vão-se catar, pá – 2
Mais uma importante contribuição para a compreensão do fenómeno da praxe académica, esta do Professor Cardoso Rosas, que nos explica a dialética da praxe, versus o bullying e o aumento da agressividade conjugal: “aliás, há certamente uma relação próxima entre o crescendo da praxe e o aumento do ‘bullying’ e também da violência entre namorados que se nota no meio estudantil e está já documentada”. A luta de classes rendeu-se aos assuntos do coração.
in dubio pro mp
O Tribunal de Instrução Criminal de Lisboa decidiu não levar a julgamento Frederico Cardigos e a sua mãe, acusados, pelo Ministério Público, de abuso sexual do filho menor do primeiro, a partir de uma denúncia feita pela sua antiga esposa e mãe da criança. Dificilmente haverá crime mais hediondo do que um pai abusar sexualmente de um filho, pelo que não pode conceber-se outra hipótese que não seja a do TIC ter analisado minuciosamente toda a acusação. A verdade é que concluiu pela inexistência de quaisquer indícios da prática desses actos, que, ao envolverem uma acusação feita a um ex-marido e a uma sogra, levam a crer, em face das conclusões do tribunal, ter-se tratado de uma mera vingança conjugal. De todo modo, fica uma pergunta por responder: na falta desses indícios, o que levou o Ministério Público a acusar? E, já agora, que reparação poderá existir para alguém que foi desta forma acusado pelo estado português, que viu a sua carreira abalada, o seu bom nome enxovalhado, a sua relação com o seu filho emporcalhada, e sobre quem, por mais que se diga e prove, pairará eternamente a sombra pública da dúvida? O estado não é responsável pela destruição do carácter dos seus cidadãos, promovida pelos seus representantes legais? Por outras palavras: entre acusar um pai e uma avó de práticas pedófilas sobre o seu filho e neto e o reconhecimento da ausência absoluta de indícios que levem a essa conclusão, vai um oceano de diferença. O Ministério Público não é responsável pela actuação dos seus agentes?
Protesto logo existo
Artigo 26º
Iniciativa
Nos oito dias subsequentes à publicação da resolução da Assembleia da República ou do Conselho de Ministros, o Presidente da República submete ao Tribunal Constitucional a proposta de referendo, para efeitos de fiscalização preventiva da constitucionalidade e da legalidade, incluindo a apreciação dos requisitos relativos ao respectivo universo eleitoral.
Hoje: Bloco acusa Cavaco de “perder” oportunidade de tomar “decisão política”
“Ontem”: BE acusa Passos de querer suspender a Constituição.
A maluqueira da praxe
De vez em quando convém pegar na pitoresca ideia de ex-presidentes da república portuguesa escreverem artigos de opinião, como se não tivessem sido obreiros na construção do país que agora criticam. O caso de Soares é particularmente divertido pelo esforço feito para desmontar a sua própria história. Vamos ver:
Pelo contrário, a classe média está cada vez mais pobre. E os pobres vivem no desespero da miséria, quando não emigram.
A reter: os pobres emigram e há muitos pobres. Isto estraga a noção de ser “a geração de licenciados mais qualificada de sempre” a emigrar ou, em alternativa, que os pobres são licenciados, destruindo a noção de falta de mão de obra qualificada.
Os pensionistas a quem o Governo tirou parte das pensões são forçados a emigrar.
Porque não estão dispostos a trabalhar em Portugal, só no estrangeiro. Talvez exista um país que pague pensões especiais, mais elevadas, a pessoas que trabalharam em Portugal e nunca descontaram para o sistema de reformas desse país. Isso, deve ser isso.
Os suicídios aumentam e a criminalidade também.
Tem dados sobre o suicídio? Já chegamos à taxa dos suecos? O INE agradece.
Em criminalidade tenho que concordar, principalmente incluindo as caixas de comentários em jornais e blogues.
Quanto gastaram nas últimas viagens que fizeram e quanto custaram as respetivas comitivas? Ninguém sabe!
Mas, mas… Mas, ó doutor Soares…

A desigualdade entre os portugueses é cada vez maior, escandalosamente maior. Mesmo no tempo de Salazar, porque Salazar não roubava, embora deixasse alguns fazê-lo. Nunca foi tão longe, mesmo durante a guerra, na destruição do País.
Então aquela cena da luta contra o fascismo foi um logro. Andou o doutor Soares ali a apregoar o sofrimento todo do Estado Novo e, afinal, agora é que é luta a sério, no jornal e nas uniões da esquerda. Deve ser duro chegar a este patamar da vida reflectindo sobre a inutilidade de tantos anos desperdiçados.
É certo que as crianças na província andavam de pé descalço, mas não tinham fome.
Comiam os sapatos.
Estamos a caminho de uma nova ditadura (embora sempre a falar de democracia) e há infelizmente tantos com medo que lhe tirem ainda mais do pouco que tem, que estão cada vez mais desesperados.
