Bolo-rei ASAEdo

Costa foi levar o bolo-rei ao doutor Sócrates. O agrado, além da tradicional fruta cristalizada, contém uma fava e um brinde, tal como se fazia antigamente, antes da ASAE determinar que as pessoas podiam morrer engasgadas com objectos duros na garganta, como se estas não tivessem calejado a traqueia engolindo o governo do próprio doutor Sócrates. Enfim.
A fava é uma entrevista ao – e passo a citar – “Correio da Manha”, mais conhecido na ordem homo-roedora como “o pasquim”.
O brinde é um complemento para citações de René Char (1907–1988), na forma de um poeta que o antecedeu, Robert Browning (1812–1889), em Paracelsus, com “Truth is within ourselves” (isto é gente muito culta: “um lutador por aquilo que acredita ser a sua verdade”).
Não só foi Costa levar o bolo-rei como conseguiu dizer três coisas:
- ele diz que é inocente, eu não sei nem me interessa;
- as minhas citações/referências antecedem as dele, tanto que até levo um Madiba à visita;
- é um lutador, que esperneia mas só o visitei no último dia do ano em que foi preso, que tinha mais que fazer.
Estão todos satisfeitos. Pelo menos, eu estou.
Violência doméstica e prisão preventiva II
A probabilidade de um acusado de violência doméstica ser levado a julgamento é de cerca de 50%.
A probabilidade de vir a ser condenado a pena de prisão é cerca de 1,2%.
Ou seja, a prisão preventiva só faria sentido em 1,2% dos casos, isto no pressuposto que os juízes de instrução conseguem prever com 100% de acerto quais os casos que levarão a condenação.
Ganha em estar calado
Lendo esta entrevista, interrogo-me se o Tó Zé não teria razão quando acusou António Costa de estar hipotecado a interesses. Podemos negar esta aparente evidência e assumirmos tratar-se apenas da habitual compra de votos, não sei se eficaz. Certo é que, o efeito prático da eventual aplicação das políticas que daqui ressaltam, seria o restauro imediato e integral do crony capitalism de que vimos saindo gradualmente. Imagino pois as pungentes lamentações de Ricardo Salgado por não ter encontrado Costa como interlocutor quando pediu ajuda ao Governo…
Sinceramente, parece-me que ele só ganha em manter o sorriso seráfico e o silêncio esfíngico da Gioconda.
E ainda mais estranho
Que estranho fim de ano
correcção
Não foi Salgado, como escreve na edição de hoje o Correio da Manhã, quem pagou 570 mil euros à Fundação Mário Soares. Foram mesmo os depositantes do agora falido Banco Espírito Santo.
Diário de Raquel Varela (2014)
Esta compilação de entradas é um serviço público gratuito para a difusão do pensamento de uma intelectual portuguesa; não deve ser interpretada como uma crítica e sim como um elogio à profundidade economico-social da academia portuguesa, a única entidade capaz de nos tirar da crise de valores das nossas contas bancárias.
um livro de leitura obrigatória
Acabei de ler a biografia política de Marcello Caetano escrita por Luís Menezes Leitão (Marcello Caetano, Um Destino – Quetzal, 2014), que considero a melhor obra que li sobre o último chefe de governo do Estado Novo. O livro está muito bem escrito e organizado de forma relativamente original, com cada capítulo a relatar um facto importante da história política do biografado, sendo que ganha especial fulgor na descrição das relações pessoais e políticas de Marcello com Salazar. Na verdade, Marcello Caetano – Um Destino, acaba por ser, mais do que a história de um homem, a história desses dois homens, notando-se até, aqui e ali, alguma perda de entusiasmo do autor na última parte do texto, a partir do acidente que afasta Salazar do poder e consagra Marcello como seu definitivo sucessor. Assim, se é bem verdade que uma biografia sempre colhe alguma simpatia do autor pela personagem biografada, a ambiguidade pessoal e política de Marcello Caetano, que acompanhou toda a sua vida e que acabou por fazer dele uma vítima involuntária das suas ambições, leva também Luís Menezes Leitão a uma certa ambiguidade literária, melhor dizendo, a uma imparcialidade objectiva no julgamento histórico das relações entre essas duas personagens. De facto, os melhores momentos da carreira política de Marcello teve-os ele quando enfrentou António de Oliveira Salazar, dizendo-lhe o que mais ninguém se atrevia a dizer-lhe, assumindo uma espécie de oposição ordeira