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Saudades do Decreto-lei n.º 217/74

13 Abril, 2014
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Vai por aí uma grande excitação com o valor do salário mínimo em 1974 e 1975. Até se diz que foi um grande impulso para a economia, apesar de Portugal ter conhecido logo a seguir, em 1975, a maior recessão (-5,1%) dos últimos 50 anos (pelo menos).

Mas esquecem-se outros aspectos curiosos do famoso decreto-lei n.º 217/74, promovido pelo ministro do Trabalho de então, Avelino Pacheco Gonçalves (o segundo militante comunista do Governo Palma Carlos, pois o outro era o próprio Álvaro Cunhal).

Além de estabelecer os famosos 3.300$00 como SMN, um valor que, de acordo com o calculador do site da Pordata, representaria hoje 443 euros (como não consigo perceber como é que o Expresso fez a conta de mais de 500 euros, fico-me por esta referência), esse decreto-lei também congelou todos os salários superiores a 7.500$00. A valores de hoje isso corresponderia a congelar todos os salários superiores a 1008 euros (calculador da Pordata). Imagino que os autores da notícias e comentários não ficariam felizes se isso acontecesse aos seus actuais salários…

Mas há mais. O mesmo decreto-lei congelou as rendas em todo o país. Prometeu que seria apenas por um mês, foi por muitos anos, com as consequências conhecidas.

Por fim, “para evitar a especulação”, foram também congelados todos os preços. Com pouco sucesso. Em 1974 a inflação chegaria aos 26,%, um valor que só seria ultrapassado em 1977 (26,7%) e 1984 (28,5%). Com a particularidade de dessas duas vezes ter coincidido com as anteriores vindas do FMI.

Há saudosismos que são muito reveladores.

Nada como ver claramente visto

13 Abril, 2014

A propósito da polémica sobre a escola antes e depois do 25 de Abril (tirando a doideira ideológica que colocou umas crianças portuguesas a cantar loas à economia cubana a degradação do ensino em Portugal pouco tem a ver com o 25 de Abril em si mesmo mas sim com um fenómeno comum a outros e muito demoráticos países chamado eduquês, modas pedagógicas, igualitarismos nivelados pela mediocridade …) não há melhor teste que a comparação dos enunciados de exame.
Compare-se por exemplo este exame de Português de 1972 de Português para os alunos do antigo 5º ano (actual 9º) com a prova que foi efectuada em 2002 para o mesmo nível (link corrigido)

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Isto não é novidade. É fatalidade

13 Abril, 2014

RTP: Documento de Bruxelas liga pensões portuguesas à evolução da economia

Público: Troika diz que valor das pensões vai ficar ligado a factores económicos e demográficos

Num esquema por transferência como o nosso as pensões ou são indexadas à demografia e à economia ou passam a ser crescentemente suportadas por impostos. Tentar indexá-las ao vento ou ao pensamento positivo são opções com inúmeros fiéis mas infelizmente sem qualquer resultado prático. Repetir três vezes Luta, Roubo, Miséria também não tem resultado. O espiritismo tem algum sucesso mas os espíritos invocam a sua qualidade de espíritos e também não pagam. Logo se o sistema se mantiver por transferência ou as pensões são indexadas à realidade ou o sistema não sobrevive. E as gerações mais jovens  que descontam para a segurança social desde que começaram a trabalhar contarão uma linda história aos netos que os terão de sustentar: “Era uma vez um tempo em que os avós tinham reformas calculadas a partir do último vencimento…”

Quem disse? Foi dos bons ou dos maus?

13 Abril, 2014

No Portugal não democrático, no Portugal pré-União Europeia e pré-Comunidade Europeia havia ensino de excelência apesar do regime político em que se vivia e isso era possível porque numa escola era desejável reforçar a própria cultura de excelência da escola. Não estou seguro que aconteça hoje o mesmo em muitas escolas portuguesas e europeias. — Durão Barroso

Isto chateia muito as pessoas. Uma coisa é comparar salários mínimos com Abril de 1974, outra é comparar corporações e metodologias de inflação das estatísticas da “geração mais bem preparada de sempre”. Reparem: a educação em 1973 era uma lástima que até permitiu que a malta elegesse o doutor Mário Soares mal teve oportunidade, incluindo para presidente da república. Isto só pode mostrar o quão as escolas funcionavam mal e ensinavam ainda pior. Poucos anos depois, as pessoas instruídas nos pré–74 (uso de “instruídas”no sentido lato) acabaram a eleger o professor Cavaco Silva. Onde é que isto mostra uma aprendizagem correcta de conceitos? Onde é que isto é mostrar a vontade do ex-aluno em aprender a aprender? E em que é que este sistema de ensino contribuiu para a mobilidade social, nomeadamente para a construção de moradias nos subúrbios, substituindo a enxada dos pais pela mangueira da relva e o gnomo de jardim dos filhos?

Temos que denunciar esta falsidade. As escolas até 1974 eram uma vergonha. Uma aberração fascista. Uma desgraça anti-pedagógica. Por isso, nada melhor que impedir pessoas mal formadas, com escolaridade concluída até 1974, de participarem nas decisões da vida pública. Temos que afastar estas pessoas do poder legislativo, judicial e executivo. Temos que as afastar dos média e das colunas de opinião. Temos que mostrar-lhes que eles são os responsáveis pela desgraça do país porque, coitadinhos, passaram por uma escola fascista, sem rigor, sem objectivos e sem qualquer mérito a assinalar, sob risco de aceitarmos que o discurso de ruptura brutal com o pré-Abril é, na realidade, uma continuação da propaganda típica de regimes pré-Abril (mas do lado dos bons).

39 anos para dar uma notícia

12 Abril, 2014

O Expresso demorou 39 anos para dar a notícia de que o salário mínimo real é menor que o salário mínimo do PREC.

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Como mostra este gráfico do próprio Expresso, o salário mínimo ao longo dos últimos 39 anos foi sempre menor que o do PREC.

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O salário mínimo do PREC era de tal forma irrealista que só em 1984 recomeçou a crescer sutentadamente.

De notar os três períodos de subidas irrealistas do salário mínimo: PREC, 77-80  e Sócrates.

Anda tudo a discutir socialismo e PREC

12 Abril, 2014

Há anos que não se ouvia uma discussão tão interessante sobre socialismo, o PREC, a reforma agrária, a nacionalização da banca e outras coisas fascinantes.

Esta discussão é interessante porque, ao contrário do que pensam os excitados sobre o tema, não reflecte o desejo de revolução ou mais colectivização e sim o luto necessário para enterrar a perda em troca por nostalgia.

Equivale mais ou menos à fase 4 do modelo de Kübler-Ross.

Os ausentes

12 Abril, 2014

Vejo frequentemente dados estatísticos serem usados para concluir o contrário daquilo que eles significam. Este parece ser um caso.

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Este gráfico mostra as pessoas que têm emprego e que ganham o salário mínimo. O que é que este gráfico não mostra? Não mostra as pessoas excluídas do mercado de trabalho por não conseguirem produzir acima do salário mínimo. E com essas os defensores do salário mínimo nunca se preocupam. A presença de adultos e licenciados entre os que ganham salário mínimo sugere que a linha de exclusão do salário mínimo já é demasiado elevada e que há não só adolescentes mas também adultos sem qualificações que são excluídos do mercado de trabalho.

Note-se a desproporção entre homens e mulheres. Esta desproporção sugere que um aumento do salário mínimo levará muito mais mulheres que homens para o desemprego.

PS. Falácia lógica que toma os sobreviventes de um processo como representativos da população original: Survivorship bias

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