Eu sei. Vejo-os todos os dias nos jornais e nas televisões. Força aí, doutor Soares.
Quanto é que até hoje pagou à troika e quanto vai pagar ainda?
Tinha que ir ler. É chato.
Quanto tem o Governo recebido da Europa, nestes dois anos e meio, e para onde foi o dinheiro?
Uma parte foi para a Fundação Soares.
Tanto quanto julgo saber, o que os trabalhadores perderam, em média, de salários (privados e públicos) desde a posse deste Governo é de 10%. Será assim? Para onde foi esse dinheiro?
Uma parte foi para a Fundação Soares.
Depois o texto continua mas “uma parte foi para a Fundação Soares” serve de resposta sempre.
A astrologia ganhou à ideologia
vão-se catar, pá!
A luta de classes estava a ficar monótona. A falta de alternativas ao capitalismo e à sociedade burguesa havia secado as gargantas dos libertadores de povos e dos paladinos das vítimas do grande capital. Grande capital que, aliás, já quase não existe. Os Belmiros e Amorins são cada vez em menor número. Os antigos donos dos bancos ou respondem em tribunal, ou estão presos, ou falidos, ou ambas as coisas. A maioria das grandes fábricas, outrora palcos naturais dessa dialética entre opressores e oprimidos, classe dominante e dominada, senhores e escravos, fechou portas, tamanha foi a intensidade da luta. Os nossos jovens, em quem sempre se deposita a esperança de um mundo mais fraterno e melhor, já não distinguem Marx (Karl) de Marx (Groucho). Na maior parte dos casos, não conhecem um nem outro. E os poucos que os distinguem riem-se mais com o primeiro do que com o segundo.
Quando tudo parecia perdido e a luta começava a deixar de fazer sentido, eis que se revela à humanidade um novo antro de dominância exploradora, uma organização que promove o “assassinato do indivíduo”, que obriga a “obedecer, rastejar, não discutir ordens, não ter amor próprio, não ser gente” e que forma “escravos inertes e ditadores fascistas”. Onde está esse covil de miseráveis? Onde se encontra essa gente nascida para espezinhar o próximo? Que entra na mente e na alma desprevenida de jovens desprotegidos e os transforma em lacaios e serventuários dos seus baixos e reles instintos de dominância? Onde está agora essa ralé que faz marchar a estalos de chicote as novas hordas de oprimidos e explorados?
A resposta é muito simples: na Universidade e nos grupos de praxe académica, como o país esclarecido e bem pensante recentemente descobriu e tem vindo a repetir à náusea, para consolo das boas consciências e das almas sensíveis.
Vão-se catar, pá!
Aos comentadores membros de conselhos gerais
Alguns comentadores políticos são membros do conselho geral de universidades e ao mesmo tempo muito críticos da praxe, entre eles José Pacheco Pereira (Universidade do Porto) e José Sócrates (Universidade da Beira Interior). Pois, sugiro que usem o cargo, que não tem que ser decorativo, para ajudarem a acabar com os apoios que as universidades dão à praxe. Aliás, até lhes fica mal andarem a comentar em público, como “analistas” desinteressados, algo que é da sua responsabilidade nos cargos que ocupam.
Argumentos
Da discussão sobre co-adopção noto que há muita gente que não consegue distinguir os dois argumentos seguintes:
1. As pessoas separam-se logo não deve haver co-adopção gay
2. As pessoas separam-se, logo o casamento (união de facto) não pode ser usado como argumento para justificar a co-adopção (gay ou hetero). O que não quer dizer que a co-adopção hetero possa ser admissível por outras razões.
Absolvição
De repente, todos somos especialistas em rituais secretos, marés e amnésias selectivas. Amnésia selectiva é acharmos que a culpa é do dux e não nossa. Todos somos mar do Meco. –João Taborda da Gama in Malomil
A culpa não é minha. Não estive no Meco, não aluguei uma casa para onde levei uns miúdos, não os convenci a irem para a praia para fazerem seja o que for e nem sequer estive perto do local. Também não pertenci a comissões de praxe e, apesar de ter frequentado uma universidade, nunca praxei ninguém nem me lembro de alunos do primeiro ano quando frequentava o segundo. À falta de uma letra escarlate que identifique deputados praxistas, poderei ter votado num deles, sim. Se calhar votei num pedófilo; como hei-de saber? Terei votado num indivíduo que bate na mulher? Devia comparticipar a existência de um jornalista a escrutinar todo e qualquer político 24/7 para ter a certeza que não adquiro mais culpas?
Mas fiquei intrigado com a possibilidade da culpa ser minha e de poder ser, eu próprio, “mar do Meco”. Deveria ter feito alguma coisa? Não tenho poder para acabar com praxes; nem sequer trabalho num universidade. Vejo praxes nas ruas da cidade, principalmente no início do ano escolar: poderei agir? Posso terminar com o risco e deixar de ser “mar do Meco”? Posso, por exemplo, disparar uma arma automática sobre todos os que, vestidos com trajes académicos, acompanhem inocentes crianças desprovidas de livre arbítrio mas capazes de frequentar estabelecimentos de ensino superior? Seria uma carnificina que me livraria da culpa a adquirir quando (e não “se”) estes indivíduos vierem a levar crianças desprovidas de livre arbítrio para uma praia durante a noite.