e legalista, mas ainda assim não pouco corajosa, ao regime a partir do interior do regime. O cinismo, por vezes cauteloso, com que Salazar respondia às invectivas daquele que seria mais tarde (e não propriamente com o seu entusiasmo) o seu «delfim», inspirou o biógrafo, que descreve superiormente esses momentos naquela que é a parte mais notável do seu livro. Por fim, a desilusão com Marcello que, ao subir ao poder, não conseguiu libertar-se da herança do velho ditador, e repetiu quase todos os seus passos e erros, até mesmo para com os «jovens turcos» que pretendiam liberalizar o regime, tal como ele o pretendera arejar décadas atrás. De resto, a suprema ironia da História e do Destino manifestam-se quando alguns destes «jovens turcos» tentam livrar-se de Marcello empurrando-o para a Presidência da República, tal e qual Marcello procurara convencer Salazar a suceder a Craveiro Lopes e a abandonar, assim, a chefia do governo e do regime. Convenha-se, contudo, que o trato que Salazar lhe deu nessa ocasião foi muito mais elegante e inteligente do que a altercação nervosa que a sugestão dos seus «discípulos» lhe provocou, a ele que tão bem conhecia a artimanha que lhe estavam a montar. De resto, a ironia da História manifestou-se com Marcello de forma exemplar, o que Menezes Leitão também exemplarmente descreve. Na verdade, com mais ou menos floreados discursivos, Marcello Caetano acabou por fazer o que fizera Salazar no que se refere às liberdades políticas (ou à falta delas), à PIDE, à liberdade de expressão, à democracia parlamentar, às contestações académicas do regime e, pior de tudo, ao Ultramar. Mais ingénuo e eventualmente menos corajoso politicamente do que Salazar, Marcello Caetano tarde se apercebe do entendimento existente entre Costa Gomes e Spínola, e entrega-lhes o comando das Forças Armadas, trepanando, em simultâneo, as chefias políticas dos ministérios que os tutelavam. Costa Gomes, cerebral, frio e objectivo, e Spínola, vaidoso, emotivo e sentimental, acabam-lhe com as poucas ilusões que ainda tinha. Embora o livro de Menezes Leitão o não refira, conta que um crítico de sempre de Marcello Caetano comentava a nomeação destes dois oficiais do exército português nestes termos depreciativos para o «Delfim» agora feito chefe: «Salazar tinha sempre os inimigos por perto. Mas não fazia deles chefes militares». Foi o caso de Marcello, a quem Salazar nunca deixou de pôr o olho em cima, comprometendo-o com o regime entregando-lhe cargos quase sempre de pouco peso político, mas não foi o que fez Marcello Caetano com aqueles dois oficiais. O resto da história é bem conhecido.
a gioconda do ps
É mais do que boa altura para António Costa começar a falar e – finalmente! – anunciar ao que vem, se é que de facto vem a alguma coisa. O sorriso seráfico e o silêncio esfíngico, a lembrar a Mona Lisa, não servem em ano de eleições, e permitem até que insignificâncias políticas como Rui Tavares, que nem sequer pertence ao PS, comece a pôr e a dispor de um eventual futuro governo liderado por esse partido, já com estatuto de ministro e a convidar o PC e o BE para entrarem na dança. Por outro lado, a conversa, a chutar para canto, de que o problema da dívida fica para tratar depois, também é muito curto para quem poderá vir a ter a responsabilidade de impedir que nos suceda o que parece estar a começar a suceder à Grécia. Um bocadinho de juízo já teria levado o Dr. Costa a preparar uma coligação com o PSD, única forma de se proceder às reformas de que o país necessita e que terá de fazer, a bem ou a mal, por vontade própria ou por imposição externa. Em vez disso, foi discursar ao Congresso do Livre e dá palco ao Rui Tavares. Disto nem o Tó-Zé Seguro se lembraria!
Syriza ao poder!
Uma eventual vitória do Syriza assusta muito mais a malta da “verdadeira esquerda” portuguesa que qualquer outra pessoa. Em primeiro lugar pela laicidade-jimjonesiana tão típica destes idealistas que depositam a fé no culto de personalidades salvadoras como Sócrates, Hollande, Obama, Costa…; em segundo porque nunca conseguiram dos messias mais que desilusão e golpes de rins.
A vitória do Syriza pode mesmo ser a salvação que a Europa precisa. A destruição do pouco que resta da Grécia moderna será um mero dano colateral: antes eles do que nós, via Espanha.
