Coisas de velhos….
Henrique Monteiro, de repente, escreve, em reacção às declarações de Carlos Abreu Amorim (CAA), este texto (Abreu Amorim: um novo pior do que os velhos)
Basicamente, a mensagem de Monteiro é a de que CAA foi oportunista. Mas é claro que sim! Foi e é “oportunista”, naturalmente e na medida em que, neste momento, está em campanha e a “oportunidade” – que é tudo, em política – é essa. Mas a questão é que a oportundiade, no caso do CAA, aliou-se a uma grande coragem e coerência. Por isso, para H. Monteiro, a ausência de “oportunismo” o que é que, então, seria? Estar calado e fazer de conta que está tudo bem com a governação? Depois, por exemplo, do que se passou no jantar do Primeiro-Ministro com alguns presidentes de distritais do PSD (noticiado pelo Sol)? É claro que CAA não pode desligar-se do facto de ser candidato à terceira maior (em população) Câmara do país. CAA – acho eu – com a oportunidade por si julgada conveniente, disse aquilo que pensa e, sobretudo, o que realmente já tem dito, desde há, pelo menos, dois meses a esta parte (por exemplo, Fevereiro, na Tvi), culminando no discurso do 25 de Abril, no Parlamento, precisamente em representação do Grupo Parlamentar do PSD!
Importaria, talvez, Monteiro, recordar esse discurso oficial e nacional, se é que ele não lhe passou despercebido! Creio que não, apesar de o próprio H. Monteiro se considerar velho (….”provavelmente por ser velho”, diz ele, de si próprio) e a distracção poder ser realmente uma coisa de velhos…
O futuro sem dinheiro
A única coisa de jeito que o PSD tem para mostrar é o trabalho de Vitor Gaspar. Tirando isso, nada os distingue do PS.
OVERDOSE*
É difícil viver em Portugal.
Essa será, talvez, a característica comummente partilhada por todos os portugueses; um factor de igualdade e de uma certa “coesão social”! Estamos tendencialmente irmanados pela negativa, pelas adversidades e pelo permanente risco de agressões ao nosso modo de vida. Soubemos, esta semana, que, pelo menos, cerca de um quinto da população activa está desempregada. Ao acréscimo da taxa de desemprego, nos últimos meses e segundo o INE, não terá correspondido um aumento nem do denominado trabalho precário, nem de prestadores de serviços ou pequenos empresários (geradores de emprego próprio). E o pior, aquilo que torna a nossa situação particularmente angustiante e característica, é o facto de o Estado ser, ele próprio, um agente de instabilidade e de risco.
a melhor defesa
Gaia é Gaia, Lisboa é Lisboa, Gaspar é Gaspar e Abreu Amorim é uma coisa completamente diferente. Embora dificilmente venha a ser secretário de estado da defesa na próxima remodelação de Passos, até porque é bem provável que ganhe a câmara de Gaia.
silva, gaspar e abreu
As declarações do Carlos Amorim (CAA) sobre Vítor Gaspar caíram como uma bomba no PSD e no governo, e levaram a que um dos seus vice-presidentes, Jorge Moreira da Silva, o tenha tentado desautorizar publicamente, demarcando o partido do que foi dito pelo vice-presidente da sua bancada parlamentar e seu candidato a presidente da câmara municipal de Vila Nova de Gaia. Engana-se o Dr. Moreira da Silva se pensa que conterá, deste modo, a verve política do “Dr. Abreu”, como ele lhe chamou, tentando diminuí-lo onomasticamente, e que evitará que ele, no futuro, deixe de dizer o que muito bem entender e lhe parecer mais conveniente. Se há coisa em que o “Dr. Abreu” é manifestamente muito bom é a partir loiça e a fazê-lo antes que qualquer outro pense sequer em ter esse atrevimento. Neste momento, boa parte do PSD, do país e até mesmo do governo regala-se com o que o “Dr. Abreu” disse sobre Vítor Gaspar, e, quando o actual ministro das finanças deixar de o ser, o que acontecerá inevitavelmente mais cedo ou mais tarde, o “Dr. Abreu”, então já presidente de uma das mais importantes câmaras municipais do país, será lembrado pelas suas proféticas palavras e pela coragem que teve em dizê-las, quando muitos pensavam como ele, mas mais ninguém se atreveu a abrir a boca. Por mais que custe ao Dr. Silva, o futuro do PSD passará muito mais pelo Dr. Abreu do que pelo Dr. Gaspar e, se calhar, do que por ele próprio.