A culpa que tenho, assumo-a: sou culpado de ainda não ter relacionado “a maior fuga de cérebros da geração mais qualificada de sempre” com crianças sem livre arbítrio e, consequentemente, incapazes de calcular o risco associado a entrar no oceano Atlântico a meio de uma noite de Inverno. Pois então, acabei de me redimir.
Os meus sentimentos para as famílias que perderam os seus filhos.
Uma besta quadrada, esse nazi
O Hermínio Fagundes é uma besta quadrada. É um porco, um nazi, um oportunista deslumbrado, um imbecil causador de vergonha alheia, estúpido até mais não e com a mania que sabe, sempre pronto a prestar vassalagem em busca de tacho como recompensa neste governo de diletantes e ladrões que roubam ao povo os direitos humanos mais básicos apenas por motivos ideológicos de extrema-direita. Bem sei que o governo anterior não era bom mas este baixar de calças do Fagundes à ignominia só o torna ainda mais tristemente patético na indigência.
Este parágrafo permitir-me-ia obter participações nos média e, com alguma repetição, até a promoção a comentador residente num programa de televisão. Infelizmente para mim e felizmente para o Hermínio Fagundes e família, o visado é apenas ficcional.
A Barbie inventou as tatuagens
Vai ali uma confusão interessante nesta caixa de comentários sobre as praxes, como se tivesse sido afirmado que praxes e trajes académicos fossem criação exclusivamente portuguesa e com génese no Estado Novo, eventualmente exportados para o resto do mundo. Isso é a interpretação preguiçosa, como acreditar no PEC 4.
As tatuagens são BEM anteriores ao fim do século XX. “Bem” como em séculos. O historicamente recente regresso da moda de tatuagens, independentemente da génese destas, é uma apropriação do mainstream em nome da expressão de individualidade (através da homogeneização!) de práticas em grupos fechados e com significado próprio (militares, marinheiros,…). Não é um regresso à identificação lusitana pela sua herança celta.
No caso das praxes, após o 25 de Abril, Lisboa e Porto não eram percorridas por grupos de jovens pintados seguindo indivíduos trajados envergando colheres de pau. O regresso das praxes ou a sua criação (chamei-lhe tradição com aspas) em locais onde tal nunca existiu (todas as privadas são um exemplo) indicam, como dizia no texto, a abolição do complexo de adopção de algo que pudesse ser identificado como prática durante os anos de Salazar. Sublinho: haver trajes académicos em 1950 não significa que foram criados em 1940.
Mais ainda, o texto diz que hoje em dia a retórica fascista está bem em voga por aqueles que têm “os valores de Abril” sempre na ponta da língua, isto apesar de o fascismo não ser uma invenção do 25 de Abril. Nesse aspecto, a caixa de comentários é, como previsto, um bom exemplo.
Eusébio, Amália e Capas Negras
A praxe académica é um pequeno Portugal. O traje académico, que caiu em desuso no período queima-de-soutiens-português-que-em-Portugal-era-mais-sedes-de-partidos-por-gente-que-acabaria-no-parlamento, regressou em força nos anos 80 e 90 sob a capa da “tradição”, eufemismo para a imagem nacional dos anos 40 e 50 retratados em Capas Negras de Armando de Miranda (1947).
O que leva jovens, frescos de irreverência revolucionária e abarrotando ideias sobre um mundo versão 2.0 a adoptarem a “tradição” do Estado Novo? Estou certo que um sociólogo terá uma excelente não-explicação mas, e de borla para vocês, parece-me evidente que a irreverência revolucionária jovem é – como sempre foi – a tentativa de substituição de regras antigas pelo sentimento de necessidade de novas regras. Estas seriam em tudo iguais às anteriores mas com linguagem do presente, com mais ou menos acordo ortográfico, como se a renovação da sintaxe acarretasse nova semântica em si mesmo.
Desejo de abolição de estratificação social (por inevitável substituição por nova estratificação social) é uma característica de países desconfortáveis com a importação de tradições alheias. Como os movimentos de abolição da tourada, que negam a violência contra animais enquanto promovem o aborto, a negação paroquial da estrutura do país ou o conjunto de valores hereditários que definem a insularidade dos povos do sul. Não é em vão que as regiões do interior têm nomes como Trás-os-Montes ou Beira Interior: para lá delas morre o conceito de conforto dando lugar ao grande mundo hostil.
A criação de estruturas estatais em substituição das comunidades paroquiais é rejeitada, culminando na abolição do resquício da corte em cada região sob forma dos inúteis governos civis.