Violência doméstica e prisão preventiva
Violência doméstica tem evoluído para se tornar um crime especial, com especial protecção para as vítimas e limitação dos direitos dos acusados (que, até prova em contrário, antes de serem julgados, são tão inocentes como um acusado de fraude fiscal). Este crime é actualmente o crime da moda, tem à volta activistas que desejam penas mais pesadas, regras processuais mais duras e aplicação mais frequente da prisão preventiva. Pergunto se esta tendência tem passado despercebida a quem se choca com a prisão preventiva e que regras acham que se deve aplicar nestes casos.
Sobre o liberalismo de oportunidade
Algumas das alterações legislativas (ou propostas de) que receberam grande apoio em Portugal recentemente:
– inversão do ónus da prova no enriquecimento (enriquecimento dito ilícito- não passou mas teve muito apoio).
– violência doméstica como crime público
– abandono de animais como crime (e crime público)
– violação como crime público
[a tendência é transformar coisas odiosas em crime público, sem a mínima preocupação com a autonomia das vítimas]
Por isso, há boas razões, como sugere o LA-C, para ter esperança que vamos ter grandes mudanças liberais na sequência do caso Sócrates. As experiências anteriores mostram que legislar sobre casos, ou tendo em mente a indignação que os casos geram, é uma grande ideia. E depois de legislarmos sucessivamente sobre casos, até porque há sempre casos novos que fazem virar o pêndulo no outro sentido, vamos indignar-nos porque não há estabilidade legislativa e assim é impossível o sistema de justiça funcionar.
[Já aqui tinha perguntado que alterações têm em mente para a prisão preventiva e a que casos imaginam que tais alterações se aplicam]
O tempo dos moradores suburbanos com fatos de alfaiate de segunda
Tema do meu artigo de hoje no Observador: O que vivemos neste momento é um desacerto entre o mundo mediático e uma parte das elites dos partidos. À direita não se perdoa a Passos o ter tornado irrelevantemente dispensáveis os bagões, os penedas, os freitas, os capuchos… Já o PS espera de António Costa que não compre fatos em Rodeo Drive nem faça férias em hotéis topo de gama mas exige que Costa seja capaz, tal como o foi Sócrates, de ridicularizar e humilhar quem insistir em perguntar aos socialistas donde vem o dinheiro. Agora não para um estrambólico modo de vida mas sim para as obras, para o investimento público e para as políticas anunciadas.
Dulce Félix (32m17s) Hermano Ferreira (29m54s): quem ganhou?
EXPRESSO: Mulheres vencem “guerra dos sexos” em São Silvestre Para fechar o ano, a tradicional corrida de São Silvestre. Dulce Félix e Hermano Ferreira foram os participantes com maior pedalada. E as mulheres venceram a “guerra dos sexos”, pela quarta vez consecutiva. Dulce Félix (32m17s), na prova feminina, deixou para trás a sportinguista Sara Moreira (segundo lugar, com 33m17s) e Leonor Caeiro (terceira posição, com 35m9s), repetindo a vitória do ano passado. Já o atleta do Sporting (29m54s) venceu pela terceira vez, ficando à frente de Rui Silva (30m9s) e Ricardo Ribas (30m33s).
Sem pretender desmerecer de modo algum o resultado de Dulce Félix ela ganhou a prova feminina. O resto é querer fazer de conta…
saber daquilo que se fala
Acho muito bem que os adversários do liberalismo lhe casquem forte e feito. Mas, por favor, não se fiquem pelo «Hayek, Friedman, a escola de Chicago» do costume. Quando se ataca alguma coisa convém saber, pelo menos, do que estamos a falar. Querem começar pelo princípio? Há, por aí, arcabouço para isso?
Não queremos concessões dessa gente
Qual é o problema de rejeitarem uma “prenda” não solicitada? Então querem ou não “concessões dessa gente”?
Vai ser necessário reescrever os códigos todos
Desde que começou o caso Sócrates já tomamos conhecimento de várias injustiças que o atormentam. Basicamente, dezenas de leis que os governos de José Sócrates fizeram são injustas e têm que ser revistas. Estou certo que o Código de Processo Penal, o Regulamento Geral dos Estabelecimentos Prisionais e o Código de Excução de Penas são apenas alguns exemplos das dezenas de códigos que têm injustiças semelhantes. É só esperar que o caso avance para que isso se descubra. Ainda vamos acabar a mudar a Constituição. Isto apesar de sermos o país com as leis mais avançadas do mundo, que revê os códigos todas as legislaturas, provavelmente porque ainda não estão perfeitos. Apesar de nos queixarmos que o país precisa de estabilidade legislativa, a verdade é que precisamos de mudar as leis todas outra vez. Espero é que não prendam mais ninguém.
