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o dom da vidência

30 Abril, 2013
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Sérgio Lavos é o meu esquerdista-caviar de eleição. Ele é, essencialmente e apesar da retória quase sempre inflamada, um enorme brincalhão, que gosta de nos divertir com as suas tropelias e comentários cheios de refinado sentido de humor. Eu leio-o quase diariamente, habitualmente pela manhã, para que o meu dia corra melhor e com boa disposição. Quase sempre resulta.

Hoje, o Sérgio excedeu-se na brincadeira: dedicou-me um longo texto, encimado com uma simbólica gravura esclavagista, no qual ele reescreve este meu post, para tirar a conclusão de que eu defendi nele que “os patrões possam utilizar os ordenados dos seus trabalhadores para gerir as contas da empresa”. Daqui até olhar “para o proletário… como um cavalo”, isto é, alguém que “não chega a ter o estatuto de ser humano”, vai um pequeno passo, evidentemente. E para a defesa da escravatura, também. O Sérgio, para além dos talentos de brincalhão já acima referidos, acrescentou, desta vez, o dom da vidência, já que ele leu e viu no meu post o que não está lá escrito. Excedeu-se e ultrapassou-se a si próprio.

Na verdade, há duas coisas escritas no meu texto, que ele poderá ler e comentar: que não se deve banalizar o Direito Criminal, transformando em crimes práticas que só num estado totalitário podem ter essa qualificação; e que, por vezes, em momentos de crise de uma empresa, para evitar o seu encerramento, não é despiciendo atrasar pagamentos, sejam de salários, sejam a outros fornecedores. Caso o Sérgio não saiba (e não deve mesmo saber) uma empresa não é um relógio suíço e nunca depende inteiramente de si própria, mas também de terceiros, que podem falhar compromissos e atrapalhar o seu funcionamento. Em momentos de grave crise económica, como é o que vivemos e ao qual se refere o post, isso é mesmo o dia-a-dia das nossas empresas. Obviamente que se a empresa não tiver salvação, as dívidas não se acumularão por muito tempo (os credores tratarão disso). Mas, em momentos de crise, alguns sacrifícios temporários não devem ser desconsiderados e, frequentemente, são assumidos por acordo entre patrões e empregados, que juntamente se sacrificam para evitar o pior.

Ora, considerar isto e só isto, uma defesa do esclavagismo, só mesmo o Sérgio Lavos conseguiria fazer. Para nos divertir, como quase sempre.

Os inimigos de Gaspar

30 Abril, 2013

Ontem no Prós & Contras discutiu-se mais uma vez o crescimento económico. Estavam presentes o Ministro da Economia e os lóbis que o circundam, sob o lema “a economia à frente das finanças”. E os lóbis lá foram pedindo mais financiamento, mais subsídios e menos impostos. Sobretudo pediram mais consumo e mais mercado interno. Foram ao ministro da economia pedir mercado. Sendo as PME portuguesas as mais endividadas da Europa, todos concordaram que temos que lhes dar mais crédito. Sendo as PME portuguesas as mais endividadas da Europa, todos acharam estranho que tenham spreads mais elevados que as PME alemãs. De notar os grandes progressos do ministro Álvaro Santos Pereira que se tornou em 2 anos num político tão aldrabão como os seus colegas com muito mais anos de experiência. É a isto que se chama a aposta na economia. Estes são os inimigos de Gaspar.

A cascatas de ‘ses’

30 Abril, 2013

«O líder dos socialistas mostrou-se hábil nas lutas internas – relegou os socratistas para parte incerta, aposta em que António Costa fique refém do seu tacticismo e, pelo menos por enquanto, Francisco Assis não se atravanca no seu caminho. Quanto ao resto Seguro deposita-se completamente nas mãos dos outros o que leva a que não tenha estratégia mas apenas uma lista de desejos (….) A irritação socialista por Cavaco Silva não cumprir o “se” que lhe destinaram no Largo do Rato – derrubar o Governo e reforçar a actual liderança rosa – levou a que no último 25 de Abril Seguro não tivesse sequer tirado benefício das críticas feitas por Cavaco ao funcionamento das instituições europeias, críticas essas muito em linha com algumas das teses do líder socialista, embarcando na tresleitura que a ala socratista do PS fez desse discurso, sobretudo nos parágrafos sobre a criação de uma crise política que em boa verdade mais pareciam dirigidas à estontecida coligação governamental e muito particularmente ao CDS que como é óbvio não caiu no engodo de se dar por achado e aplaudiu o discurso presidencial. (…) A melhor definição da estratégia de Seguro foi dada há trinta anos numa canção dos Salada de Frutas: “Se o imposto não subisse/ Se o emprego não fugisse/ Se o presidente sorrisse/ Outro galo cantaria um dia…/ Se cá nevasse fazia-se cá ski…” » – Tema do meu texto de hoje no DE

uma entrevista indigna

30 Abril, 2013
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Depois de uma entrevista do teor desta que foi dada pelo Inspector-Geral do Trabalho, senhor Pedro Pimenta Braz, não restaria ao ministro da tutela, Pedro Mota Soares, outra alternativa que não fosse demiti-lo no minuto imediatamente seguinte a tê-la lido. A gravidade e a inoportunidade das afirmações do dito inspector deveriam inibi-lo de ser titular de um cargo público pago pelo dinheiro dos contribuintes. A que é, de longe, mais indigna é a sugestão de criminalizar o atraso do pagamento de salários, presumindo, assim, que o empregador que o faz age com intuito criminoso e não com o fim de tentar salvar a empresa e os seus postos de trabalho. Esta visão das coisas, sobretudo num momento de grave crise económica, em que as empresas têm de fazer toda a espécie de sacrifícios para manterem as portas abertas, deveria envergonhar o CDS e todo o governo de que o partido do ministro faz parte. Por outro lado, esta tendência fascistóide de inventar crimes a torto e a direito, sobretudo os famigerados «crimes» económicos, revela uma concepção totalitária do estado e pouco ou nada humanista da política e da sociedade. O Direito Criminal é, pela sua natureza e pela dimensão dos valores com que opera, o mais nobre e sensível ramo de direito. Não deve, por isso, ser banalizado, como tem acontecido, nos últimos anos, nas democracias estatistas de défices descontrolados como a nossa, inventando crimes onde existem, no máximo, ilícitos civis, a fim de tapar os buracos orçamentais gerados pela sua própria incompetência, essa, sim, frequentemente criminosa. Também isto não honra o CDS, a quem falta, cada vez mais visivelmente, um módico de ideia sobre o que devem ser um estado de direito e uma democracia liberal. Infelizmente, nada a que não estejamos já habituados. Talvez o contrário é que fosse de espantar.

