As crianças dele
Paulo Corte-Real dirigente da ILGA escreve hoje no PÚBLICO um texto sobre a adopção por casais do mesmo sexo. O artigo em causa associa direitos dos homossexuais a direito à maternidade e à paternidade. Uma identificação que me parece perigosa.
«Ao longo dos últimos anos, a ILGA Portugal tem tentado chamar a atenção para a situação de famílias com crianças criadas por casais do mesmo sexo, casados ou unidos de facto. Sobretudo casais de mulheres, porque o recurso à inseminação artificial, ainda que limitado em Portugal, existe para todas as mulheres na maior parte dos países civilizados – e, aliás, bem aqui ao lado, em Espanha, desde 1988.
Na ação popular que interpusemos contra o Estado português para garantir a segurança e o bem-estar destas famílias, apresentamos apenas 10 exemplos – que incluem também situações com casais de homens, porque existe, por exemplo, adoção singular em Portugal e um homem gay ou uma mulher lésbica já podem, portanto, adotar e passar depois a viver também em casal. Mas as famílias são muitas mais.
Famílias em que as crianças só vêem reconhecida na lei uma figura parental, embora conheçam duas – e saibam muito bem quem são as suas mães ou os seus pais. Famílias em que uma das mães ou um dos pais pura e simplesmente não existe legalmente, nem na escola, nem no hospital, nem para a assistência à família, nem em caso de separação ou divórcio, nem em caso de morte da única figura legalmente reconhecida. »
“UMA DAS MÃES OU UM DOS PAIS PURA E SIMPLESMENTE NÃO EXISTE” PURA E SIMPLESMENTE NÃO EXISTE MESMO PORQUE NINGUÉM TEM DUAS MÃES OU DOIS PAIS.
«Superior interesse de crianças? Era o que devíamos assegurar, sim. E o interesse destas crianças é obviamente a segurança e proteção que as demais já têm. Pois é isso que o Estado português lhes nega, com base no preconceito, na ignorância – e na displicência e negligência com que se trata as famílias de pessoas que, como aprendemos diariamente com base na prevalência do insulto quotidiano, são, afinal, um bocadinho menos do que pessoas. No fundo, o Estado ainda nos diz – e diz às nossas crianças – que as nossas crianças não interessam porque não são bem filhas de pessoas: afinal são só filhas de “fufas” ou de “paneleiros”. »
AS CRIANÇAS NÃO SÃO NOSSAS NEM VOSSAS. SÃO FILHAS DE UM HOMEM E DE UMA MULHER INDEPENDENTEMENTE DAS SUAS OPÇÕES DE VIDA Ler mais…
catecismo laico
Em substituição das aulas de moral e religião, onde as criancinhas aprendiam sobre a relação dos homens com a transcendência divina, os socialistas portugueses querem pô-las a estudar a relação dos portugueses com a transcendência estatal. Muito interessante para a Venezuela de Chávez ou de Maduro, mas ainda prematuro para uma sociedade tão subdesenvolvida como a nossa. Ainda é cedo, camaradas!
Dúvida
Consultei o Projeto de Lei n.º 278/XII que Consagra a possibilidade de co-adoção pelo cônjuge ou unido de facto do mesmo sexo e procede à 23.ª alteração ao Código do Registo Civil apresentado por vários deputados do PS mais
PROJETO DE LEI N.º 392/XII/2.ª ELIMINAÇÃO DA IMPOSSIBILIDADE LEGAL DE ADOÇÃO POR CASAIS DO MESMO SEXO do BE mais o
PROJETO DE LEI Nº 412/XII/2ª ALARGA AS FAMÍLIAS COM CAPACIDADE DE ADOÇÃO de Os VERDES
e certamente por lapso meu não percebi mas gostaria de perceber o que vai constar no registo de filiação destas crianças. Desaparecem as referências a pai e mãe? O invencionismo legal para legitimar o “direito a ser pai” ou “a ser mãe” e que não se restringe de modo algum aos casais homossexuais vai levar a uma nova geração de filhos de pais e mães incógnitos. O que pode estar em causa é uma inversão de direitos com o elo mais fraco – a criança – a ser prejudicada nos seus direitos de identidade para que alguns adultos possam ver o seu nome num documento oficial. Ou então teremos uma alteração ainda mais profunda com toda a linguagem sobre paternidade e maternidade a ser substituída por termos neutros como progenitor.