Eusébio, Amália e o Traje Académico. Portugal regressa progressivamente ao seu período lusitano, nem que para isso seja necessário chamar-lhe progresso. Mussolini cedo percebeu que o socialismo de Marx e Engels não funcionava com os povos do sul, permanentemente frustrados pelo esvaziamento de algo que os transcenda, elevando inevitavelmente o seu fascismo a uma religião. O fascismo é a evolução lógica para a utopia em povos paroquiais e as capas negras não passam de uma metamorfose sectorial de camisas negras. Citando Mussolini, “a verdade é que os homens estão fartos de liberdade”. A praxe é um mero ritual de iniciação na tribo fascista: hierarquia, poder, humilhação e ostracização dos enjeitados como a cola de uma sociedade que não compreende o conceito de liberdade individual.
A verdade é que uma grande parte dos auto-intitulados democratas e guardiões da liberdade (daqueles que ainda falam do PEC 4), independentemente da sua posição individual sobre a praxe académica, facilmente se identifica com este excerto:
a verdade, quando impedida de marchar, refugia-se no coração dos homens e vai ganhando em profundidade o que parece perder em superfície… Um dia, essa verdade obscura, sobe das profundidades onde se exilara e surge tão forte claridade, que rasga as trevas do Mundo — Rolão Preto in Inquietação (1963)
Pode facilmente confirmar isto seguindo os comentários a este post.
Leitura de fim-de-semana
Os holandeses usam a palavra Calimerocomplex, que, como pode intuir, indica aqueles que atribuem ao enorme e vil mundo a causa de todas as frustrações e do insucesso. Como Sócrates e a sua obsessão patológica pelo chumbo do PEC 4, por exemplo. É uma palavra que deve ser adoptada em Portugal, o país por excelência do auto-atribuído underdog em permanente queixa “do sistema” e dos “ricos e poderosos” do “poder instalado”. Sobre isso escreve esta semana Nuno Abrantes Ferreira (P3). A não perder.
Novos produtos que o mundo precisa na Grande Loja Blasfema
Este é um dia negro para a esperança do socialismo mundial. Todos fomos enganados por Hollande, o homem que nos prometeu croissance e o fim da austerité, fazendo-nos crer que desta vez seria diferente, com uma verdadeira alternativa à realidade. É com extrema desilusão que vos apresento esta nova linha de produtos na Grande Loja Blasfema, reflectindo a preocupação dos homens, mulheres e crianças comuns, pessoas que, como António José Seguro, também foram enganadas contra todas as expectativas razoáveis de utopia onírica.
Temos T-shirts (para homem, senhora e criança), capas para iPhone (que lhe permitem instagramar a manif em segurança), uma bela almofada (que lhe permite uma folga multiplicadora de crescimento pelo entusiasmo de novo messias igualitário) e um lindo babygrow para o seu bebé (também ele dado a tendências oníricas).
Com uma taxa plana de desconto igual a 75% para quem é mesmo boa pessoa de acordo com o cânone da verdadeira preocupação pela sociedade em geral, não permita uma espiral recessiva de quebra de consumo e compre já!
ADENDA: Mil perdões ao Pedro Quaresma, autor da ideia, pela omissão de agradecimento nesta iniciativa de divulgação patriótica anti-austeritária em prol do verdadeiro crescimento humanista de toda a sociedade em particular.
é preciso enterrar o senhor françois
“Meu Caro Camarada François,
Não sei por que ainda te trato assim! Tu vendeste-te e, contigo, vendeste todos os nossos nobres sonhos à plutocracia financeira, aos mercados extorsionários e criminosos, e à execrável Angela Merkel, com quem espero que não tenhas outras intimidades senão as ideológicas. Lamento, porque foste, para todos os socialistas do universo, um alvorar de esperança e uma lufada de ar fresco, que nos fez acreditar que outra política era possível e outro mundo também. Hoje és apenas uma tragédia e uma desilusão! Tu és um inefável traidor que salta de política em política como quem salta de cama em cama. Transformaste-nos a todos, os teus velhos camaradas e admiradores, em Ségolènes e Valéries, sobre as quais vertes a tua expessa e fétida baba concupiscente e promíscua, discípulo libidinoso desse outro libertino teu conterrâneo, conhecido, pelas nobres letras, como o “Divino Marquês”. Só que tu marquês não és, de divino não tens nada, e quanto às letras só se forem as das cartas xaroposas que escreverás às tuas torneadas amantes.
Escrevo-te esta carta, então, apenas para te dizer que na amada terra portuguesa te condenámos ao opróbio, ao ostracismo e ao desprezo absoluto. E para te deixar, em representação dos nossos sentimentos de repulsa por ti, um poema, não de exaltação ou de fervor épico, mas de desprezo total:
Abaixo o senhor François
É preciso enterrar o senhor François
é preciso dizer a toda a gente
que o Desejado já não pode vir a mim.
É preciso quebrar na ideia e na canção
a guitarra fantástica e doente
que alguém trouxe de Berlim.
Eu digo que está morto.