Mais um atentado aos direitos de cidadania
Estabelecimento Prisional devolve livro enviado por Arnaut a Sócrates
O Estabelecimento Prisional de Évora devolveu ao antigo ministro e dirigente socialista António Arnaut o livro «Cavalos de Vento», que este tinha enviado como prenda para José Sócrates.
Arnaut enviou, a 10 de dezembro, por correio, um livro da sua autoria, tendo sido surpreendido, esta sexta-feira, com a indicação de que a sua oferta tinha sido recusada pela direção do estabelecimento prisional.
No entender de Arnaut, esta situação ofende os direitos de cidadania de Sócrates.

Regulamento Geral dos Estabelecimentos Prisionais (PDF)
2014 não se aguentou; venha 2015
- Falta de procura interna obriga indústria a exportar arroz carolino
- Beijo “gay” em novela é “um grande passo para a sociedade”
- É cada vez maior o número de portugueses sujeitos a trabalho escravo no seu próprio país
- Governo trata portugueses como empregados de limpeza
- Fernando Tordo: “O país está irrespirável para uma pessoa que faz música”
- Doentes recusam rim por falta de dinheiro para transporte após transplante
- Há menos peixe para cada português
- “Os índices de pobreza estão tão alarmantes que as pessoas abaixo do limiar da pobreza nem têm sequer força para se deslocar para uma manifestação”
- Portugal terceiro país com mais raparigas obesas
- Crise faz aumentar abuso sexual de menores
- Temos o segundo edredão mais caro da Europa
- Portugal está gordo: 4,5 milhões têm excesso de peso
- Até que ponto o desemprego afecta a relação com o pai
- Tatuagens ainda dificultam a vida a quem procura emprego
sobre o «milagre» orçamental português
Feliz Natal para vós, que ides todos morrer
“Tudo leva a crer que está em preparação a terceira guerra mundial”, enuncia, da sua cátedra observatóri@ e até premonitóri@, o doutor Boaventura Sousa Santos no seu magnífico texto “A Terceira Guerra Mundial?”, advertindo, logo no segundo parágrafo, que será “uma guerra provocada unilateralmente pelos EUA com a cumplicidade ativa da Europa”, guerra esta que poderá ser “total e, portanto, (de) guerra nuclear”. Ficamos também a saber (eu julgo que fiquei, admitindo total ignorância perante tão provável cenário, e logo no Natal) que “várias agências de segurança fazem planos já para o Day After de um confronto nuclear”. Ler mais…
Direito à greve e liberdade de associação – IV
Mantem-se a divergência sobre o que seja irrenunciável e o seu exercício.
Eu não posso renunciar a nenhum direito básico (greve, liberdade de expressão, de associação, etc) de forma permanente e incondicional.
Mas posso ver o exercício dos mesmos limitados, (livremente ou por força da lei), atendendo a circunstancias ou mediante condições negociadas.
Assim, o direito à greve existe como meio reconhecido ao trabalhador dependente de uma relação de trabalho, como meio legítimo de tentar obter a salvaguarda de interesses ou vantagens num processo negocial no ambito de uma relação de trabalho. Se tais exigencias forem negociadas, obtidas e salvaguardadas mediante contrato livremente estabelecido pelas partes, posso obivamente em contrapartida comprometer-me a não realizar greve com base nessas concretas reinvidicações ou contrapartidas obtidas, que estão asseguradas. Mantenho no entanto o direito à greve em tudo o mais e em caso de quebra ou incumprimento do contrato. O mesmo se passa noutros direitos que aceitam limitações voluntárias: se me comprometo por clausulas de confidencialidade a não exercer o meu direito à liberdade de expressão, tal tem condições (remuneração, protecção juridica, etc.), as quais se não forem cumpridas quebram o respectivo contrato, voltando eu à plenitude do meu direito e do seu exercicio, se assim o entender.
O direito à greve é um direito individual. Exerço-a ou não conforme bem entender, pois ninguém me pode obrigar a fazê-la ou a não fazer. Coisa diferenciada é o modo de exercicio desse direito, o qual é dependente da convocatória por associações sindicais. A mesma condição «colectiva» se passa por exemplo no direito de associação: posso fazer parte ou não de uma associação. Mas para exercer esses direito tenho de o fazer com outras pessoas, não me posso associar comigo mesmo. Estou dependente da vontade de outros que se queiram igualmente associar e constituir uma organização. O mesmo no direito à greve: o exericio do direito é meu, mas a sua efectiva ocorrência está dependente da vontade conjunta de outros, que se agrupam nas associações sindicais.
