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Rasca não era insulto, era diagnóstico

1 Junho, 2020

Durante anos fomos sustendo a teoria que a minha geração, os nascidos com e de cravos, iriam conquistar o acesso ao poder informativo e executivo e, com isso, mudar definitivamente a face do parolo folclore revolucionário para um cosmopolitismo natural, oriundo da facilidade com que se chega a Badajoz e daí a Dubrovnik. Não aconteceu. A minha geração chegou à meia-idade sem se afirmar, declarando com todas as letras o quão o modelo de dinâmica social a que aspiramos é o de pertencermos ao mesmo mundo em que gravita um — digamos — Manuel Alegre.

No resto do planeta civilizado, baby boomers definiram o cânone cultural. A paz conquistada com o fim da segunda guerra não lhes apaziguou o espírito. Pelo contrário, foram os rebeldes, os rock’n’rollers, os criadores, os sátiros, os rebeldes, os da consciência alterada e os dos “tem que haver algo mais”. Nós, os que vieram a seguir, nós somos as formiguinhas à espera que o sentido de oportunidade pela vida dos baby boomer nos arranje uma vidinha confortável. E depois tivemos filhos, que criamos para enaltecerem obras tão relevantes como $ave Dat Money.

All of my luggage is Louie V, I swear to God nigga
All of my bitches be scared of me, I put that rod in ‘em
All of them bitches actin’ thotties, I disregard them
All them bitches actin’ holy, ain’t got no God in ‘em
I can teach a lil nigga somethin’, preach
I can take his ass church fresh as hell, no Easter
I can make his ass burp like a baby without no hiccup

Com todo o respeito pelas pessoas que agora se embeiçam por velhos e novos partidos, não é aí que “se muda o mundo”. As pessoas têm no bolso computadores poderosos que tornariam qualquer equipamento usado para gravar Penny Lane num mero brinquedo. E, no entanto, usam-o para ver gatinhos ou para sentirem que participam em algo ao dizerem uma laracha para os “amigos” entre idas ao quarto-de-banho.

Olho para os meus filhos e percebo que a minha geração nunca teve nada para lhes oferecer para que se insurjam contra nós. O mínimo que podemos fazer é sair de cena e prepara-los para serem o que nós nunca fomos e, lamentavelmente, nunca quisemos ser.

29 comentários leave one →
  1. Francisco Lobo de Moura permalink
    1 Junho, 2020 10:19

    Excelente! Os meus parabéns.

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  2. Weltenbummler permalink
    1 Junho, 2020 10:19

    quando não convém a classe politica esconde-se no burladero

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  3. Liberal de Bancada permalink
    1 Junho, 2020 11:34

    “A minha geração chegou à meia-idade sem se afirmar, declarando com todas as letras o quão o modelo de dinâmica social a que aspiramos é o de pertencermos ao mesmo mundo em que gravita um — digamos — Manuel Alegre.”

    Socialistas ou corporativistas?

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  4. 1 Junho, 2020 12:23

    Digamos em bom português que Abril produziu uma geração capada.
    E foi-o porque a cambada de imbecis que tomaram o poder em Abril, acharam revolucionário que haveria que fixar esse momento como o momento zero da História do país, cobrindo de trevas todo o passado.

    E tudo foi vendido como novo – e é difícil aos jovens rejeitar o que é novo – quando era rebotalho velho com novas palavras…

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  5. Filipe Bastos permalink
    1 Junho, 2020 12:53

    Entendo o que diz, Vítor. Resta saber se o falhanço é da nossa geração ou se é apenas o sinal da modernidade, do “fim da história” – pelo menos da história como a entendíamos, e se as novas gerações confirmarão isso.

    Fala do Manuel Alegre, mas sabe perfeitamente que o modelo que triunfou, o mundo em que vivemos, a cultura, a alienação, o consumismo, o alheamento cívico, a impotência política, tudo isto foi moldado pelos EUA e pelo capitalismo.

    Pode não ter sido isto que os vencedores da guerra imaginaram, mas foi isto que os boomers e os donos do mundo dos últimos 40 anos quiseram. Não o chuleco Alegre; ele nem será uma nota de rodapé. Os arautos desta era foram Reagan e Thatcher. There’s no such thing as society, lembra-se?