Protecção da confiança
O constitucionalista mais mediático de todos os constitucionalistas, Jorge Miranda, afirmou que [a diminuição retroactiva de pensões contributivas] é “manifestamente inconstitucional” e “violação do princípio da protecção da confiança e do direito de propriedade”.
Neste parecer, emitido em 2007, sobre os instrumentos trazidos pela actual fase do Estado de Direito, Jorge Miranda recomenda “a utilização de sentenças limitativas, com as quais se limitam os efeitos, e mais do que os efeitos, a própria inconstitucionalidade em nome da necessidade de temperar o rigor das decisões adequando-as às situações da vida à luz de outros princípios e interesses constitucionalmente protegidos para além do princípio da constitucionalidade”.
Acrescenta que “perante a igual dignidade constitucional dos valores em confronto, o alcance prático do princípio de protecção da confiança não é delimitável independentemente de uma avaliação ad hoc que tenha em conta as circunstâncias do caso concreto e permita concluir, com base no peso variável dos interesses em disputa, qual dos princípios deve merecer a prevalência”.
E por fim, refere que “em última análise, em todas as situações difíceis que aqui venham a ser consideradas não é possível chegar a resultados constitucionalmente adequados sem ter em conta uma ponderação entre o peso do interesse público prosseguido pelo legislador e a força de resistência das expectativas particulares”.
Tomando em consideração que “ao legislador não está vedado alterar o regime do casamento, do arrendamento, do funcionalismo público ou das pensões, por exemplo, ou a lei por que se regem processos pendentes”, terá Jorge Miranda considerado todos estes factores ao emitir as declarações publicadas no Público?
Depósitos bancários e stock de dívida num gráfico
(fonte: Pordata)
Desde 2004, 100% das contas bancárias de particulares não pagam a dívida.
O que é que isto mostra? Nada de bom: “troika fora daqui” não é a expressão que me ocorre.
União bancária e as perdas para os depositantes
Está em discussão na União Europeia a União Bancária. Para os políticos portugueses a União Bancária é mais uma panaceia que nos vai salvar de termos que pagar as nossas dívidas. Para os políticos dos países que realmente decidem, e que pagam as contas da UE, a união bancária é uma coisa diferente. É um sistema de regulação bancária que sujeita todos os grandes bancos às mesmas regras, entre as quais regras de falência e reestruturação. Isto implica que para bancos acima de uma dada dimensão, os Estados deixam de poder salvá-los por regras ad hoc que dependem da capacidade financeira de cada Estado e da relação de forças política dentro desse Estado. Estas novas regras serão menos políticas e mais de racionalidade económica, como inevitável quando a solução é supranacional e tem que respeitar regras de concorrência. Como será a racionalidade económica a ditar as regras, haverá perdas para os credores dos bancos em caso de falência, e nesses credores serão incluidos os depositantes, com um estatuto ainda a definir. Pensem na União Bancária como banca, mas com rigor alemão. Rigor alemão implica que não adianta chorar, quem chora não mama. É o que vamos ter, pelo menos para os grandes bancos.
Perdas para os depositantes
Sobre a discussão das perdas para os depositantes dos bancos, devo lembrar que actualmente o Estado não garante depósitos acima de 100 mil euros. Se alguém acha que esses depósitos estão seguros, está enganado. Mais importante, o Estado não tem meios para assegurar os depósitos abaixo de 100 mil euros no caso de uma falência de um grande banco, se essa falência envolver a perda de uma percentagem elevada dos activos do banco, ou no caso da falência generalizada do sistema bancário. Não existe dinheiro para cobrir as perdas, pelo que nem os depósitos abaixo de 100 mil euros estão seguros.
