E no Carnaval de cá
No Carnaval deste ano vão desfilar de burka
Dêem-lhes mais uns milhões que o mar os há-de levar
A Visão da semana passada andou pelo país a conferir os estragos dos temporais. Como se esperaria, não faltaram choradinhos. Com uma excepção. Quando chegaram à “minha” praia, a Adraga, pediram ao Jorge, o dono do restaurante local, para comentar o cenário de desolação (e aquilo por ali é mesmo um cenário de desolação, pois a areia desapareceu toda e só resta o leito de calhaus) e este, fleumático, vaticinou que tudo voltaria ao normal: “O que o mar leva, o mar devolve”.
Não vivo há tantos como o Jorge naquela zona, mas as variações que já testemunhei naquela praia sustentam o seu optimismo. Espero sinceramente que tenha razão, até porque, ao contrário de tantos outros, não pediu camiões de areia para encher a praia em frente ao seu restaurante. Sugiro por isso ao Jorge que sossegue o dr. Mário Soares da próxima vez que ele se sentar a uma das suas mesas para um peixe grelhado sempre nos limites da perfeição. É que o nosso ex-Presidente está indignado porque o Governo, vejam lá, “nunca disse como e quando vai indemnizar os estragos causados, como lhe é devido”. A expressão crucial é o “como lhe é devido”, pois aparentemente tudo é devido ao Governo, até os temporais.
Ou, vendo melhor, os temporais existem é “por causa dos mercados e da globalização economicistas, esquecendo-se que estão a destruir a Terra e, consequentemente, os próprios humanos”. Os temporais e os tremores de terra, fenómenos que Mário Soares junta no mesmo saco, pois como toda a gente sabe Ler mais…
Concertos como função social do estado
Uma parte da discussão nos posts sobre o caso Fernando Tordo(*) focou-se numa espécie de papel de advogado de defesa dos artistas, que têm que viver (e essas coisas), e em análises relativistas sobre se 15 milhões é muito ou pouco dinheiro para “a cultura” dos concertos.
Seria interessante que a discussão se centrasse nas funções sociais do estado. Compete ao estado, via financiamento autárquico, providenciar concertos de artistas (maioritariamente portugueses mas não exclusivamente)? Se sim, quais artistas? Deve uma lógica de mercado (o Tony Carreira é mais popular que a Rosinha) ditar o número de concertos subsidiados? E se não, faz sentido alguém queixar-se que “não recebe apoios”?
Se chegarem à conclusão que sim, que o estado deve fornecer concertos de artistas nas suas funções sociais, como pretendem regulamentar de forma a que o princípio constitucional da igualdade entre artistas não viole o princípio constitucional da confiança que todos receberão igual número de concertos para tocar?
Criatividade autárquica
A página no Facebook denominada “Notícias de Caminha” publica hoje um “comunicado”, aparentemente distribuído durante a madrugada em estabelecimentos comerciais do município minhoto. O comunicado, não assinado, refere alegadas luvas e actos de corrupção de Miguel Alves, eleito pelo PS nas últimas autárquicas. Juntando um pouco mais de açafrão à coisa, terminam o “comunicado” com “o senhor presidente como é bonito e bem falante, anda a comer duas mulheres casadas do nosso concelho”.

O suposto “comunicado” (via Notícias de Caminha)
Nada sei sobre a veracidade do próprio “comunicado” nem sobre a sua distribuição. O que sei é que, de acordo com O Caminhense, “empresários de Caminha avançam com abaixo-assinado para tentar travar a instalação de hipermercado”.
Quem disse que a política autárquica não arranja soluções?
a dar à língua
O Professor Rosas conhece alguns factos “de favores políticos e pessoais, de negócios para “ir buscar” dinheiro ao Estado” entre Passos Coelho e Miguel Relvas, que justifiquem esta “cooperação” que o autor do artigo praticamente qualifica de mafiosa (“tanto para um como para o outro o afastamento e a possibilidade de virem a encontrar-se mais tarde em lados diferentes da barricada seria extremamente perigoso”), ou o que hoje publicou sob a forma de artigo no Diário Económico não passa de um puro exercício de baixa intriga e reles coscuvilhice? Sempre terá o artigo da próxima semana pra nos esclarecer a respeito de tão sombrios pactos de sangue.
para além dos limites
Ninguém é ingénuo ao ponto de ignorar que a política portuguesa se transformou, há muito, num terreno fértil para a demagogia mais rudimentar, nem de esperar que surjam Demóstenes e Catões nas lideranças dos nossos partidos. Mas, caramba!, há limites que não deveriam ser ultrapassados, porque nos envergonham a todos, como sucedeu aqui, com um discurso que parece destinado a atrasados mentais e não a seres racionais. Por exemplo, o que significa “Estado mínimo para um mercado máximo”? De que “mercado” se está a falar? Do Bulhão? Da bolsa de valores? Do mercado de flores da Ribeira? Do Continente? Ou tratar-se-á de uma subtil imagem metafórica sobre as virtudes da intervenção do governo e dos nossos sapientes políticos nos destinos dos indígenas lusitanos, em desfavor dos horrores que podem ocorrer se os chatearem um pouco menos e os deixarem um pouco mais entregues a si próprios? Por acaso, não tem sido aquilo que se tem feito nos últimos anos – pôr os políticos a cuidar dos autóctones -, com os resultados que estão à vista de todos, a custos tributários obscenos? E que espécie de “caminhos alternativos” se podem “trilhar” quando se não tem um cêntimo para mandar cantar um cego? Ir roubar carteiras para o Rossio ou para a baixa do Porto? Trafulhar os credores, convencendo-os a darem-nos mais dinheiro nas condições que nós – e não eles – pretendemos? Ou outro qualquer percurso só vislumbrado por iluminados, que o ilustre orador conheça e que por modéstia intelectual não partilhou conosco? E quem raio são “eles”, os tais que “estão no topo de todas as instituições europeias’? Alienígenas incubados em corpos humanos que querem dominar o planeta? Perigosos defensores da exploração capitalista e da escravidão infantil? Fanáticos desumanizados, apenas preocupados em defender os lucros excessivos das grandes empresas e os mercados criminosos, como diria o sempre lúcido Mário Soares? O renegado Hollande e as suas hollandetes, agora rendidos ao tal “mercado máximo” e à Senhora Merkel de Hamburgo, sabe Deus em troca de que miseráveis prebendas e louvores? Por fim, que espécie de “novo desenvolvimento” poderá vir das “energias renováveis, do ambiente e da excelência da investigação”? Alguém em estado de normalidade mental acredita que Portugal possa pagar o que deve e gerar recursos para viver melhor a partir destas difusas e peregrinas ideias? Não há ninguém pelo Largo do Rato que perceba o absurdo disto e lhe ponha termo, a tempo de evitar uma hecatombe para o PS, ou, em alternativa e o que será pior, para o país?
