Notas sobre as propostas para incentivar a natalidade
1. Portugal mantém actualmente um extenso estado social com serviços universais de educação e saúde. Para alem disso mantém diversos apoios à habitação, emprego, formação, cultura e transportes. Estes serviços constituem transferências entre as famílias que não têm filhos, e por isso consomem menos destes serviços públicos, e famílias que têm filhos, e por isso consomem mais destes serviços. Se esta transferência não é já suficiente para estimular a natalidade, não vejo como é que mais transferências podem estimular a natalidade. Cerca de 50% da riqueza nacional já é colocada num bolo comum, e metade desta vai para serviços que beneficiam quem tem filhos.
2. A comissão que estudou o assunto propõe ainda mais transferências via IRS, IMI e imposto automóvel. Na prática propõe que as famílias sem filhos financiem SUVs às famílias com filhos. Estado social chega ao ponto de não apenas se subsidiarem serviços básicos universais como também de se subsidiar carros espaçosos. E é de um verdadeiro subsídio que se trata dado que em momento algum a dita comissão sugere que serviços públicos devem ser cortados para compensar estes cortes de impostos. Não são cortes de impostos dado que eles serão pagos por outros.
3. As medidas de apoio à natalidade estão claramente mal desenhadas. Por exemplo, baixar o IRS a quem tem filhos não incentiva minimamente a natalidade uma vez que esses filhos já nasceram. Há cerca de 2 milhões de pessoas com menos de 18 anos em Portugal que dariam direito a esses descontos, e esses já estão todos nascidos. Nascem cerca de 90 mil crianças em Portugal e com estes incentivos nascerão pouco mais de 90 mil. Imginando que nascem 10 mil em excesso, uma estimativa optimista, um desconto de IRS associado a 2 milhões de crianças consegue um aumento de natalidade de 10 mil por ano. O cheque bebé seria mais eficaz e mais dirigido, e igualmente errado, mas por outras razões.
4. Grande parte das medidas propostas teriam resultados contrários aos pretendidos (supondo que se pretende estimular a natalidade). Baixar impostos a quem já tem filhos apenas implica que quem não tem filhos, e os quer ter, pagará nos primeiros anos de vida activa mais impostos, o que os fará adiar ter filhos. Mas este é apenas um dos efeitos distorcidos das medidas propostas, que a ser aplicadas criariam uma sociedade de cidadãos de primeira e de segunda em que estes últimos perderiam interesse em produzir riqueza ou mesmo em viver por aqui.
5. O país que tanto se comove com a baixa natalidade é o mesmo país que aplaude o Tribunal Constitucional por este manter os direitos adquiridos das gerações mais velhas. É o país em que uma geração inteira vai pagar as suas pensões e as pensões da geração mais velha. É o mesmo país que convive com o desemprego jovem e o com um mercado de emprego que protege os mais velhos. É o pais em que muitas pessoas passam a maior parte da idade fértil fora do mercado de trabalho. É um país em que o Estado promove o prolongamento artificial do percurso escolar de forma a quem muitas pessoas só começam a procurar o primeiro emprego aos 25-28 anos. É também o pais dos impostos progressivos, que penalizam o trabalho e a poupança, e impedem que as pessoas poupem mais e progridem mais no pico das suas capacidades, o que coincide com o período em que poderiam ter filhos. Mas pelos vistos nenhum destes problemas preocupou a comissão.
Paris já está a arder
O correto uso do papel higiênico
João Ubaldo Ribeiro era genial. A sua última crónica é superlativa.
(crónica publicada no jornal O Globo, link do Observador)
O título acima é meio enganoso, porque não posso considerar-me uma autoridade no uso de papel higiênico, nem o leitor encontrará aqui alguma dica imperdível sobre o assunto. Mas é que estive pensando nos tempos que vivemos e me ocorreu que, dentro em breve, por iniciativa do Executivo ou de algum legislador, podemos esperar que sejam baixadas normas para, em banheiros públicos ou domésticos, ter certeza de que estamos levando em conta não só o que é melhor para nós como para a coletividade e o ambiente.