Riam-se, riam-se
Dentro de alguns anos estaremos a explicar que não temos nada contra os homens que fazem xixi sentados mas que enfim há quem não concorde com isso: «The Swedish political party, Vänsterpartiet has a mission. They would like gender less restrooms and they want men to sit down to urinate. They want to go a step further than a simple request, it would be illegal for men to stand up and pee. Vänsterpartiet, known as a left leaning socialist and feminist organization, want everyone to know that they are looking out for all sexes with their motion. For the men, they state there is a study that concluded that men have a lower risk of bladder cancer when they sit to urinate.» (Via Forte Apache)
Contado não se acredita!
Em resumo o presidente do sindicato fala dos trabalhadores que alegadamente representa como de um grupo de malfeitores chantagistas. Já se viram pedidos de desculpa por bem menos.
Novo posicionamento de mercado
Creio, caro Rui, que as declarações de Fernando Ulrich são a primeira fase de um reposicionamento estratégico do banco que dirige.
«Já a possibilidade de confiscar os depósitos acima dos 100 mil euros é, do ponto de vista de Ulrich, “uma boa notícia, ao contrário do que vejo muita gente a argumentar”. Ainda segundo o banqueiro, esse confisco poderia ser decidido até final de Junho, no âmbito da resolução bancária que será proposta pela Comissão Europeia(*)»
A «Boa notícia» para Ulrich é que vai deixar de ter, a partir de amanhã, (que os bancos ainda estão abertos) clientes e depositantes que tenham acima de 100 mil euros depositados naquele banco. Quem, tendo essa soma, desejará ali guardar o seu dinheiro quando o presidente da instituição defende o confisco desse mesmo montante? Se um dia o cliente vir o seu dinheiro confiscado verá o seu banco bater palmas a tal medida.
Portanto, Fernando Ulrich na verdade não quer ter esses clientes. Ele entende que tal confisco seria a «garantia que os depositantes seriam mais exigentes quanto à escolha dos bancos com que trabalham e que quem gere os bancos o faria de modo a assegurar que esta solução não fosse necessária». Ora, o mínimo de exigência de um cliente será que o seu banco não se ponha a defender o confisco dos bens que os clientes lhe entregaram para depósito. Se «quem gere os bancos» não apenas coloca como possível tal solução mas defende-a mesmo, melhor de facto ser «exigente» e ir procurar outro banco. Desde hoje o seu banco só quer ter depositantes abaixo de 100 mil euros, pequenas poupanças, pequenas empresas. No fundo o banco passará a actuar na área do micro-crédito, quase uma associação mutualista.
(Quando chegamos ao ponto em que os banqueiros defendem o confisco público da propriedade privada, não é apenas o mundo que está de pernas para o ar, é a constatação que vivemos a mais descarada aliança socializante que ameaça todo e qualquer um).
não há negócio que falhe
Apesar de considerar que o que aconteceu em “Chipre não vai acontecer aqui”, Fernando Ulrich considera uma “boa notícia a possibilidade dos depósitos acima de 100 mil euros poderem ser chamados a contribuir para a reestruturação e resolução de problemas dos bancos”.
Ora, eu não consideraria tal decisão uma “boa notícia”, mas uma notícia nefasta. Ela significaria que o senhor Ulrich – se alguma vez sucedesse semelhante desdita ao banco no qual exerce o seu enorme talento – em vez de ir trabalhar para as obras e de ter de dar explicações pelos resultados da sua incompetência, passaria a ter o direito de se locupletar com o que não lhe pertence, para cobrir os prejuízos da sua gestão.
Com esta transformação dos depositantes de bancos em accionistas involuntários, ideia que poderemos transpor para qualquer ramo de negócio, não há negócio que falhe, nem empresário a quem não esteja garantido o caminho do sucesso.
a responsabilidade morre sempre solteira?
Estas declarações do senhor Governador do Banco de Portugal são um aval dado aos bancos portugueses e uma garantia de segurança absoluta dos depósitos neles efectuados.
O silêncio do governo português e de todos os partidos com assento parlamentar significa uma total concordância com o aval e as garantias oferecidas por esse alto funcionário e responsável do estado português.
Se, entretanto, algum banco português vier a necessitar de recorrer ao expediente que aqui se considera impossível, algum destes senhores responderá, civil e criminalmente, pelos prejuízos sofridos pelas pessoas que neles confiaram?