P.S. Com o direito à greve existe maior liberdade. Posso livremente aderir às reinvidicações dos demais trabalhadores e fazer greve ou possso discordar das mesmas e não a fazer. Posso até furar essa coligação e associar-me com o patrão… Já sem o direito à greve não posso associar-me com os demais trabalhadores. Logo, há mais liberdade com direito à greve. E onde há mais liberdade é, a meu ver, sempre melhor.
Direito à greve e liberdade de associação – III
O artigo 530 do Código de Trabalho (PDF) diz o seguinte:
3 – O direito à greve é irrenunciável.
Isto implica que eu não posso, se o desejar, estabelecer uma relação de associação com um empresário nos termos em que eu e ele decidirmos, nomeadamente especificando no contrato que eu nunca farei greve. Isto é uma violação do direito de associação. Eu gostaria de prescindir desse direito, negociando vantagens para mim (por exemplo, um salário maior), mas a lei não o permite. Curiosamente, a lei permite que eu prescinda a minha liberdade de expressão através de clausulas de confidencialidade e outros mecanismos.
Uma outra especificidade do direito à greve é que ele não pertence aos indivíduos, mas sim aos sindicatos. No artigo 531 está escrito o seguinte:
1. O recurso à greve é decidido por associações sindicais.
Isto implica que não só um trabalhador individual não pode prescindir do direito à grave como nem sequer pode fazer greve por iniciativa individual. A greve tem que ser decretada por um sindicato.
PS – Na prática, o direito à greve estabelece uma segregação social definindo que um trabalhador se pode coligar com outros trabalhadores contra o patrão, mas que não pode furar essa coligação associando-se ao patrão. É um direito que visa eternizar a luta de classes e não a liberdade individual.
Direito à greve e liberdade de associação – II
João, o que tem de incompativel a existência de um direito com o facto de ser irrenunciável? Os direitos são por natureza irrenunciáveis. Reconhecido ao individuo, não dependem da aceitação deste nem sequer do seu efectivo exercício.
Precisamente, «a liberdade de os trabalhadores se associarem a empresários para constituírem unidades de produção, com vantagens mútuas, em que os trabalhadores se comprometem a assegurar a produção sem quebras» existe também porque existe o direito à greve. Caso contrário, tal contrato entre as duas partes seria coxo, uma vez que os trabalhadores nada teriam a oferecer em troca ficando apenas numa posição de sujeição a uma ordem. É também pela existência do direito à greve, em que é voluntariamente renunciado ao seu exercício durante determinado tempo e em determinadas condições livremente acordadas que permite a criação desse tipo de acordos.
A existência de um direito não obriga ao seu contínuo exercício. O direito à liberdade de expressão não obriga ninguém a falar ou a escrever. O direito à liberdade de associação não obriga ninguém a fazer parte de qualquer associação. Etc. E é precisamente a existência desse tipo de direitos que se podem livremente negociar situações em que uma das partes se obriga a limita-los ou mesmo a não exercê-los, mediante determinadas condições e contrapartidas, livremente aceites.
Qual foi a causa da crise de 2008?
A crise de 2008 é conhecida nos países anglo-saxónicos como Great Recession, por analogia com a Long Depression de 1873 e a Great Depression de 1930. Só isto devia dar que pensar.
O CAA atribui a crise de 2008 ao excesso de liberdade dos banqueiros, na linha da esquerda, que a atribui à falta de regulação financeira. Há quem atribua a crise aos empréstimos sub-prime e/ou à emissão monetária dos bancos centrais. Há mesmo quem responsabilize a crise por um único evento, a falência do Lehman Brothers.
O modelo subjacente a estas análises é o de que o capitalismo é um sistema em estado estacionário, ocasionalmente perturbado por erros humanos, que é necessário corrigir e regular. Mas esse modelo não faz qualquer sentido. O capitalismo é um mecanismo de descoberta de formas de produção mais eficientes, que torna as formas anteriores de produção obsoletas.
O que nos leva à verdadeira causa da crise de 2008: a crise de 2008 deveu-se ao sucesso do capitalismo em revolucionar os processos de produção nos 30 anos anteriores, tornando obsoletos uma grande variedade de meios de produção, de actividades económicas e de produção. Tudo o resto é circunstancial, e poderá ter retardado a transição para um novo sistema económico, tornando inevitável uma transição abrupta. Por exemplo, baixas taxas de juro impostas pelos bancos centrais são uma tentativa de manter rentáveis processos de produção obsoletos. Essas baixas taxas de juro prolongam artificialmente a vida de projectos que deviam ser desmantelados e abandonados para assegurar uma transição suave. Mas não foram os bancos centrais que tornaram o fax, o CD, a máquina fotográfica ou a livraria obsoletos. Foi o capitalismo.