ADENDA: Por erro do autor, referiu-se no post pertencer a Inspecção-Geral do Trabalho ao Ministério de Pedro Mota Soares, quando, na verdade, semelhantre artefacto se insere no Ministério da Economia. Isso diminui, inequivocamente, a responsabilidade do referido ministro e do seu partido, o CDS, na manutenção em funções do responsável pelas bizarras declarações reproduzidas no post, mas não a exclui por inteiro, tendo em vista que o governo a que pertence o Ministério da Economia é o mesmo a que pertencem o CDS e Pedro Mota Soares. Por esse motivo, mantém-se o post na sua versão original, sem alterações, com o erro aqui assinalado.

robert e carina

29 Abril, 2013
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https://i0.wp.com/multimedia.ekstrabladet.dk/archive/00833/robert_nielsen_833499m.jpgO vagabundo da fotografia chama-se Robert Nielsen. É dinamarquês e vive, desde 2001, exclusivamente à conta de subsídios públicos. Vive bem, em apartamento próprio e sem que nada lhe falte. Numa entrevista que concedeu recentemente à televisão, Robert “Preguiça” Nielsen, como é conhecido, confessou que não tem qualquer problema de saúde, mas que nunca aceitará empregos “degradantes”, como, segundo exemplificou, trabalhar num restaurante fast food. “Felizmente, nasci e vivo na Dinamarca, onde o governo se dispõe a financiar a minha vida”, esclareceu-nos.

Um artigo desta semana do The New York Times dá conta das preocupações sobre o futuro da Dinamarca, um país cujo modelo social e económico é frequentemente apontado como um exemplo a seguir. O jornal noticia que um deputado liberal desafiou um colega seu, defensor do estado social, a visitar uma mãe solteira de 36 anos, a quem foi dado o pseudónimo de Carina, com dois filhos e também ela a viver de apoios estatais, para poder retirar as suas conclusões sobre o modelo de apoio social em vigor. E elas foram muito simples: Carina, graças aos subsídios que recebe do estado, dispõe de uma renda maior do que uma normal mulher da sua idade consegue obter a trabalhar: o equivalente a US$ 2.700/mês. Resta acrescentar que Carina vive assim desde os 16 anos de idade. Há vinte anos, portanto.

A história de Carina provocou um debate no país sobre o seu modelo social. Graças a ela, observou-se que, neste momento, há regiões e cidades inteiras onde são mais as pessoas que não trabalham e que vivem de subsídios, do que aquelas que têm emprego. Segundo dados de 2012, nesse ano somente 2,6 milhões de pessoas trabalhavam, uma reduzida percentagem de 47% da população total e de apenas 73% da população entre 15 a 64 anos de idade. A análise ressalta, também, que muitos dos dinamarqueses com emprego trabalham poucas horas por dia, em vez de terem um horário de trabalho completo.

A evolução do estado social dinamarquês levou, assim, ao disparate, como sempre acontece, mais cedo ou mais tarde, onde ele vigora. Os benefícios sociais foram-se progressivamente transformando em verdadeiros incentivos à estagnação, em vez de serem apoios momentaneamente concedidos a quem, de facto, deles necessita. Karen Haekkerup, ministra das Questões Sociais e Integração, declarou a esse propósito: “No passado, as pessoas só pediam ajuda quando precisavam. Mas hoje a mentalidade é outra. As pessoas olham para os benefícios como direitos delas”.

Consciente dos malefícios do seu estado social, a Dinamarca está já a promover reformas que, provavelmente, impedirão a implosão do país. Em Portugal, mesmo depois de termos estoirado, continuamos sem conseguir compreender as razões que nos levaram à situação em que nos encontramos, nem tão pouco somos capazes de enfrentar as reformas necessárias para voltarmos a ser um país decente.

O discurso que daria a maioria absoluta a Seguro

29 Abril, 2013

Portuguesas e portugueses, a partir de hoje tratar-vos-ei como pessoas normais, a começar pela forma como vos endereço. Assim, portugueses, quero que compreendam que este discurso me afastará da liderança do Partido Socialista. Será impossível manter o apoio dos meus camaradas após dizer-vos a verdade. Mas tenho que o fazer. Alguém tem que o fazer. Os que o fazem são por vós ridicularizados. A culpa é nossa, que temos uma máquina de propaganda completamente obliteradora do vosso pensamento crítico. Eu tenho que o denunciar. Sempre vos pretendemos estúpidos, susceptíveis à manipulação e prontos a votarem em nós em troca de um osso. Nem compreendeis que sóis vós quem o paga. Desculpem-me. Eu também sou responsável por isso.

Portugueses, estamos muito mal. A culpa é do nosso partido. Durante décadas tivemos um modelo de desenvolvimento económico baseado no dinheiro dos outros, através de intervenção estatal desmedida e – hoje reconheço-o – causadora de desigualdades sem par. O Partido Socialista é o maior responsável, graças aos anos de governação obtidos traindo a confiança dos eleitores. Não fomos só nós. Porém, foi-nos dada a oportunidade de governar durante mais tempo que aos outros, o que só nos permitiu fazer mais asneiras dispersas por um período de tempo maior, com acesso a quantidades de dinheiro para vós inimagináveis. Seria fácil culpar os outros partidos que governaram: eles também têm culpa. Mas depois do que fizemos, seria sempre irrelevante essa contabilidade.

O nosso último governo ultrapassou todas as marcas. Passamos de uma dívida pública em grau aceitável para o total descontrolo despesista. Fomos levados pela parvoíce clássica de investir na economia, como se Keynes tivesse escrito apenas a página que nos interessa. Hoje vemos que não causamos qualquer crescimento. Pelo contrário, teria sido menos gravoso ter queimado o dinheiro que gastamos. Pedimos desculpa a Keynes, que tanto maltratamos.

Portugueses, não temos perdão. Mas temos uma mudança de rumo, uma alternativa que – caso confiem em nós contra todas as evidências demonstradas – permitirá sairmos deste pântano que criamos. Não será fácil. Exigiremos muita compreensão da vossa parte. Implicará sacrifícios que vos farão ter saudades de 2012 e 2013. Implicará que muitos de vós perderão o emprego, perderão subsídios, perderão apoio da rede social que expandimos até à explosão.