Dois gráficos sobre educação

(fonte: Pordata)
Adenda: alguns leitores repararam que o segundo gráfico mostra alunos do básico e número de docentes total, incluindo secundário. Excluindo secundário, obtemos o seguinte gráfico, que melhor demonstra o contra-ciclo.

quem anda a enganar quem?
Sobre a possibilidade da aplicação de uma taxa aos depósitos superiores a 100 mil euros em bancos portugueses, com a finalidade de os resgatar de situações de falência, como foi feito em Chipre, diz o Governador do Banco de Portugal: “Situações do género não são transponíveis para o nosso país”. Mas, respondendo a uma interpelação do deputado Nuno Melo, os serviços da Comissão Europeia esclareceram que: “Para minimizar o impacto sobre os contribuintes, o instrumento de resgate interno previsto nesse enquadramento permitirá a um banco ser recapitalizado através da anulação ou diluição das participações acionistas e da redução ou conversão em ações dos créditos dos credores”. Num cenário destes, como poderá a banca portuguesa ser confiável e atrair depositantes? E como espera o governo português (e, presume-se, as autoridades comunitárias) que, neste contexto, os bancos portugueses possam retomar o crédito às empresas e à economia? E como pode o Governador do Banco de Portugal garantir-nos o contrário do que nos diz a Comissão Europeia? Por outras palavras, quem anda a enganar quem?
ADENDA: A gravidade desta situação exigiria uma imediata interpelação parlamentar ao governo e ao governador do Banco de Portugal. Os portugueses não podem ficar na contingência de desconhecerem o que poderá suceder às suas poupanças e ao seu património se os confiarem aos bancos portugueses, nem estes devem sujeitar-se a esta situação de suspeição lançada pelas autoridades da União Europeia, se a mesma não tiver – como garante o governador do Banco de Portugal – qualquer fundo de verdade. O Partido Socialista, sempre tão lesto em pedir audições parlamentares a propósito de assuntos de treta, parece não se interessar pelo que possa acontecer ao dinheiro e à propriedade dos portugueses. É bom sabê-lo.
Estaline vai purgar-vos
Há pouco, publiquei um extracto de um poético texto de jornal, referenciando o lirismo – já bem presente em 2010, ano de graça socrática – visivelmente presente nas redacções. Desde então, a mutação estilística destes géneros em permanente revolução artística, tem demonstrado maior preocupação com referências históricas, colorindo de mavioso modo, la Détente de alienação.
O artigo de opinião de Viriato Soromenho-Marques, publicado no Diário de Notícias, consegue fugir ao seu típico reductio ad Hitlerum, optando pelo socialmente aceite reductio ad Stalinum. De acordo com o autor, e tal como nas Grandes Purgas de Estaline, cinquenta mil funcionários públicos são o “alvo a abater”. “Vítimas a serem devoradas pelo minotauro da austeridade”, que “não resultam de nenhum estudo rigoroso sobre eficiência do aparelho administrativo do Estado”.
Este primeiro ponto, entre referências a um Ovídio que precede Dante, o da inexistência de estudos sobre a eficiência do aparelho administrativo, é falacioso: um aparelho administrativo eficiente teria sempre dados relativos à sua eficiência; se não tem, bem, consideremos com bonomia que tem eficiência sub-óptima.
Viriato Soromenho-Marques continua o seu texto de comparação com as Grandes Purgas de Estaline referindo as “provas de persistente ignorância” dos técnicos da troika, assim como as “dos fanáticos neoliberais indígenas que competem para ganhar as boas graças dos primeiros”. Não especifica as provas de “persistente ignorância”, presumindo a capacidade do leitor para as identificar, o que permite interpretar o texto como um documento livre de fanatismos socializantes por, bem, fanáticos socializantes.
Continua com uma contemplação sobre a possibilidade de serem “os funcionários públicos mais frágeis, com laços mais precários, a serem submetidos a uma chantagem que os coloca entre a rescisão, com renúncia perpétua à função pública, ou o despedimento em piores condições”. Tal como numa Grande Purga de Estaline, a preocupação com o “alvo a abater” só se torna evidente quando somos, nós próprios, membros do grupo de potenciais “alvos a abater”. Basta verificar todo o período, com forte correlação exponencial, que não motivou qualquer preocupação de Viriato Soromenho Marques com os “frágeis”, “com laços mais precários” (fonte: Pordata).