Dona Alda nunca leu Pessoa?
Alda é saudável e pediu para morrer mas o seu suicídio arrasta-se em tribunais Não será um suicídio pois nesse caso Alda matar-se-ia até porque o pode fazer mas sim de um homicídio. Como diria Pessoa «Se queres matar-te, mata-te…»
O ensino da Constituição
O ensino da Constituição é uma grande ideia. Eu teria aprendido muito coisas com isso. Logo na primária teria aprendido a necessidade de abrir caminho para uma sociedade socialista. No Ciclo teria compreendido a utilidade de submeter o poder civil ao Conselho da Revolução. No Secundário ficaria a saber que as nacionalizações são irreversíveis e que a emissão de televisão é um direito exclusivo do Estado. Mais tarde, na universidade, ficaria a saber do princípio da confiança e de como as nossas reformas estão garantidas para sempre.
Mau marketing
Métodos de protesto com péssimo potencial de marketing consistem em contestações publicitárias cujo resultado é contrário ao seu propósito. Nomeadamente:
- Rir quando se pretende mensagem de desespero;
- Evidenciar que quem protesta não sofre;
- Demonstrar ensaio contrariando espontaneidade de população deprimida;
- Acção de grupo cujo apelo é rudeza ao invés de empatia popular;
- Desvalorização do conteúdo dos protestos em detrimento do método.
Pessoalmente, entendo estas formas de “protesto” como excelentes demonstrações do (não) conteúdo inerente aos “que se lixe a troika“.
A ver
O video em que Vítor Gaspar é impedido de falar. Nele estão presentes muitos dos actuais traços da sociedade portuguesa:
a) Pouca gente se interessa pelo facto em si mesmo – no caso a apresentação do livro e o livro.
b) Um pequeno grupo estrategicamente sentado e com uma performance ensaiada que os próprios devem ter achado muito interessante interrompe vária vezes o orador
c) Os jornalistas presentes mais ou menos no mesmo número que o grupo que impedia Vítor Gaspar de falar centram as suas objectivas nos autores do desacato
d) Os restantes presentes mantêm-se em silêncio
e) O grupinho sai gritando demissão
f) Vítor Gaspar retoma apalavra e declara que as manifestações fazem parte de uma sociedade aberta e que não se sente fragilizado
Suponha-se que o Movimento que se Lixe a Troika e os outros movimentos que lhe estão por trás e que têm assento na AR apresentavam um livro. Podia ser este, por exemplo e que um grupo que discordasse do conteúdo do mesmo interrompia a sessão de lançamento exigindo o fastamento dos autores. Como reagiriam os presentes? Achar-se-ia natural? E os oradores o que diriam? Como dizem os espanhóis Todavía hay clases
A loucura em estado sólido!
The death of the spiral
Onde o Joaquim Couto vê uma espiral recessiva eu vejo a morte da teoria da espiral recessiva. Queda do PIB no 1º trimestre foi bastante menor que nos trimestres anteriores, o que indica que a recessão está limitada e não numa suposta espiral. A economia portuguesa caiu apenas uma décima mais do que a Zona Euro. Tendo em conta que a economia portuguesa pós-ajustamento depende cada vez mais das exportações, este resultado foi muito bom.
Duas falácias para alegrar o dia
A intervenção, como exercício de argumentação, em jornais ou blogs e respectivas caixas de comentários, nas redes sociais ou no café do bairro, tende a sofrer de várias falácias. Duas das minhas falácias preferidas são o bulverismo e o apelo à vaidade.
No bulverismo, o oponente assume imediatamente a falsidade do argumento, especulando sobre as motivações escondidas do proponente para a elaboração do mesmo.
No apelo à vaidade, o oponente tece considerações de lisonja sobre o proponente para, por outro lado, enfraquecer o argumento apresentado, considerando-o, por exemplo, abaixo das possibilidades intelectuais ou do histórico conjectural previamente apresentado.