Isto não é conversa. Tenho propostas reais. A primeira é a redução de despesa. Pretendemos reduzir 30% na despesa. Não em gorduras, não em excessos: terá que ser na massa salarial. Os vossos salários, por muito baixos que possam ser por outros padrões de vida, são excessivos para o que, como país, produzimos. Isto é particularmente verdade para a função pública, que por definição, não produz, apenas consome recursos na tentativa de providenciar um serviço. Temos que despedir funcionários públicos, com indemnizações reduzidas. Temos que reduzir o nível dos serviços, nem que isso implique uma perda de qualidade, já que a quantidade, essa é mais que evidente que não conseguimos manter. Não há outra forma.

A segunda proposta é renegociar a dívida: queremos menos tempo para a pagar. Não podemos arrastar durante décadas a situação, temos que nos livrar deste problema o mais rapidamente possível. Decerto os nossos credores estarão dispostos a negociar e com isso reduzir a taxa de juro que pagamos. Todos ganhamos com isso.

A terceira proposta é retirar as balelas da Constituição. Impor limites não só ao endividamento como à sua variação anual. Era uma Constituição bonita, poética, mas irrealista e parva. O mundo não é assim. Vocês não são assim. Eu não sou assim.

A quarta proposta é a imposição de um limite ao défice, nunca superior a 3%, que terá que balancear em 0% no período de 4 anos. Isto é aliado ao limite ao endividamento e permitirá a sustentabilidade do Estado.

A quinta proposta é a redução da carga fiscal, quer aos trabalhadores, quer às empresas. Esta redução decorrerá paralela à redução do défice, e atingirá um tecto máximo, que será o máximo permanente. Esta redução será feita em 4 anos, o dobro do tempo para a redução do défice para 0% ou menos.

Se já tivéssemos feito isto há dois, três, quatro, cinco anos, hoje não teríamos o desemprego que temos. Peço-vos que aguentem os próximos dois anos: o desemprego vai aumentar, e muito. Não temos dinheiro para vos pagar subsídios. Desculpem. Tentem o apoio familiar, as instituições de caridade e até emigrar. Não temos soluções para esses meses excepto penar. Não adianta dourar-vos a pílula. Recorram o mais possível ao comércio paralelo: vamos fechar a ASAE já amanhã. Tentem arranjar formas de vos safarem.

Valerá a pena. Mas compreendo que agora já não queiram confiar. Obrigado por me terem ouvido.

Descidas de impostos e credibilidade

29 Abril, 2013

Em 2008, o primeiro governo de José Sócrates baixou o IVA de 21% para 20%. Em 2010, o segundo governo de José Sócrates subiu o IVA de 20% para 21%. O segundo governo de José Sócrates voltou a subir o IVA de 21% para 23% no orçamento de 2011.

Em 2009, o governo de José Sócrates baixou o IRC criando um escalão de 12,5% para matéria colectável até 12500 euros. Esta taxa foi eliminada pelo governo PSD/CDS  no orçamento de 2012.

Já estou a ver os títulos quando o PS ganhar as eleições em Portugal

29 Abril, 2013

Centro-direita culpado pela crise vence eleições na Islândia

Confunde-se a criatura com o criador. Ou vice-versa

29 Abril, 2013

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Sócrates diz que Cavaco é agora “a mão que sai detrás do arbusto” Ora, ora o Corporações tinha dito isso primeiro e até o fez três vezes!

todo o cuidado é pouco

29 Abril, 2013
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Apesar de terem tido uma evolução positiva nos últimos anos, os rácios da solvabilidade dos bancos portugueses não deixam dormir em paz quem lá tenha dinheiro depositado. Pois António José Seguro, substituindo-se às competências próprias do Banco de Portugal, propõe injectar dinheiro na economia diminuindo-os ainda mais, ou seja, deixando os seus cofres praticamente vazios. É este o homem que nos pede uma maioria absoluta para governar o país. Todo o cuidado é pouco. Preparem-se.

impostos e crescimento

29 Abril, 2013
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Algumas breves notas a este artigo do João Miranda:

1ª A «despesa pública» não é apenas «aquilo que o Estado compra à economia privada». É aquilo que o Estado compra à economia privada, com dinheiro da própria economia privada.

2ª «Uma descida de impostos, sem consolidação orçamental, com um défice de 6%, não é uma política credível». Diria de outro modo: uma descida de impostos, sem consolidação orçamental e com um défice de 6%, nunca será uma verdadeira descida de impostos. De uma forma ou de outra, o estado cobrará à economia privada o dinheiro que está a gastar. Se ainda mantiver a produção de papel-moeda, através da inflação; se já não tiver essa capacidade, criando novos impostos e taxas; se ainda conseguir crédito, obrigando as gerações vindouras ao sacrifício de o terem de pagar com elevados custos.

3ª «A economia portuguesa deixou de crescer no final dos anos 90, quando tinha taxas de impostos bastante mais baixas». Mais baixas do que agora, é certo, mas não propriamente taxas baixas. E o arrefecimento da nossa «economia», por essa altura, ficou a dever-se, sobretudo, à substancial redução dos financiamentos comunitários, que durante duas décadas a aqueceram artificialmente.

4º «Durante o período 2000-2010, a economia portuguesa teve um excesso de procura em relação à oferta de cerca de 10% do PIB, e não cresceu». Pois não. Mas os keynesianos é que acreditam que o aumento da procura, só por si, faz crescer a economia, razão pela qual estão sempre a «estimulá-la». É o famoso «efeito multiplicador», cujos excelentes resultados temos podido apreciar nos últimos tempos…

5º É certo que baixar impostos, por si só, não gerará crescimento imediato. Como é evidente, quando uma economia vive de impostos altos já não é uma economia saudável, e estará condenada a prazo, se não se reformar. O que verdadeiramente gera crescimento é manter os impostos baixos, em vez de os subir para sustentar a despesa pública.

6º Por último, não ponho em causa que baixar os impostos, nas actuais circunstâncias da tesouraria pública, seja uma missão difícil. Mas, ao contrário do que se andou a dizer nestes dois anos, atacar as causas que obrigam a mantê-los eternamente altos não era de todo impossível, nem despiciendo, como agora se depreende do plano do governo de ataque à despesa pública. Tarde e a más horas, por pressão dos factos e da troika, provavelmente já saturada de conversa mansa. Este foi o erro fatal do governo de Passos Coelho: adiar o inevitável, indispor toda a gente com sucessivas subidas da carga tributária, sem se vislumbrar uma intenção reformista séria e profunda, como terá de ser. De resto, estas coisas costumam fazer-se logo nos primeiros seis meses dos mandatos governativos, não por acaso chamados «períodos de graça». Uma vez passado esse prazo, sem se terem lançado as reformas estruturais, não há retorno possível.