Por exemplo, imagino que a escolha da posição do rolo do papel higiênico pode ser regulamentada, depois que um estudo científico comprovar que, se a saída do papel for pelo lado de cima, haverá um desperdício geral de 3,28%, com a consequência de que mais lixo será gerado e mais árvores serão derrubadas para fazer mais papel. E a maneira certa de passar o papel higiênico também precisa ter suas regras, notadamente no caso das damas, segundo aprendi outro dia, num programa de TV.
Tudo simples, como em todas as medidas que agora vivem tomando, para nos proteger dos muitos perigos que nos rondam, Ler mais…
Complexo messiânico

No seguimento do comunicado da Ordem dos Médicos onde se pede aos médicos para informarem directamente os doentes da “gravidade e impacto negativo da actual política do Ministério da Saúde nos cuidados que lhes são prestados” assim como solicitar aos clínicos para que “cessem a participação em Grupos de Trabalho e recusem imediatamente toda e qualquer colaboração graciosa com o Ministério da Saúde, ACSS, ARS, DGS, Infarmed, Hospitais e ACES, incluindo as comissões de NOCs e Auditorias”, solicito aos médicos que me possam ler para que marquem rapidamente e no SNS a consulta que possa ajudar o bastonário a ultrapassar esta fase de megalomania.
Adenda: Ocorreu-me que solicitar a marcação de uma consulta possa ser considerado como “colaboração graciosa” com o hospital.
Zhdukur Enver Hoxha

Portugal precisa disto. Nenhuma manifestação está completa sem o jornalista-activista, aquele que não sendo o narrador é mesmo a personagem da notícia. Pode ser incómodo para o jornalista-jornalista-mesmo mas, convenhamos, desde quando é que uma manifestação é notícia, principalmente considerando que a eleição para a direcção do rancho folclórico local consegue gerar mais emoção (e sangue, suor e lágrimas)?
Pessoas que trabalharam 10 horas semanais em escolas num dos últimos anos vão boicotar o teste. É um bocado abusivo o uso do termo “professores” a um subgrupo dos desempregados mas – ei – se não o fizermos contribuímos para o assassínio (com tortura prolongada desde 1974) da escola pública. Outros, que um dia receberam bolsa para “investigarem”, estão em reboliço porque se está a matar a ciência (que era extremamente pujante até 2011). Apesar do homicídio da ciência, o CES lista 130 investigadores (0,1% da população de Coimbra investiga abrilismo, é pouco) e estamos todos à espera da conclusão do projecto “ALICE – Espelhos estranhos, lições imprevistas: definindo para a Europa um novo modo de partilhar as experiências do mundo”.
As crianças estão a morrer: à fome/com excesso de açúcar/com excesso de sal/de obesidade/de tédio/de hiperactividade/de depressão/porque lêem jornais/porque sim.
Os israelitas matam palestinianos inocentes em números bem conhecidos, palestinianos estes que nunca mexeram uma palha nem se rebentaram no bar de um hotel em Tel Aviv. Do lado israelita não há mortos, pelo menos contabilizando pessoas humanas, coisa que militares obviamente não são.
Caiu um avião na Ucrânia. Também caiu um avião em Portugal, a 4 de Dezembro de 1980. Hoje estamos chateados com o Correio da Manhã, por publicar uma foto com mortos, com muito mais mau gosto que a foto com mortos publicada pelo DN (é que a do CM mostra mortos).
Pessoas como o Pedro sociólogo e permanente co-autor de coisas com Maria de Lurdes Rodrigues (a da pena de prisão) comentam economia, culinária, metalomecânica e finança na televisão com a mesma facilidade com o ISCTE pode dispensar pessoas para Carnaxide a qualquer hora do dia.
Podemos então mandar fazer as placas de identificação de jornalistas tamanho jumbo, preferencialmente com irónico tipo de letra em escalarlate ou amanhã há indignação da boa outra vez, para animar a patetice auto-explicativa da nossa auto-infligida miséria?
Haverá alguma criança devidamente alimentada em Portugal?
Notícias do campo santo
1. Chegou o alarme: Especialistas denunciam atentado ao património no coração de Lisboa
2. Um grupo de especialistas denuncia um atentado contra o património natural e edificado da zona do Príncipe Real, em Lisboa. Em causa está a construção de um parque de estacionamento subterrâneo, com quatro pisos, que ameaça, entre outras coisas, o Aqueduto das Águas livres, o Jardim do Príncipe Real e o Jardim Botânico. Especialistas em mobilidade, urbanismo, ambiente, arquitectura e património, de cinco movimentos de cidadãos, juntaram-se e esta quinta-feira promovem uma conferência de imprensa para contestar o impacto da obra. Em uníssono, contestam o projecto de um estacionamento subterrâneo, que tem 13 anos, e que agora poderá avançar.