Apenas com estas duas falácias em mente, é possível desmontar um número significativo de críticas. Usem isto nos artigos de opinião. Num dia de extrema benevolência, e caso possuam grande tolerância ao desenvolvimento de vícios, podem experimentar nos comentários nas caixas de jornais e blogs.
governo faz dupla mastectomia preventiva
Boa sorte
E professor pode ser?
«Ministério confirma demissão de director condenado por abusos sexuais» Demitiu-se do cargo de director pelo que voltou a ser professor o que pode implicar um contacto muito superior com crianças. Há cinco anos a propósito do caso Fritzl confrontei a PGR com a pergunta: os violadores ou pedófilos que tenham cumprido penas inferiores a 5 ou 8 anos ficam com o cadastro limpo entre 5 a dez anos depois do cumprimento da pena? E caso isto aconteça esse apagamento do registo criminal é total e irreversível? Por exemplo, caso pretendam adoptar uma criança ou trabalhar numa escola quinze anos depois esses dados já não constam do registo criminal desde que, entretanto, não tenha ocorrido nova condenação por crime? Ao que a PGR respondeu «Pode, de facto, dizer-se que decorridos os prazos de 5/7/10 anos sobre a extinção da pena, a condenação deixa de constar no registo criminal, não sendo passível de conhecimento para qualquer efeito. O cancelamento é definitivo (salvo se houver, entretanto, outra condenação). O regime do artigo 15.º da Lei 57/98 tem natureza genérica, não sendo excluídos quaisquer tipos de crime (nem outro regime especial existe para crimes como os referidos na questão).»
Na sequência do caso Fritzl, o então PGR Pinto Monteiro defendeu uma alteração legislativa: “O que há de perigo neste momento é que no registo criminal desaparece a condenação, portanto, é possível um pedófilo vir a adoptar uma criança. É fácil, é alterarem a lei” Cinco anos depois em que ponto estamos nesta discussão?
A ler
Henrique Raposo a propósito do livro Apontamentos Políticos – Eanes e os Partidos em que o general Garcia dos Santos, chefe da casa militar do Presidente Ramalho Eanes) relata as reuniões entre Ramalho Eanes e os partidos no período 1976-1979: “Ao longo destes quatro anos de reuniões, há uma coisa que salta à vista: ninguém estava muito interessado em discutir os problemas do país; o permanente jogo palaciano entre os partidos abria um abismo entre o sistema partidário e a realidade financeira, económica e social de Portugal. É como se a nação concreta fosse uma questão secundária para os partidos. Perante este divórcio quase cómico entre partidos e realidade, confesso que apanhei uma espécie de susto retroactivo: o país andava ao deus dará, em roda livre, porque ninguém queria assumir o ónus das escolhas governativas que poderiam evitar o colapso. As raras conversas sobre a governação concreta eram rapidamente remetidas para slogans vagos. Cunhal não era o único a usar a cassete. Estes primeiros anos criaram assim o absurdo paradoxo que marcou até hoje a vida da III República: aqueles que deviam ser os primeiros a percepcionar os problemas concretos são, na verdade, os primeiros a recusar ver esses problemas. Em consequência, a entrada do FMI em 1977 (e depois em 1983) foi apenas a conclusão óbvia deste estado de coisas. O país tornou-se ingovernável, porque a governação não era o business dos partidos. O seu business era a sobrevivência eleitoral, a conquista da posição-charneira dentro do sistema partidário»
O dia em que gostaria de viver do outro lado
No dia das próximas eleições autárquicas, será o dia em que gostaria de viver do outro lado do rio, em Gaia. Se vivesse em Gaia, poderia votar no meu amigo Doutor Carlos Abreu Amorim, pessoa cujas qualidades pessoais, profissionais e políticas aprendi a admirar (sem nenhuma desconsideração para com os restantes candidatos).
José Pedro Lopes Nunes
A narrativa das contas da CGA
As teorias que justificam a diferenciação em alta das pensões da Caixa Geral de Aposentações, nomeadamente a apontada por Eugénio Rosa sobre níveis de escolaridade – algo que Eugénio Rosa divulga há algum tempo – esbarram em algumas realidades. Primeiro, Eugénio Rosa optou por mostrar um gráfico comparativo de escolaridade de 2011. Ora, se em 2011 são empregados da função pública, não são pensionistas da função pública; para o gráfico fazer sentido neste contexto, teria que ser elaborado com dados anteriores a 2003 (supondo reforma aos 65 anos, a meio da esperança de vida de 18 anos pós-reforma).