Descer o IRC num Estado falido

29 Abril, 2013

Álvaro Santos Pereira quer descer a taxa de IRC de 25% para 17%. Esta descida abre um buraco orçamental potencial de 1200 milhões de euros a somar aos 1200 milhões de euros do buraco que resultou do chumbo dos cortes de salários e pensões. Suspeito que esta descida de IRC não vai acontecer nos próximos tempos. Nem há dinheiro para a financiar nem ela serviria de nada num contexto em que o Estado não tem condições de fazer promessas credíveis de baixa permanente de impostos. Uma baixa de IRC só é credível, e só cria investimento, se os investidores acreditarem que essa baixa é permanente, se acreditarem que não será compensada por impostos especiais e se acreditarem que não haverá nacionalizações ou desvalorização da moeda. O Estado português não tem condições para dar estas garantias.

Impressões

28 Abril, 2013
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Grande escola

Dos que estiveram na campanha, muitos “foram” logo. Agora “foram” alguns dos escolhidos.

Uma cajadada

Vários coelhos. Do “outro” lado, e também do “nosso”.

Ler mais…

a triste fábula de um animal feroz

28 Abril, 2013
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Aquele cujo nome não se pronuncia e que tomou posse de um lugar que não lhe pertence parece ter arrumado, por agora, com as pretensões de mando de um certo animal feroz. Aquele cujo nome não se pronuncia conseguiu que as principais figuretas que anteriormente circundavam o animal feroz o abandonassem em troca de poleiro, e deixou desabrigadas duas ou três sem qualquer expressão, que não entenderam o que se passou nos últimos dias. Semelhante desautorização nunca tinha sido feita ao animal feroz. Nem sequer por aquele cujo nome todos sabemos qual é, e que, de momento, é o único ponto de convergência dos ódios do animal feroz e das renovadas tropas daquele cujo nome não se pronuncia. Provavelmente por pouco tempo, porque aquele cujo nome não se pronuncia carece das boas graças daquele cujo nome todos sabemos qual é para chegar aonde quer. O animal feroz, que recentemente regressara, impante, às luzes da ribalta, arrisca a transformar-se num protagonista solitário, a recitar monólogos ressentidos na sua prédica dominical, vazios de sentido, de objectivos e, progressivamente, de audiências. Aquele cujo nome não se pronuncia tirou o tapete debaixo dos pés do animal feroz, no exacto momento em que ele o voltara a pisar. O tapete da porta de entrada da sua casa. Da toca do animal feroz, que deve, também por isso, estar agora ferocíssimo. A vingança será terrível.

Esquecendo Sócrates

28 Abril, 2013

António José Seguro, ao propor a criação de um fundo de redenção que obrigaria a Europa a assumir a dívida dos países acima dos 60% do PIB, está – discretamente – a pedir para que se volte a 2005, renegando a herança do governo de José Sócrates.

Esquecendo Sócrates

É compreensível: António José Seguro não é, nem de perto nem de longe, o único que gostaria esquecer o período de 2005 a 2011.

Veja (e note) as diferenças

28 Abril, 2013
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Sexta-feira a RTP emitiu uma pequena reportagem sobe uma fotografia do meu amigo Alfredo Cunha tirada há 28 anos, numa altura em que o FMI também estava em Portugal.

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A reportagem tenta passar a ideia de que entre o que se passava (e como se vivia) nessa altura e o que se passa hoje não há quaisquer diferenças. A fotografia é, no entanto, elucidativa. O que aquela mãe recorda, também. Hoje os dias são difíceis – mas mesmo nestes dias difíceis nada é realmente comparável ao que era Portugal nesses dias, nesses anos. Basta olhar com atenção para a fotografia, e para o seu dramatismo quase bíblico. Pena é que memória seja curta e a vontade de tornar tudo ainda mais negro muito grande. Pena é, também, que quem então pensava que “Portugal habituara-se a viver, demasiado tempo, acima dos seus meios e recursos”, hoje entenda que “nunca houve tanta pobreza, tanta miséria e tanto desespero por parte da população”. Nunca? Nunca digas nunca…

Passos Coelho e a promessa de não aumentar impostos

28 Abril, 2013

Após o chumbo do corte de salários e pensões pelo Tribunal Constitucional, Passos Coelho prometeu que as medidas chumbadas não seriam substituídas por um aumento de impostos. Mas até agora não cumpriu. Para que a promessa seja cumprida são necessárias 2 condições: que não se aumentem as taxas de impostos e que não se crie défice (condição necessária para que os impostos não aumentem no futuro). O governo parece com vontade de cumprir a primeira condição, mas tudo indica que não está interessado em cumprir a segunda. Mais impostos no futuro são por isso uma certeza.

No 1-X-2 do Totobola, é mesmo o XIX

28 Abril, 2013

Tenho assistido, pela televisão, ao XIX Congresso do Partido Socialista. Alguém, mais habilitado a interpretações de Dante e tropelias da personagem à entrada do Inferno, poderá, com algum engenho, e em espiral expansiva de faustosa imaginação, encontrar substância por descobrir em novas semânticas seculares da dualidade entre lugares comuns e esperanças pueris; infelizmente, tal não será o caso para pessoas que originam oscilações sobre os apoios partidários basais, as que levam à vitória de um ou outro partido em eleições. Decididamente, a narrativa deste congresso parece ser a obtenção de aplauso de groupies – o que é, por natureza, fútil; groupies tanto aplaudem o “mata” como o “esfola”, desde que o artista seja o alvo da paixão.

O resumo, até ao momento, será algo muito parecido com:

“Deseja ser rico ou levar um tiro na cabeça?”

Porque é que baixar impostos gera crescimento?

27 Abril, 2013

A defesa de uma baixa de impostos como meio para aumentar o crescimento económico é comum (por exemplo, aqui). Já é difícil encontrar uma boa explicação do mecanismo que faz com que descidas de impostos gerem crescimento. Em particular, como é que uma baixa de impostos em Portugal, que é o caso que nos interessa, pode contribuir para aumentar o crescimento? Gostaria de lembrar alguns factos, os quais talvez permitam limitar o debate às descidas de impostos que realmente valem a pena:

1. A economia portuguesa deixou de crescer no final dos anos 90, quando tinha taxas de impostos bastante mais baixas.

2. Durante o período 2000-2010, a economia portuguesa teve um excesso de procura em relação à oferta de cerca de 10% do PIB, e não cresceu.

3. Entre 2011 e 2013, nem as empresas privadas, nem os particulares nem o Estado estão a ser capazes de se financiar no mercado a taxas próximas das taxas médias europeias.