Viriato Soromenho-Marques termina referindo a “imperturbável indiferença para com a realidade” do delegado-principal da troika; porque a inquestionável dedicação para com a realidade seria sempre comparar ajustes do Estado às Grandes Purgas de Estaline.
Os artigos de opinião podem ser giros, interessantes, criativos, até alienadamente confortáveis; infelizmente, e tal como em textos que se pretendem factuais, são dominados por uma demografia Dan Brown que se considera herdeira de Dante.
Poesia naïf
A Esquerda Não Sabe Fazer Contas
Só hoje li o artigo que Rui Tavares publicou no passado dia 1 de Maio no jornal Público, intitulado “A Febre não é a doença”. A meio do artigo, escreve Rui Tavares:
“… a direita está estruturalmente convencida que a esquerda não sabe fazer contas.”
Umas linhas mais à frente, o Rui explica-nos como a esquerda faz contas.
“Vamos ser generosos e atirar para o défice de 2010, que foi maior: 15 mil milhões. Enorme, não? Mas Portugal perdeu nesse ano, em matéria não taxada da sua economia paralela, 12 mil milhões de euros.”
Rui Tavares terá ido buscar esta informação a uma destas notícias que circularam há uns meses com base num estudo da Comissão Europeia que estima a economia paralela como vinte e tal por cento do PIB a faz uma regra de três simples para calcular os impostos perdidos. Errado.
A economia paralela é paralela porque não paga impostos. Imaginem que na feira de Carcavelos os comerciantes pagavam o IVA, as taxinhas todos com que o estado esmaga as empresas e ainda IRS e Segurança Social de toda a gente que por lá ganha a vida. Qual seria a vantagem da Feira? Com preços e condições iguais às outras lojas, grande parte das transacções nunca ocorreria e a Feira acabava. O exemplo serve para tudo o que é paralelo.
Eduquês blogístico
Percorrer a blogosfera dita de esquerda é um exercício em frustração idêntico ao desfolhar dos jornais portugueses. Verifica-se uma prevalência da palavra “alternativa”, como se esta, escrita em suficiente número, constituísse uma proposta em si própria. Ao lado da “alternativa” convive o insulto, como se caixas de comentários de jornais online se constituíssem em blogs organizados, substituindo um saudável maldizer crítico pela verborreia de superioridade, a que dispensa explicar “alternativas” em prol da redução ao absurdo do “animal feroz”, cujo discurso é, em si mesmo, a narrativa. Digamos que as semelhanças com a violência doméstica são apenas embaraçosas. Talvez a “alternativa” seja, para estas pessoas – a quem chamarei pessoas e não “gentinha” – o próprio insulto. Tudo bem, tem várias vantagens: é gratuito, não aumenta despesa, contraria a narrativa da ditadura e demonstra que a percepção de liberdade dos “verdadeiros democratas” é incompatível com a liberdade dos outros.
Pessoalmente, vejo com bons olhos a “alternativa” política no insulto: demonstra maior aptidão para a valorização do vernáculo em detrimento da disciplina aritmética, documenta o demérito do eduquês e reafirma a convicção que as máquinas de calcular são dispensáveis no domínio da matemática transcendental.
Adenda: é desfolhar e não folhear porque é impossível folhear um jornal sem arrancar as folhas.
Causas da decadência dos jornais peninsulares
A 10 de Abril o Malomil publicou um post sobre a sequência de fotos que o marido de Jennifer lhe fizera ao longo da doença: The Battle We Didn’t Choose.
Quase um mês depois, a 8 de Maio, a mesma sequência fotográfica faz capa no DN: 
A desconfiança ensina-se de pequenino
«O Ministério da Educação e Ciência (MEC) esclareceu (…) que a declaração que os alunos do 4.º ano terão de assinar nos exames, garantindo que não têm consigo telemóveis nem qualquer outro equipamento de comunicação, não terá qualquer valor legal, sendo apenas uma medida de salvaguarda do aluno.»(*).De acordo com a mesma notícia existe um Regulamento de Provas e Exames que já prevê sancionamento nessas situações.