ASSIM POSTAS AS COISAS O LEITOR IMAGINA QUE O DITO PARQUE SECAS AS RAÍZES DAS ÁRVORES OU MINA OS ALICERCES DO AQUEDUTO
CONTINUO SEM PERCEBER. OU SE SABE OU NÃO SE SABE. NÃO SE PODE CONTESTAR COM BASE EM AFIRMAÇÕES COMO Um projecto desta natureza não pode deixar de ter um forte impacto ambiental”, E TAMBÉM NÃO SE EXPLICA QUAL É o impacto no património arquitectónico,
ATÉ AGORA ALÉM DA ARISTOCRÁTICA POSIÇÃO DE NÃO QUEREMOS PARQUES DE ESTACIONAMENTO, NÃO QUEREMOS CENTRO COMERCIAIS ETC… NÃO SE PERCEBE A FUNDAMENTAÇÃO PARA ESTA OPOSIÇÃO. MUITAS DAS CIDADES DA EUROPA TÊM PARQUES SUBTERÂNEOS NO SEU CENTRO. EM LISBOA CONSTRUÇÃO DE PARQUES SUBETERRÂNEOS OU A CONSTRUÇÃO DE TÚNEIS LEVANTAM POLÉMICAS QUE SÓ SE ENTENDEM À LUZ DA CONCEPÇÃO DO SOLO DA CIDADE COMO CAMPO SANTO. ADMITO QUE O PARQUE POSSA TER CONSEQUÊNCIAS NEFASTAS NOS JARDINS E NO AQUEDUTO MAS ISSO TEM DE SER EXPLICADO.
Depois da forca
que valha a verdade ainda obrigou o Élsio a pregar para ali uns pregos chegou a senhora japonesa que muito mais prática recorreu a uma impressora 3D.
Sobre a arte e os artistas vale a pena ler este artigo de Fátima Bonifácio: Mas o que será Arte?
Isto tem mesmo de ser investigado
Dois doentes morreram enquanto esperavam por uma intervenção no Hospital Santa Cruz, alegadamente por falta de dispositivos médicos devida a «limitações administrativas», denunciou hoje a Ordem dos Médicos, com base na denúncia de clínicos da unidade de saúde. A última vez que tivemos uma onda de indignação nacional nestas matérias – O inferno de uma doente com cancro deixada na escadaria de uma igreja – nada era o que parecia De qualquer modo o caso será sempre grave e precisa de ser investigado: se tiver acontecido nestes termos é gravíssimo, se se tratar de uma denúncia que depois se percebe não ter sido bem assim antes pelo contrário grave continua a ser.
Colecção Mistérios de Verão
Lembram-se dos livros que líamos na praia entre bolas de Berlim recheadas de creme que era apenas creme e não um problema calórico ou uma vítima da ASAE? Eram os mistérios de Verão. No DE de hoje abordo alguns dos mistérios de Verão deste ano de 2014: O comunismo e a pobreza. O Triceratops abatido por Spielberg. O hotel só para maiores de 16.
How old are you?
Quando no Verão passado escrevi Este País Não é Para Jovens com o José Manuel Fernandes deparei frequentemente com a convicção instalada de que esta crise é uma questão de ricos e pobres. Não é. Vale a pena ler esta análise de Robert Joyce no Finantial Times sobre o fosso crescente entre novos e velhos no Reino Unido
o “mamading” é que está a dar
Em vão procurei (e não encontrei), nos jornais diários “de referência”, de ontem e de hoje, notícias sobre o acidente ocorrido durante o vôo Lisboa-São Paulo, de sábado, da TAP. O Diário de Notícias não dedica uma única linha ao assunto, enquanto que o Público o refere numa página adiantada, limitando-se à reprodução inócua de um take da Lusa. Em contrapartida, o Público dá destaque de primeira página ao magno problema da “desintegração do Bloco de Esquerda” e aos dilemas político-existenciais da influentíssima Ana Drago, agora a galope veloz rumo a um radioso futuro no Partido Socialista de António Costa. Acerca do que terá originado a quase desintegração de um dos motores da aeronave, que poderia ter vitimado 260 pessoas, e as eventuais responsabilidades da transportadora aérea, nada. Deveremos, por isso, concluir que 0 jornalismo português de investigação anda por baixo? Nem por isso: para além da já referida profunda análise sobre o Bloco, o Público consegue redimir-se mais ainda trazendo-nos, na última página da edição de domingo, a empolgante notícia sobre o novo jogo da moda, o “mamading”, no qual os intervenientes trocam bebidas alcoólicas por sexo oral. Quem sabe a TAP o venha a acrescentar ao portfolio dos seus jogos virtuais nas viagens de longo curso. Isso sim seria notícia!