Eugénio Rosa diz que a percentagem de funcionários públicos com grau superior em 2011 é de 55,7%. Vamos então tentar calcular a percentagem em 2003 com 65 anos.
Uma pessoa, que se reforme com 65 anos em 2003, nasceu em 1938. Em 1958 tinha 20 anos. Em 1969 tinha 30 e em 1979 tinha 40 – imaginemos então que esta pessoa, com formação superior, é quadro da função pública em 1979. Ora, em 1979, tínhamos 383,103 funcionários e em 2005 (não tenho dados de 2003), 747,880. Se o número de pessoas com formação superior em 2011 na função pública é 55,7%, de acordo com Eugénio Rosa; e aplicando esta mesma percentagem a 1979, teríamos 213,388 com formação superior. Como é sabido, o número de pessoas por mil habitantes com formação superior em 1979 é diferente do número em 2003. Em 2003, este número era 6,5 por mil habitantes. Não tenho dados de 1979 mas tenho de 1991, que aceito usar para 1979 com generosidade extrema: 1,9. Aplicando a proporção 1,9/6,5 ao número atrás calculado de 213,388; obteríamos 62,375. Dando de barato que em 1979 existiam 62,375 pessoas com formação superior na função pública, isto corresponderia a 62,375/383,103, ou seja, 16% de pessoas com formação superior na função pública que pudessem obter a reforma com 65 anos em 2003.
Agora, professor Eugénio Rosa, explique de sua bondade novamente este gráfico que publiquei, que demonstra que em 2012, a média dos aposentados da função pública (aproximadamente 40%), esteja no patamar 1000-2500€ ou, alternativamente, como foram obtidos os graus de equivalência a formação superior.
Adenda: meus dados – Pordata; 55,7% é apontado por Eugénio Rosa.
Consenso para todos
Como diz o professor Pedro Lains, “a OCDE não é o FMI, têm mais experiência, mais juízo e menos interesses nas finanças externas”. São de aplaudir, portanto, de forma consensual, incluindo CDS, recomendações como:
- Convergência das regras dos sistemas de pensões público e privado, abrangendo os actuais pensionistas da Caixa Geral de Aposentações (CGA). Não devem ser apenas os novos reformados os afectados pela convergência.
- Fim das reformas antecipadas (antes dos 65 anos).
- OCDE considera que há margem para aprofundar quase todas as vertentes das reformas do mercado de trabalho e para reduzir a protecção no emprego.
- Recomenda-se ainda a limitação da influência da contratação colectiva.
- No subsídio de desemprego, recomenda-se a limitação dos benefícios que ligam a prestação à idade e um reforço da protecção para os mais jovens.
- Redução dos impostos sobre o rendimento: IRS e IRC.
- Reduzir a Taxa Social Única (TSU) dos trabalhadores com salários mais baixos.
- Aumentar o número de bens sujeitos à taxa normal de IVA, de 23%, reduzindo isenções e os produtos sujeitos à taxa reduzida, de 6%.
A ilusão reaccionária
como é que ficam os pensionistas?
Como é que fica a TSU dos pensionistas? Vai ou não aplicar-se às suas reformas? A resposta é muito simples. Para já, ficou inscrita no acordo com a troika, o que significa que poderá aplicar-se, como é óbvio. Depois, de duas uma, ou o Dr. Portas, o novo grande reformador do estado português, consegue com os seus ciclópicos trabalhos encontrar receita alternativa, ou durante o segundo semestre do ano os pensionista não lhe escapam. Portanto, só dependerá do líder do CDS, do partido dos pensionistas e dos reformados, honrar ou desonrar o que lhe garantiu, há dias, na televisão. A vingança serve-se gelada e o CDS e Portas foram encostados à parede pelo PSD e por Passos. É só isto e é simples de entender.
Conceitos básicos
Imposto:tipo de pagamento que as pessoas fazem ao Estado (exemplos: IVA, IRS, IRC, IMI)
Despesa pública: tipo de pagamento que o Estado faz às pessoas (exemplos: salários, pensões, subsídios)
Aumento de impostos: implica que as pessoas pagam mais ao Estado
Corte na despesa: implica que o Estado paga menos às pessoas.