4. Nos últimos 20 anos a despesa pública, isto é, aquilo que o Estado compra à economia privada, cresceu acima da capacidade produtiva da economia privada (algo que é evidente quando se olha para o défice externo permanente).

5. Até 2010, os estímulos do lado da procura revelaram-se totalmente incapazes de promover o crescimento. A capacidade produtiva instalada era incapaz de responder à procura, o que gerava aumento das importações.

6. Até 2008 tivemos uma bolha imobiliária (ainda que limitada), mais um sinal de que excesso de procura na economia não gerava aumento da capacidade produtiva mas sim inflação nos bens que funcionam como reserva de valor.

Estes factos excluem à partida um dos possíveis mecanismos e limitam as condições em que uma descida de impostos gera crescimento. Se a procura em Portugal já está saturada, baixar os impostos para aumentar a procura apenas contribuirá para aumentar as importações. É, aliás, inevitável que uma parte da descida de impostos seja canalizada para um aumento do consumo. A crença de que a economia cresce quando se baixam impostos porque as pessoas consomem mais é keynesianismo de direita. Tal como o de esquerda, não funciona.

Nas presentes condições, sem que se consolide o ajustamento macroeconómico, uma descida de impostos não gerará crescimento. Uma descida de impostos, sem consolidação orçamental, com um défice de 6%, não é uma política credível uma vez que o risco de os impostos voltarem a subir é elevado. Um défice é sempre uma garantia que haverá impostos no futuro. Nem os agentes económicos internos acreditam numa descida de impostos permanente, nem os credores internacionais estão dispostos a financiar uma economia esquizofrénica que baixa impostos estando no limiar da bancarrota. Por tudo isto, é evidente que para haver crescimento sustentado primeiro tem que haver uma descida sustentada do défice e só depois um corte de impostos.

não há outro

27 Abril, 2013
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Um chefe de estado eleito em sufrágio universal nunca será um «presidente de todos os portugueses». Um chefe de estado eleito em sufrágio restrito, por um colégio de raiz parlamentar e de representatividade regional, pouco ou nada mandará e será inevitavelmente um fraco produto de acordos entre oligarquias. Qualquer um deles terá sempre uma opinião política que nunca será consensual e que em momentos de crise optará necessariamente pela opinião de uns em detrimento da opinião dos outros: tem que decidir e decidir é escolher. Se a ideia é ter um chefe de estado politicamente neutro, inibido de ter opiniões políticas, e que seja um puro símbolo de unidade nacional, porque constitucionalmente impedido de agir politicamente e de tomar decisões, então, a solução é evidente: um rei constitucional. Não há outro.

Novidades do partido dos contribuintes

27 Abril, 2013

Portas continua a lutar contra cortes na despesa.

Há presidentes e há Presidentes

26 Abril, 2013

O então Presidente da República Jorge Sampaio, a propósito da decisão em empossar novo governo com o quadro parlamentar existente, por consequência da demissão do governo de Durão Barroso, comunicava ao país em Junho de 2004 (destaques meus):

Sei bem que muitos portugueses e seus representantes políticos propunham que tomasse outra decisão. Considerei e considero inteiramente compreensíveis e legítimas as suas posições. Estou certo de que, mau grado a minha diferente opção, entenderão os argumentos que me levaram a escolher o caminho da indigitação de um novo Primeiro-Ministro.

Não tomei esta decisão de ânimo leve. Ponderei profundamente as consequências de ambas as decisões. Procurei ser fiel ao meu passado, às minhas convicções políticas e ao programa com que duas vezes me apresentei ao eleitorado. Decidi apoiado numa longa experiência política e no profundo conhecimento do país que hoje tenho. Pesei, com rigor, os caminhos que melhor servem Portugal, nas circunstâncias concretas em que ele se encontra.

Não posso ignorar que as exigências da nossa situação económica e financeira, com uma retoma ainda incipiente, uma consolidação orçamental longe de estar garantida e uma situação social particularmente gravosa, me aconselham também este caminho.

E, assim, por convicção e coerência, decidi.

Ontem, dia 25 de Abril de 2013, declarou o líder parlamentar do Partido Socialista, Carlos Zorrinho (destaques meu):

O senhor Presidente da República fez um discurso de cariz claramente partidário e apadrinhou a política de austeridade do Governo. Essa é a principal conclusão da sua intervenção.

Esse caminho do Governo tem conduzido a mais desemprego, maiores problemas na economia e a uma espiral recessiva. Tudo isso foi reconhecido [pelo Presidente da República], mas ao mesmo tempo também foi apadrinhado.

Há presidentes da república e há Presidentes da República de Todos os Portugueses.

Reciclagem legislativa

26 Abril, 2013

Diz o Público:

As empresas, entidades públicas e os profissionais liberais vão passar a pagar uma taxa de juro de mora quando pagarem facturas em atraso. Se a decisão aprovada nesta sexta-feira em Conselho de Ministros entrasse agora em vigor, essa taxa de juro de mora seria de 8,75%.

Na verdade, a lei já prevê que assim seja há mais de 10 anos. A grande novidade é, agora, a possibilidade de acrescentar aos juros os custos administrativos e internos de cobrança. De qualquer maneira, o Governo está apenas a transpor, com quase dois meses de atraso, uma Directiva comunitária de 2011.

Os Presidentes de Todos os Portugueses

26 Abril, 2013
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Presidentes de Todos os Portugueses

Ramalho Eanes, no seu segundo mandato, patrocinou a criação de um partido político da oposição ao governo de Mário Soares, partido esse que mais tarde fez cair o primeiro governo de Cavaco Silva.

Mário Soares, assim que conseguiu a reeleição, transformou-se no líder da oposição ao governo de Cavaco Silva, ao lado do PS.

Jorge Sampaio demitiu um governo suportado por uma maioria parlamentar para entregar o poder a um governo do seu partido que acabaria por nos levar à bancarrota.

Que saudades dos anteriores presidentes de todos os portugueses.

“Onde é que você está”, depois do 25 A?*

26 Abril, 2013
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Há uns anos atrás, Baptista Bastos ficou célebre com a questão “onde é que você estava no 25 de Abril”? O jornalista, autor e, sobretudo, naquele contexto, o entrevistador, ter-se-á inspirado em algumas justificações defensivas de algumas personagens da nossa (e, por conseguinte, da do 25 de Abril) História recente. Recordo-me de alguém que chegou, no período conturbado do PREC, a ser Presidente da República, dizer que, naquela noite, estava numa urgência hospitalar, acompanhando um familiar, justificando, dessa forma, o facto de não ter sido notada a sua presença no palco lisboeta das operações.