Rés-BES
Não há motivo para alarme. Vai tudo correr bem. Repito: não há problemas que não possam ser resolvidos, só soluções para as quais ainda não foram encontrados os respectivos problemas.
É Verão, altura de passeios em família. Visite o estádio de Leiria, as turbinas eólicas no seu monte de eleição ou conduza um carro eléctrico pela costa alentejana com paragem em Sines, para ver navios. Use o comboio da sua CP para admirar o Alqueva ou aprecie o luxo a bordo da sua companhia aérea num breve e aprazível voo entre Porto e Beja.
Vá para fora cá dentro. E lembre-se: escapou à espiral recessiva e ao segundo resgate, também há-de escapar a isto. Que isto não se aguenta, já se sabe; mas podia ser bem pior e não se aguentar muito menos. E agradeça à família Espírito Santo tudo o que fez por si neste Verão: a possibilidade única de participar no maior safari de elefantes brancos a oeste de Bratislava. Eles confiaram em si e nos seus impostos, confie você também na sua capacidade para continuar a aposta no crescimento.
Precisa-se político a horário completo (M/F)
O grande-demais-para-falhar Paul Krugman está de saída de Princeton. Esta saída do hiper-inflacionista preferido de toda a gente de bem, não sendo tão relevante como o pendurar de botas de Puyol, levanta questões interessantes sobre a persona pública do homem que há muito trocou a integridade académica pela propaganda a favor de António Costa1.
Ideia para a televisão para combater o número excessivo de concursos culinários: um concurso de neo-keynesianos. Ganha aquele que conseguir propor a ideia mais parva para regular a vida do Zé. Bem sei que algo do género já existe mas, inclusivamente, deve incorrer em inconstitucionalidade por não ser em canal aberto.
Não querendo ser desagradável, o desempenho de Paul Krugman nem sempre foi apurado. Em tempos, antes da profissionalização, era um cronista muito interessante para rústicos não-progressistas, como exemplificado neste belo texto: In praise of cheap labor.
Ya know, he peaked too early.
1 Não pretende ser ofensivo, pode ser substituído por outro Messias qualquer.
Depois do esforço aglutinador das esquerdas
A notícia não é que A ou B tenham saído do Bloco de Esquerda. A notícia é que ainda lá esteja alguém.
A culpa é da burguesia
A ler
Inês Teotónio Pereira: «A versão clássica dos maus da fita está em crise: já não existem maus, nem nas fitas nem em lado nenhum. Se alguém pega numa arma e assassina dezenas de pessoas numa universidade ou se um grupo de terroristas aniquila dezenas de civis, a tendência é justificar os crimes com o contexto. Porque a culpa, em primeira instância, nunca é dos autores. A culpa é quase sempre da sociedade, da globalização, dos capitalistas, do contexto familiar, dos filmes violentos, da pobreza, da liberalização da venda de armas, da religião, etc. O que prevalece nesta teoria é que as pessoas, de um modo geral, são estúpidas, coitadas, e a moral que têm ou não têm depende exclusivamente do contexto. Os maus são vítimas e, na verdade, somos todos bons selvagens, incluindo os terroristas, os assassinos, etc. Os maus são os contextos, e não os criminosos.
Esta febre de fazer tábua rasa do bem e do mal, dos maus e dos bons, à boa maneira dos filmes de cowboys e do super-homem, chegou aos contos infantis. E não, não se inventaram novos contos infantis, adulteraram-se os clássicos. Pegou-se no trabalho genial dos irmãos Grimm, de Andersen e de muitos outros que se esfalfaram a trabalhar e mudaram-se as histórias para as adaptar aos conceitos modernos e, por isso, correctos. Ler mais…
Era o que faltava!!!
