a minha solidariedade com joão tordo
Quero manifestar a minha compreensão e integral apoio ao que escreveu João Tordo, o filho do cantor Fernando Tordo, na carta que dirigiu ao seu pai, no momento em que ele abandona Portugal, a isso forçado pela pobreza em que se encontra o seu país. Sobretudo revejo-me plenamente naquela parte em que diz que é insuportável viver num local que foi governado “por gente que fez tudo para dar cabo deste país”. Concordo em absoluto. Ainda me lembro do que foi feito em 1975 e nos anos seguintes, para destruir a nossa economia com a nacionalização e consequente destruição de empresas até aí rentáveis e do nosso tecido produtivo. Tenho bem presente a cultura de ódio, que ainda hoje perdura, gerada em certos sectores da nossa sociedade em relação ao “capitalista”, isto é, a quem está disposto a investir o seu tempo, trabalho, esforço e dinheiro na criação de empresas e de emprego. Não me esqueço dos sucessivos governos, que arrebatavam o voto e o entusiasmo da multidão, que nos garantiam soluções milagrosas, que sempre passavam por gastar mais dinheiro dos contribuintes em obras faraónicas e em investimento público, o tal que criaria riqueza garantida e emprego seguro. Como não esqueço, também, os muitos bordéis do regime suportados pelo dinheiro do povo, de que os governos nunca se quiseram livrar para sustentar amigos e apaniguados, justificando-se sempre com o doce pregão de que se tratavam de bens públicos que a iniciativa privada não poderia assegurar. É graças a essa cultura de destruição de riqueza e da iniciativa e da propriedade privada que este país quase deixou de produzir e de ter empresas que garantissem trabalho e recursos para sustentar uma vida de qualidade aos seus cidadãos. Incluindo aqui a cultura, a tal a que sempre se dedicou Fernando Tordo, um bem que as pessoas só podem consumir quando têm assegurada a satisfação de outros mais elementares para a sua existência. E é devido a quase não existirem empresas empregadoras em Portugal que pessoas como Fernando Tordo, e outras como o filho de Fernando Tordo, têm de emigrar. Espero que o João Tordo tenha já compreendido isto.
A maldade neo-liberal da semana
Tenho dificuldade em perceber esta comoção com a emigração de Fernando Tordo. Não creio ser suposto que Portugal empregue os cantores, ex-cantores e candidatos a cantores. Ninguém impede Fernando Tordo de cantar em nenhuma das salas de espectáculos de Portugal. É livre de cantar ou de não cantar. Se achou melhor ir trabalhar noutro país e até tem lá trabalho ainda bem. Foi uma escolha. Mas quando se diz que foi forçado a emigrar está a dizer-se o quê? Certamente que os portugueses não afluiram em número suficiente aos seus concertos ou não compraram os seus discos. E contudo ele interpretou algumas belas canções. Como a Tourada ou o Adeus tristeza. Descobriram agora que queriam ouvir Fernando Tordo? Agora é tarde.
Nicolas Maduro acabou de entronizar o líder da oposição
Do Panamá vê-se Sines

Ide plantar rabanetes no Rossio
É perfeitamente natural que a esquerda ex-revolucionária-neo-socratista veja regozijo dos malvados da direita nos confrontos venezuelanos. É natural porque a violência está-lhes no sangue.
Alguém achar que uma proto-guerra-civil é algo a festejar é típico do conforto chic da esquerdalhada jacobino-caviar que quer Mirós.
Admito ter saudades da altura em que os tolos só acampavam no Rossio e plantavam rabanetes para “a comunidade”.
Estamos lixados
Onde está o Rui Mateus?
Isto de um tipo ser filiado e apresentar candidatura concorrente à oficial do partido tem que se lhe diga. Por exemplo, para Mário Soares, a expulsão de Capucho é “inaceitável”. O histórico ex-austeritário acrescenta “que é a prova clara de que o partido que se diz social-democrata não o é. É um partido populista de direita, sem outros valores que não sejam os mercados e os interesses. E em que as pessoas não contam, como se tem visto”.

Onde está Rui Mateus, que procura Narciso Miranda?
