril”, o “destino de Abril” ou a “traição ao 25 de Abril”, ao fim de meses a anunciarem-me que vinha aí o autoritarismo, se é que já não tinha chegado, ou a preverem o regresso de um salazarismo sem Salazar, hoje achei que era demais ver o António-Pedro Vasconcelos, na capa do i, a proclamar que a “democracia faliu”.
Mas “faliu” porquê? Deixou de haver liberdade nos jornais e nas televisões? Fecharam a Internet ou o twitter? Algum militar entrou de pistola em punho pela Assembleia dentro? Proibiram as eleições marcadas para o próximo mês de Maio? Prenderam alguém por delito de opinião ou actividades subversivas? Falsificaram as eleições?
Aparentemete nada disso sucedeu. Apenas sucedeu que APV acha que a democracia não dá resposta aos problemas das pessoas. E não dá porquê? Porque ele odeia o Governo e detesta o PS de Seguro.
Ou seja, APV está mais ou menos como todo o coro que temos ouvido por estas semanas. Se fosse a menina Guidinha escreveria uma redacção mais ou menos assim: “Eu gosto muito da democracia. Eu não gosto nada do que esta democracia me deu. Eu acho que isto não é democracia”. Se em vez de ser a menina Guidinha fosse antes um Vasco Lourenço substituiria a palavra “democracia” por “25 de Abril” e a redacção também estaria perfeita.
É pena vermos as comemorações do 40º aniversário da revolução que acabou com um regime autoritário e repressivo velho de 48 anos reduzidas a esta caricatura.
Não é de hoje, nem de ontem, a disputa sobre o significado do “25 de Abril”. O primeiro jornal em que trabalhei, está quase a fazer 38 anos (eu tinha na altura 19), chamava-se, não por acaso, “25 de Abril do Povo”, e representou uma fútil tentativa de prolongar o movimento otelista e aquilo que aquele grupo achava ser “o verdadeiro” 25 de Abril. Durou apenas três meses, pois nessa altura (1976) a revolução já tinha acabado. Mas como se verificou abundantemente nas últimas semanas, muitos dos revolucionários de então continuam a achar que havia qualquer coisa no seu muito especial e específico 25 de Abril que nunca foi cumprido, e se nessa época saltitavam de fábrica para fábrica, por estes dias andaram por mais bem confortáveis salas de conferência dando vazão à sua imensa nostalgia.
Nada me incomodaria nesta pequena indústria comemorativa não fosse esta tendência para confundirem democracia com a sua ideia específica do que deve ser o destino do povo, a sua eterna tendência para acharem qque a sua liberdade é melhor e mais pura do que a liberdade dos outros.
De facto uma das coisa que distingue as democracias dos regimes revolucionários é que as democracias são muito menos exaltantes. Mas muito mais realistas. As suas imperfeições são a sua força, já que aquilo que verdadeiramente as distingue não é nelas se escolher periodicamente um governo, é nelas se poder, pacificamente, correr com um governo de que não se gosta. São regimes de tentativa e erro, onde se podem corrigir tragetórias e onde existem mecanismos que limitam o poder das maiorias.
Eu sei que muitos revolucionários, mesmo quando acham que são genuinamente democratas, sofrem horrores sempre que o povo ignaro escolhe seguir por caminhos diferentes daqueles que eles prefeririam. Também sei que já não é nada mau que não sejam suficientemente revolucionários para acharem que podem, de cima para baixo, como líderes iluminados, imporem a sua vontade ao povo, qual modernos Robespierre. Mas lamento muito que andem por aí, no 40º aniversário do 25 de Abril, a desmerecer a democracia.
Já chega.
um panelazo argentino tinha-nos feito muito bem
José Sócrates diz que só chamou o FMI em 2011 por esmero prudencial, não tendo havido razões de emergência para isso. Poucos dias depois, o seu ministro das finanças, Teixeira dos Santos, não se coibiu de dizer que a situação financeira do país é hoje muito mais grave do que quando ele se precipitou, à revelia do chefe, a chamar o FMI para pagar as contas do mês seguinte. Por sua vez, o bom povo português, pelo que nos dizem as sondagens, prepara-se para devolver o poder a um Partido Socialista que mantém a versão socrática dos acontecimentos que nos conduziram à bancarrota e à pobreza, como se esta não fosse uma consequência daquela. No fim de tudo isto, ultrapassada a terceira falência democrática do país, arriscamo-nos a não ter aprendido nada. Não há dúvida que dois ou três meses de panelazo nos tinham feito muito bem.