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  6. desiludido permalink
    1 Junho, 2020 13:04

    dizia um administrador da CUF que a melhor coisa do 25 de Abril é ter começado a conhecer melhor os portugueses
    ( e o que não dirão os que sofreram com a ditadura e assistem a este charco

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  7. Andre Miguel permalink
    1 Junho, 2020 13:32

    Isto de papaguear que os EUA e o capitalismo são os culpados de tudo é o mesmo que passar lixivia nos 100 milhões de mortos do comunismo… A merda dos valores elevados tem destas coisas, afinal os liberais é que não deixam construir a sociedade perfeita, a venezuela também não foi socialismo a sério. Da próxima vez é que é.

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    • 1 Junho, 2020 13:34

      Eu ouço “construir a sociedade” e saio logo do autocarro.

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    • 1 Junho, 2020 13:54

      Só a MTV e Hollywood e companhia porno lmt, contribuiu mais para destruir a cultura e os valores do povos ocidentais do que 80 anos de comunismo soviético.

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      • Andre Miguel permalink
        1 Junho, 2020 14:37

        Eu prefiro ter liberdade para escolher o que quero comer, do que ser obrigado àquilo que me queiram dar. Mas cada um sabe de si.

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      • 1 Junho, 2020 15:00

        Os afegãos os sirios e os iraquianos que o digam, na liberdade que lhes foi dada para escolherem o que comer … Olhe não há muitos meses lá o parlamento iraquiano votou uma moção para que os EUA retirassem as suas forças e abandonassem o pais. Mas eles ainda lá estão, deve ser para lhes dar a oportunidade de poderem “escolher o que comer”.

        Já os cidadãos americanos podem ter a certeza que irão poder continuar a ter a “liberdade de escolher” à medida que forem sendo substituidos por gente mais “qualificada” do terceiro mundo .

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      • 1 Junho, 2020 15:07

        E presumo que aquele outro comunista Tucker Carlson a expor a Amazon e a Uber de que você andava a bajular, não lhe passou cartão nenhum, certo ? Não vá a sua perspetiva e os seus “valores elevados” contra os “100 milhoes de mortos” serem abalados .

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      • Andre Miguel permalink
        1 Junho, 2020 15:30

        Mg, esse video estava giro, mas que eu saiba ninguem é obrigado a trabalhar para a Amazon ou Uber… e as más práticas de gestão são, ou deveriam, ser mais rapidamente castigadas num mercado livre que num mercado ultraregulado.
        E se achas que Bezos é rico porque paga mal aos empregados, então nem vale a pena termos esta conversa.

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      • 1 Junho, 2020 16:15

        Claro que ninguem é obrigado a trabalhar apara amazon, sobretudo depois de serem despedidos dos seus empregos para serem substituidos por gente qualificada do terceiro mundo, ou virem as suas industrias serem deslocalizadas para fora dos seus paises . Não admira que haja lá um grande lobbie “comunista” para legalizar as drogas.
        Entre as carreiras profissionais por que foram substituidos por agendas politicas “comunistas”, empregos que não existem pela deslocalização das industrias por causa de politicas “comunistas”. Sobra-lhes apenas trabalharem para o jeff bezos, ou terem que competirem com pakistaneses na uber. E viciarem as suas consciencias em drogas que é para não chatearem muito lideres que lhes garantem a “liberdade de escolha”.

        Ou então alistarem-se para o exercito para irem espalhar a “democracia” e “liberdade de escolher” por todo o mundo. E sobretudo irem morrer na defesa dos interesses de uma terra prometido que nem sequer é o deles, e que faz questão de lhes cospir em cima, com a quantidade de impostos que recebe e arrecada, retirada em impostos dos seus bolsos.

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      • Jornaleca permalink
        1 Junho, 2020 19:06

        @mg

        Seu grande mentiroso. Você é falso como as putas.

        Lenine, os seus comunistas, tiveram a intenção de não partilhar só os bens, roubar a quem tem, nacionalizar os bens, mas queriam também obrigar a todos casais partilharem as mulhers, uns com os outros, sua besta. A ideia era de trocar as mulheres, foder como queriam e havia vontade.

        Vá foder gatos, seu aldrabão corrupto.

        E porquê que a puta, o terrorista e assassino Lenine teve que desistir disso?

        Não há mais puta que o comunista.