Em Agosto de 2010, Narciso Miranda mostrava-se indignado com a Comissão Nacional de Jurisdição do PS, considerando “uma atitude kafkiana, para não dizer estalinista” a sua expulsão por candidatura em lista concorrente à do partido. Aparentemente, no PS, só se pode ser expulso “por falta grave”, por exemplo, “integrar ou apoiar expressamente listas contrárias à orientação definida pelos órgãos competentes do partido”.
A Terra e o Sol, a Europa e a América
Poucas coisas geram tanto entusiasmo entre aquela parte do público – e da tribo dos jornalistas – com tique antiamericano do que uma notícia sobre a profunda ignorância do que imaginam ser a América profunda. Este fim-de-semana tivemos mais um desses episódios, com muita gente a resfolegar porque “um quarto dos americanos ignora que a Terra gira em torno do Sol”. Pena que ninguém tenha publicado os resultados de um inquérito equivalente na União Europeia. É que se nos Estados Unidos 27 por cento da população ignora os ensinamentos de Copérnico, na Europa a percentagem sobe para 33 por cento. Basta comparar este gráfico com as percentagens de respostas certas:
Aqui podem encontrar-se mais gráficos comparativos. Por eles se pode ver como, apesar do preconceito, também em questões de cultura científica básica, a Europa compara quase sempre mal com os Estados Unidos. Só que isso nunca é notícia nos jornais nem motivo de galhofa nas redes sociais.
Ao cuidado do Público, DN, JN, i, RTP, Lusa…
É inevitável

A pertença aos 99%, we are the people e outros slogans de marketing não é base para um sistema sustentável de comunidade. Os movimentos occupy não se distinguem da fila para o novo iPhone. Não é de surpreender que, ciclicamente, o mainstream pop opte por valorizar espiritualidade após a venda de uma – só mais uma – revolução não concretizada.
De vez em quando o mundo parece compreender que não sabe o que aí vem excepto que será sempre o que sempre foi. E ainda bem.
E os portugueses que não têm ordenado de eurodeputado viveriam de quê?
Rui Tavares descobriu um estudo que o deixou contentissimo. Garante esse estudo “encomendado pela União Europeia dos Sindicatos a um professor da Universidade de Bremen, Andreas Fischer-Lescano” “que a ação da troika viola a Carta Europeia dos Direitos Fundamentais. (…) “A estabilidade financeira”, diz ele, “foi posta acima de todas as outras considerações”, mesmo as que são essenciais à própria estabilidade financeira (como a estabilidade social). E, embora os próprios países tenham tomado a decisão soberana de assinar os memorandos de entendimento, alega o jurista que “há limites para o que se pode pôr num memorando” sobretudo quando a alternativa do país é a bancarrota. Como para os indivíduos, para quem a escravatura por dívidas foi abolida, também para os estados há de se chegar à conclusão de quem nem tudo é possível fazer com um país endividado.”
Portanto em 2011 nós teríamos vivido de quê? As reformas, o SNS, as polícias, a escola pública… teriam sido pagas em géneros? A crise vista do conforto da eurocracia torna-se muito difusa.
Graciano Saga
Faleceu ontem, em Paris, vítima de doença.
Não será proposto para o Panteão. Não terá direito a transmissão em directo pelas televisões que transmitem o autocarro da selecção a deslocar-se por SCUTs para o aeroporto. A urbanidade-bem-pensante ofendia-se pela associação de Portugal ao cantor-emigrante, como se o “flagelo da emigração” portuguesa fosse uma mera consequência governamental que apenas afasta do país especialistas em física quântica. O underdog português só importa como calhau para arremessar.
Condolências à família e amigos.
As contrapartidas
Muito interessante este caso das contrapartidas dos submarinos. Foi um caso em que se gerou uma série de suspeições mas que no fim se conclui que a acusação não tinha qualquer sustentação e que o próprio conceito de contrapartidas é inaplicável. Mais um falhanço do DCIAP.
Os Mirós
É um segredo muito bem guardado, de que ninguém fala, mas parece que um dos bancos que o Estado nacionalizou tinha uns quadros de um autor famoso. Dizem que é o Miró, mas há quem fale em Picasso, Cézanne, Renoir ou qualquer outro nome que consigam encontrar na Piquipédia. Tive acesso a alguma informação, mas não confirmo nem desminto que o quadro que ilustra este post pertença à colecção do tal banco. Pode tudo não passar de um boato. Provavelmente é um boato, caso contrário o assunto já teria gerado vasta indignação. Afinal o governo prepara-se para vender o património artístico nacional. ATENÇÃO, O GOVERNO QUER VENDER A ARTE!. Continuam calmos?