ecologia rosa
Afirma o Dr. Mário Soares, na sua habitual homilia das terças-feiras do Diário de Notícias, que “a ganância dos mercados é responsável pelas (…) “ondas gigantes que destruíram uma parte da nossa costa e das nossas praias”, “as chuvadas torrenciais que o Reino Unido está a sofrer. Os tufões, os tremores de terra, os tsunamis no Japão, as ilhas Filipinas, algumas já desaparecidas, a imensidade de neve e gelo que tem assolado os Estados Unidos”. Todas estas catástrofes naturais são evidentemente causadas pela especulação financeira e pela desregulação dos mercados, como ressalta à evidência. Por mim, que não ignoro que até o dilúvio bíblico foi obra do capitalismo selvagem, acredito piamente que num mundo verdadeiramente socialista, onde o estado domasse a ganância e a especulação dos malfadados mercados, nenhuma destas tragédias ocorreria. Infelizmente, elas sucedem, quase sempre, no domínio público e nas áreas cuja segurança está a cargo dos estados, isto é, à sua inteira responsabilidade. Não querendo contrariar o Dr. Mário Soares, cujas opiniões ambientais são sentenças, talvez lhe fizesse bem ler o que Walter Block escreveu sobre o zelo e a estima com que o estado costuma cuidar daquilo que é seu. Talvez daí pudéssemos retirar conclusões mais prudentes sobre quem trata melhor a propriedade e como se poderiam evitar alguns destes problemas ecológicos que tanto o preocupam.
A música não tem preço
O projecto “Momentos Douro”, iniciativa da Associação da Rota do Vinho do Porto, para o seu concerto com B. B. King (2010), gastou aos contribuintes 161.000,00€. A Ciência Viva – Agência Nacional para a Cultura Científica e Tecnológica, organizou em 2009 um ciclo de concertos denominados “Música e Ciência – Concertos Comentados por Cientistas”. Custou ao contribuinte 150.000,00€.
A “realização de concertos com orquestras multiculturais e eventos que envolvam artistas portugueses e estrangeiros que espelham a interculturalidade da cidade de Lisboa por ocasião da IVª Edição do TODOS – Caminhada de Culturas” (é esta a designação) custou-nos 142.800,00€. O concerto dos Xutos e Pontapés em Matosinhos (2009) custou-nos 83.000,00€.
Os Xutos e Pontapés nem ficaram muito caros ao contribuinte: 197.000,00€ em ajustes directos. O Tony Carreira saiu um pouquinho mais caro: 936.250,00€ (mais dois e passaria um milhão). Os Deolinda são baratinhos (“que parva que eu sou”), só nos custaram 116.092,53€ (a indignação não tem preço).
Somando todos estes ajustes directos seleccionados com a palavra “concerto”, obtemos, desde Setembro de 2008, 15.771.060,45€. Vá, 15 milhões de euros em contas redondas. Nem é muito, dirão os paladinos da cultura subsidiada, enquanto se queixam da indignidade dos 485€ de salário mínimo. Em ajustes directos com concertos e festivais foram só 32.518 salários mínimos indignos.
Uma resposta esmagadora [actualizado: agora menos esmagadora]
Nunca tivemos apoios, nunca os pedimos. Arte é independência! Não nos queixamos, trabalhamos. Não fazemos birras, agimos. Nunca contámos com qualquer tipo de benesse ou ajuste directo, nem com homenagens ou facilitismo dos poderosos. Nunca tocámos para partidos e sempre nos mantivemos longe da politica. Este país é o que queremos? Não. O que merecemos? Não. Mas, é o que amamos? Sim. Este Governo é mau? É! Houve um melhor outrora? Não me parece. — Fernando Ribeiro, Moonspell
(via Rui Carmo, n’O Insurgente)
ADENDA 1: Post em actualização. Comentários temporariamente fechados.
ADENDA 2: O leitor Pedro chamou a atenção para a existência de ajustes directos para a realização de espectáculos com a banda Moonspell. A saber, totalizando 126.731,62€. Ora bolas, lá se vai a resposta esmagadora, que continuando esmagadora, já não é factual. Que aborrecido, pregador Frei Tomás.
ADENDA 3: Comentários reabertos.
Contas da RTP têm calculadora própria
A RTP decidiu que “já há mais portugueses a emigrar que na década de 60“, isto a propósito da mui pungente história de Fernando Tordo, também entrevistado com a mala de cartão no aeroporto(*). Portanto, a RTP diz-nos que a área a azul é superior à área a vermelho no gráfico Pordata seguinte. Que a RTP é um encargo desnecessário, já sabemos; que tem problemas com geometria é um “novo paradigma”.