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      • 1 Junho, 2020 21:05

        Disto não lhe contaram…

        http://www.americanheritage.com/how-america-helped-build-soviet-machine#4

        “In the 1920s the cream of American firms involved with automobiles, electricity, and workplace management were eager to sell the state of their art—give or take a few years—to the “Reds,” despite powerful anticommunist voices on the right. The Soviets were ready to buy, despite their aversion to capitalism. (They distinguished, as many Americans cannot even today, between America’s history-shaping means of production and our free-enterprise economic superstructure.) The United States had never enjoyed greater worldwide respect—or envy—than after World War I. The Soviets believed that the American system of production could consolidate the Bolshevik Revolution.”

        http://www.rbth.com/history/328834-soviet-state-took-capitalist-help

        “Soviet specialists had resources, but absolutely no experience of modern industrial construction. As a result, the incredible decision was made to engage foreign professionals from the capitalist world.”

        “A number of renowned foreign companies were invited to take part in the Stalinist industrialization, among them Siemens-Schuckertwerke AG, Ford Motor Company, and General Electric. But the most significant mark was made by industrial architect Albert Kahn and his Detroit-based firm Albert Kahn Associates.”

        “In 1929-1932, in collaboration with Soviet experts keen to acquire valuable foreign experience, US engineers built 571 industrial facilities across the country: from giant factories, like the tractor plant in Chelyabinsk, to small workshops.

        It was Kahn’s architects who designed and built one of the first large industrial enterprises of the USSR—the famous Stalingrad Tractor Plant, which produced and repaired T-34 tanks during the Great Patriotic War. The plant was built in the US, dismantled and transported to the USSR, and then reassembled on Soviet soil in the space of six months under the supervision of US engineers.”

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    • 1 Junho, 2020 14:45

      E por falar em “papaguear”. a choradeira do liberal “conservador” e do libertoino com os “100 milhões de mortos do comunismo”, acaba rapidinho, logo quando se lhes mostra imagens assim destas natureza. E mudam para o papaguear do “É livre mercado” e de que a china afinal e “capitalista” …

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      • Andre Miguel permalink
        1 Junho, 2020 14:59

        Nunca me viste defender a China ou negócios com chineses…

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      • 1 Junho, 2020 15:28

        Já passou do argumento geral para o particular e especifico à sua pessoa para defletir o assunto ?
        Mas digam-me uma coisa. Você não andou nessa sua diáspora migratória de que se orgulha por ter abandonado Portugal. Em negócios e a trabalhar para os donos da terras da catana e da roda dentada ?

        E portantos desses 100 milhoes de mortos do comunismo de que você “não papagueia” , em nome de supostos “valores não elevados” de que você “não debita”, não estão lá incluidos , os que foram mortos pelos donos revolucionários dessa terra que caminha para a “sociedade perfeita” para o qual você andou em negócios e a ganhar dinheiro, hum ?

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      • Andre Miguel permalink
        2 Junho, 2020 08:29

        Tu até tens boas ideias e por vezes concordamos, mas volta e meia dás umas piruetas que não entendo… sim, trabalho para uma multinacional e andei varios anos por África e entao? Não podemos trabalhar nos países onde os revolucionários andaram a fazer estragos no passado? Por essa ideia não trabalhariamos em meio mundo…

        Quanto ao Bezos, sim tens razão, ele agora tem uma posição dominante e abusa, mas o meu ponto é que não foi isso que o tornou rico, foi a criação da Amazon e a resposta do consumidor, que depois a empresa cresça e abuse da posição dominante são contas de outro rosário.

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  8. Jorge permalink
    1 Junho, 2020 14:15

    Gostei imenso. De vez em quando sai-se da casca com um texto óptimo.
    Quanto às acusações ao comunismo nós não tivemos, somos colónia dos EUA, até as sinopses do MEO estão escritas em português do Brasil.

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  9. Jornaleca permalink
    1 Junho, 2020 18:20

    Eu acho muito bem. O 25 de Abril fodeu os cornos a todos aqueles, que o apoiaram. As putas do 25 de Abril só enganaram a quem quis ser enganado. Já em 1974 era sabido a podridão do modelo socialista.

    Hahahahahhaaha.

    Eu acho muito bem, que cada um seja pago com dureza, pela qualidade do trabalho que fez e faz.