Mas não era do caso concreto que eu queria falar, digo, do caso hipotético, não levem muito a sério a possibilidade de existirem Mirós escondidos nas arcas do BPP. Vamos pensar em termos abstractos: em que condições é que o Estado deve impedir a exportação de arte para o estrangeiro?
Um critério geral poderia ser algo como: qualquer obra de arte com ligação à cultura portuguesa não pode ser exportada. Este critério excluiria todas as obras de arte existentes em museus portugueses que estejam cá há centenas de anos, mas tenham sido importadas e sejam representativas de outras culturas.
Talvez um outro critério: qualquer obra de arte com um historial em território português. Inclui obras há muitos anos em território português, e até impede a venda dos Jerónimos (estou a prever que num hipotético debate, sobre venda de Mirós, se fale na venda dos Jerónimos às peças). No entanto, este critério falha quando estão envolvidos tesouros nacionais dispersos pelo mundo e que alguém consiga importar. Imaginem uma edição antiga dos Lusíadas perdida algures no mundo.
A combinação dos 2 critérios talvez seja muito melhor: qualquer obra de arte com ligação à cultura portuguesa e/ou com um historial em território português. Claro que este critério exclui os hipotéticos Mirós. Exclui qualquer obra de um autor estrangeiro, sem ligação a Portugal, importados recentemente. A questão é se deve excluir e quais seriam as consequências? Bem, a consequência mais óbvia é que a importação por privados de obras de arte seria desincentivada. Ninguém está interessado em importar obras de arte se depois não puder revender livremente. A extensão do desincentivo dependerá do tipo de compensação que o estado esteja disposto a dar aos proprietários. Mas o desincentivo existe. Se queremos que as obras de arte de autores contemporâneos venham para Portugal teremos que ter muito cuidado com as limitações às exportações que são impostas.
Pronto, é tudo. Não fiquem a pensar que existem por aí uns Mirós que o governo neoliberal do Passos Coelho quer vender. Inventei a história para dar algum picante ao post. O importante aqui era discutir os princípios base que devem reger a exportação de obras de arte.
Ui, fogueira com ele
Típico defensor da “liberdade de expressão, democracia e progresso”O João Miguel Tavares escreveu um texto intitulado “A vergonha do aborto gratuito”. Independentemente do conteúdo, basta o título para iniciar o processo: poucos – mas existem – tentarão rebater a argumentação; os restantes gritarão, batendo no peito com a soca, vociferando a ferocidade do “fássismo” moderno. Até na arte do ad hominem há diferenças no pré- e no pós-troika: antes bastava o “fásssista”; agora é necessário evidenciar que o autor de tamanha blasfémia à seita do politicamente correcto é também ignorante, bruto, indigno e ao serviço de uma força oculta ultraneoliberal-ultraneoconservadora-fascizante cujo objectivo é a destruição da sociedade e da civilização através do comentário, provavelmente através de profissão obtida horizontalmente ao serviço do inimigo internacional.
Independentemente do teor do artigo, que não vou comentar (já aqui disse o que tinha a dizer sobre o assunto), expresso desde já a minha empatia para mais um deglutido pela liberdade de expressão em países enamorados pela autofagia comunista e/ou maluqueira das redes sociais.
Já me estragaram o Verão
Depois do Verão de 2013 ter sido o mais frio desde 1816, não vejo motivos para entusiasmo por 2014 poder ter o Verão mais quente de sempre.
Como todos sabemos, a variabilidade do tempo tem afectado de tal forma as previsões meteorológicas que a própria terminologia oscila entre “aquecimento global“, “arrefecimento global” e o mui neutro “alterações climáticas“.