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“Lamento que os assentos à minha esquerda não sejam confortáveis”

26 Abril, 2013

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um abril vitorioso

26 Abril, 2013
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Estou cansado da mesmice das lutas de Abril! De descer a avenida de cravo na mão a protestar antes do crónico almoço de confraternização das vitórias do passado. Eu quero celebrar as vitórias do presente, porque a hidra do fásssismo não pára de crescer, com as suas monstruosas cabeças que nos sugam o tutano. Há que revolucionar a revolução!

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Por isso, hoje celebrei um Abril diferente. Um novo Abril cheio de energia e vigor. Aliei-me aos povos indígenas explorados da América do Sul e juntos, como verdadeiros irmãos revolucionários, fomo-nos aos répteis do capital, dominando uma troika de feras. Primeiro, espezinhamos uma temível anaconda, que nos fez lembrar o «escurinho» do FMI. O nosso ímpeto não poderia ter sido mais feroz. Depois, avançamos aos cânticos do «Grândola» para uma gibóia vermelha (os traidores da luta). Vitória absoluta! A seguir, a nossa justa ira incidiu sobre uma gibóia albina, que era igualzinha ao careca mais reptilíneo do sinistro triunvirato. Por último, para que não haja «lágrimas de crocodilo» pelo fásssismo, apanhámos o próprio! A reacção não vencerá!

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Assim, triunfámos sobre o grande capital e o fásssismo, numa união perfeita entre explorados da troika europeia e explorados do capitalismo da América do Sul. Sem simbolismos, sem concessões. E, com alívio, sem citar Habermas. Foi um Abril vitorioso!

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Dominando os inimigos do povo

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Esganando o grande capital

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Capturando a hidra fásssista

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Vitória total sobre a reacção.

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Não haverá légrimas de crocodilo

Não haverá lágrimas de crocodilo

É importante não esquecer algumas mudanças importantes com o 25 de Abril

25 Abril, 2013

É preciso crescimento, dirá… qualquer pessoa. É a panaceia para se manter a ideia do “espírito de Abril”, permitindo perpetuar a ideia vaga de existência de uma alternativa ao que grosseiramente se decidiu chamar “austeridade”. Austeridade, de acordo com o dicionário e com o uso comum fora do jargão contestatário, significa “com rigor, com rigidez, com pouca ou nenhuma flexibilidade”.

No jargão contesto-inconformado, o significado dado à palavra “austeridade”, é o de “constrangimento”, que de acordo com o dicionário, tem acepção como “violência que tira liberdade de acção”.

Reparando numa certa incongruência linguística entre acepções formais e acepções populares, e sendo hoje 25 de Abril, dia da liberdade, peguei em dados disponíveis a qualquer pessoa, via Pordata, e elaborei estes dois gráficos, que eventualmente poderão ser maçadores para quem prefere que “o povo é quem mais ordena” seja extensível ao dicionário da Língua Portuguesa, consoante o partido no poder.

Crescimento do PIB per capita (1961-1973)

Crescimento do PIB per capita (1974-2011)

Agora, sim; gostaria de falar sobre a semântica inerente à narrativa austeritária, o crescimento e a dívida; dívida que alguns considerarão irrelevante para tudo isto, eufemismo para “não a quero pagar”.

Não me interpretem mal: estamos melhor que em 1974; só não se percebe qual é o crescimento que nos salva do “constrangimento” da acepção contesto-inconformada de “austeridade”; e sobretudo, onde encaixa a patologia dos Órgãos de Soberania identificada por deputados da Nação em discussões sobre Abril.

“E tu, onde estavas no 25 de Abril?”

25 Abril, 2013

Eu estava dentro de um útero. Curiosamente, como viria a nascer em Outubro, teria à volta de 12 semanas no 25 de Abril, o que daria à minha mãe – houvesse Lei da interrupção voluntária da gravidez – o poder de decidir se eu era ou não era; portanto, se estava ou não em algum sítio. É muito confuso: quem sabe, nessas circunstâncias legais, se eu chegaria alguma vez a ser? E se não chegasse, teria alguma vez sequer ter sido? Não vou perguntar à minha mãe: correria o risco de desenvolver mais um estigma, a acrescer aos que já tenho, como o de ser caracterizado como “um direitolas”.
 
“Um direitolas” é um ser, como se sabe, e por definição dos inventores do termo, uma coisa que repudia o 25 de Abril – o que é muito aborrecido porque não é o meu caso. Torna-se enfadonho tentar explicar aos que afirmam desejar derrubar preconceitos, que muito frequentemente eles próprios me preconceitizam(*). Por outro lado, quem sou eu para repudiar etiquetas que me colocam? Tatuem-me lá a coisa no pulso e siga-se para bingo: é que também tenho a desfaçatez de considerar que um dos importantes intervenientes para o fim do Estado Novo é deliberadamente omitido na discussão sobre o 25 de Abril – emigrantes de meios rurais.
 
Prosperidade. Muitos, nos anos 60 e 70 do século passado, rumaram com valises, da napa ao cartão, para as Franças, Bélgicas, Alemanhas, Luxemburgos, Suíças e outros, em busca de prosperidade. Sem Ryanairs ou Schengans, sem apoios fora do núcleo familiar ou da sua comunidade. Acreditem que não existia um “Gabinete de Apoio Estatal à Pessoa Humana em Busca de Uma Saída Profissional Institucionalizada”, era mesmo graças ao que alguns poderiam chamar de caridadezinha. O que lá encontraram, nessas Franças e afins, exportaram de forma inconsciente para a psique de uma nação: oportunidade de trabalho e pertença a um mundo além fronteiras, não isolado, não orgulhosamente sós, muito mais orgânico, mais livre, mais próspero. Um mundo com problemas, problemas enfrentáveis, problemas ultrapassáveis com esforço e determinação pessoal para a conceptualização de sucesso individual. Sobretudo, e sem pensarem no assunto, sem desenharem uma estratégia ou recorrerem a uma política ministerial ou agenda, iniciaram uma revolução: povão a viajar por esta Europa fora.
 
O 25 de Abril ocorreria em qualquer data, com ou sem tanques, com ou sem cravos. Era uma questão de tempo. Muitos falarão – e bem – do papel essencial da Guerra Colonial. Leiam e ouçam-os com atenção: muitos explicarão isso melhor que eu. Eu falo hoje para os pequeninos, já que uma característica do “direitolas”, pelo que percebo, é o populismo rural; não quero desapontar já no primeiro post.
 