(*) Que saudades da década de 60, quando a Maria e o Manel eram entrevistados com a mala de cartão no aeroporto.
Ocupem o Vau
Mário Soares, caminhando na Praia do Vau, onde possui uma “casa devoluta”.O Público brinda-nos com o título “há cada vez mais sem-abrigo num país com um milhão de casas vazias”. Tirando o detalhe das casas vazias terem dono, tornando a notícia numa espécie de apelo a uma reforma agrária habitacional, a coisa vai mais longe, com Bingre do Amaral, investigador (clube de fãs aqui), afirmando que o número de casas vazias está “subavaliado” pela não contabilização das “segundas habitações” e casas “para venda” como imóveis devolutos.
Esta colectivização de fogos peca pela ausência de uma política a médio e longo prazo verdadeiramente inclusiva. Porque não, por exemplo, considerar também devoluta uma casa onde apenas habita uma pessoa viúva? É só uma questão de tempo até que esta casa seja, também ela, devoluta. Se se começasse desde já a sua inclusão na lista de ocupáveis por sem-abrigo, não só se resolveria mais rapidamente o problema destas pessoas como se extinguiria a solidão dos idosos que acabam nas páginas dos jornais por morrerem sozinhos.
O que tem de ser
A escolha de Miguel Relvas para cabeça de lista do Conselho Nacional do PSD causou um sobressalto absolutamente surpreendente qaundo comparado com o silêncio que se abateu sobre os convites formlados a José Sócrates. Que Relvas presida ao Conselho Nacional (CN) do PSD é um problema do PSD e de quem nele vota. Mais espantoso é que ao seu colega académico José Sócrates ninguém o convide para nada no PS e pelo contrário várias forças vivas da nação andem num virote a tentar arranjar-lhe um curriculum cultural apresentável: Sócrates no conselho geral da Universidade da Beira Interior e de apresentador de «Eichmann em Jerusalém».
O drama de Marcelo
E sobre estas praxes não têm nada a dizer?
Tema do meu artido de hoje no DE: “Um recluso da cadeia da Carregueira foi violado por três colegas de cela, três dias consecutivos, numa espécie de “praxe de boas-vindas”, tendo sido obrigado a tratamento médico. O Ministério Público está a investigar.” – escreve o Jornal de Notícias de ontem. Não sei o que está a investigar o Ministério Público mas para lá das responsabilidades de cada um dos agressores seria importante que se percebesse não só como foi isto possível mas como foi possível que acontecesse durante três dias. Durante três dias nenhum guarda passou por ali? Durante três dias aqueles homens estiveram incomunicáveis? Durante três dias ninguém viu nem ouviu nada? Ser preso não pode significar passar a viver numa realidade alternativa onde impera a lei do mais forte. Quando alguém é detido a responsabilidade pela sua vida e pela sua segurança passa para o Estado. E não é de modo algum aceitável que este Estado que todos os dias inventa mais um detalhe para se meter nas nossas vidas se demita da mais elementar das suas funções: garantir a segurança dos seus cidadãos, nomeadamente daqueles a que privou de vários direitos. Por fim mas não por último seria também importante que o Ministério Público investigasse a existência nas prisões daquilo a que os jornalistas frequentemente se referem como “praxe de boas-vindas” e que só é referida como se se tratasse de uma fatalidade porque quem assim pensa, fala e escreve não pensa que um dia pode ser preso ou pior que pode ver os seus filhos numa cadeia.
Quanto custa?
O fim da austeridade, como assinalado pelo Rui, merece ser guardado para memória futura; mas, para já, merece duas questões:
- É o fim da austeridade ou é promessa de não intensificar a austeridade existente? Colocando a questão de outra forma é “não queremos mais austeridade” ou “não mais queremos austeridade”?
- Quanto custa, em termos de austeridade futura, o fim da austeridade?
A primeira questão permite aferir a confiança do PS na estupidez do seu eleitorado; a segunda permite aferir se conhecem o significado da palavra.
um blog que faz anos de quatro em quatro
O Blasfémias nasceu no dia 29 de Fevereiro de 2004, num ano bissexto, pelo que só faz anos de quatro em quatro, sendo o seu próximo aniversário a 29 de Fevereiro de 2016.
Não obstante esta singular contrariedade, passaram-se já dez anos de tempo físico e, apesar de nenhum dos seus fundadores e autores sentir o peso da idade, a verdade é que parece que se passou uma década desde a edição do primeiro post, mais precisamente este aqui.
Dez anos é muito tempo seja para o que for, com excepção, naturalmente, dos tempos da justiça portuguesa, que leva sempre um pouco mais do que isso para começar a produzir resultados. Num objeto tão estranho quanto um blog, dez anos são uma eternidade, julgando mesmo que nenhum outro blog colectivo português atingiu essa longevidade.
O objeto que, durante esse imenso tempo, fomos produzindo é estranho, desde logo para nós, os seus autores. O blog foi sempre um espaço de opinião individual, muito mais do que de informação ou de investigação, como acontece com outros. Se ainda se mantém vivo e com um número de leitores que nunca parou de crescer, é porque algum mérito e interesse deve ter aquilo que por aqui fazemos. A verdade dos factos é que o Blasfémias foi sempre um espaço de pluralidade, de opinião crítica e independente, que nunca fechou portas ao contraditório e que gosta mesmo de o cultivar. O cuidado reforçado que passaremos a ter com as nossas caixas de comentários, que o Vitor aqui anunciou, deve-se exatamente à nossa intenção de preservar essa liberdade de opinar e contradizer, separando-a de lixo tóxico que, nos últimos meses, estranhamente vinha invadindo este espaço de opinião livre. Este fenómeno, estranho em si mesmo, até por exigir muito tempo e disponibilidade por parte de quem o pratica, não se encontra, que saibamos, em nenhum outro blog português. O que reforça a nossa convicção de que anda por aí muita gente apreensiva com um meio de comunicação e de opinião livre e independente que tem audiências muito expressivas como, por exemplo, as da passada semana, que atingiram, na quinta e na sexta-feira, 18.339 e 19.196 visitas e page views.