Deixai em paz o senhor François
deixai-o no desastre e na loucura.
Sem precisarmos de sair do porto
temos aqui à mão
a terra da aventura.
Vós que trazeis por dentro
de cada gesto
uma cansada humilhação
deixai falar na vossa voz a voz do vento
cantai em tom de grito e de protesto
matai dentro de vós o senhor François.
Quem vai tocar a rebate
os sinos de Portugal?
Poeta: é tempo de um punhal
por dentro da canção.
Que é preciso bater na troika que nos bate
é preciso enterrar o senhor François.
Sem admiração,
O outrora teu
Manuel”
mais um austeridatocrata
O PS não sabe mesmo a quantas anda. Sensatez e menos demagogia faziam falta ao partido e, já agora, ao país.
Estão a imolar cientistas
A polémica da redução de bolsas está ao rubro, isto após o pós- Eusébio, bola de ouro e co-adopção (a diversidade é fundamental nas indignações/paixões momentâneas dos portugueses). Passeando pelo Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra percebe-se a indignação: há trabalhos importantíssimos que deixarão de ser realizados. Eis alguns dos finalizados que assim escaparam à tendência de contenção orçamental causadora da maior destruição da ciência desde a imolação do Giordano Bruno:
- Mães e pais depois da “verdade biológica”? Género, desigualdades e papéis parentais nos casos de investigação da paternidade
- Novas poéticas de resistência: o século XXI em Portugal
- Dicionário Terminológico de Conceitos da Crítica Feminista
- Memória, Violência e Identidade: Novas Perspectivas Comparadas Sobre o Modernismo
- Feitiçaria e Modernidade em Moçambique: questionando saberes, direitos e políticas
- A Regulação do Consumo e a Partilha do Risco do Endividamento
- Representações sobre (i)legalidade: o caso da saúde reprodutiva em Portugal
- Poesia da guerra colonial: uma ontologia do “eu” estilhaçado
Memória
«1.28. O Governo compromete-se a reduzir o défice das Administrações Públicas para um valor inferior a 5.224 milhões de euros em 2013.» (*)
«O défice provisório das administrações públicas em 2013 ascendeu a 7151,5 milhões de euros» (*)
não deve tardar
É estranho: António José Seguro ainda não apareceu a dizer que, afinal, há muito dinheiro para gastar. Mas não deve tardar…
à grega estávamos nós
Teixeira dos Santos, o ministro das finanças de Sócrates que chamou o FMI à revelia do seu chefe, alega que o governo de que fez parte só não o fez mais cedo porque “teria sido desastroso para nós, nessa altura, termos enveredado por um programa ‘tipo à grega”.
Ele sabe, e nós sabemos que ele sabe, que nada disto corresponde à verdade, e a voz trôpega com que o disse denunciou-o muito bem. O FMI só veio quando veio por causa da teimosia do seu chefe, bem plasmada nas fantasias dos sucessivos pecs, e isso prejudicou a posição negocial de Portugal, porque, como é evidente, “negociou” já sem condições para negociar. Na verdade, assim que Teixeira dos Santos viu que já não havia tinta nos tinteiros para assinar os cheques do mês seguinte, mandou o chefe às urtigas e, qual Egas Moniz dos nossos dias, foi imediatamente pedir auxílio a quem nos podia auxiliar. O resto da história, e até a zanga entre os dois, é, infelizmente, do conhecimento de todos e também não deixa lugar a muitas dúvidas: para termos continuado a ouvir música, dançamos a dança que nos puseram a dançar.
A frase ontem dita por Teixeira dos Santos é, por conseguinte, inteiramente desprovida de sentido, e ele escusava de a ter dito. Até porque, se assumir o que de facto se passou e o que fez, não será dos que ficarão pior na fotografia.
Prefixem os vossos filhos
Lembram-se daquela altura em que os proponentes do casamento entre pessoas do mesmo sexo rejeitavam liminarmente o uso de outro termo que não “casamento”?
São as mesmas pessoas que dão à luz o conceito de co-adopção.
O que é uma co-adopção? É uma adopção (mau!) em que a criança já tem filiação com outra pessoa que também é casada com o adoptante (mau! É co-adoptante!). Podia chamar-se “adopção”? Tomando em consideração que um indivíduo pode adoptar crianças sem filiação chamando-lhe “adopção”, podia. Mas para quê? Não é muito mais simples chamar uma adopção de co-adopção criando num termo toda a história de amor? Os casos gerais não contemplam o amor, são frios. A prefixação é o sinal de amor.
A minha dúvida é, em caso de separação desse casal, se o co-adoptante continua a ser co-pai ou se é finalmente promovido a pai. Sem amor não há prefixos.
Porque não discutimos simplesmente a adopção, sem espinhas? Os defensores da co-adopção parecem mesmo preconceituosos.