Assim, tal declaração, «sem valor legal» segundo o próprio ME (é só para chatear e filha predilecta da burocracia…) insere-se no esforço educacional do Estado sobre o cidadão: existe uma lei que deve ser cumprida, mas como se desconfia que pode ser violada, exige-se uma declaração aos miúdos de que se vai cumprir a lei. Desde pequeninos tem de se habituar que o Estado não confia neles e que dá pouco valor às suas leis, confiando mais nas suas disposições administrativas e papelinhos assinados. É um ensinamento para a vida e faz parte da formatação de todo o cidadão. Ao logo da vida estes miúdos irão encarar como normal que se peça em triplicado informações que a adm. pública tem, ou que a qualquer momento e a qualquer pretexto se exija um nº do cidadão, ou tantas outras situações onde a adm. pub exerça o seu poder discricionário «sem valor legal» em qualquer aspecto da vida dos cidadãos. É também para isso que existe um Ministério da Educação e Ciência./p>
Um dia, quando um dos petizes chegar a ministro, antes de tomar posse, terá de assinar uma declaração, «sem valor legal» mas sob compromisso de honra que de que não roubará o erário público, não vá estar «esquecido» do que diz o código penal….
Pois parece que sim…
Que voltamos aos Mercados (via Expresso/Ricardo Costa)
Mercados ou Troika?
Voltámos aos mercados nas maturidades longas, agora com uma emissão a quase 11 anos, o que atesta alguma confiança por parte dos investidores, malgré Portas e toda a trupe de comentadores; pela 2ª vez e antes de Setembro, a data inicialmente prevista, o que atesta, mais uma vez, que o Gaspar não acerta uma…
A taxa, que deverá rondar os 5,6%, até se pode considerar razoável, tendo em conta o risco-País. Compara favoravelmente com os 5,97% obtidos no último leilão efectuado com maturidade semelhante, em 8 de Setembro de 2010. Compara ainda melhor com os últimos leilões realizados em dívida de longo prazo (maturidades a rondar os 9,5 anos) em Setembro e Novembro de 2010 e em Janeiro de 2011, com taxas médias de 6,24%, 6,81% e 6,72% respectivamente, as mais elevadas que estamos a pagar no stock actual da dívida.
Porém, a taxa agora obtida é bem superior à que pagamos pelo financiamento da Troika, cerca de 3,2%. Ou seja, vamos ter ainda muito que penar – nunca menos de 10 bi, o valor do défice em 2012 – para que os mercados aceitem financiar-nos àquela taxa. Quem foi que chamou agiota à Troika?…
Está isolado
Imperdível
Infantilização
O bebé-adulto tema do meu artigo de hoje no no DE: Nas críticas aos exames que agora começam encontramos uma sociedade cujas famílias já acham que é obrigação do Estado transportar-lhes os filhos para tudo o que tenha a ver com a escola – se não fosse a crise ainda teríamos o direito ao transporte escolar para a festa de aniversário! – ou que se chocam muito porque se pede aos seus filhos que assinem um papel onde declaram que não têm consigo telemóveis nem qualquer outro equipamento de comunicação. Esta infantilização das crianças e dos jovens gerou uns perturbantes bebés adultos que aos 18 anos ainda vão à consulta de pediatria, pois a idade pediátrica estende-se agora até aos 18 anos, onde entre imagens de ursinhos e cegonhas recordarão as ressacas dos festivais de Verão ou as histórias macabras sobre as crescentes agressões nas escolas, como a sucedida recentemente na EB 2/3 Ruy Luís Gomes, no Laranjeiro, em Almada, em que uma aluna foi violada por cinco colegas. Ou que, numa versão mais crescida, continuam a beber e a divertir-se enquanto um seu colega foi assassinado. Se Marlon Correia tivesse morrido, não na sequência de um assalto, mas sim numa fuga à polícia os seus colegas estariam muito provavelmente hoje de luto e vivendo uma forte indignação. Assim foi apenas um azar e a festa com muita cerveja vai prosseguir.