Devido ao lamentável facto de só haver anos bissextos de quatro em quatro, o Blasfémias comemorará, este ano, o seu 10º aniversário no próximo dia 28 de Fevereiro.
remédio santo
Para acabar a austeridade, basta votar no PS. Para memória futura.
Um esclarecimento sobre comentários
A falta de moderação nas caixas de comentários nos blogues e jornais permitiu desvirtuar um excelente meio de discussão e diálogo, transformando-o num espaço de insulto, calúnia e mau gosto. Não é por se permitir o pior da tasca num suporte informático que se é mais ou menos liberal: permitir comentários “à bruta” reduz o esforço dos autores a um circo e a única coisa que fomenta é a dissuasão de potenciais comentadores que se poupam ao incómodo do grunhido alheio. O anonimato aumenta o potencial para excessos.
Há quem lhe chame censura, como se o termo possa ser usado exclusivamente como antónimo de liberdade. À falta de auto-censura, algo que acontece na presença dos interlocutores, não resta outra hipótese de salvaguardar a higiene que não o reforço das regras, que mais não são que um guia de civilidade.
Vídeos, salvo raras excepções, não são permitidos nos comentários.
Contraditório e discussão são incentivados mas, como deveria parecer óbvio, insultos, calúnias e a utilização de adjectivos com vista ao ad hominem não são permitidos.
Os comentários devem ser focados para o texto a que se destinam e não sobre outros assuntos não relacionados. Todas as pessoas que se sentiram afectadas com o recente intensificar de moderação podem voltar a comentar bastando para isso adaptarem-se aos mínimos exigidos.
Esta caixa de comentários está aberta para os vossos pontos de vista sobre o assunto: agradeço que libertem a zona de comentários nos restantes posts para comentarem o post propriamente dito.
Ver melhor com os olhos fechados
Quem vai acompanhando os canais noticiosos já teve oportunidade de reparar na existência de um mercado desregulado de comentadores profissionais e não federados. Não se trata de um grupo de pessoas conhecido por exercer actividades extra-comentário, exceptuando, em alguns casos, a docência em estabelecimentos de ensino superior para futuros comentadores.
A coisa funciona assim: o político fala, o comentador comenta, o jornalista avalia o comentário, o homem-rede-social comenta o comentador e é comentado por outros homem-rede-social-comentadores que também comentam, em pleno diálogo, o comentado que comentou o político e tem acesso ao comentário privado com outros políticos, também eles comentáveis e comentadores.
Não há nada de errado nisto: funciona como a liga de honra e a 2ª liga. Algumas redes sociais são autênticas taças de Portugal, onde tudo comenta tudo com toda a gente, incluindo comentários dos comentados e dos comentadores de comentadores, esbatendo assim as fronteiras existentes entre quem influencia e quem é influenciado.
O único problema deste ecossistema é gerar nesta geometria riemanniana do n-comentário uma falsa percepção de relevância a alguns comentadores/comentados amplificada pelas variações familiares de “estavas tão bonito na televisão”. Na realidade, não é um problema; é uma especificação. E isso pode perfeitamente explicar o que Pedro Magalhães diz aqui, de que “há uma dissonância(…) entre o que as sondagens dizem sobre a opinião pública e aquilo que na opinião publicada se vai dizendo sobre o tema”.
Isto deve ser uma idiossincrasia nacional
E o senhor vereador quando se candidatou a vereador vivia onde? E avisou os eleitores desta sua pretensão?… Enfim estou em crer que ao senhor vereador não lhe faltarão apoios de monta nessa sua pretensão. Até podem formar a associação dos eleitos que depois de serem eleitos descobrem que vivem noutro sítio.
Os ursinhos de peluche
Avante: «Face aos acontecimentos na Venezuela, o PCP emitiu, sexta-feira, dia 14, uma nota de imprensa na qual «condena veementemente os actos de violência e vandalismo perpetrados por grupos de cariz neofascista que provocaram a perda de vidas e a destruição de bens públicos», denuncia «os objectivos antidemocráticos e golpistas de mais esta campanha desestabilizadora levada a cabo contra a revolução bolivariana pelas forças da reacção e direita venezuelanas, articuladas e apoiadas pelo imperialismo norte-americano», e nota que tal acontece quando «as legítimas autoridades da República Bolivariana da Venezuela promovem a melhoria das condições de vida da população e intensificam as medidas de combate à especulação e guerra económica que visa desestabilizar o país».
No mesmo sentido, o Conselho Português para a Paz e a Cooperação sublinha que «aqueles que perderam sucessivas eleições continuam a recorrer a todos os meios, incluindo à violência, para alterar a ordem constitucional e anular a vontade do povo, expressa livremente». A Cooperativa Mó de Vida repudiou por seu turno o tratamento mediático dos acontecimentos por parte da generalidade da comunicação social, que «ocultou factos importantes com o objectivo de induzir uma opinião» favorável aos envolvidos no golpe.»
Neste faz de conta de que são democratas e como falam muito de trabalhadores são certamente muito bem intencionados, dogmas subjacentes à relação da sociedade portuguesa com o PCP, faz-se por esquecer aquilo que os comunistas realmente são: defensores de uma sociedade totalitária, apoiantes nunca arrependidos de regimes iníquos e estruturas corporativas altamente eficazes a retirar as vantagens do sistema nos nefandos países capitalistas onde os seus projectos de poder falharam. Mas como falam muito de trabalhadores e (ó suprema ironia!) de liberdade são uma gracinha. Uma espécie de ursinhos de peluche (experimentem entrar-lhes nas zonas que consideram suas e logo verão o sorriso de peluche dar lugar a um rugido bem real ou, pior, à insídia, à insinuação, à manobra de bastidores…) Mas como ninguém resiste a um ursinho de peluche cá andamos com os nossos ‘pecês’ ao colo. E quando declaram não ter a certeza se a Coreia do Norte é ou não uma democracia ou redigem comunicados como o que fizeram recentemente sobre a Venezuela acaba tudo a sorrir de forma condescendente.