Depois do Verão de 2013 ter sido o mais frio desde 1816 e o sexto mais quente de que há registo, as “alterações climáticas” começam a parecer “ciência” tão boa como o cainesianismo. Como dizia o imortal, as férias não se gozam, gerem-se.
lázaro
Quando António Capucho se preparava para uma reforma política pacata, casualmente intervalada por algumas farpas dirigidas a quem não lhe tem dado a importância de que ele se julga merecedor, as superiores inteligências que pairam pelo PSD resolveram aumentar-lhe a idade da reforma, proporcionando-lhe uma extensão da vida política na qual já nem ele mesmo acreditava. O entusiasmo é tal que já se vê na Presidência da República, cargo para o qual ele “sente ter perfil”, fundado em “experiência política, bom senso e um currículo diversificadíssimo”. É certo que nem as inteligências do PSD previram tamanha maldade em resultado dos seus impulsivos actos, nem Capucho é Marcelo para se aguentar muito tempo a planar sobre estas águas. Mas que conseguiram, ainda que fugazmente, ressuscitar um morto, lá isso conseguiram.
saúde excelente e recomendações à prima
«O PS está de boa saúde e recomenda-se», não se cansou de repetir, há dois dias, António José Seguro a uma persistente jornalista que teimava em querer saber a sua opinião sobre uns comentários pouco abonatórios que Carlos César fizera acerca dessa mesma excelente saúde do PS e da sua, também ela muito saudável, liderança.
Seguro, de quem consta ser um estupendo rapaz e um amigo do seu amigo e a quem a Divina Providência concedeu, num momento de estranha conjugação astral, a chefia formal do PS, partido que ele controla com o talento caciqueiro de um apparatchik juvenil, não tem, todavia, um milímetro de espessura e de credibilidade intelectual para governar o que quer que seja, nem sequer para se fazer respeitar pelos barões e baronetes do seu partido.
Foi exactamente isso que afirmou Carlos César e que Mário Soares parece querer repetir um dia depois, com especial acutilância. Consciente das consequências eleitorais próximas que tanto talento trará ao PS, Soares, o verdadeiro barómetro do baronato socialista, está a juntar as diversas sensibilidades do partido para, falhado Costa, desenterrar um candidato à liderança e dela apear António José Seguro.
Por conseguinte, a saúde do PS e, sobretudo, da actual liderança, é excelentíssima, como se pode ver. Está tudo tão bem, que até a prima se recomenda.
As novas fronteiras do eduquês
Rezemos aos anjinhos para que ele e a companheira não residam na mesma casa
Depilar ou não depilar: eis a manchete
No Dia dos Namorados, o Jornal de Notícias faz capa com depilação feminina. Aparentemente (e alegadamente), “doze médicas, enfermeiras e outras funcionárias do Hospital de S. João foram acusadas de falsificar documentos de supostos tratamentos dermatológicos para fazer depilações à custa da ADSE”.


Enfim, sempre em frente é que é o caminho, portanto – garanto – o seu dia não será mais parvo por ir ler “Bel’Miro – A primeira semana (uma retrospectiva)”, agora disponível na iBooks Store por 0€ (o que é um roubo, o autor merece 100% mais).
Primeira conclusão: pelo título, só é relevante que médicas se depilem à custa da ADSE. As “enfermeiras e outras funcionárias” não importam nada; se importassem, o título seria “trabalhadoras de hospital depilam-se à custa da ADSE”. Se por um lado a transversalidade a médicas, enfermeiras e outras funcionárias do fenómeno depilatório indica equidade e igualdade constitucional, por outro não evidencia a certeza absoluta demonstrada pelo autor na superioridade depilatória das médicas em relação a outras profissionais mais proletariamente dadas ao look acampamento-no-Rossio.
Segunda conclusão: uma (eventual) fraude de cerca de 2000€ pode chegar a capa de jornal nacional. Isto equivale a (eventual) fraude per capita inferior a 200€. Daqui se conclui que, amanhã, a capa do JN poderá ser a dívida de 1324€ do Sr. Américo ao condomínio do prédio sito em Loivos da Ribeira, Baião.
Condição de sustentabilidade da dívida II
Li alguns posts na blogosfera em que se procura analisar se um juro de 5,1% torna ou não a dívida pública portuguesa sustentável (por exemplo, aqui). Por incrível que possa parecer, o juro das novas emissões a 10 anos é praticamente irrelevante desde que se mantenha num valor razoável. Há duas razões para ser assim, primeiro o juro a 10 anos é o juro máximo e não o juro médio e segundo o custo das novas emissões será diluido no custo dos empréstimos anterior, contratados a uma taxa média razoável. A taxa de juro média da dívida é actualmente de cerca de 3,7% e as novas emissões levariam muito tempo a fazer subir esta média. Note-se que entre a entrada do euro e a bancarrota Sócrates, a taxa de juro a 10 anos manteve-se numa faixa entre os 3,5% e os 6%. Ou seja, o valor de 5,1% está um pouco acima da média e não devemos esperar valores muito mais baixos que os actuais.
