Saltar para o conteúdo

Eu acuso!

21 Abril, 2014
por

Este título da Ránio Renascença é todo um programa:

Freitas do Amaral acusa Governo de ser “o mais à direita dos últimos 40 anos”

A palavra chave é, naturalmente, acusa. Pois é uma palavra com sentido pejorativo. Ninguém imagina um título ao contrário. Por exemplo:

Mário Soares acusa direcção do PS de ser “a mais à esquerda dos últimos 40 anos”

Não se trata de saber qual das frases é verdadeira – nenhuma é. Trata-se de verificar que é natural “acusar” alguém de ser de direita mas nem sequer se imagina “acusar” outro alguém de ser de esquerda. Mesmo na católica Renascença. Assim vai a “neutralidade” jornalística.

Juche-ifica-nos

21 Abril, 2014

Esqueçam resultados. O que importa é que este é o governo “mais à direita dos últimos 40 anos” e, portanto, violador do princípio sagrado e constituicional de bondade humana. Isto implica, naturalmente, que quem não é de esquerda não é filho de boa gente.

O problema de Freitas do Amaral, como de muitas outras pessoas, é a extrema necessidade do “parecer” ser mais relevante que o “ser”; portanto, para agradar aos velhos portugueses que namoram com o poder há 40 anos, a solução é fazer o que for necessário sem olhar a esquerdas e direitas mas dizer sempre que o objectivo é tão de esquerda que faça Juche soar a extrema-direita.

Alguns gráficos interessantes da 11ª avaliação do FMI

21 Abril, 2014
por

A leitura dos relatórios do FMI sobre as sucessivas avaliações é sempre muito útil, e o mesmo sucede com o que foi hoje revelado. Nesta altura em que estamos a chegar ao fim do período da troika, há alguns balanços interessantes. E algumas ideias feitas que podem e devem ser desfeitas.

Gastos sociais

Document6_Fotor

Em 2012 Portugal gastava 22% do PIB com o chamado “estado social”. Isso compara com os 20,4% de média da Zona Euro e com os 18% da União Europeia como um todo. Não está mal como resultado depois do “maior retrocesso social de sempre”, ou do famoso “recuo civilizacional”, ou de tantas outras barbaridades que por aí se proclamaram.

Como se escreve no relatório:

Public pension expenditure in Portugal more than doubled relative to national income over the last 20 years, with changes only in part justified by demographic developments.1 In 2012, social benefit spending—of which pensions account for over 80 percent—stood well above European and euro area averages.

Os salários

Document7_Fotor

Este relatório fornece-nos alguma informação interessante sobre a forma como se distribuem os salários entre os vários sectores da economia portuguesa. 

Tomemos este primeiro gráfico. Alguns só verão nele a diferença salarial existente entre Portugal e países como a França, a Alemanha e a Itália. Eu vejo outra coisa: enquanto nesses países é no sector exportador que se pagam os melhores salários, em Portugal são os trabalhadores do sector não transaccionável os que, comparativamente, são melhor pagos. Isto mostra até que ponto este sector esteve protegido da competição – e até que ponto nele pesam os trabalhadores do sector público. 

Document8_Fotor

Quando olhamos para a forma como os custos salariais unitários evoluiram nos últimos anos verificamos que, se tomarmos por ponto de comparação 1995, os custos no sector não transacionável aumentaram mais de 60% (é aqui que está o Estado, que está a Banca, que estão as telecomunicações, a energia, etc), enquanto no sector transaccionável não chegaram a crescer 10%. Quando olhamos para o que se passou nestes anos de crise (desde 2009), verificamos que os custos unitários do trabalho cairam quase 15% no sector transaccionável (mesmo assim uma queda inferior à ocorrida na Irlanda e em Espanha) e, no sector não transaccionável, a dominuição desse indicador foi marginal.  Ler Mais…

O fanatismo dos “anti-fanáticos”

17 Abril, 2014
por

Francisco Assis não é conhecido por ser um político radical. Pelo contrário. Que lhe deu então para, na sua coluna semanal, insultar Pedro Lomba – “pequeno apparatchik ligeiramente alfabetizado” – e Bruno Maçães – um aparente “pateta” que escreve “num inglês próprio de quem nunca leu Shakespeare”?

O texto, ao contrário do que é habitual em Assis, não argumenta, vai apenas de bordão em bordão, atirando com Hayek para um lado, Pinochet para o outro, num amontoado de lugares comuns sobre o “governo dogmático” com “uma mentalidade escassamente democrática”. É, porventura, um texto eleitoral: Assis necessita de aumentar o tom de voz para que, no PS, não desconfiem dos seus galões. Mas não deixa por isso de se um texto revelador.

Quando chama a Lomba e Maçães “dois pequenos génios condenados à incompreensão” Assis revela ao vem, pois a palavra-chave da frase é “pequenos”. “Pequenos” porque novos, porque jovens, porque exteriores ao círculo autorizado dos políticos experientes e sensatos.

