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Do pecado original ao pecado permanente

11 Agosto, 2020

O que mantém o verniz da civilização com umas rachas mas ainda suportável é a ideia de que ainda voltaremos a uma “normalidade”, uma reminiscência de um tempo em que passeávamos pela praia sem que alguém com máscara P2 se cruzasse connosco. Não querendo acelerar o processo de degradação de todos os laços sociais, o que parece certo é não haver qualquer hipótese de regressarmos a Fevereiro de 2020, quanto mais a uma época em que Guterres não se fotografava de pés na água ou que Greta ainda brincava com o que quer que crianças criadas por pais imbecis brincam.

A televisão que nos estupidificaria era a mesma que nos fazia sentir o calor do Verão com os biquínis, o Ambre Solaire, o Fá Fresh e a beleza feminina pré-burqa. Era o tempo em que belas moças brindavam vencedores de corridas com vestidos que reflectiam o poder feminino. Era o tempo em que se reconhecia que a stripper a receber gorjetas enfiadas na tanga reflectia o poder que esta exercia sobre homens completamente babados e não a opressão do heteropatriarcado. Pelo contrário, era o tempo em que as mulheres dominavam o mundo, deixando o palermita do homem para o cargo de fingir liderar fosse o que fosse. Era o tempo em que a dona de casa geria aquilo tudo enquanto o caçador ia buscar o dinheiro ao emprego para que ela aprumasse filhos, os alimentasse e os criasse na completa admiração pelo “mãe é mãe”.

Esse tempo não volta. Este é o tempo de “sermos felizes”, como se uma condição efémera de felicidade não fosse apenas possível através da superação de sofrimento. Ninguém é permanentemente feliz, mas não é nada disso que se vende: vende-se a ideia de que a felicidade é um estado que se atinge – e divulga – e do qual nunca mais se sai excepto por culpa do próprio.

Ninguém voltará à “normalidade”. A normalidade era a condição humana. Agora, em que esta é substituída pela fé no pantomineiro das “ciências sociais” e dos “organismos do estado”, as pessoas estão em via de extinção, sendo progressivamente substituídas pelos drones do pensamento único, anódinos, sem alma.

Se alguém viajasse no tempo de 1946 para 2020 não creio que desejasse ficar. Melhor seria voltar aos escombros, onde, por muitas falhas que tivesse, os humanos ainda o eram. Mas, como sempre, a culpa deve ser do Trump.

Já há algum tempo que não vivemos na era do pecado original. Agora vivemos na era do pecado permanente.

13 comentários leave one →
  1. 11 Agosto, 2020 11:09

    É verdade. Vivemos (ou querem que vivamos) na angústia constante do pecado permanente.

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  2. 11 Agosto, 2020 11:15

    A igualdade do rebanho, o corretês, o Estado, os canis, os gatis. as cercas…

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  3. Maria José Melo permalink
    11 Agosto, 2020 11:16

    A era da mentira, da manipulação, da corrupção, das aparências e da falta de escrúpulos e princípios morais.
    Eu já não reconheço esta sociedade!

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    • carlos rosa permalink
      11 Agosto, 2020 13:54

      Se meia dúzia de malucos derem umas orelhadas nos títeres do governo, o Costa cai.
      Só já falta a gota de água.

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  4. 11 Agosto, 2020 12:36

    Bravo, Vitor! Bravo!
    👏👏👏

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  5. 11 Agosto, 2020 13:03

    Caríssimo Victor:
    Sou seu leitor fiel faz MUITO tempo, mas, por opção, preferi ficar sempre. no anonimato não comentando os seus escritos, sempre de altíssimo gabarito; todavia, há sempre um momento em que a excepção vem confirmar a regra, e esse momento chegou hoje: este incrível texto, pleno de verdade, transpôs para o papel o que me vai na alma duma maneira que nem eu conseguiria fazer melhor; que Deus nos guarde!
    Parabéns pelo desassombro, e aceite os meus respeitosos cumprimentos!

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  6. 11 Agosto, 2020 15:49

    É verdade! Já um homem não pode dar uns tabefes na mulher, no recato do lar, nem pode espancar o cão na via pública, nem pode dizer que aquele não é meu filho que não venha logo um teste de ADN obrigá-lo a pagar pensão. E os senhores diretores já não podem despedir selvagem para substituir um empregado por um afilhado. Nem é permitido apalpar o rabo a uma mulher, por mais boazona que ela seja! Dá para acreditar?
    Quem deseja viver num mundo assim? no mundo do politicamente correto?

    Impedir-nos de pecar é impedir-nos a absolvição! É tirar-nos a esperança do Reino dos Céus!

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    • 11 Agosto, 2020 16:12

      Fico muito feliz por saber que resolveu todos esses problemas que ficaram permanentemente enterrados no passado.

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      • chipamanine permalink
        11 Agosto, 2020 17:01

        E verdade ,,,,,agora começam a violência no namoro com a cultura da tolerância igualdade e depois são responsáveis por cerca de 30% dos homicidios, abandonam os cães na via pública (aos milhares) que acabam em “canis” para ninguém ver porque não se pode “eutanaziar”
        (isso só será reservado para os “reformados” que pesam nas finanças), o filho só será meu se o corpo dela não for dela e ela pode dizer que não quer o filho (com ADN ou sem ele). Os directores até podiam despedir sem justa causa mas com causa ideológica (Saramago) e já o fazem a quem não compartilhar o “correctez” das grandes conquistas civilizacionais no “embiente” no “clima” na caridade …ops “solidariedade” e sobretudo na maconha.
        Apalpar o rabo a uma mulher era dos grunhos e será sintomático ter lembrado isso. (está com saudades?)
        O reino dos céus é hoje, que não podemos pecar porque até peidar provoca o aquecimento global.

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    • Zé Manel Tonto permalink
      11 Agosto, 2020 21:44

      “nem pode dizer que aquele não é meu filho que não venha logo um teste de ADN obrigá-lo a pagar pensão”

      Oh Manuel a situação é mais o inverso, uma qualquer vadia diz que o pai da criança é o Manuel, e enquanto o teste não prova que não é, vai pagando.

      Isto se tiver a sorte de viver numa jurisdição em que pode tirar o nome do certificado de nascimento, porque há muitos locais onde há limite de tempo para pedir teste.

      Basta a vadia dar uma morada onde sabe que o Manuel não vive, não recebe a carta do tribunal, não contesta a paternidade, e fica obrigado a sustentar uma criança que não é sua, de uma gaja que não f*deu.

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  7. chipamanine permalink
    11 Agosto, 2020 17:03

    Esqueci-me de dizer que agora para ser contratado tem de dar o rabo para não ser homofóbico pois que sexos não existem, só géneros

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  8. Leunam permalink
    11 Agosto, 2020 20:16

    Não resisto a transcrever para aqui um comentário de Luís Lavoura no Corta Fitas.
    Escreve ele:

    “É engraçado, dantes as pessoas ao entrar na igreja benziam-se com água benta, agora parece que se benzem com álcool.”

    Com esta consegui sorrir, no meio de tanta tristeza.
    Esta está bem caçada! Parabéns Sr. Lavoura!

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  9. André Silva permalink
    11 Agosto, 2020 21:39

    Parafraseando o que li ou vi algures e há pouco tempo (não me recordo por quem) “estes são tempos que nos envergonham”. E eu acrescentaria – como poucas vezes, se alguma, no passado.

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