ADENDA (11h00): As pessoas comem tudo incluindo a ideia de que a co-adopção já existe. Não é verdade: existe “Adopção de filho do cônjuge do adoptante“; não existe “Adopção do filho do cônjuge do co-adoptante”. Co-adopção é um termo caça-tolos. Adopção é adopção.
Não é a cama que conta
O Alexandre Homem Cristo defende neste post basicamente o seguinte:
A adopção não é um direito fundamental do adoptante, existem diferenças entre casais do mesmo sexo e de sexo oposto, e no entanto está em causa o reconhecimento de direitos fundamentais de minorias, mais precisamente o direito à igualdade. O Alexandre diz ainda que actualmente os casais de homossexuais são excluídos da adopção por causa da orientação sexual. Diz ainda que esta exclusão pode impedir a criança de ficar ao cuidado de uma pessoa com quem vive, só porque essa pessoa é homossexual.
Ora, nada disto faz sentido. Se a adopção não é um direito fundamental então não faz sentido que haja igualdade no seu acesso, tal como não há igualdade noutros direitos não fundamentais. Segundo, o conceito de igualdade aplica-se a individuos e não a casais. O direito deve proteger a igualdade entre indivíduos e não a igualdade entre entidades compósitas como são os casais. Aliás, é o próprio Alexandre que reconhece que os casais do mesmo sexo são diferentes dos casais de sexo oposto, pelo que não se percebe porque haveriam de ter direitos iguais num direito não fundamental. Será até complicado dizer agora que do ponto de vista abstracto têm direitos iguais e depois explicar que nas adopções concretas já não têm. Também não é verdade que a lei exclua os casais homossexuais por causa da orientação sexual. A lei não discrimina os solteiros homossexuais, logo o problema não deve estar na orientação sexual, deve estar noutro sítio. A lei, estranhamente, é consistente num único aspecto: não permite que uma criança possa ter mais do que uma mãe e mais do que um pai, não tendo estes que ser casados entre si, ou sequer viver juntos. Para todos os efeitos, a adopção é um acto individual e não um casalismo. A justiça não anda a ver o que fazem os pais na cama, se dormem um com o outro, ou se dormem com pessoas do outro ou do mesmo sexo, logo não é a orientação sexual que interessa. Finalmente, a lei não impede que uma criança fique ao cuidado de pessoas com quem vive, sejam elas o amante do pai, ou o irmão heterosexual do pai. Acontece é que essas pessoas terão que se candidatar em devido tempo caso o pai biológico morra, e ninguém defende que o irmão heterosexual do pai que vive com a criança deve co-adoptar enquanto o pai é vivo.
Uma tragédia em 3 actos
Armanda, filha tardia de Afonso e Leonor, engravida de um cliente aos 19 anos, gerando o pequeno Ivan. Com a falta de actividade e a concorrência de leste, os 25 kg ganhos durante a gravidez tornam-se difíceis para um país tradicionalista na linha de trabalho de Armanda.
Armanda ruma para Hamburgo, após ser seleccionada para um emprego numa franchise de montras nas traseiras da Reeperbahn.
Agora com 63 e 71 anos, Leonor e Afonso não podem concorrer à adopção do pequeno Ivan por serem demasiado velhos.
O pequeno Ivan está à guarda do Estado e na Casa Pia ouve histórias de um Bibi que soa assustador.
É preciso combater o preconceito.
Ora aí está a próxima e urgentíssima questão
É uma coisa horrível: a barra foi substituída pelos parêntesis!!!! Resoluções, directivas e declarações internacionais caem sobre as nossas cabeças. O PÚBLICO uma espécie de paladino das causas de género anuncia: «No Plano Nacional para a Igualdade, o género feminino aparece entre parênteses. Inicialmente, na proposta de Plano Nacional, que começou por ser posta à discussão pública e que foi para consulta de vários especialistas na matéria, utilizavam-se expressões como “conselheiro/a…” — o que é um exemplo de “linguagem inclusiva”. Já a versão final, publicada em DR, contém expressões como “conselheiro(a)”. Qual a diferença? A barra deu origem a um parênteses. (…) O Guia dá vários exemplos do que está correcto: “pai e mãe” em vez de “pais”; “trabalhadores e trabalhadoras estrangeiras”, em vez de apenas “trabalhadores estrangeiros”. O emprego de barras também é uma possibilidade, para economizar espaço: “o/a doente”, “o/a requerente”, “A/O Presidente”, “Os/As Estudantes”, “a/o funcionária/o”, “o/a aposentado/a”.»
Vamos deixar-nos de parvoíces: esta doideira tem de acabar. E uma vez alguém vai ter de explicar o óbvio: isto não interessa nada e é um rematado disparate. Logo a começar pelo próprio Guia para uma Linguagem Promotora da Igualdade entre Mulheres e Homens na Administração Pública que não só propõe disparates como “trabalhadores e trabalhadoras estrangeiras” que se pode interpretar como referindo trabalhadoras estrangeiras e trabalhadores não estrangeiros como uma vez adoptadas estas recomendações para que as frenéticas almas das questões de género e demais causa urgentes se apaziguem logo outros problemas surgirão como bem se anuncia aqui: depois de andarmos feitos parvinhos a indicar os géneros teremos de erradicar qualquer referência de género. Tanta maluqueira já cansa!