Direito à greve e liberdade de associação
O direito à greve não é na realidade um direito. Para começar, trata-se de uma opção irrenunciável. Por ser irrenunciável viola a liberdade de os trabalhadores se associarem a empresários para constituírem unidades de produção, com vantagens mútuas, em que os trabalhadores se comprometem a assegurar a produção sem quebras.
direito e greve
Num nundo que se diz cada vez mais da imagem, ainda assim as palavras tem o seu peso e significado definidor. Rodrigo Adão da Fonseca começa por dizer que «O direito à greve é um anacronismo nas sociedades atuais». Mas na verdade, creio bem que o seu artigo deveria ter começado mais corretamente por «A greve é um anacronismo nas sociedades atuais». É que tudo o que ele diz de seguida se refere sem excepção, não ao direito à greve, mas à realidade, sob o seu ponto de vista, da esmagadora maioria das greves que tem ocorrido recentemente.
O que são coisas substancialmente diferentes. Ler mais…
Liberal à americana ou beterraba à portuguesa
No meio de uma série de clichés metro-chique, roçando o sucedâneo e não a própria ova que é caviar, Rui Tavares conseguiu escrever um texto, que removendo as falácias, tem caracteres suficientes para caber num Tweet. Essa é parte positiva: quanto menos substância mais ar sobra para encher o balão dos Verdes do PS.
A parte negativa é esta:
Dediquemo-nos à primeira parte. Claro que as frases acima se aplicam principalmente à nomenclatura americana, onde “liberal” e “conservador” quer dizer, grosso modo, “de esquerda” e “de direita”. Mas, para o caso que nos traz a crónica, podemos usar liberal no sentido europeu, como defensor da primazia dos mercados desregulados na economia.
É claro que, para Rui Tavares, liberal à americana tem um significado. Também é claro que, para Rui Tavares, o significado oposto também serve para o que quer dizer. Até “beterraba” serviria, por oposição a “batata” ou até a “triciclo”. Poderia explicar as diferenças mas, sinceramente, e para Rui Tavares, não tenho paciência e seria um exercício fútil; seria até mais proveitoso explicá-las a uma parede ou às pérolas da Raquel Varela.
Dediquemo-nos então ao que Rui Tavares tentou fazer. Claro que as frases acima se aplicam principalmente à nomenclatura americana, onde “liberal” e “idiota útil” querem dizer, grosso modo, “de extrema-direita para o Rui Tavares” e “Rui Tavares”. Mas, para o caso que nos traz a crónica, podemos usar idiota útil no sentido europeu, como defensor do tachinho-a-ver-se-pinga-alguma-coisa-nas-próximas-eleições-senão-é-para-experimentar-já-de-outra-maneira-que-funcione.
é tudo nosso!
Se a TAP é dele, mandem a conta ao Baptista-Bastos, o tal que se recusa a vender a companhia de aviação que lhe pertence. Para assegurar o pagamento da dívida, certamente não se escusará a oferecer como garantia real o imóvel lisboeta onde vive e que também é dele.
Slap in the face
A decisão do tribunal arbitral sobre serviços mínimos a efectuar durante a greve na TAP é a maior chapadona na cara que o governo podia levar. E mais do que merecida. Aquilo que o governo alegadamente queria preservar (transportes à «dispora» e açores e madeira) é plenamente assegurado. O governo precipitou-se e recorreu a um instumento ilegal, ilegitimo e politicamente desastroso.
E colocou-se, voluntariamente, na desgraçada posição da sua «requisição civil» ser mero objecto de chacota, ignorada e desrespeitada.
a superioridade evidente da ética republicana
A Princesa Cristina de Espanha, uma das Grandes do Reino, vai ser julgada por um tribunal comum do estado, acusada de fraude fiscal, por juízes vulgares que fazem «justiça me nome do povo», como se de uma simples plebeia se tratasse. A coisa tresanda a conspiração contra a monarquia, e toda a Família Real, o Pariato do Reino e o bom povo espanhol não podem estar senão indignados contra esta perseguição à fidalguia coroada espanhola. De resto, alguns Grandes de Espanha, Marqueses, Condes, Duques, Viscondes e Barões, já manifestaram o seu desagrado com o que se está a passar no Reino. O Marquês de Vigo afirmou que «a Justiça lançou uma bomba atómica sobre a democracia», o Visconde de Cáceres não tem dúvidas de que a Princesa é «uma mulher muito séria», o Barão de Badajoz põe «as mãos no fogo por ela» e o Duque de Albatroz, o decano da fidalguia castelhana, proclamou que isto «é tudo uma infâmia» e que «todo o Reino está contra esta bandalheira». Perguntado se via nestas declarações formas menos legítimas de pressão sobre o Estado de Direito Democrático, o Duque de Albatroz não escondeu o seu desagrado com a pergunta e respondeu: «O Estado de Direito Democrático somos nós, ora essa!».