Aumentar impostos: perder votos de pessoas
Cortar na despesa: perder votos de pessoas
Défice: uma forma de estar bem com as pessoas
dr. almeida, importa-se de nos explicar isto?
Ao parecer do Dr. João Almeida:
“CDS exigirá respeito pelo compromisso de não aplicar a taxa sobre pensões”.
“Troika exige clareza e não dá por fechada sétima missão”.
“Eurogrupo dá luz verde para a tranche de 2 mil milões de euros”.
Deixo aqui uma sugestão interpretativa: o que o Dr. João Almeida exigiu foi o respeito – o respeito integral e absoluto, que fique claríssimo!- pela ideia de compromisso de não se aplicar a taxa. A ideia em estado puro, a ideia platónica, a ideia como coisa em si mesma, a ideia como declaração intemporal duma vontade superior ao objecto da própria ideia e da ideia própria. A ideia na sua pureza virginal, incorrumpível e não corrumpida pela grosseira espuma das coisas materiais do dia-a-dia. O espírito sobre a matéria, em suma. Já quanto à taxa, é uma questão completamente distinta.
um novo estilo
Acabámos de inaugurar um novo estilo de negociação política: aprovar medidas com os nossos credores e inscrevê-las nos documentos dos acordos firmados pelas partes para que elas não sejam aplicadas.
O dia está salvo
O CDS assegura que não deixará passar cortes na despesa.
Alguns números sobre equidade
Esta é a distribuição das pensões (por idade, não inclui invalidez):

Supondo uma distribuição normal dentro de cada patamar, exceptuando os limites, e considerando um tecto hipotético de 2000€ para o valor das pensões, obter-se-iam as seguintes reduções de despesa e número de pensionistas afectados1.

Se o tecto de 2000€ entrasse em vigor, seria esta a distribuição das pensões:

(Fonte: Pordata, dados referentes a 2012)
1 O tecto de 2000€ foi escolhido de forma a originar uma redução total de aproximadamente 10% nas prestações de reforma. Não deve este artigo ser lido como uma proposta de tecto de pensões, particularmente se definido arbitrariamente em 2000€. É um mero exercício em equidade.
a vergonha na cara não tem cotação política em portugal
Não serei eu a dizer que Paulo Portas não é politicamente um trampolineiro. Salta à vista desarmada que o é, e este episódio recente das pensões de reforma é apenas mais uma prova disso. Convém, contudo, que o histerismo gerado pelo caso não nos faça esquecer os outros trampolineiros que por aí andam, muitos deles ainda no activo e outros a prepararem afincadamente o seu regresso. Só três exemplos retirados dos anos mais recentes. Durão Barroso, que ganhou as eleições a prometer um «choque fiscal» (leia-se uma descida de impostos) e aumentou os impostos logo nas primeiras semanas de governo. A meio de um mandato em que pediu e impôs sacrifícios aos portugueses, em troca da promessa de um futuro radioso, pôs-se a andar para Bruxelas, por puro interesse pessoal e sem dar justificações ao pagode. Depois, Jorge Sampaio, de cognome «o terno», que falava despudoradamente do «défice» e agora vem perorar sentenças sobre o mesmo tema. Este foi também o único presidente da República Portuguesa que dissolveu um parlamento com maioria absoluta, para objectivamente entregar o poder, já não direi aos seus amigos políticos, mas, pelo menos, à oposição. Por último, o verdadeiro campeão português da falta de lata: José Sócrates, claro. Deixou o país falido e de pantanas, nem há dois anos, e aparece, agora, como se nada tivesse a ver com o assunto, a criticar quem tentou compor os sarilhos que arranjou e ainda a dar palpites sobre o que devemos fazer para sair do atoleiro em que nos meteu. A falta de vergonha é, em Portugal, um valor sem cotação política. Não vale a pena sermos muito exigentes.
A Ibéria só dá problemas
Poderá o senhor Xuan Mao explicar ao governo português que o termo ibéria é um péssimo negócio para Portugal?
A ler
João César das Neves: «A nossa elite é intimamente avessa aos princípios básicos da democracia. Mesmo se ultimamente adoptou a versão oficial, exteriormente democrática, que por vezes até parecia sincera, a crise actual veio revelar as suas reais tendências. As origens da atitude são velhas, profundas e estruturais, manifestando-se claramente em todas as épocas.