Para estabilizar o rácio Dívida/PIB_Nominal, tem que se verificar o seguinte:
Crescimento_nominal > (PIB_Nominal/Dívida) * défice
Se considerarmos inflação de 1,5%, crescimento real de 1% e que PIB_Nominal/Dívida é actualmente 0.75, chega-se à seguinte condição de sustentabilidade da dívida:
défice < Crescimento_nominal /(PIB_Nominal/Dívida)
défice < (Crescimento_real+inflação) /(PIB_Nominal/Dívida)
défice< (1,5+1)/0.75
défice < 3,3%
Atendendo a que o custo do serviço da dívida é actualmente de cerca de 4,5% do PIB, isto implica um superavit primário de cerca de 1,2%. Este valor tem que progressivamente aumentar à medida que o rácio (PIB_Nominal/Dívida) diminui, mas nada que não possa ser alcançável.
Claro que para haver uma margem mínima de segurança, o défice tem que descer para valores próximos de zero nos tempos bons para não haver risco de bancarrota quando vier uma recessão.
A escravatura nos jornais
As crises, como sintomas de doença exigindo cura, têm sempre coisas positivas; a evidência de sintomatologia é fundamental para o diagnóstico; o medicamento, por muito amargo que seja, é a única forma de resolver a doença. Um dos efeitos laterais da necessidade de terapêutica é aferir-se a determinação do doente para a resolução do problema. Assim, uma crise, por efeito lateral, permite evidenciar a estupidez do paciente.
“É cada vez maior o número de portugueses sujeitos a trabalho escravo no seu próprio país” é um título-tratado em estupidez. Só no título levantam-se várias questões:
- “É cada vez maior” em relação a quê?
- O que é “trabalho escravo”?
- Escravatura é mais relevante se for no próprio país e não no estrangeiro?
“Anda cá, escravo, anda receber os teus 30 euros diários”As respostas de Carlos Dias, no corpo do texto, poderão ser inferidas: não sei; não tenho a certeza; não sei.
Mais à frente, o sagaz jornalista consegue borrar um pouco mais a pintura (parece impossível) referindo que os “na fronteira do trabalho escravo” (afinal não são escravos, só borderline) recebem entre 20 e 30 euros por dia; em 22 dias isto origina entre 440 e 660 euros mensais. Com uma média mensal de 550€, o brilhante artigo de Carlos Dias acaba a demonstrar através da apanha de azeitona que um jornalista recém-contratado por um jornal nacional é, na realidade, um escravo. O que podemos constatar é a sorte de Carlos Dias: pode escrever estas coisas em vez de estar a apanhar azeitonas.
Poderia perguntar, perante uma dificuldade embaraçosa, o que é um “falso recibo verde” mas nem vale a pena entrar por aí.
Nota: correndo o risco de fomentar “trabalho escravo”, vou desligar os comentários neste artigo.
Estranhos tempos estes
Em que ora nos comovemos com a história de Philomena e depois achamos moralmente aceitável que algumas mulheres sejam reduzidas à condição de barriga de aluguer. Acham que um dia elas não irão à procura dos seus filhos?
Uma saída limpa será sempre bastante suja
Vai por aí uma grande festa sobre a “saída limpa”, “à irlandesa”. A emissão de dívida de que, ontem, que foi um sucesso, aumentou a expectativa da maioria – pelo menos daqueles que, na maioria, puseram o relógio em contagem decrescente e só sonham com o momento em que possamos voltar a gastar com alguma largueza. Tal como aumentou o nervosismo da oposição, para quem a hipótese de as coisas correrem bem parece ser sinónimo de tudo correr mal. A forma como o ministro das Finanças dos “sete por cento” criticou a insustentabilidade dos 5,11% e as declarações de Seguro no mesmo sentido mostraram mesmo como lhes parece faltar memória sobre um certo período recente da história da dívida portuguesa (o governo Sócrates chegou a emitir dívida a 5 anos a 6,4%).
Pessoalmente acho que devemos ir mais devagar.