Economistas de água doce
No Prós e Contras de hoje, o doutor Pedro Lains conseguiu sintetizar todas as teorias económicas em termos piscatórios: há os economistas mainstream e os outros; os do mainstream dividem-se em água doce e água salgada.
Os de água doce defendem austeridade. Portanto, fujam para a costa.
Que se lixem as eleições!
O problema não é:
- O “número” em que Portas veio irresponsavelmente reincidir para mostrar a sua diferença, propagandear o CDS como elemento “moderador” ou o “colorido” da sua intervenção que tanto extasiou Marcelo;
- A triste e dispensável figura que o governo fez no passado fim de semana, com o 1º Ministro a afirmar uma coisa e o seu Ministro de Estado pretender mostrar que se lhe opõe;
- O ódio figadal que as “elites” e os aparelhos partidários votam a Gaspar e que Marcelo & quejandos tão bem divulgam.
Todo este esbracejar algo histérico, mais não é que o eco das dores de interesses instalados que, pela 1ª vez, sentem que estão a ser atingidos e que também terão de pagar. Espera-se que sem relevância na selecção das medidas a implementar, que serão as que Gaspar apresentar à Troika e forem por esta consideradas aceitáveis para desbloquear o cheque da 7ª avaliação.
Mas Gaspar só fará isso se sentir que continua a ter a cobertura integral do 1º Ministro, como tem acontecido até agora, embora já exista a excepção lamentável do volte-face com a TSU. Há porém indícios que Passos Coelho estará a querer fazer “pontes” com toda a trupe anti-austeritária, que inclui os aparelhos partidários obcecados com a próximas autárquicas, pretendendo “moderar” todo o afã do Ministro das Finanças no indispensável corte da despesa. Obviamente que estas “pontes” significariam sempre um regresso ao tradicional laxismo tuga.
Vítor Gaspar sabe que “posturas nim” podem ser fatais e constituem a via mais directa para o chumbo da 7ª avaliação. Se elas se confirmarem, Gaspar demite-se e aí teríamos um sério problema, com taxas de juro a subirem e a credibilidade do País a inverter de novo e a cair a pique.
Passos Coelho não pode mostrar hesitações e tem de optar de forma clara. E a melhor opção é fazer jus à sua tirada de há uns meses, mandando “bugiar” autárquicas e legislativas. A mais que provável derrota eleitoral poderá ser tanto pior quanto mais inflexões o governo fizer da sua política. Mantenha-se portanto a coerência e o rumo, com o foco em objectivos de médio e longo prazo. Sim, nós estaremos mortos, mas deixaremos descendência.
Crescimento, sim; dívida, não
Apesar do discurso “sonhos necessários entre políticas áridas de números”1, prometendo mais Estado Social sem forma de o financiar, o Primeiro-Ministro italiano, Enrico Letta, afirma que [a Itália] “é exemplo concreto de aumento de dívida que não origina crescimento”2, acrescentando que “em todos estes anos criamos muita dívida sem conseguir crescer”2.
Aguardam-se as reacções dos críticos do Excel.
(Fonte: Reuters)
1 Traduzido do inglês: “dreams were necessary amid the arid politics of numbers”.
2 Traduzido do inglês: “unfortunately we are a concrete example that increasing debt doesn’t mean fostering growth, because in all these years we have created a lot of debt without growing”.
A importância de Hollande
Passada a fase na nova esperança, da viragem, do novo rumo…e demais megalomanias em que a a esquerda é pródiga Hollande tornou-se um embaraço para os seus apoiantes. As visitas ao Eliseu dos socialistas doutros países tenderão a cair no esquecimento.
A ler
Trapalhadas
A originalidade da tomada de posição de Portas, não é o facto de existirem divergências entre partidos diferentes ainda que coligados no governo.
É tal divergência ser anunciada publicamente depois da decisão tomada pelo governo de que faz parte.
Dali se depreende que não aceita que as decisões tomadas em Conselho de ministros sejam para valer. O que levará os portugueses a perguntar se não concorda e não as aceita, que governo é este?