Internet é vício burguês

Na Venezuela, onde os protestos sobre comida e o estado da economia escalaram para revoltas violentas originando pelo menos 5 mortos, o governo do socialista Nicolás Maduro acelera a censura. Autoridades desligaram o acesso à internet numa grande cidade e sua área circundante, de acordo com relatos da EFF.
O ISP estatal CANTV, que controla a maioria da internet do país, cortou o tráfego em San Cristóbal, a capital do estado de Tachira e um dos centros de protesto. De acordo com Marianne Díaz, advogada e fundadora do grupo activista Acceso Libre, a conexão foi cortada em toda a capital e provavelmente em todo o estado, com população superior a um milhão.
Ler o resto aqui (em inglês)
Times are changing
A fascinante instagramização da revolução
Já viram as fotografias de Kiev, certo? Fantásticas, com um contraste que exprime urgência, uma maravilha de comunicação. Como esta:

E da Venezuela, já viram? Cá está uma das que se vêem – choca, suja, pouco apelativa:

Vamos dar-lhe o tratamento “filtro revolução ucraniana” e um toque taciturno, um desenvolvimento do laboratório Blasfémias, ainda em fase experimental:

Na Venezuela não há bons fotógrafos, estão todos na Ucrânia.
Eu também não sou neoliberal
Quando Alexander Rüstow cunhou o termo, na década de 30 do século XX, pretendia traçar a diferença entre o liberalismo clássico e a nova visão liberal de cariz social, efectivamente estabelecendo uma posição preponderante do estado no estabelecimento de uma “economia social de mercado”. O liberalismo social usa termos como “justiça social”, tal como a CGTP.
O expoente máximo do neoliberalismo português da última década é José Sócrates.
São todos um bando de socialistas.
Inutilidades aligeiradas, mas só temporariamente….
O Governo aprovou um regime excepcional e transitório que prevê a dispensa, durante sete anos, de diversas obrigações técnicas na reabilitação de edifícios (*)
Diz ainda a notícia que «As obrigações que são aligeiradas ou temporariamente suspensas são apenas “disposições técnicas” que, sendo dispensadas, não colocam qualquer problema para a habitabilidade ou utilização final dos imóveis nem suscitam questões de segurança nos edifícios. »
Ora, se não existe problema para a habitabilidade, utilização ou segurança dos edificios, porque é que tais normas existem? Porque fazem um regime excepcional e simplesmente não se acabam com tais obrigações que afinal reconhece o governo não servem para coisa nenhuma relevante a não ser aborrecer quem queira fazer obras em casa? Porque o regime é por 7 anos e não para sempre e em todas as situações? Afinal, tais obrigações inúteis existem em benefício de quem? Gente complicada que até para simplificar resolve complicar.
Sinal já entregue
Não se sabe se Rui Machete pediu desculpa a Teodoro Nguema Obiang por na ultima cimeira Portugal se ter oposto à entrada da Guiné-Equatorial na CPLP em 2013.
Também não se sabe se os prometidos 133 milhões de euros de investimento de Obiang no capital do Banif (detido pelo estado português) será uma espécie de «sinal» pela adesão agora aceite. Nas ultimas semanas ainda se executavam naquele país uns desgraçados condenados a pena de morte, mas desde há 4 dias parece que existe uma moratória. Ou se acabaram os oponentes a executar ou é pausa conveniente.
Mas o que interessa é que o governo português pela voz de Rui Machete «sente-se à vontade com esta decisão. Então não? Completamente à vontade por a Comunidade de Países de Língua Portuguesa passar a contar com mais um país que curiosamente não tem língua portuguesa entre as linguas oficiais e onde será dificil encontrar mais de 10 pessoas que o saibam falar.
Agora será uma Comunidade de Países de Qualquer Lingua. Desde que paguem a joia de entrada e a quota, tudo bem.
Não que a antiga CPLP servisse para alguma coisa, mas é uma maneira curiosa e altamente eficiente de acabar com ela.
O monstro da cultura
Vendo de relance a programação para a Meo Arena, saltam à vista alguns nomes: Xutos e Pontapés, Scorpions, Beyoncé e Ana Carolina. Nenhuma autarquia conseguiria promover, sem escandaleira, um concerto de Beyoncé com entrada gratuita. A banda Scorpions, já há muito afastada da A-list e que em 2004 actuou em Cantanhede, custou, na altura, mais de 250.000€ à organização. Xutos e Pontapés é uma excepção na lista – são portugueses: um promotor arrisca a cabeça (mais propriamente, o dinheiro) caso não consiga vender os bilhetes. Com os estrangeiros sempre foi assim.
Os portugueses foram aprendendo a não pagar para assistir a espectáculos de artistas portugueses. Assisti a concertos de Rui Veloso, Paulo Gonzo, Silence 4, entre outros, achando que eram gratuitos. A autarquia pagava (decerto) aos artistas e suas entourages, assim como a técnicos locais, e eu pagava à autarquia. Eu não: na altura não trabalhava; o meu pai, sim, esse pagava sem assistir aos concertos.