Primeiro que tudo, é bom recordar que uma “saída limpa” será sempre suja por juros mais altos do que os expectáveis no caso de um programa cautelar. Podemos estimar vários cenários, mas este aqui desenvolvido por Paulo Trigo Pereira é credível. A sua estimativa é que os juros que teremos de pagar a mais por uma “saída limpa” ascenderão a uns mil milhões de euros.
Depois há um outro aspecto que poucas vezes é considerado: ninguém sabe neste momento o que será um “programa cautelar”. A Irlanda não escolheu a saída apenas porque estava com os juros relativamente baixos (mais baixos do que os nossos nesta altura), mas porque teve receio do que poderia significar um programa cautelar. Portugal estava à espera Ler mais…
Vale a pena ler
antes que outro assunto indignante nos indigne e depois deixe de indignar pq, como lembra o Vítor Cunha, alguém lembra que Sócrates já tinha feito o mesmo e aí o assunto indignante passa de indignante a esquecido e perfeitamente normal, temos mesmo de ler este texto António Araújo sobre o massacre do Ruanda. Impressionante.
Simon says
O caso Miró mirrou. Hoje já não sentimos a capacidade de nos esventrarmos pela ausência de cultura multiplicadora a exibir na nova Casa Miró para construir no Campo das Cebolas. Algures entre as 20h30 e as 21h00 de Domingo*, o fenómeno lusitano de déficit de atenção deslocou-se para outra coisa qualquer (que não importa referir já que, sendo quarta-feira, há grande probabilidade de esta também ter sido substituída por algo ainda mais desesperadamente importante).
A forma básica para se mudar de assunto indignante em Portugal é simples: basta demonstrar que Sócrates teve a mesma ideia uns anos antes. Exactamente por este motivo, ainda há quem use a expressão “se tivessem aprovado o PEC 4” com a mesma frequência com que se conjectura como seria o mundo sem o grito do Ipiranga.
* O horário pode ser diferente, consoante as obrigações escolares do apresentador.
Dezembro de 1972: outros Mecos e como sempre muita sociologia
Aprender a aprender na escola pública
“Alunos a masturbarem-se durante as aulas, bolas de papel em chamas atiradas, dentro da sala de aula, contra os professores, sala de computadores com alunos e ver pornografia e a provocar os professores e tentativa de incêndio da escola”, são estas as queixas que um grupo de pais de alunos da Escola Secundária de Maximinos, em Braga, decidiu ontem dar a conhecer ao Procurador do Ministério Público, evocando que foram praticados “crimes de natureza semi-pública”.
— Jornal de Notícias
Que exagero. Os pais não lidam bem com as pequenas excentricidades de alunos motivados para melhorarem as estatísticas do ensino obrigatório com duração de 12 anos? A juventude, por natureza, é irreverente; estas actividades lúdicas devem ser integradas num programa de aprendizagem pluri-disciplinar de forma a que se aproveite o paradigma de aprender a aprender através da experiência individualizada de cada background sócio-cultural. Em defesa da escola pública e dos resultados do PISA, exige-se mais tolerância destes pais para com os métodos de estudo destes alunos. Se andam sempre a reclamar corremos o risco de estagnar o progresso.
Coisa tão bonita a cultura
Não deve ser a mesma UE
Eu tenho andado muito ocupada e relativamente distraída das coisas do mundo portanto desculpem que pergunte: a UE que está tão chocada com o voto dos suíços nas questões da emigração será a mesma UE que tem centros de detenção/acolhimento/ expulsão para emigrantese que portanto os selecciona podendo até alguns países como é o caso de Portugal atribuir vistos gold a determinado tipo de emigrantes e que tem ainda o triste hábito de deixar sós os países europeus que se confrontam com essas vagas de emigrantes como sucede em Lapedusa?
A democracia, esse hábito traiçoeiro que a elite europeia detesta
Os suíços votaram mal no referendo de domingo passado. Por uma estreita margem, é certo, mas deram o “sim” a uma proposta que pode comprometer a prosperidade económica do país. Mas fizeram-no democraticamente. Cumprindo as regras do jogo. Não há como não respeitar a sua escolha.
Acontece que respeitar a escolha dos eleitorados não é propriamente uma grande tradição na União Europeia. Já vimos, no passado, como a elite de Bruxelas fez repetir referendos até que o povo votasse de acordo com a sua vontade. Como isso será mais difícil de conseguir na Suíça, não só porque esta não faz parte da União Europeia, mas sobretudo porque o povo suíço tem o seu orgulho, as reacções dos líderes europeus foram de uma violência inusitada. Do porta-voz da comissão aos ministros dos Negócios Estrangeiros de países como a França, a Alemanha ou a Bélgica, o tom foi sempre o mesmo: os suíços vão pagar caro a sua ousadia.