Se o parceiro de coligação CDS queria fazer finca pé contra certa medida, encarando-a como «uma linha que não poderia ser ultrapassada», apenas teria de o dizer ao primeiro-ministro ANTES da decisão ser tomada e comunicada ao país.
Com este espectáculo fica-se na dúvida: o primeiro-ministro decidiu avançar com tal medida mesmo sabendo que o seu parceiro de coligação não a aceitaria? Qual o propósito? Ou o CDS só marcou a sua oposição após o primeiro-ministro as anunciar e nesse caso está a boicotar o governo de que faz parte? Qual a intenção?
Mas afinal Paulo Portas é contra quê?
Mas afinal qual foi a medida que Paulo Portas considera inaceitável? Trata-se de uma alteração à fórmula de cálculo das pensões em vigor com introdução de uma indexação das pensões à massa salarial dos trabalhadores no activo (ponderada por outros factores já considerados como a esperança média de vida). Portanto, devem as pensões ser indexadas ao salário médio de quem as paga ou independentes desse salário? Portas diz que as pensões não devem depender dos salários de quem paga essas pensões. Basicamente, menos dinheiro deve pagar as mesmas pensões.
Coligações à portuguesa
Os portugueses dão-se mal com governos de coligação: seja a falta de hábito com o modelo, seja pelo hiperbolizar de divergências que alimentem ténue expectativa de mudança, seja até por fado de povos cujos partidos são essencialmente variações – mais aparentes do que reais – de socialismo; esta tendência anti-coligação e apetência por maiorias absolutas tornou-se mais que evidente na declaração de ontem de Paulo Portas; não só na declaração propriamente dita mas também em todo o circo que a envolveu, quer antecipando-a, quer dissecando-a até ao extremo absurdo em que culmina o título do i, “Portas ataca troika e ameaça: ou cai o imposto sobre as reformas ou o CDS abandona o governo”.
Divergências nas coligações são normais e desejadas – afinal, são ou não partidos diferentes? Ainda na semana passada, o governo de coligação irlandês teve divergências sobre assuntos de fundo para os quais há verdadeiramente alternativa: por exemplo, não intervir.
Paulo Portas não colocou a coligação em risco: limitou-se a apelar ao seu eleitorado para que não seja esquecido nas próximas eleições, nem que com isso afaste a pequena ala liberal que ainda crê na possibilidade do CDS-PP ser um partido de direita portuguesa.
Peso do Estado na Economia
Peso do Estado na Economia na perspectiva da receita (dinheiro que o Estado cobra à economia no ano em que a despesa é feita):
2010: 41,6%
2011: 45% (inclui receitas extraordinárias)
2012: 41%
Peso do Estado na Economia na perspectiva da despesa (dinheiro que o Estado gasta e que é pago pela receita presente ou pela receita futura):
2010: 51,5%
2011: 49,4%
2012: 47,4%
Peso do Estado na Economia com efeitos em anos posteriores (dinheiro pedido emprestado que será pago com receitas futuras e que pesará na economia futura):
2010: 9,8%
2011: 4,4%
2012: 6,4%
Portas II
Entre outras coisas notáveis, Portas sugeriu que as rescisões amigáveis vão permitir contratar mais pessoas (jovens) para a Função Pública.
Impressões
Eles não serão propriamente amigos
São parceiros. Amigos, amigos, negócios à parte.
Cortes necessários
Estes ou outros. Talvez outros, mas enfim.
Portas
Portas explicou hoje a sua visão da consolidação orçamental. É contra impostos. É contra cortes no rendimento das pessoas. É contra cortes nas reformas. Acha que um défice de 4% em 2014 é um objectivo demasiado ambicioso. Em resumo é isto que a direita pensa. E a esquerda também.
A censura da moda
Se foi mesmo por esta afirmação que a secretaria de Estado italiana foi demitida o caso é grave. Em primeiro lugar porque ela não disse mentira alguma, em segundo porque a demissão só prova como se criou uma histeria censória nesta matéria e em terceiro como de costume confirma-se que na prática, como em todos os tempos vão-se tolerando as censuras da moda. Basta gritar ‘homofobia’ e todos ficam à espera que o anátema não lhes caia em cima passando rapidamente a novo assunto.