Dois casamentos e um funeral
O argumento padrão a favor da co-adopção por casais do mesmo sexo é este aqui defendido pelo João Miguel Tavares:
Eu estou-me nas tintas para aquilo que os papás gay fazem no quarto, na sala ou na cozinha – acho apenas justo, obviamente justo, escandalosamente justo, que uma criança que é criada por um casal homossexual, e que, em termos legais, só está juridicamente vinculada ao progenitor biológico, possa ver essa protecção alargada ao outro membro do casal, de forma a permanecer na família e manter as suas relações afectivas se acaso o pai ou a mãe biológica lhe faltarem.
O João Miguel Tavares diz-nos que se o pai biológico morre a criança fica sem ninguém a quem tenha vínculo legal pelo que a única solução é a co-adopção por casais homossexuais ser legalizada. A este argumento normalmente estão associados dois outros, o de que os casais homossexuais também podem amar as crianças e o de que a a co-adopção é uma forma de reconhecer famílias já formadas.
Estes argumentos e a sua aceitação generalizada mostram que os valores tradicionais estão bem vivos. Não só as pessoas ainda acreditam no amor e no casamento como acreditam que num casamento a morte é mais provável que a separação. Mas no mundo real as circunstâncias da vida mudam, o amor acaba, e os casais desfazem-se, pelo que a criança co-adoptada pelo companheiro do pai biológico pode acabar a viver com um outro companheiro do pai biológico, ou com uma companheira, mas manterá o vínculo com um ex-companheiro do pai biológico que fugazmente passou pela sua vida (e por quem foi co-adoptado em nome do amor, da família e do risco de morte). Mesmo que o pai biológico nesta nova relação amorosa tenha uma companheira (sim, a bisexualidade existe), a criança tem dois pais do sexo masculino e jamais terá uma mãe porque a lei é avançada, mas não tão avançada ao ponto de permitir que uma criança tenha mais do que dois pais adoptivos (qual será a justificação para esta limitação?). A criança vive agora numa família que não é bem uma família e tem amor que não é bem amor porque a madrasta não o pode adoptar. E se um dia o pai biológico morre (é mais provavel que se separe outra vez, mas imaginem que morre) a criança vai viver com a aventura anterior do pai biológico (co-adoptante e pai legal) e não com a sua actual madrasta, com quem entretanto poderá ter estabelecido laços muito mais fortes. É bonito o amor.
Haveria soluções simples para estes casos (há uma que vem desde o século II), que não envolvem laços permanentes de filiação, e não impedem que uma criança possa um dia ter uma mãe e um pai, mas essas soluções são incompatíveis com a agenda LGBT, pelo que o problema colocado pelo João Miguel Tavares não é de facto um problema mas uma narrativa para justificar mais um avanço civilizacional.
Uma bolsa para estudar cálculo de manifestantes pf*
PÚBLICO: Manifestação debaixo de chuva contra cortes nas bolsas de investigação científicA (O VIDEO É DA TVI e o jornalista falar de “muitas centenas, vários milhares”)
….
* e já agora a diferença entre os verbos ter e estar na agência LUSA
troika
O dia em que nos enganaram com um referendo
Em 2006 e 2007, a propósito do segundo referendo sobre o aborto, fomos enganados. A pergunta consistia em:
Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras dez semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?
Toda a campanha foi dirigida para aquela palavrinha, “despenalização”. Os argumentos utilizados eram do tipo “deve uma mulher ser presa por ter feito um aborto?”. Lá está: o bem contra o mal, a absolvição contra a punição. A campanha teve sucesso e ganhou o “sim”. Porém, ninguém nos perguntou se estaríamos, como contribuintes, dispostos a pagar esse mesmo serviço através do SNS. Diziam que “ninguém é obrigado a abortar”, deliberadamente omitindo o “mas todos são obrigados a pagar”.
Desta forma, com esta pergunta prontamente aceite pelo Tribunal Constitucional, foi-nos vedada a verdadeira pergunta que deveria ter sido:
Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras dez semanas, em estabelecimento de saúde público ou privado legalmente autorizado, sendo que esta concordância implica, no caso de estabelecimento de saúde público, a total comparticipação do acto e consequente licença para se ausentar do trabalho pelo período máximo definido?
Diziam que não era da nossa conta, que era um assunto de mulheres que, em consciência, optavam por interromper a gravidez. Diziam que quem considerava o aborto um crime poderia sempre não abortar. Através da comparticipação total, a consequência deste “sim” foi, para quem considera o aborto um acto criminoso, o ónus de pagar as balas. A isso chama-se mentir. A isso chama-se socialismo.