Muito mais surpreendente que existam unidades hoteleiras que não aceitam crianças é o facto de existirem famílias que insistem em levar os seus filhos para unidades hoteleiras onde eles não são desejados!
Risco sistémico
Risco sistémico. Holocausto. Apocalipse. Tudo palavras ou expressões existentes num artigo qualquer de um qualquer Viriato Soromenho-Marques sobre assuntos como a doçura das tangerinas.
“Risco sistémico” é quando se pondera reduzir as perdas de uns com o dinheiro dos outros.
advertência sobre o bes
O mercado tem sempre razão.
Pós-socratismo
A culpa é de um banqueiro central?
Num mundo pós-socrático é perfeitamente plausível que Vitor Constâncio concorde com Daniel Bessa.
Esse é o fado português.
os novos devoristas
Quando terminou a guerra civil de 1832-34, conflito que opôs absolutistas e tradicionalistas, representados por D. Miguel, por um lado, e constitucionalistas e jacobinos, reunidos em torno de D. Pedro, por outro, estes últimos, o partido vencedor, castigaram os vencidos expropriando as propriedades das suas famílias mais abastadas e apropriando-se delas a preço irrisório, por via de falsos leilões e concursos viciados, onde o pretexto era o de obrigar os culpados da guerra a pagar os seus custos e a razão autêntica era a pura e simples apropriação da propriedade dos vencidos pelo restrito grupo da elite vencedora. Daqui resultaram a esmagadora maioria das novas fortunas da segunda metade do nosso século XIX e a aristocracia florescente na monarquia constitucional, que se “nobilitou” em negociatas e nas relações promíscuas dos negócios com o poder e o estado, matriz que, desde então, nunca mais conseguimos abandonar. A voracidade patrimonial e financeira da elite triunfante e o súbito enriquecimento e os muitos escândalos em que os seus protagonistas frequentemente se envolveram, levou a que a opinião pública lhe pusesse a alcunha de “os devoristas”.
O que se tem passado em Portugal nos últimos anos, por via de confisco fiscal, não tem sido muito diferente disto. Os elevadíssimos patamares a que a fiscalidade se encontra no nosso país, obrigando a maioria das pessoas e das empresas a trabalhar mais de meio ano para pagarem impostos ao estado, mais não é do que uma forma súbtil de redistribuir renda entre quem ainda tem alguma e quem, por essa via, a concentra cada vez mais. Dito de outro modo, ao invés do que explica a teoria socialista keynesiana, o destino dos recursos cobrados por via tributária não são os bolsos dos mais pobres, mas os daqueles que, por ligações também elas espúrias ao poder, conseguem as aprovações das ppp,s, as adjudicações das obras públicas, as concessões dos serviços públicos criados e mantidos, a altíssimo custo, com o dinheiro dos contribuintes, as nomeações para os altos cargos da administração pública e para os conselhos de administração das empresas do estado e das que estão sob a sua influência tentacular. Quando falamos em “pagar a dívida pública” é essencialmente disto que estamos a falar, e por cada empresa privada que encerra portas e por cada cidadão que empobrece, outros há que ficam com aquilo que lhes pertenceu.
Infelizmente, e ao invés do que sucedeu no pós-34, em que apenas algumas grandes famílias se viram ilegitimamente despojadas do que era seu, agora são todos os contribuintes a sustentar a ascensão dos novos devoristas. Por essa razão, já quase não temos classe média: os que lhe pertenciam deixaram de lhe pertencer e a impossibilidade de poupar recursos – praticamente todos rapinados pelo estado –, para além dos que permitem uma subsistência elementar, impossibilita que as pessoas de rendimentos mais baixos lhe possam ascender.
A redistribuição de rendimentos que os socialistas tanto apreciam é para isto que serve.
Porque hoje é quinta-feira
Esta semana está a ser má para a onda do Costa. O people anda tão distraído com os resultados dos futebol (o 7–1 do FC Dilma contra o Hospitais foi particularmente expressivo), com a crise no BES e com a meritória tentativa de Louçã em tornar Portugal na Albânia de 1977 que, lamentavelmente, nem tem dado a devida atenção ao que realmente interessa ao país: mais pessoas que vivem ou gostariam de viver do orçamento e que sabem assinar o nome manifestaram o seu indefectível apoio a António Costa.