Uma história exemplar da parolice nacional
Estávamos em 1998, Fernando Gomes presidia à Câmara Municipal do Porto, Manuel Maria Carrilho reinava como ministro da Cultura e Manoel de Oliveira ia fazer 90 anos. Para aquelas almas profundamente imbuídas de paixões culturais nada melhor do que fazer erguer um monumento de betão – mas com pedigree cultural, pois o desenho seria de Souto Moura – com o pomposo nome de “Casa do Cinema”. Escolheram a melhor e mais refinada zona da cidade do Porto – a Foz, como não podia eixr de ser – e lá ergueram as paredes do que seria a futura residência do cineasta (seria ele um sem-abrigo desconhecido?) e, ao lado, as arrecadações para guardar o seu espólio.
A obra levou uns anos a fazer – afinal Portugal nunca deixaou de ser Portugal – e, quando ficou pronta, a câmara não se entendeu com o cineasta. A lindas paredes ficaram ao abandono, ninguém parece ter estado muito incomodado, os anos passaram, tudo se foi degradando, e entretanto Manoel de Oliveira somou mais dez anos, tornou-se centenário, nunca achou que tivesse de mudar os tarecos para um casa nova e acabou a entender-se com a Fundação de Serralves, onde entretanto está a surgir outra casa Manoel de Oliveira, esta da autoria de Siza Vieira (noblesse oblige).
Chegamos assim ao ponto de, dez anos depois, o “betão cultural” que custou mais de dois milhões de euros – não se indignem já, foi para “investimento”, ainda para mais um “investimento cultural” – ir agora à praça por apenas 1,5 milhões.
É o que se chama uma história exemplar da saloice nacional, do encantamento parolo com certos “símbolos da cultura” e da leviandade com que se gasta o dinheiro dos contribuintes. Ao menos que corra bem o leilão.
Reciprocamente obrigados
Tema do meu artigo de hoje no DE: Não é apenas o País que está em dívida para com os militares. Os militares também estão em dívida para com o País. E não lhe devem pouco. Os militares portugueses devem ao País terem conseguido sair de forma honrada de um dos momentos mais tenebrosos da sua história – a forma como impuseram a saída de África e de Timor – e devem-lhe também poderem manter a mentira conveniente de que em Abril estavam unidos. Não é verdade: estiveram unidos na guerra. Mas dividiram-se criminosa e perigosamente na hora de negociar a paz. Por isso ainda hoje se sentem mais à vontade a falar da ditadura e da guerra do que da democracia e dos países independentes. Em boa verdade o país não tinha escolha: havia que defender as Forças Armadas. De quem? Delas mesmas. Mesmo que tal implicasse pactuar com quem atacava os interesses do País e desdenhava das suas populações mais frágeis, os civis residentes nos territórios africanos. Desfeita a hierarquia de comando nas FAP, só os sectores esquerdistas pareciam capazes de garantir um mínimo de ordem e salvar as aparências entre as tropas estacionadas em África. Daí chegavam histórias que o País não podia conhecer a bem já não da nação mas sim das suas Forças Armadas. Comandantes que por iniciativa e ideologia próprias resolviam confraternizar ou dialogar com os mesmos que combatiam na véspera e que levaram as suas companhias a cair emboscadas com mortos, feridos e sequestrados (Bambandica, Guiné)…
os equívocos de abril
O 25 de Abril, que celebra 40 anos nos próximos dias, foi fonte de inúmeros equívocos que macularam indelevelmente o regime e o país. O mais grave de todos foi ter-nos legado uma “direita” cujo principal representante à data o celebra agora de cravo vermelho na lapela, lado a lado com a esquerda e a extrema-esquerda desse e do nosso tempo. Por mais que nos esforçássemos, dificilmente haveria melhor síntese dos motivos históricos que explicam o estado a que o país chegou.
Eu acuso!
Este título da Ránio Renascença é todo um programa:
Freitas do Amaral acusa Governo de ser “o mais à direita dos últimos 40 anos”
A palavra chave é, naturalmente, acusa. Pois é uma palavra com sentido pejorativo. Ninguém imagina um título ao contrário. Por exemplo:
Mário Soares acusa direcção do PS de ser “a mais à esquerda dos últimos 40 anos”
Juche-ifica-nos
Esqueçam resultados. O que importa é que este é o governo “mais à direita dos últimos 40 anos” e, portanto, violador do princípio sagrado e constituicional de bondade humana. Isto implica, naturalmente, que quem não é de esquerda não é filho de boa gente.
O problema de Freitas do Amaral, como de muitas outras pessoas, é a extrema necessidade do “parecer” ser mais relevante que o “ser”; portanto, para agradar aos velhos portugueses que namoram com o poder há 40 anos, a solução é fazer o que for necessário sem olhar a esquerdas e direitas mas dizer sempre que o objectivo é tão de esquerda que faça Juche soar a extrema-direita.