É extremamente difícil conseguir que o público português pague bilhete por inteiro para ver um artista português. O autarca, premiado em eleições que só recentemente deixaram de ser “para a vida”, não obtém os favores dos eleitores (usando uma expressão de José Sócrates) por gerir correctamente a autarquia e sim pelo circo que providencia: a proverbial rotunda, o relvado sintético para o grupo desportivo amador, o artista popular…
Há uma indústria fantástica de “consumo interno” baseada no ciclo do dinheiro, do bolso do contribuinte para o bolo central, do bolo central para o zelador da terrinha, do zelador da terrinha para o agente cultural. É perfeitamente natural que havendo redução orçamental para manter o eleitor convencido de que isto é uma festa, os primeiros a bradarem a desgraça da morte da cultura sejam o últimos da cadeira alimentar. Durante anos a fio criaram a sensação de popularidade mediante a distorção da casa cheia sem bilheteira; agora começa a ser tempo de perceberem que, por terem sido coniventes com o monstro, são eles próprios parte da criatura.
Nem tudo está perdido: alguns conseguirão vender bilhetes. Para os outros restará a hipótese de lutarem na arena pelos 5 minutos da fama dos programas da tarde das televisões.
Ainda se lembram de Belgais?
O alvoroço em torno da emigração de Fernando Tordo recorda-me o caso Belgais, salvas as devidas diferenças entre Tordo, pessoa afável e sem tiques de vedetismo, e Maria João Pires que está mais ou menos, para mim, no domínio do pessoalmente insuportável. Mas voltemos a Belgais. Durante anos não havia dinheiro que chegasse para a magnífica obra que estava a ser feita em Belgais. Terão sido 1,8 milhões de euros Tudo rumava para Belgais e atestava das maravilhas que ali tinham lugar. Mal a senhora de Belgais se sentia menos atendida jornalistas pressurosos davam conta das suas queixas. Os ministros da Cultura e da Educação tremiam perante as críticas de Maria João Pires. Até que chegaram os problemas. O dinheiro nunca chegava e várioas credores pediram arresto de bens. Entretanto Maria João Pires rumou para o Brasil e declarou «Julgo que vim para o Brasil para me salvar dos malefícios que Portugal me estava a fazer. Eu estava a ser vítima de uma verdadeira tortura» . Na santíssima graça de Deus governava o PS e sobreudo era PM José Sócrates caso contrário teria sido aberto um inquérito para averiguar das torturas denunciadas por Maria João Pires. Aliás não fosse Sócrates e ainda hoje andávamos a dar dinheiro para Belgais e certamente que algum tribunal obrigaria a manter aquele centro a funcionar. Em 2009 Belgais fechava por arresto de bens.Entretanto a herdade foi colocada à venda. Pelo meio houve turismo rural. No meio disto tudo só nunca se avaliou do real impacto que o centro teve na formação das crianças que ali tiveram formação musical e que se fizéssemos as contas ao que se investiu na sua formação musical deverão ser, pelo menos, fortes melómanos.
Contratar quem contrate o contratante
O que é a Associação Cultura, Conhecimento e Igualdade do Género (ACCIG)? De acordo com o website, é uma associação que “nasceu a partir do ideal de duas amigas, Eugénia Passada e Rosabela Afonso, de contribuir, de forma activa, para que a democracia portuguesa se fortaleça com a participação de todos os cidadãos, em particular das Mulheres mais carenciadas”.
Os sócios fundadores são Eugénia Passada, Rosabela Afonso, Fernando Afonso e Fernando Tordo. Eugénia Passada é, de acordo com a resposta ao jornal i, esposa de Fernando Tordo. Rosabela Afonso foi chefe de departamento na RTP entre 1974 e 2003.
A ACCIG desenvolveu diversos projectos, entre eles “ARTE – fonte de bem-estar social” e “Centro de Empoderamento 2.0”. A ACCIG recebeu 90.000€ de apoio técnico e financeiro às ONG, de acordo com o DR – 2ª Série – Nº189 – 30 de Setembro de 2011, mais 112.000€ para o mesmo efeito de acordo com o DR – 2ª Série – Nº140 – 21 de Julho de 2010.
A ACCIG também contratou, por ajuste directo, a Stardust para um dois concertos de Fernando Tordo, por 47.500€ 10.000€ (em Seia, 31/12/2013 e Mangualde, 12/2/2014). Em suma, a associação fundada por Fernando Tordo e esposa contrata a empresa de Fernando Tordo para que esta realize um concerto de Fernando Tordo.
Jornalismo de graça
CANÇÃO DO EMIGRANTE
(in “Estamos Vivos” – 1977)
Longe tu escutavas, aprendias
que entre nós todos os dias
nascia um cravo vermelho.
Longe tu ouvias, pressentias
que o passado que sabias
ia morrendo de velho.
Longe trabalhavas e esperavas
que o país que tu amavas
fosse um país para amar.
Quando será emigrante
que vais voltar?
O post de ontem gerou alguma polémica, em particular porque as pessoas que não fizeram contas durante 15 anos – olá, “gentes de esquerda” – descobriram subitamente o poder de uma máquina calculadora. De facto, em defesa do melodramatismo de estado encarnando em versão tosca de Corín Tellado, típica de uma iliteracia – eu culpo os cantores de intervenção – que faria corar Stalin por falta de humor, alguém chegou à conclusão – dude – que 200.000€ a dividir por 5 anos só dá 3000€ por mês e sem subsídios durante 5 anos (e depois sou que ando a “escrutinar” a vida dos contribuintes… perdão, empresários).
Ajuste directo para contratação pública é isso mesmo: dinheiro dos contribuintes gasto para contratar o serviço a um privado. Espera-se que esse privado desempenhe funções para outros privados (até porque não estou a ver qual seria o interesse de um cantor existir para cantar somente para o estado sem designação oficial de “bardo do regime”). Mas vamos a contas.