Agradecia que passássemos rapidamente aos assuntos verdadeiramente importantes para a comunidade total dos portugueses que realmente interessam: acabar com este ultra-neo-liberalismo do governo mais liberal de sempre, o que pensa em incentivos à compra de bicicletas.
Entretanto, hoje é dia do programa do António Costa na SIC Notícias e a CGTP conseguiu meter 40.000 “trabalhadores” com 70 anos de idade num Mini em plena quinta-feira à tarde.
Mini-plano Louçã
Dívida do GES que poderá ser reestruturada: 7 mil milhões de euros
Impacto do GES nas contas do BES: menos de mil milhões de euros
Dívida em reestruturação no plano Louçã: mais de 200 mil milhões de euros
Estimativa do impacto do plano Louçã no BES: uns 20 ou 30 mil milhões de euros.
Especial dia do cão
Há mais de 10 mil animais abandonados por ano em Portugal
Abandonar animais passa a crime público punível com prisão
Quando quiser perceber porque é que a justiça não funciona em Portugal lembre-se que esta medida teve o seu apoio.
PS: Para se perceber a razão desta parvoíce: PAN ficou-se pelos 1,72% mas se fossem legislativas elegia um deputado por Lisboa
Se não pago eu, pagas tu
Os socialistas são assim. Primeiro cobraram impostos até ao limite do tolerável. Quando o dinheiro dos outros se acabou, endividaram-se. Agora chegou a altura de não quererem pagar as dívidas. Haverá sempre outros a pagar. Como se percebe bem analisando a proposta de renegociação da dívida:
Hoje ainda há greve dos médicos. Depois de toda a excitação, de toda a algazarra, de toda a actividade grevista que parou o país ontem – nomeadamente dos jogadores brasileiros -, é dia de regressar à luta.
A luta é uma luta boa. Ninguém aproveita a greve nos hospitais públicos para consultas adicionais na privada, dizem-me; e eu acredito, como acredito sempre que se defende um sistema público qualquer, como acreditei quando a escola pública foi defendida das últimas 35 vezes, melhorando a cada uma das intervenções, resolvendo os problemas um de cada vez.
A FENPROF solidarizou-se com a luta da FNAM. Directamente de Cancun, talvez do Algarve – que isto não se aguenta – expressam a sua solidariedade com a defesa da coisa pública, os edifícios, o equipamento, os funcionários.
Faz falta alguém que defenda os alunos e os doentes destas constantes defesas da coisa pública. Mas cá vamos andando, com a graça de Deus, menos mal, obrigadinha, cumprimentos aos seus, que não os vejo há muito, devem já estar uns homenzinhos.
Afinal havia uma alternativa
Quatro economistas portugueses apresentaram hoje a alternativa à austeridade. Consiste num perdão de mais de 100 mil milhões de euros e de um bail-in à banca de 100 mil milhões de euros. Agora só falta os credores concordarem.
Constatação curta e grossa
Os portugueses têm vergonha de assumir os motivos pelos quais fazem greve. Por isso mesmo são todas “em defesa” daqueles que precisamente prejudicam com a greve.
Resolução pragmática de todos os problemas
A partir de hoje, funcionários públicos irão descontar 99% no total, a grande maioria para a CGA. O salário líquido manter-se-á inalterado, aumentando o salário bruto para o valor necessário de forma a não violar o princípio da confiança.
Assim sendo, e a título de exemplo, a um salário líquido de 1000€ corresponderá um salário bruto de 100,000€. Está resolvida a sustentabilidade da CGA.
Da pobreza e da fome
A crise foi marcada pelo aumento da pobreza, do desemprego, da desigualdade e da fome (aqui um testemunho, entre muitos). Por isso faz todo o sentido que a prioridade seja recriar o Ministério da Cultura.

Destruir a democracia é atacar a Lusa e vice-versa, que nós somos todos idiotas.