A essência da democracia, na política como na economia, é competição, alternativa, desportivismo. Que todos tenham oportunidade de se apresentarem e ganhe, não o melhor, que ninguém sabe quem é, mas aquele que a sociedade preferir. Ora, os nossos pensadores e dirigentes há séculos que são eminentemente proteccionistas, corporativos, clientelares. A sua visão é aristocrática, egoísta, manipuladora. Consideram-se geniais e desprezam as massas ignaras e o País, que nunca os mereceu. Visceralmente avessos à incerteza das eleições e mercados, preferem arranjinhos de bastidores, batota do árbitro comprado, garantia de progra- mas de apoio.
Esta atitude de fundo sempre se manifestou no campo económico com uma posição abertamente anticapitalista.Do jacobinismo republicano ao corporativismo salazarista e à social-democracia do PS e do PSD, a elite nacional repudia sem rebuço a incerta economia de mercado, preferindo a versão dirigista e regulamentar. No campo político, pelo contrário, o discurso tem sido mais diversificado. Aí é preciso ir ajustando as expressões, para não chocar as conveniências de cada época.
É verdade que mesmo após Abril permaneceu viva, sobretudo na extrema-esquerda, uma doutrina claramente antidemocrática. A corrente principal da elite, no entanto, dizia-se nominalmente defensora de um regime aberto e europeu. Isso não impediu, naturalmente, a captura corporativa do sistema que alimentou a dívida galopante.Agora que os resultados da loucura rebentaram, vemos as personalidades mais insuspeitas apregoarem propostas perversas, sem a menor vergonha de negarem aquilo que sempre disseram defender.
As actuais imprecações antidemocráticas partem sempre do repúdio do Governo, alegadamente povoado de mentecaptos perversos empenhados na demolição nacional. O facto de essas políticas virem não do arbítrio de ministros tolos, mas da orientação de instituições internacionais reputadas, a quem os críticos sempre proclamaram uma adesão incondicional, não parece fazer a menor diferença. A única solução, segundo eles, é subverter as instituições, derrubar a maioria legítima, convocar eleições subversivas.Nem sequer entendem que essa mesma proposta minaria a legitimidade do Governo daí resultante, o qual, aliás, não teria outro remédio senão continuar na mesma linha de austeridade»
Riddle
Como é que um partido consegue manter a paz social numa democracia com 2 lobos e um cordeiro? Fácil. Cria défices. Os lobos não tocam no cordeiro enquanto estiverem bem alimentados.
uma opinião rigorosa
Dada por um especialista na matéria: «A credibilidade de Portas ficou arrasada».
Três alternativas, uma só solução
Alternativa 1
Arranjar quem mantenha o défice português. O governo anterior não conseguiu; após muito espernear com taxas de juro catastróficas, tentou resgate “a portas fechadas” na UE sem sucesso, sendo obrigado a resgate FEEF/FMI. Esta alternativa não existe, diga o que dizer o Hollande do momento.
Alternativa 2a
Aumentar receitas. Ninguém está disposto a mais aumentos de impostos nem estes, por si só, permitiriam o grau de ajuste orçamental que encaminhasse para a alternativa 1. Esta alternativa, por si só, não existe. Independentemente do que disser o Hollande do momento.
Alternativa 2b
Crescimento. Obter receitas através do aumento da produtividade. Keynesianismo, mesmo que funcionasse, é impossível (não há dinheiro, ver alternativa 1); resta desburocratizar a actividade económica – já que redução do custo da mão de obra também ninguém aceita. Na melhor das hipóteses, mesmo crescendo, seria insípido e não resolveria o problema (taxa de endividamento seria sempre superior à taxa de crescimento). Independentemente do que disser o Hollande do momento.
Alternativa 3
Reduzir despesa. A fatia de leão são salários e pensões. Ninguém quer aceitar mais cortes. Outras parcelas são insignificantes para o efeito (e ainda há dias se queixavam de falta de papel higiénico). Redução da despesa é a única alternativa exequível mas implica aceitar ajuste dos salários e pensões à produtividade do país. Esta alternativa também é conhecida por austeridade. Independentemente do que disser o Hollande do momento.