Os emigrantes desempenharam um papel passivo, mas de grande importância. Todos conhecemos ou temos familiares que foram (ou são) emigrantes dos anos 60 e 70. Todos recordamos a época áurea dos meses de Agosto, os melodramáticos anos 80, cravejados de emigrantes divididos entre a ingénua ostentação de carros “bomba” e uma imagem do mundo que parecia tardar a Portugal, mesmo anos após o 25 de Novembro. Arraiais, mais ou menos proto-pimba, com odor a fritos e a promessa de regresso num dia longínquo, isto enquanto depositavam poupanças na Caixa Geral de Depósitos.
 
Os humanos – termo não “direitolas” seria “a pessoa humana” – buscam a prosperidade, anseiam-a. O 25 de Abril representou uma promessa, a de liberdade e prosperidade sucessivamente adiada. Adiada no singular: as duas estão demasiado interligadas, não podem ser separadas. Prosperidade implica liberdade; liberdade é o único caminho para a prosperidade. Por tudo isto, o 25 de Abril foi apetecível para a trupe revolucionária de filiações mais ou menos sino-soviéticas, mais ou menos dispostas a tornarem-se os depositários dessa liberdade. Muitos ainda aí andam, agora institucionalizados, conformados ao darwinismo político.
 
Para mim e para muitos portugueses nascidos em 1974, o 25 de Abril celebra um folclore libertador, a génese anunciada da mitologia democrática de um novo regime. Inversamente, o 25 de Novembro não é romântico: é a promessa de liberdade propriamente dita, a concretização mais ou menos conseguida da mitologia, a sua materialização pragmática. Pode festejar-se o 25 de Abril. Aliás, deve festejar-se: no dia 25 ainda não explodiam bombas nos sítios dos inconvenientes, ainda não se expropriava propriedade privada, ainda não se desenhava o país a régua, ainda não havia reforma agrária, ainda não se invertera o insulto “facholas“. O dia 25 foi a festa. A mitologia não pertence à esquerda ou à direita; por definição, pertence a todos. Rejubilemos, pois!
 
É dia de cravos, dois ou três foguetes, um discurso e umas cervejas com os “pás” do bairro. Podemos usar a data para recordarmos o que é uma revolução: a substituição de sangue, suor e lágrimas por mais sangue, suor e lágrimas. Devemos celebrar o emigrante: o português que não esteve com tretas e criou um pouco de Portugal onde ele não existia, sem cravos nem tanques, sem discursos enfadonhos ou indultos a bombistas. Depois de toda esta festa, devemos festejar o 25 de Novembro. Esta sim, festa com toda a pompa e circunstância, com cantigas de louvor ou até com os palavrões que quisermos; com blasfémias ou reverências; com salamaleques ou bonecos; com crítica e contestação fundamentada ou com “troika fora daqui, qu’eu é que tenho razão“. Porque graças a esse dia, ali, no taciturno Outono de 1975, conquistaram-nos verdadeiramente o direito de fazermos o que nos apetece, para o bem e para o mal. Este texto foi mesmo escrito ao abrigo do 25 de Novembro.
 
Já repararam, hoje em dia, que não faltam vozes do regime sugerindo saída do euro, exigindo o fim da austeridade, culpando líderes e povos estrangeiros, ansiando a hiper-inflação que os sustentará, como agentes regimentados supra-povo que são; este irónico deslize ao situacionismo do antigo regime, exigindo encarceramento ao “orgulhosamente sós” materializado nos “nós não somos a Alemanha” e “que se lixe a Troika”, é o ADN fascista que se refugia nos bradares aos “princípios de Abril”. Não emigrem. Não produzam. Não lutem, não olhem o espelho. Não “batam punho” – “eles” têm que nos resolver isto. Sempre o “eles” e sempre o “nós” passivo, inocente; sempre o “o mundo está a oprimir-me”; sempre o “dêem-nos as nossas vidas”. A terminologia imperialista, bélica, orgulhosa, nacionalista, socializante, desesperadamente oca. A inverdade. O newspeak orwelliano, a narrativa.
 
Afinal devo ser mesmo um “direitolas”: aceitei com muita honra o amável convite deste grupo de pessoas que escrevem num espaço de liberdade e estou agradecido pela oportunidade. Um não-”direitolas” nunca agradece: tira e usufrui o que considera seu por direito. Pior ainda, escrevi um texto que vos convida a celebrarem a mitologia do 25 de Abril, que como mitologia, se assemelha à festa nada laica da Natividade regimental, o quasi-milagre do caminho socializante em preâmbulo constitutivo.
 
Hoje, em dia de celebração, os meus foguetes são atirados para que se avance com a verdadeira (r)evolução, aquela que consiste em terminar a revolução que dura há exactamente 39 anos. Estou pronto, como qualquer “direitolas”, para o 26 de Abril.
 


(*) preconceitinizar: não é um termo menos válido que direitolas.

Ninguém tira o sarcasmo ao Manuel Parreira

24 Abril, 2013
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O novo colaborador do Blasfémias chama-se Vitor Cunha, mas é mais conhecido por Manuel Parreira, autor do Macambúzio. É o grande educador da classe Tweetária. É o @manuelparreira.

Bem vindo ao mundo Blasfemo.

Cunha na (R)evolução Blasfema

24 Abril, 2013
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Não é costume, mas de vez em quando também temos de falar um pouco de nós próprios. Com toda a frieza que nos caracteriza, não deixamos de ter aquela vertente narcísica própria dos pecadores. Injustificada, sabemos disso, que exceptuando a cara bonita e charmosa da Helena, o aspecto de todos os outros não se recomenda minimamente.

Certo é que a idade vai-nos mudando e moldando. Sem ainda termos chegado à lamechice da 3ª idade, fase em que se tende a hiper valorizar as minudências, já começamos a dar mais atenção ao etéreo e ao simbólico, à estética e à imagem, a tal ponto que me questiono se não estaremos a sofrer uma anestesiante e preocupante viragem à esquerda. Cruzes, canhoto, temos de estar alerta e manter a vigilância (r)evolucionária.

Dizem para aí que ela é quando um homem quiser. Tretas! É como a gente quiser, que a (R)evolução não tem dono nem modelo, é sim uma forma de estar. A gente tem a nossa que pode ir (r)evoluindo, mas numa firme continuidade e consistência. Daí que defendamos políticas de ajustamento graduais e sem grandes rupturas – excepto no corte da despesa, que deve ser abrupto, por muito que custe ao JPP & quejandos.