É curioso que Assis, um político que ocupou o seu primeiro cargo público aos 25 anos (presidente da Câmara de Amarante) se junte ao coro dos que procuram desqualificar os mais novos apenas por serem mais novos – ou “pequenos”, na sua linguagem alegórica. É curioso mas vai bem com os espírito do tempo. Depois de o 25 de Abril ter proporcionado uma ruptura geracional que permitir que gente com menos de trinta anos chegasse a secretário de Estado e a ministro (para não falar dos que chegaram a directores de jornais ou a presidentes de empresa), agora, que supostamente temos à nossa disposição “a geração mais bem preparada de sempre”, um exército de “senadores” passa a vida a desqualificar os Ler Mais…

Marmita-me ao serviço do bem

17 Abril, 2014
marmite.jpg

Há uns anos, na mui social-democrata Dinamarca, terra modelo para progressistas ao serviço do bem (excluindo coisas como a monarquia, o cheque-ensino, a igreja oficial, ausência de salário mínimo, etc, etc), foi retirado do mercado o mui britânico creme para barrar Marmite por excesso de qualquer coisa (sal? vitaminas? britishness? sentido de humor?).

Não é de admirar que os estados gostem de taxar, proibir, indexar e/ou regular segundo um cânone do bem aquilo que as pessoas devem ou não comer. É para o bem comum. E está bem, encaixa perfeitamente no historial de intervenção nacional-socialista. Deviam reduzir o IVA nos ginásios.

nazi-fitness

Auto-lápis azul

17 Abril, 2014

Nem todos os textos saídos em Portugal  sobre a retitada de Cohn-Bendit serão tão hagiográficos como o do PÚBLICO. Estão lá os tópicos habitais das pessoas elogadas por aquele jornal: o deputado que “mais falta fará nos próximos cinco anos” “uma figura mítica do PE, orador ímpar que sempre exprimiu as suas convicções com uma rara energia e uma emoção assumida sem pudor”  “despertador de consciências” “único deputado capaz de, sem papas na língua, chamar as coisas pelos nomes, não hesitando por exemplo em acusar de “hipócritas” em pleno debate os parceiros vira-casacas ou chamar “cretinos” aos eleitos da extrema-direita”  “Provocador inveterado, nunca perdeu a oportunidade de “picar” os responsáveis europeus que discursaram no PE, de Durão Barroso a Tony Blair (ex-primeiro ministro britânico), sempre que os apanhou em contradição com o interesse europeu”…

Enfim a vida de Cohn Bendit não começou no PE e em boa verdade está cheia das luzes e das sombras que carcaterizaram a extrema-esquerda europeia nos anos 70. Omitir isto e o que aconteceu naqueles jardins de infãncia “libertados” é apenas uma forma de legitimar o que nunca deveria ter acontecido e prova não só que não se aprendeu nada como que se continua sem reflectir naquilo a que se pode chegar em nome dos direitos da criança e à criança.

 

Twins

16 Abril, 2014

Muitos dirão que é dificil encontrar diferenças entre o PS, PSD e CDS no que diz respeito a questões europeias. Eu digo mais: é exercício inútil, é farinha do mesmo saco. Há decadas. Basta analisar como votam e o que votam.

E tanto é assim que os próprios protagonistas tem dificuldades em conseguirem fazer-se distinguir uns dos outros. Repare-se no emeranhado e rodriguinhos com que Paulo Rangel conseguiu ontem preencher uma página do Público. Diz ele que num debate entre Shultz e Junker, o primeiro terá dito que «os eurobonds não estão na agenda». E o que diz Junker? «esse processo não pode avançar sem a vontade política dos Estados e que, neste momento, ela não existe manifestamente em alguns deles». Ok, Paulo Rangel acha, eufórico, que são respostas totalmente diferentes… enfim.

O mesmo Rangel vem no entanto reconhecer «que também no âmbito do Partido Popular Europeu e, de resto, no quadro do programa europeu dos partidos portugueses que apoiam o Governo, não se exclui o caminho futuro de uma mutualização». Portanto, o PPE, e por consequência o PSD e CDS, são favoráveis a essa mutualização. Tal como o PS. Tal como o PSE que apoio Shultz. Tal como Shultz, que apenas constata não estar de momento na agenda, ao que Junker acena que sim, dizendo que se terá «mais tarde voltar a essa questão». A agenda de Shultz, de Junker, de Rangel, de Nuno Melo, de Seguro é pela mutualização da dívida. Mas não gostam de aparecer juntos na fotografia. Tem vergonha. Tem absoluta necessidade de dar a falsa imagem de que são diferentes. Por causa dos votos. Se se perceber que defendem exactamente a mesma coisa, podia ser um sarilho….

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

Junte-se a 32.979 outros seguidores