Alternativa 4
Menti. Há outra alternativa: falir. Ser obrigado a sair do euro, tornar bens e matérias-primas de importação incomportáveis, reduzir salários através da inflação e, em suma, penar por muitos e muitos anos. Imprimir dinheiro à bruta para manter eleitor satisfeito com valores nominais.
Independentemente do que disser o Hollande do momento.
Agora escolham o comprimido azul ou o comprimido vermelho.
Paleio
Em Outubro do ano passado havia um grande consenso a favor de cortes na despesa. Como se tem visto na últimas semanas era apenas paleio. É praticamente impossível encontrar político, comentador ou blogger que faça uma defesa pública de cortes nas pensões.
Impressões
Sleeping with the enemy
Filme de grande audiência. Novas cenas em jornais perto de si.
Runaway bride
Outro filme, mesma pessoa como personagem principal. Alguém se recorda do final?
Recuo de Portas
Se fosse verdade, seria positivo. Não só é necessário cortar na despesa como é inevitável que esse corte seja feito nas pensões. Infelizmente nem o Portas recuou nem há intenção de aplicar a medida.
garotices
um triste espectáculo
Uma coligação de governo pressupõe um entendimento razoável entre os parceiros que a constituem, sobre os pontos relevantes da governação. Governar é tomar decisões que afectam milhões de pessoas, com o dinheiro que é delas, ganho com o esforço do seu trabalho e os rendimentos da sua legítima propriedade. Em momentos de crise, o volume de decisões e a quantidade de dinheiro exigida às pessoas aumenta exponencialmente, como, aliás, se tem visto. A sintonia entre os governantes que exigem e dispõem de tamanhos sacrifícios não pode, por isso, ser menos do que absoluta. Menos do que isso é desrespeitar as pessoas e demonstrar falta preparação, ou mesmo de seriedade, para o exercício de tão importantes responsabilidades. Por conseguinte, este espectáculo, quase permanente, que a coligação de governo PSD-CDS nos tem dado, em cima dos sacrifícios imensos que tem exigido aos portugueses, tem de acabar. Verdadeiramente, nunca deveria ter começado, se as lideranças dos dois partidos tivessem tido a maturidade suficiente para se entenderem (ou não) sobre o governo de que iriam participar, antes das eleições. Não o fizeram e isso foi um mau sinal. Mas agora, depois de tudo o que já exigiram aos seus concidadãos, o mínimo que lhes é exigido é que se saibam comportar publicamente e que mereçam a tolerância com que as suas decisões têm sido acatadas.
Aditivos de memória
Em 22 de Fevereiro:
http://www.tvi24.iol.pt/503/politica/abreu-amorim-vitor-gaspar-tvi24/1422865-4072.html
No discurso do 25 de Abril:
“Este esforço de consenso terá forçosamente de ser realizado por políticos que pensem a política como exercício de perceção global da realidade e lhe apliquem decisões direcionadas para o bem comum – em caso algum a visão volitivamente afunilada de um tecnocrata conseguirá cerzir aquilo que foi rompido.”
Devolvam as nossas vidas
Pomposamente, com a solenidade fúnebre de heróis de guerra, defensores do bárbaro invasor que pilharia e destruiria o país, grita-se: “devolvam as nossas vidas“.
Quando um Sábado é passado antecipando um jogo de futebol, a queixa é que temos problemas sérios pela atenção que damos ao desporto, mero entretenimento.
Afinal o que são as nossas vidas “a devolver“? Não será, precisamente, viver as mundanas alegrias e tristezas de jogos e entretenimento momentâneo, sem preocupações de austeridade ou com “o futuro do país“?
Ou será, simplesmente, “devolvam as nossas vidas“, a reivindicação pelo socialismo cuja existência depende do dinheiro de outros?
Gasparismo por décadas
Não sei quanto tempo durará Vitor Gaspar no governo, mas o gasparismo dominará as próximas décadas. Basta fazer umas contas para o perceber. Os actuais e futuras obrigações do Estado são muito superiores às potenciais receitas.
Crescimentismo
Quem critica o Gaspar apenas manifesta o desejo por mais despesa e mais défice. Nada de novo.