Em vez de, com humildade democrática, aceitarem o resultado do referendo suíço e anunciarem que ele implicará a abertura de negociações com a UE, os líderes da EU ameaçaram a Suíça com a denúncia de todos os acordos bilaterais. Formalmente podem fazê-lo – politicamente mostraram a arrogância pan-europeia de sempre.
Há muito que venho defendendo que esta forma de comportamento das elites europeias é uma das razões do crescimento dos sentimentos antieuropeus, que hoje já são dominantes. Há muito também que defendo que modelos de integração que façam desaparecer o princípio da soberania nacional, esquecendo que a democracia só é realmente efectiva a nível nacional, só podem conduzir ao desastre e à implosão. O referendo suíço – para além das suas motivações locais, que eram erradas – vem reforçar esta minha argumentação. A previsível subida dos eurocépticos nas eleições europeias (e nem todos os eurocépticos são de extrema-direita, ao contrário do que é politicamente correcto escrever) vai ser outra manifestação de crescente desintonia entre a elite federalista e a opinião dos cidadãos.
Aqui há uns meses o Parlamento britânico chumbou, de forma surpreendente, a intenção do governo de Cameron de enviar, se necessário, tropas para a Síria. Foi também, na minha opinião, uma decisão errada. Mas nem por um segundo o governo ou a imprensa britânica a contestaram ou conspiraram para tornear a decisão dos representantes do povo. Tudo o contrário do que a Europa está a dizer e a ameaçar fazer com os suíços depois da sua escolha democrática.
Hitler reage à venda dos Mirós
Nem Miró
A SIC Notícias está a passar em directo o discurso do cabeça de lista do Partido Comunista Português à “Europa neocolonial”, isto em defesa da “democracia”.
Está mesmo na altura de ultrapassarmos o surrealismo.
Bel’Miro – A Primeira Semana (uma retrospectiva)

Um livro de Idelberto Adaberto
Os leitores do Blasfémias, tal como 95% dos portugueses, são apreciadores de arte contemporânea. É com o prazer que deriva da cultura que vos convido para a leitura do livro “Bel’Miro – A Primeira Semana (uma retrospectiva)”, disponível para Kindle, iPhone/iPad/Mac/ePub e PDF (ePub e PDF gratuitos).
Adicionalmente, e em verdadeira expressão artística multimédia, podem ver o anúncio do lançamento desta obra em vídeo:
Editado em 14/2/2014, dia dos namorados: acrescentado link para iTunes.
Vamos acabar com as girafas na varanda
El zoo de Copenhague sacrifica a una jirafa sana pese a una intensa campaña online
a) Nunca tenham percebido que nos zoos nascem muitos mais animais do que aqueles que estão em exposição, ou que vão para outros zoos
b) Considerem razoável devolver a girafa ao que definem como seu habitat natural. O habitat natural desta girafa era o zoo e devolvê-la à terra dos seus antepassados só se fosse para que ela tivesse uma morte mais natural tipo ser logo morta por um carnívoro pois a sua capacidade de sobrevivência era muito baixa.
c) Que se indignem por a carcassa ter ido para os leões. Os leões quando podem comem girafas. Não existem leões vegetarianos.
d) Não devendo a girafa reproduzir-se por causa dos problemas de consaguinidade e estando as redes sociais tão enervadinhas a solução seria? Fazer uma jaulinha só para esta girafa? Mandá-la para outro zoo? E os outros zoos queriam a girafinha?
Enfim a maluqueira tomou conta do mundo em matéria de bichos e só continuo sem perceber quem adoptou as ratazanas que o PÚBLICO garante que foram resgatadas duma casa em Palmela.
Eu até sou capaz de aceitar os “vistos dourados”…
…mas tribunais especiais já me parece uma coisa que talvez só o famoso absinto das praxes poderia explicar. Não havendo notícia da bebida, o que provocará tais sinais de toldação?