Reacção dos jornalistas, entrevistados por jornalistas à saída da entrevista ao jornalista
Só queria relembrar que estamos num país em que o último primeiro-ministro está detido preventivamente por suspeitas de corrupção, fraude fiscal e branqueamento de capitais. Às vezes parece que esquecemos, com o folclore de entrevistas a advogados patuscos, com caravelas aéreas que não conseguimos pagar e com o “isto não se aguenta” trauliteiro da lixarada regimental dos socialistas de todos os partidos, todos bailarinos num ballet goês de simbiose entre a arte da dissimulação e o atrevimento da ignorância, deste facto tão singelo. Apaixonados pelo FMI, é o que é.
Ontem fui bombardeado com perguntas dirigidas a outras pessoas. Hoje presume-se que seja igual. “Então o Carlos Abreu Amorim já não é liberal?” – “isso não sei, sei que não foi preso por suspeitas de corrupção, fraude fiscal e branqueamento de capitais”; “Então o Carlos Abreu Amorim deu uma entrevista?” – “é provável, mas eu não sou o Carlos”; “Então, não há comentário sobre a entrevista do Carlos Abreu Amorim?” – “não fui eu quem entrevistou o Carlos”; “Como reagiu o Blasfémias à entrevista do Carlos Abreu Amorim?” – “com a normalidade própria do WordPress”; etc, etc. Aparentemente ninguém se lembrou de perguntar o que quer saber ao próprio Carlos, habituados que estão a respostas por interposto Abrantes. Perguntem-lhe, pá.
Só num país de socialistas de claque partidária alguém acharia que um blogue é um partido. Chega a ser cómica essa associação, mas, e muito felizmente, não só não é um partido como não é uma central de comunicação preocupada em limpar a imagem de um falidor condenado nas urnas e agora suspeito de corrupção, fraude fiscal e branqueamento de capitais.
Como habitualmente, para as pessoas preocupadissimas com tudo excepto corrupção, fraude fiscal e branqueamento de capitais, há a TSF e o canal do militante número um do PSD, aquele onde reside o Adão e Silva e com presença habitual do para-o-estado-tudo-que-seja-servico-público-excepto-para-mim do Daniel Oliveira. Já eu, eu respondo por mim e muitas vezes, principalmente em dia de jogo do FC Porto, nem isso.
Tendo em conta a disponibilidade para apresentar habeas corpus
revelada por alguns cidadãos portugueses recomendo vivamente que se preste atenção a este caso: ARGENTINA Importante precedente judicial en los derechos de los animales Conceden el hábeas corpus a Sandra, una orangután del zoo de Buenos Aires La justicia argentina determina que la privación de libertad es ilegal y califica a ‘Sandra’ como una persona ‘no humana’ con sentimientos y capacidad de tomar decisiones
a falácia do «liberalismo» bancário
O problema das falências bancárias é que deixam os depositantes que neles confiaram, convencidos que entregavam o seu dinheiro a entidades sólidas, seguras e de confiança, sem o valor dos seus depósitos, muitas vezes eles também falidos e desgraçados, sem qualquer responsabilidade no que sucedeu ao banco. Ora, a culpa disto decorre da existência de um mercado financeiro «liberalizado», «desregulado» e a agir à margem do estado, que anda por aí a enganar os clientes, como os socialistas de todos os partidos não se cansam de pregar, ou, pelo contrário, será antes consequência de um modelo bancário hermeticamente fechado, que funciona completamente à margem das regras de mercado, ancorado por instituições estaduais que garantem a sua suposta solvibilidade e segurança? Nos casos do BPN, do BES, do BPP e noutros, em quem acreditavam os depositantes e por que razão entregavam eles as suas economias a estas empresas financeiras? Por causa dos belos olhos do Sr. Ricardo Salgado, ou das qualidades morais e empresariais do ex-Conselheiro de Estado Dias Loureiro ou do antigo Secretário de Estado das Finanças Oliveira Costa, ou porque o Banco Central do Estado Português garantia, a montante a a jusante, que o sistema bancário português estava sólido e firme como um penedo? E a ganância desses senhores é bem sucedida por eles dirigirem empresas de sucesso num mercado de livre-concorrência, ou porque eles se movimentam num sistema cartelizado, no qual muito poucos entram, invariavelmente vindos e cruzando relações e influências espúrias com a política, o governo e o estado? Por outras palavras, quem atesta a segurança de um banco? Um mercado livre e concorrencial, onde qualquer empresário se pode estabelecer oferecendo serviços bancários que os clientes escolhem livremente, ou o estado português, que dirige um sistema bancário baseado em regras por ele criadas, com índices de solvibilidade por ele fixados, com regras de concorrência criadas e fiscalizadas pelo Banco Central, com taxas de juro e políticas de crédito instrumentalizadas pelo governo para promover o «bem-estar social», e com financiamentos ruinosos à dívida pública e aos programas do governo para «incentivar» a economia e o emprego? E quem garantiu, na recente crise do BES, a quinze dias dele estoirar, que o banco era seguríssimo? O dito «mercado» ou o Presidente da República Portuguesa, o Primeiro-Ministro, a Ministra das Finanças e o Governador do Banco Central do mesmo país?