Há muitas abordagens possíveis para justificar uma greve. A mais comum, usada pelos Mários Nogueiras desde 1914, é a “estão a destruir a [inserir qualquer coisa] pública”. Os médicos optaram, com plena marinhopintização do seu bastonário, por esta abordagem comprovadamente parva. Em primeiro lugar, já se sabe que a adesão será de 300%, com pessoas que nem são médicos a fazerem greve solidária (inclui desempregados como astronautas não-colocados, professores não-colocados e socráticos rendidos à ghagra choli); em segundo lugar porque é mais uma hipótese para alguém usar a expressão “a maior greve de sempre”, expressão caída em desuso desde a última greve neste país, a que aconteceu (vou arriscar) na última sexta-feira.
A proletarização dos médicos é uma coisa difícil de ver. Estávamos habituados a cursos de medicina terem mais utilidade que os de sociologia, algo que começa a mudar através da típica resolução de problemas à lá tuga, a que opta em simultâneo por três auto-estradas Porto-Lisboa mais uma linha de TGV (para mercadorias, integrada com o hub de hovercrafts a fazer em São Torpes). Lembrem-se que era o que vocês queriam quando os vossos filhos adquiriam a hipótese de entrar no curso; dizer agora que é demais já não vale, seus anti-constitucionais igualitários.
Precisamos todos da t-shirt da semana e isto sem incêndios não cria indignação sazonal que chegue. Eu, pessoalmente, agora só consigo pensar nas crianças em pleno sofrimento com a impossibilidade de co-adopção gay. Isto da ignomínia sazonal é muito bonita mas, que eu saiba, ainda é preciso parar os que estão a destruir a escola pública desde 1975.
O Mário Nogueira de bata branca e estetoscópio
Jornalismo com valores trocados
“Abutre” da Argentina ataca Portugal Telecom
Médicos mostram segundo cartão amarelo a Paulo Macedo com greve de 2 dias
Abutre: fundo que exige que a Argentina pague as suas dívidas e que aposta na queda das acções de empresas que cometem erros de gestão
Argentina: País que tem sistematicamente violado os seus compromissos com credores
Portugal Telecom: Empresa que emprestou 900 milhões (metade da sua capitalização) a empresas do mesmo grupo em falência técnica
Médicos: classe que procura manter privilégios à custa do contribuinte
Paulo Macedo: ministro da saúde que mais racionalizou a despesa.
Los gramiés
Ibrahim Ferrer, Néstor Torres, Chichi Peralta, Celia Cruz, Kike Santander, Armando Manzanero, Kany Garcia, Flex, Emiliano Zuleta Díaz e Carlos do Carmo são alguns dos que já receberam um grammy latino, carinhosamente atribuídos numa cerimónia conhecida como “los gramiés”.
Néstor Torres nasceu em Porto Rico em 1957. Quatro anos seu júnior, o chefe de estado de Porto Rico, Barack Obama, ainda não emitiu um comunicado a felicitar Néstor Torres por tão prestigioso galardão.
“Cá se fazem, cá se pagam”, terá dito o manager de Néstor Torres.
Nem todo o dinheiro tem o mesmo valor
Há quem ache normal que empresas e bancos sejam salvos por dinheiro de Angola ou da Venezuela. Mas será mesmo normal? Há dinheiro que não vem para fazer negócios, vem para comprar poder. Isso não é indiferente, como defendi no Observador.
Não digo nada disso, Maria João. Simplesmente presumo que quem usa mini-saia ou burqa o faz porque lhe apetece e não porque é obrigada(o) (ao abrigo do politicamente correcto tenho que incluir a Conchita). Repara, se alguém faz algo obrigado ou coagido, existem leis em todo o ocidente que criminalizam a situação. Das duas uma: ou estamos em situação de redundância com especificidades culturais (posso usar vestuário que tape da cabeça aos pés desde que tingida com as cores da bandeira LGBT?) ou o nosso problema é geral e, então, teremos que averiguar as motivações pelas quais alguém poderá ser coagido a usar brincos.
Refiro decorações corporais porque, há pouco, vi um bebé com brincos nas orelhas. Alguém as furou, independentemente da vontade da criança, que não parecia capaz de se expressar sem ser com choro. Admito que não consegui identificar a origem étnica e religiosa-cultural da pequena Cátia Vanessa.
Nota: consegui usar “burqa”, “burka” e “burca”. Antes de proibir devíamos uniformizar a grafia do que queremos proibir.