Descubra os mirós do BPN
Precisamos de Mirós
Criminoso com diplomática modelo caterpillarAndam aí pessoas que ridicularizam a falta de gosto dos portugueses por arte contemporânea, como se todos fossem ultramontanos rudes e desprovidos de capacidade para apreciar um bom traço quando o vêem. Ridicularizar as pessoas não é bonito, ainda para mais tendo-lhes sido retirada a oportunidade para apreciarem a colecção Miró antes desta abalar para terras de Sua Majestade em mala diplomática. Com este artigo pretendo sensibilizar as pessoas para o valor incalculável da colecção, que a Procuradora Geral da República (PGR) já deliberou ser de interesse nacional indiscutível para a Política Cultural do Ministério Público (PC-MP).
Rrrruan Miró nasció em Barcelona, território português entre 1580 e 1640*, numa espécie de Miragaia lá do sítio, fruto do amor entre Miquel e Dolores adjuvados pela ausência de planeamento familiar moderno. Depois pintou muitos quadros e foi viver para Palma, onde decerto visitou a Playa de Es Trenc§. O artigo da Wikipédia pode ajudar a compreender a dimensão da importância que o artista tem nos corações dos portugueses desta e de gerações anteriores€: influenciando uma miríade de veraneantes de Isla Canela a Badia de Portbou, com castanholas+, paella y patatas bravas£ ao som de um Farfisa esganando a canção belga “Eviva España“, Miró está para os portugueses de calções e sandálias como os cigarros Lola estão para guardas fiscais nos idos pré-CEE.
Quadro de Peter Paul Rubens, não relacionado com este texto, apenas usado para permitir layout agradável ao artigoManter os Mirós em Portugal é essencial para recriar Benidorm em Almada, destruída pelo lusitanismo fadunchoso de Amália, do Benfica de Eusébio e de Fátima do novo aeroporto da Grande Lisboa. O país Portugal já não aguenta a sua portugalidade. Que o digam os nacionalistas da assembleia da república, sempre prontos para demonstrar a superioridade do eclectismo lusitano sobre o ultramontanismo-teutónico-merkeliano, pela solidariedade, suas hienas nazis.
Miró é Portugal do Portugal farto de Portugal. Não há português, com orgulho de ser português, que não esteja farto cá do pardieiro, voltando, no entanto, sempre à melhor pior terra do mundo. Portugal precisa dos seus heróis nacionais: os Krugman, Stiglitz, Schultz (aposto que pintam). O que Portugal não precisa, nesta altura, é de portugueses. Não há melhor maneira para valorizarmos Portugal que investirmos fortemente no sabor de pa amb tomàquet na praia de Madrid.
§ Não há provas documentais que suportem esta teoria, coisa que nunca impediu um socialista.
+ Zona de castanholas mais reduzida que a apontada (basicamente ultramontanos).
+em catalão ou em russo, mais adequado para intelectuais que querem a versão redux.
£ Contrariamente à opinião popular, todo o tom avermelhado do molho é oriundo de pimentón de la vera e não de tomate que, diga-se de passagem, não entra nesta receita.
Os mirós do BPN têm algum valor artístico?
Os mirós do BPN têm algum valor artístico? Uma forma de responder à pergunta é analisando os mirós que os especialistas em arte da blogosfera escolhem para ilustrar posts.
Pacheco Pereira escolheu um quadro que está no Centro Pompidou em Paris:
O Luís M. Jorge escolhe um quadro vendido na Christie’s em 2007 a um coleccionador americano. O da direita não consegui localizar mas não está na colecção do BPN.
Maria Teixeira Alves escolheu um quadro de um museu de Bufalo, Nova York. A escolha anterior, à direita, não era um Miró.
O Eduardo Pitta escolheu uma escultura que está em Barcelona:
Os jornais fazem a mesma coisa que os blogs. Por exemplo, esta noticia do Jornal de Negócios é ilustrada por um quadro que está no MoMA.
Em suma, parece haver um grande consenso na blogosfera e nos jornais de que os Mirós do BPN não são suficientemente bons para serem usados na ilustração de posts ou notícias. Também dá para perceber desta pequena amostra que há museus por todo o mundo a trabalhar as suas colecções há dezenas de anos de forma cuidada e racional. As suas obras são citadas e admiradas, mas eles também não as adquiriram por um acaso ou para bater o pé ao governo local. Pensem nisso.


Capa JN: dia dos namorados 2014


