Por fim, para se entender um bocadinho por que razão é tão falível o sistema financeiro e bancário da maior parte das sociedades em que vivemos (e para percebermos porque é que nem todos os bancos fazem do crédito a sua principal actividade…) e por que razão isso nada tem a ver com uma economia de mercado, mas, pelo contrário, com a instrumentalização dessa actividade económica pelo «estado forte» que os socialistas de todos os partidos tanto ambicionam, fica aqui este excelente artigo de Murray Rothbard, de leitura muito recomendável para se evitarem certos disparates.
Pois…
«After all, these 50 years have shown that isolation has not worked. It’s time for a new approach.» (Obama sobre Cuba, 17/12/2014)
«President Barack Obama said on Thursday he had signed into law a new Russian sanctions bill» (17/12/2014)
conversões
Depois do Pedro Arroja, muitos anos depois, também o Carlos Abreu Amorim concluiu que, afinal, não é liberal e que «o estado tem que ter força». Os peregrinos de Fátima que se cuidem.
Se não for muito pedir
importa-se de ficar com a minha parte da TAP? Já agora eu prefiro uma companhia que não seja minha mas que não faça o que define como “greve que protege os emigrantes e o país”. Se isto é uma “greve que protege os emigrantes e o país” nem quero imaginar o que será uma greve que não protege os emigrates nem o país!
Ou quiçá não proteger ” os emigrantes e o país” é termos uma companhia que faz os voos para os quais vendeu os bilhetinhos e em função dos quais as pessoas marcaram os seus compromissos. Isso sim é que será não proteger ” os emigrantes e o país” mas convenhamos que mesmo que isso me transforme numa traidora à pátria prefiro mesmo uma companhia que seja dum capitalista qualquer e que alheio à defesa do país e à protecção devida aos emigrantes voe nas datas marcadas.
A história das nossas vidas contada ao povo e às crianças
Todos os dias esta ladainha é repetida. É simples: basta escrever uma coisa e o seu contrário.
As pessoas divorciam-se porque no capitalismo tudo é fugaz. Não existe o valor dos compromissos.
Orgasmo constitucional
Acordar então e fazer dos dedos uma arma simbólica para a explosão de prazer e de direitos que aqui se têm e ali, mesmo ali, o silêncio esconde numa dor que tem de ser coletiva. Porque é coletiva.
O constitucionalismo é, por definição, orgasmático. As múltiplas interpretações, a emoção pautada pelo voto vencido que faz escorregar o dedo no interior da toga, a ciência do dedo que encontra o seu caminho para o socialismo universalista e clitórico da noite anterior, record mundial, gang bang laboral de igualdade salarial, a frase sem verbo, o verbo sem substância de substantivo adjectivado em modo, as reticências omitidas, idas, idas, o fluxo, menstrual, animal, neandertal, constitucional, social, dá-me um ideal, eu sou Portugal.
Em termos literários, Isabel Moreira reúne o consenso: é incenso para a falta de senso. Uma escrita pautada pela oligofrenia das palavras, ao vento, soltas, commando-style, debaixo da toga, arejadas e devidamente depiladas de artifícios arcaicos retentores de feromonas sentimentais. Em termos humanos, Isabel Moreira é melhor: tem pulso e genitais e não tem medo de os usar.
Recomendo então a leitura dominical de todo o artigo. Publique -se.