Andar nu na rua
Porque não se pode andar nu na rua? De certeza que não se pode andar nu na rua? O que o impede de andar nu na rua? Você quer andar nu na rua? Porque quer andar nu na rua? Porque não anda nu na rua?
De acordo com a lei que (julgo que) conheço, nada o impede de andar nu na rua. A nudez não é criminalizada (o que é bom, porque, num país socialista, isso implicaria a obrigação de lhe serem providenciadas roupas pela segurança social). Repare que o nu nunca teria responsabilidade por estar nu: “eles não me dão cuecas”. O que a lei prevê é o atentado ao pudor: uma pessoa pode ficar indignada por outra andar nua na rua e tem um mecanismo legal para accionar. Excepto numa das 7 praias reconhecidas oficialmente como naturistas. Aí pode estar nu. Quer dizer, na realidade o indignado é que não se pode queixar. Na rua também pode estar nu. Mas o indignado pode queixar-se. Na realidade, a praia oficialmente naturista não lhe proporciona um local onde pode estar nu, proporciona-lhe um local onde um terceiro não se pode queixar por estar nu. Assim, tecnicamente, as praias naturistas são uma limitação à liberdade de indignação ao abrigo da lei por terceiros e não uma concessão de liberdade a quem a pretender usufruir. Confuso?
Uma vez, num parque aquático espanhol (também me divirto com a plebe), vi um casal com um filho. Ela, de burka, filmava os machos em divertidíssima actividade escorregatória por bezidróglios de curvas acentuadas lubrificado por água com cloro. Pareceu-me algo um pouco parvo, estar ali, vestida de preto da cabeça (literalmente) aos pés (literalmente), em Agosto, perto de Málaga. Claro, quem vê burkas não vê calções (literalmente) e muito menos corações (figurado). Nada a impedia de estar completamente nua, nem a lei. Quando muito, o indignado impediria.
Palpita-me que não há pessoas nuas na rua precisamente por não haver pessoas nuas na rua. Se houvesse pessoas nuas na rua, talvez mais pessoas estivessem nuas na rua. Aí, de que adiantaria o indignado queixar-se de atentado ao pudor? “Olhe, aquelas 5000 pessoas estão a incomodar-me, a mim e ao meu cão”? Ridículo.
A burka é um flagelo? Para quem? Para quem a quer usar ou para quem não quer que ela seja usada? Há alguma diferença entre você não querer que a mulher use burka e não querer que o cigano compre o apartamento de baixo? Óptimo, é sempre útil centrar a questão no indignado por você andar nu na rua do que em você, que anda nu na rua.
Salvar o mundo a partir do sofá
Existem determinadas mulheres que são obrigadas a usar burqa/niqab (uma fracção desconhecida das cerca de 1000 que em França usam burqa/niqab). Como isto é inaceitável, podia-se investigar os poucos casos que existem para resolver o problema. Mas não. Vamos proibir toda a gente de usar burqa/niqab (excepto se forem coloridos?), capacetes, máscaras, sejam homens ou mulheres, oprimidos ou não (porque a lei tem que ser geral e abstracta, estado de direito acima de tudo) e vamos justificar esta lei em nome da boa convivência no espaço público (embora ninguém se queixe de problemas de convivência, identificação ou segurança, o problema era mesmo as mulheres forçadas a usar burqa/niqab). Talvez um dia até se criem excepções para pessoas com deformações faciais que têm mesmo que usar máscara (que acham?). Nem sequer concebemos a possibilidade de existirem mulheres que querem mesmo usar burqa/niqab (por tradição, segurança, afirmação cultural, rejeição do ocidente ou apenas porque lhes apetece) nem precisamos de saber o que acontece às mulheres que nós libertamos da opressão (proibindo o único meio viável de saírem à rua). A eliminação de um sintoma de opressão deixa-nos muito satisfeitos com nós próprios. No fim, justificamos esta posição com a subjectividade dos nossos valores (esperando que o mundo se adapte e nos faça a vontade). Portanto, identifica-se um problema e depois adopta-se uma solução que empurra as vítimas para um gueto e salva as pessoas que não são vítimas. Nem sequer interessa se a estratégia é inteligente, sustentável ou eficaz. Será isto, Maria João?