De 2010 a 2012 a Stardust teve um volume de facturação de 158.534,22€. Desta quantia, apenas 9.000€ foram por ajuste directo, pela contratação pelo município de Portimão para as comemorações do 25 de Abril em 2011. Felizmente não é um empresa que viva pendurada exclusivamente do estado.
Não se pode dizer que os anos da crise tenham sido particularmente maus para a cantiga de intervenção. De um volume de prestação de serviços de 45.385,50€ em 2010, cresceu 15% em 2011 e 17% em 2012. Estes valores deixam-me satisfeito: gosto de ver uma pequena empresa portuguesa a obter lucro, principalmente não tendo o estado como principal cliente. Quando vem uma crise, felizmente, não afecta todos por igual, diga o que disser o tribunal constitucional: provavelmente afecta mais os que não têm em jornalistas-de-causas ou orfãos-socráticos um serviço postal conveniente.
Como nota só posso acrescentar um pedido de desculpa a jornalistas por me ter dedicado durante um dia à sua função. É um trabalho aborrecido mas alguém tem que o fazer.
a cruel tragédia do eleitor anti-liberal
De quatro em quatro anos, confiante e seguro, elege com o seu voto quem promete cuidar-lhe da vida.
Durante esses quatro anos protesta e reclama dos “ladrões” que estão no governo.
A notícia da morte da cultura foi um pouco exagerada
Assim…
…ou assado?
O regresso de Vítor Gaspar
Isto não é bem o texto típico de um blogue, mas enquanto não chega o Observador, aqui fica ele:
Vítor Gaspar foi ministro das Finanças durante pouco mais de dois anos, mas será recordado por muitos mais. É contudo muito cedo para sabermos a imagem que dele prevalecerá. Quando saiu, no início de Julho de 2013, com uma carta que causou enorme estrondo, dir-se-ia um homem derrotado pela sua circunstância, por uma economia afundada na crise e um país zangado e deprimido. Apenas seis meses depois, no começo de 2014, começa a surgir-nos como o mal-amado que, afinal, pode estar por detrás da reviravolta que levou o Financial Times a referir-se a Portugal como o herói improvável e surpreendente da recuperação económica dos países da zona euro. Falta-nos ainda distância para um julgamento frio e rigoroso destes anos, mas quando ele for feito não será possível ignorar Vítor Gaspar por Maria João Avillez, o livro-entrevista onde o ministro se revela e expõe, de forma detalhada, os argumentos que sustentaram as suas opções de política económica.
O que se espera de um livro-depoimento editado apenas sete meses depois de uma demissão controversa e de uma crise política como a que, no Verão do ano passado, quase ia derrubando o Governo? As primeiras referências ao livro na imprensa não deixam lugar a dúvidas: espera-se, esperava-se, intriga e, se possível, algum sangue. Alguma coisa haveria Gaspar de revelar sobre a tensão com Paulo Portas e os bastidores da guerrilha que levaram o então ministro dos Negócios Estrangeiros a também apresentar a sua demissão “irrevogável”. E, de facto, Maria João Avillez fez tudo ao seu alcance, todas as perguntas possíveis e imaginárias, para que o ex-ministro das Finanças dissesse alguma coisa de realmente irrevogável sobre esse período ou sobre as divergências no interior do Governo, mas com pouco êxito. Gaspar ficou-se sempre pela constatação de factos que são do conhecimento público – a crise aberta nos mercados da dívida com a demissão de Portas por contraste com a calma verificada um dia antes, aquando da sua saída; a insistência do primeiro-ministro na posse de Maria Luís Albuquerque, uma sucessão que fora cuidadosamente preparada nos meses anteriores – e fugiu de forma determinada a revelar opiniões particulares – “se eu comentasse as minhas reacções privadas, elas deixariam de o ser”, responde a certa altura a uma pergunta mais insistente sobre as relações com Paulo Portas.
os “gajos importantes”
Ontem, num jantar de amigos e conhecidos, discutiu-se o investimento português no estrangeiro. Em dado momento, um dos presentes, empresário português de alguma dimensão, queixou-se que andava há quatro anos a tentar entrar no mercado de São Paulo sem sucesso, tendo já gasto uma imensa quantidade de dinheiro para conseguir pouco mais do que meia dúzia de clientes precários. As suas principais expectativas de negócio tinham falhado, apesar de, segundo ele, ter entrado pelas portas certas, pela mão de alguns “gajos importantes”. Todos lhe prometeram muito, cobraram bem e, no fim, trouxeram nada. O nosso colega comensal não entendia a razão do seu fracasso.
Eu também só a entendi hoje. O “gajo importante” de São Paulo é o “general angolano”, o “ministro” e o “presidente de câmara” de outras paragens. Bem mais do que um indício de “chico-espertismo” de algum empresariado indígena, isto é uma clara confissão de incompreensão do que é uma economia de mercado. Nesta – a única economia que verdadeiramente existe – o consumidor é soberano, como tantas vezes lembrou Ludwig von Mises. Numa economia aberta, com reduzida intervenção do estado nas relações de mercado, não existem generais angolanos, ministros ou presidentes de câmara, isto é, “gajos importantes” que imponham aos consumidores as suas escolhas finais. O único “gajo importante” é o consumidor e é às suas necessidades que os empresários têm de atender.
Isto é o que muitos empresários portugueses, quer invistam apenas em Portugal ou no estrangeiro, ainda não entenderam. Habituados ancestralmente ao corporativismo de estado indígena e a um modelo económico onde o sucesso dependia dos favores da política e da burocracia, desconhecem o que seja o mercado. Por isso os vemos, quantas vezes, a pedir o apoio do estado e do governo nos seus negócios, como os vemos a ir para África em busca de generais que lhes facilitem os negócios, ou para o Brasil e outras paragens, em busca de influências que lhes vendam os seus produtos. Quando seguem esse caminho fracassam, invariavelmente. Gastam dinheiro e recursos com quem apenas lhes quer apanhar o que julgam que eles têm, e quando os negócios conseguem singrar, ficam-lhes com eles.