    O 25 de Abril é bem feita, para todos aqueles cobardes, que não querem tomar responsabilidades e quando fracassam, andam como os tais cobardes, sempre à procudar dum bode expiatório.

    Hahahahahhahahahah.

    O problema dos tais revolucionários é, que todos são vigaristas. Todos!!

    Hahahahahaha.

    O problema do homem moderno é, que ele é o modelo mais burro, que anda por encima da terra. Sem cultura, sem inteligência, sem sentido de vida, sem saber comunicar. Ele pensa ser o centro do universo e merece só porrada no corpo. Volta a fazer sempre os mesmos errors. Nada aprende.

    Hahahahahahahaha.

    É que vivem em Portugal pessoas, que conseguem viver, ignorar os porcos do Largo do Rato e Lda e viver um vida feliz e honesta e competente.

    A ponte velha sobre o Tejo em Lisboa continua a ser a Ponte de Salazar.

    FUCK THE WHOLE LEFT!!
    FUCK THE ANTIFA!!
    FUCK BE, PCP, PS!!
    FUCK THE AMBIENTALIST!!

    Viva Salazar!!
    MPGA!!

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  10. MJRB permalink
    1 Junho, 2020 18:42

    Brilhante post, VCunha !

    Mas Vc. e não só, tem um fora de série mandante da governança nascido a roçar o 25 de Abril: o Pedro Nuno Santos, ex-lambebotas “socialista” até chegar a deputado,
    ex-secretário de estado e actualmente ministro, rectifico, ministro depois de ter sido ministro dos assumtos parlamentares. Espécime tuga (superior ao Dr, Strangelove), que há poucos anos pôs as pernas dos alemães a tremerem. Um homem-bala que hoje não se prevê onde vai estatelar-se, talvez tipo boomerang no Largo do Rato.

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    • Jornaleca permalink
      1 Junho, 2020 18:56

      O rato conseguiu pôr a montanha a tremer? Ele deve ser um grande burro e oportunista.

      Hahahahahaa.

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  11. George Young permalink
    1 Junho, 2020 19:02

    Como olheiro do Diabo
    Te digo senhora
    Com mais informação
    Muito menos necessidade
    Continua a vencer a outra verdade
    Gente que prega a liberdade
    Presta-se por menos de nada
    A vigiar os outros,
    Controlando
    A sua liberdade
    Fazendo de tudo para obter proveito
    Apregoam o contrário do que fazem
    Mas não enganam
    O seu futuro pelo pecado será traçado.

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  12. Expatriado permalink
    1 Junho, 2020 23:58

    Ouçam isto. Por cá não é muito diferente…

    https://video.foxnews.com/v/6160446042001?playlist_id=5198073478001#sp=news-clips

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  13. 2 Junho, 2020 12:09

    Aqui está um artigo muito bom. Dito isto, espero que fique claro, que não é para o desmerecer que lhe quero adicionar uma outra perspectiva.
    Considero que esta pretensa ‘música’, própria para imbecis, foi uma verdadeira traição aos negros. Menorizou-os enquanto pessoas.

    Ouvindo esta gente (Lil Dickys, 50 cents e outra rapaziada conexa) esquecemo-nos que o blues, o gospel e todos os espirituais negros, o jazz ou até mesmo a rumba, a morna e o samba também são música negra.
    Julgo que não exagero se disser que o que se passa hoje nos ‘States’ é, em parte, fruto desta subcultura medíocre, rapeira e hiphopeira. Dizem-se orgulhosamente alguns destes espécimes, filhos de uma cultura ‘Gangsta’! Ora aí está!
    Vai daí que branquelas perfumadinhos a la Eminem, não fizeram mais do que aproveitar a onda para ganhar umas coroas. Os negros que se ‘lixassem’; esta estupidez dava dinheiro a muita gente…

    Uma música (se assim se pode dizer…) cantada (passe a expressão…) por uns debilóides a debitar umas ‘merdochas’ boçais com as calças em baixo e a mostrarem-nos o rabo, e carregados com mais ouro do que uma minhota rica, não foi, portanto, a melhor forma de valorizar ninguém. Os negros mais esclarecidos que o digam…

    Mutatis mutandis, eis uma lição que alguma direita das redes sociais e deste mundo dos blogues ainda não percebeu: a linguagem de carroceiro só favorece quem nos combate.

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