Mas pequenas mudanças, mesmo que não se afigurem necessárias, dão outra dinâmica. E como subsistem muitos a olhar para a forma antes do conteúdo, vamo-nos adaptando aos gostos e caprichos do mercado que saberá sempre mais do que nós. Daí a pequena alteração no nosso visual, um new look mais modernaço, a substituição do fundo laranja algo démodée por um tom mais distinto, mais de acordo com a assertividade blasfema.

E como se fala tanto em renovação, nós tratamos de a praticar, aproveitando para nos reforçar. E aqui retornamos ao espírito fundacional, em que prevalece o conteúdo sobre a forma. Este blogue começou sem craques, com ilustres desconhecidos assaz individualistas e que se conseguiu impôr como um dos colectivos mais eficazes da blogosfera. Os craques vieram depois e ajudaram a consolidar a nossa posição na Premier League.

Mas como os craques que por aí andam se estão a esgotar e nós estamos em contenção, deslocámos os nossos “olheiros” para as camadas jovens onde se “compra” barato e com maior potencial.

E a nossa  (R)evolução também se comemora desta forma, com uma nova contratação, Vítor Cunha de seu nome, um desconhecido que ainda não é ilustre mas reúne todas as condições para lá chegar. Engenheiro electrotécnico de formação, programador de profissão, um peixe no oceano das novas tecnologias já com alguma experiência internacional e digam lá se não temos feeling para a “modernidade”. Melhor do que isso, é liberal (condição sine qua non), azul e branco na cor (uma opção a que subjaz espírito ganhador) e sabe escrever, a sério e a brincar, sempre rico em conteúdo.

Ainda imberbe, na verdura dos seus 38 anos, tem o mundo à sua frente e tempo para outras (R)evoluções, marcando o início da transição geracional desta Loja. Bem vindo Vítor, contigo começa o Grande Salto em Frente. Avante Camarada, toca a blasfemar!

Vitor quem?

24 Abril, 2013
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Vitor Cunha? Quem é esse?

Atirar dinheiro aos problemas

24 Abril, 2013
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Declarações ontem no PortoCanal sobre o “Plano de Fomento” e o folhetim dos swaps:

http://videos.sapo.pt/YHyvRcbtlTeMkoPC0dDt

Blasfémias está com a Revolução

24 Abril, 2013

Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os estados sociais, os corporativos e o estado a que chegámos. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos! De maneira que, quem quiser vir comigo, vamos para Lisboa e acabamos com isto. Quem for voluntário, sai e forma. Quem não quiser sair, fica aqui!

Confundir o sintoma com o a doença

24 Abril, 2013

Um dos problemas do Plano de Álvaro Santos Pereira para o crescimento é a confusão entre sintomas da falta de crescimento com causas subjacentes da falta de crescimento. Uma situação típica de Culto da Carga. Um exemplo mais flagrante é a forma como o problema do crédito é encarado. Não há crédito na economia, diz-se. Mas isso é apenas um sintoma de problemas mais profundos. Do lado da oferta de crédito, é um sintoma um sistema bancário a sofrer as consequências dos erros cometidos no passado. Os bancos não dão crédito porque eles próprios não são credíveis e não têm acesso fácil a crédito. Do lado da procura de crédito, não há projectos suficientemente bons para que valha a pena arriscar emprestar dinheiro. Não há projectos suficientemente bons porque a procura por bens e serviços não transaccionáveis implodiu e a economia ainda não se reestruturou para se adaptar à procura de bens transaccionáveis.  Os empresários que pedem mais crédito são os da antiga economia não transaccionavel. O que o plano de Álvaro Santos Pereira faz é tratar a doença disfarçando o sintoma. Há falta de crédito? Então injecta-se crédito forçando a banca a arriscar em projectos  pouco interessantes. Contribui-se desta forma para agravar a credibilidade da banca e para promover projectos inviáveis.

Princípios do Álvaro para o crescimento

24 Abril, 2013

Álvaro Santos Pereira divulgou um documento chamado “Estratégia para o crescimento, emprego e fomento industrial”. Este documento marca o regresso do país ao lero-lero crescimentista que marcou os 10 anos que precederam a bancarrota. Com base nesse documento é possível reconstituir as ideias base em que o Álvaro acredita:

1. Preço do crédito tabelado é bom para a economia;

2. Fixação de quantidade de crédito pelo ministro é positivo para a economia;

3. A banca é  uma actividade sem risco ao serviço da economia;

4. Os preços dos serviços portuários podem ser tabelados que isso não tem efeitos adversos;

5. O combate à burocracia é consistente com planos de comando e controlo dirigidos a promover o crescimento e que criam uma multiplicidade de programas, subsídios e excepções;

6. A burocracia combate-se criando excepções para determinados agentes económicos;

7. O Estado pode promover o crescimento com medidas voluntaristas e de microgestão;

8. Construir linhas de comboio cria procura por comboios (build it and they will come).

9. O crescimento promove-se colocando as agências do governo a decidir quais são os projectos em que vale a pena investir;

10. A concorrência promove-se criando-se subsídios e crédito facilitado para os agentes económicos escolhidos pelas agências do governo.

Uma pequena grande medida

24 Abril, 2013

Novo programa de Matemática aposta na memorização como um dos motores de aprendizagem. Ontem, em conferência de imprensa, o ministro Nuno Crato afirmou que “o ensino deve ser exigente e ter objectivos claros”.

A que não falta o tribunal do costume: Professores admitem apresentar providência contra revogação de programa de matemática

De quem foi a ideia?

23 Abril, 2013

Isto deve ser um golpe das Caldas! De quem foi a ideia de mudar a coluna dos links???? A equidade com os canhotos deve ter orientado esta mudança. Espero que o autor desta mudança acabe a viver aqui e a interrogar-se todos os dias se o seu apartamento fica do lado direito ou esquerdo.

Ensinamentos de 39 anos de democracia

23 Abril, 2013

Melhor discurso político.  Melhor investimento político. Melhor aposta política. Melhor destino político. Melhor partido para governar Portugal.  – Temas do meu artigo de hoje no DE

Mas que ideia!…

23 Abril, 2013
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Decididamente, a crise toca a todos e está também a mexer connosco. Ainda não percebi os acrescentos que os digníssimos Administradores desta Loja andam por aqui a fazer. Novas Blasfémias??? Essa terminologia tresanda a “novas oportunidades”, prefigura uma nítida colagem aos ditames do establishment, tem cariz muito pouco blasfemo, a colidir frontalmente com o nosso espírito fundacional. E para compôr o ramalhete, anunciam-nas para uma data que remete para a beatitude mais rançosa.

Não há que ver, a Blasfémia corre o risco de aburguesamento e de cedências ao status quo, há que saber reagir e dar o Grande Salto em Frente.