A economia dos “gajos importantes” é, desde há muito, a matriz nuclear da economia portuguesa. Está na hora de a trocarmos por uma verdadeira economia de mercado.
O problema do capitalismo é caírem como tordos
A Stardust Produções, Lda é uma empresa portuguesa com CAE 82300 – Organização de feiras, congressos e outros eventos similares. Foi constituída em 11/04/2008, conta com 1 empregado e tem como sócio-gerente Fernando Travassos Tordo.
À Stardust Produções, Lda foram adjudicados 207,100.00€ por ajuste directo, desde Setembro de 2008, para realização de espectáculos do artista Fernando Tordo. Só para municípios foram 159,600.00€ (Portimão, Montijo, Mangualde, Vila Nova de Cerveira, Covilhã, Ponte de Lima, Abrantes, Matosinhos, Almada, Lamego). Nada mau para quem editou o último disco há 13 anos.
Não sei exactamente quanto paga a Stardust Produções, Lda, empresa do senhor Fernando Tordo – que serve para fornecer o serviço de espectáculo com o artista Fernando Tordo – ao artista Fernando Tordo. Temo que o artista Fernando Tordo possa ter sido explorado pelo senhor Fernando Tordo, não efectuando descontos em nome do artista Fernando Tordo, que agora se limita a receber a pensão mínima, cujo valor é 259.40€, correspondentes a 0,125% do total adjudicado desde 2008 à empresa do senhor Fernando Tordo.
O que sei é que vou escrever uma carta pungente aos meus familiares emigrantes que, decerto, algum jornal publicará, com direito a publicação de resposta e tudo, poupando assim em selos. Isto está mau para todos (excepto para a Stardust Produções, Lda, que já assegurou um espectáculo de Primavera Abrilista no Centro Cultural do Alto Minho, em Viana do Castelo, no dia 25 de Abril, com o artista Fernando Tordo, prevendo-se que este traga a guitarra que levou na mão quando emigrou na passada terça-feira. Esperemos que o senhor Fernando Tordo pague, ao menos, a viagem ao artista Fernando Tordo).
Esta exploração do artista Fernando Tordo pelo senhor Fernando Tordo é o mal do capitalismo actual.
Reformados estrangeiros? Façam o favor de entrar
O DN diz que “mais de 8000 pessoas com mais de 65 saíram em 2 anos”, das quais 500 por ano de “forma permanente” e mais de 3000 de “forma temporária”. Na capa, diz que “Fernando Tordo é um dos oito mil idosos que emigraram em dois anos”.

Este número, 8000 em 2 anos, parece bastante fraquinho. Tomando em consideração que 400,000 britânicos que recebem pensão no Reino Unido vivem fora do país e que só em Espanha estão a residir à volta de um milhão de britânicos, o que faz com que “idosos” portugueses optem por ficar no seu país de origem?
Um “idoso” que completará 65 anos em 2014
AJUDE FERNANDO TORDO
Ouça ou compre a obra de Fernando Tordo para lhe providenciar algum sustento. 100 audições no Spotify dão sensivelmente 0,01€ em royalties, das quais talvez uns 15% sejam entregues ao autor.
Uma parte da questão poderá ser respondida com o clima. Os “idosos” portugueses não parecem sentir grande motivação para se deslocarem para paragens mais aprazíveis, como Fernando Tordo, eventualmente considerando o país como suficientemente agradável para cá passarem os anos dourados. Aqui chega-se à conclusão que Portugal pode ser – e em parte já é – um destino para reformados europeus.
Por outro lado, só com um regime fiscal interessante será possível captar e manter reformados estrangeiros que acabem por investir – por exemplo, em imobiliário – na economia nacional. E isso é, naturalmente, extremamente desejável. Não é necessário reinventar a pólvora: basta saber aproveitar o que já existe.
De qualquer das formas, a última coisa que o indivíduo britânico, sueco, alemão, suíço, austríaco ou dinamarquês quer ouvir é aquele discurso parvo de “os ricos que paguem a crise” acompanhado de instabilidade fiscal a médio prazo. Há formas bem mais inteligentes de os ricos pagarem – e voluntariamente – a crise: basta que os deixem em paz.
Constitucionalmente falando os referendos são constitucionais ou não consoante quem os propõe?
08/11/1998 teve lugar em Portugal o referendo sobre a regionalização do qual constavam duas perguntas que constitucionalmente falando não eram susceptíveis de conduzir à contaminaçãp recíproca das respostas:
«Concorda com a instituição em concreto das regiões administrativas ?»
28/06/1998 Teve lugar o referendo sobre o aborto. O mapa dos resultados foi este segundo a CNE. Será que não se impôs a «abertura do referendo aos cidadãos recenseados residentes no estrangeiro»?
08/11/1998 teve lugar o referendo sobre a regionalização. O mapa dos resultados foi este segundo a CNE. Será que não se impôs a «abertura do referendo aos cidadãos recenseados residentes no estrangeiro»?
11/02/2007 Teve lugar o segundo referendo sobre o aborto. O mapa dos resultados foi este segundo a CNE. Será que não se impôs a «abertura do referendo aos cidadãos recenseados residentes no estrangeiro»?
“Já ninguém mais tem respeito pelos excessos de um artista”
No texto pungente que João Tordo dedica a seu pai, há uma passagem quem me parece um pouco exagerada:
Sendo João Tordo escritor, pessoa que escreve livros que são vendidos em estabelecimentos comerciais e que são comprados por portugueses (e quem sabe se por brasileiros e moçambicanos), a declaração do fim da cultura não demonstra grande consideração por 1) o seu próprio trabalho; 2) a sua editora Dom Quixote.