Alguns gráficos interessantes da 11ª avaliação do FMI
A leitura dos relatórios do FMI sobre as sucessivas avaliações é sempre muito útil, e o mesmo sucede com o que foi hoje revelado. Nesta altura em que estamos a chegar ao fim do período da troika, há alguns balanços interessantes. E algumas ideias feitas que podem e devem ser desfeitas.
Gastos sociais
Em 2012 Portugal gastava 22% do PIB com o chamado “estado social”. Isso compara com os 20,4% de média da Zona Euro e com os 18% da União Europeia como um todo. Não está mal como resultado depois do “maior retrocesso social de sempre”, ou do famoso “recuo civilizacional”, ou de tantas outras barbaridades que por aí se proclamaram.
Como se escreve no relatório:
Public pension expenditure in Portugal more than doubled relative to national income over the last 20 years, with changes only in part justified by demographic developments.1 In 2012, social benefit spending—of which pensions account for over 80 percent—stood well above European and euro area averages.
Os salários
Este relatório fornece-nos alguma informação interessante sobre a forma como se distribuem os salários entre os vários sectores da economia portuguesa.
Tomemos este primeiro gráfico. Alguns só verão nele a diferença salarial existente entre Portugal e países como a França, a Alemanha e a Itália. Eu vejo outra coisa: enquanto nesses países é no sector exportador que se pagam os melhores salários, em Portugal são os trabalhadores do sector não transaccionável os que, comparativamente, são melhor pagos. Isto mostra até que ponto este sector esteve protegido da competição – e até que ponto nele pesam os trabalhadores do sector público.
Quando olhamos para a forma como os custos salariais unitários evoluiram nos últimos anos verificamos que, se tomarmos por ponto de comparação 1995, os custos no sector não transacionável aumentaram mais de 60% (é aqui que está o Estado, que está a Banca, que estão as telecomunicações, a energia, etc), enquanto no sector transaccionável não chegaram a crescer 10%. Quando olhamos para o que se passou nestes anos de crise (desde 2009), verificamos que os custos unitários do trabalho cairam quase 15% no sector transaccionável (mesmo assim uma queda inferior à ocorrida na Irlanda e em Espanha) e, no sector não transaccionável, a dominuição desse indicador foi marginal. Ler mais…
O fanatismo dos “anti-fanáticos”
Francisco Assis não é conhecido por ser um político radical. Pelo contrário. Que lhe deu então para, na sua coluna semanal, insultar Pedro Lomba – “pequeno apparatchik ligeiramente alfabetizado” – e Bruno Maçães – um aparente “pateta” que escreve “num inglês próprio de quem nunca leu Shakespeare”?
O texto, ao contrário do que é habitual em Assis, não argumenta, vai apenas de bordão em bordão, atirando com Hayek para um lado, Pinochet para o outro, num amontoado de lugares comuns sobre o “governo dogmático” com “uma mentalidade escassamente democrática”. É, porventura, um texto eleitoral: Assis necessita de aumentar o tom de voz para que, no PS, não desconfiem dos seus galões. Mas não deixa por isso de se um texto revelador.
Quando chama a Lomba e Maçães “dois pequenos génios condenados à incompreensão” Assis revela ao vem, pois a palavra-chave da frase é “pequenos”. “Pequenos” porque novos, porque jovens, porque exteriores ao círculo autorizado dos políticos experientes e sensatos.
É curioso que Assis, um político que ocupou o seu primeiro cargo público aos 25 anos (presidente da Câmara de Amarante) se junte ao coro dos que procuram desqualificar os mais novos apenas por serem mais novos – ou “pequenos”, na sua linguagem alegórica. É curioso mas vai bem com os espírito do tempo. Depois de o 25 de Abril ter proporcionado uma ruptura geracional que permitir que gente com menos de trinta anos chegasse a secretário de Estado e a ministro (para não falar dos que chegaram a directores de jornais ou a presidentes de empresa), agora, que supostamente temos à nossa disposição “a geração mais bem preparada de sempre”, um exército de “senadores” passa a vida a desqualificar os Ler mais…
Marmita-me ao serviço do bem
Há uns anos, na mui social-democrata Dinamarca, terra modelo para progressistas ao serviço do bem (excluindo coisas como a monarquia, o cheque-ensino, a igreja oficial, ausência de salário mínimo, etc, etc), foi retirado do mercado o mui britânico creme para barrar Marmite por excesso de qualquer coisa (sal? vitaminas? britishness? sentido de humor?).
Não é de admirar que os estados gostem de taxar, proibir, indexar e/ou regular segundo um cânone do bem aquilo que as pessoas devem ou não comer. É para o bem comum. E está bem, encaixa perfeitamente no historial de intervenção nacional-socialista. Deviam reduzir o IVA nos ginásios.