Estão convidados
Os filhos da lei
Era uma vez…
Um referendo é um espaço privilegiado de expressão cívica, que estimula o debate e a difusão de informação sobre questões relevantes, e cuja necessidade é reforçada no caso de não haver, face à questão a referendar, homogeneidade na base social de apoio de cada partido.
(via Pedro Pestana Bastos)
Para mais, também podemos pedir que não seja necessária participação de 50% no referendo para que seja vinculativo o que nos apetecer que seja vinculativo.
Já sei, já sei: “desta vez é diferente”.
Dì qualcosa di Sinistra
O 5 Dias está como está e o Arrastão acabou! Endoidaram??? Depois de meses em delírio megalómano sobre manifestações épicas, o poder na rua… extinguem-se. Para alguns isto implicará uma radicalização. E outros a fazer fé no que sucedeu em 1976 vão dedicar-se às artes, à vida académica ou à comida.
Arrastado
É com a certeza de uma verdadeira união da esquerda verdadeira que se aproxima que congratulo o Arrastão por ter completado a sua missão blogosférica de união da verdadeira esquerda.
Enredado em si mesmo
Leio no PÚBLICO que “Na sua moção, Passos diz que o Presidente deve “comportar-se mais como um árbitro ou moderador, movendo-se no respeito pelo papel dos partidos mas acima do plano dos partidos, evitando tornar-se numa espécie de protagonista catalisador de qualquer conjunto de contrapoderes ou num catavento de opiniões erráticas em função da mera mediatização gerada em torno do fenómeno político”. O retrato assenta na perfeição em Marcelo.”»
Ou seja Marcelo enfiou a carapuça do “catavento de opiniões erráticas em função da mera mediatização gerada em torno do fenómeno político“. Não é que a carapuça não lhe sirva e a análise que ele mesmo faz das razões de Passos são certeiras mas apenas em parte: «“Os indicadores económicos e financeiros passaram a ser positivos, os indicadores passaram a mostrar uma grande colagem de intenção de voto já nas europeias. Passos acha que isso vai melhorar daqui até às legislativas”, descreveu Marcelo. A que soma o facto de a Europa, como um todo também estar a melhorar. “Isto significa que na cabeça dele já ganhou as legislativas ou pode ganhá-las, o que era impossível há oito meses ou um ano”, diz o comentador, para explicar este à vontade de Passos. “E se pode ganhar as legislativas [de 2015], pode definir o perfil do Presidente que quer e o que não quer, ou seja, o perfil de candidato que quer apoiar e o que não quer apoiar” às presidenciais de Janeiro de 2016.» Na verdade, Passos independentemente de ganhar ou não as eleições de 2015 – perdê-las com um resultado alto não é pessoalmente para Passos pior que uma vitória pouco expressiva – pode não só escolher o PR com quem gostaria de contracenar caso venha a ser reeleito mas também aquele com quem Seguro ou outro PM socialista terão de se haver caso ganhem as eleições. Se Passos achar que pode ser PM o nome de Barroso certamente que lhe agradará mais. Se achar que pode perder deixar Rio em Belém será o mais provável. Quanto a Marcelo esta carapuça do catavento vai demorar a sair-lhe da pele de comentador. Quanto ao resto que poderia ser quase tudo é uma espécie de tragédia de alguém que ficou cativo de si mesmo.
Dúvida
Ao ler artigos como aqueles que agora evocam Ary dos Santos fico sem perceber se quem os escreve escreve assim por preconceito ou por ignorância.
Hoje há paixão, amanhã também mas é outra
Durante exactamente 4 anos, desde a aprovação do casamento de pessoas do mesmo sexo até ontem, não havia nos média e na blogosfera a urgência que hoje há em resolver o problema das crianças formalmente não co-adoptáveis pela aprovação da dita lei.
Este súbito tsunami emocional, que inevitavelmente será recordado como a T-shirt da semana, desgastado pela típica paixão lusitana que se inflama como trifluoreto de cloro de forma explosiva e – zás – já se foi, dará lugar a novo luto por outra Amália.
É um bocado escusado as pessoas zangarem-se por questões que ainda há duas semanas não lhes passavam pelo pensamento mas – que fazer? – é assim o português: um querido, emocionalmente envolvido, brutamontes-que-isto-resolve-se-e-é-já e quem não salta não é filho de boa gente. É o mesmo português que rebenta com as contas, inventa narrativas, culpa os outros e, chegando a casa, ainda abre a garrafa de vinho com que brinda a esperteza que conta usar para não pagar a prestação da casa; mas não se preocupem, é só conversa: ele paga a prestação da casa.
Não há melhor povo no mundo. It was the best of times, it was the worst of times.
Em França o dia começa tarde!
Para lá do fascinante caso de nós somos tão mas tão progressistas que não queremos saber de casamentos para nada – se formos heterossexuais porque se formos homossexuais não pensamos noutra coisa! – e depois acabamos a fazer disso uma questão de Estado (a culpa era do protocolo indiano não era?) e a criar problemas ao Estado (Valérie Trierweiler, com quem Hollande também não casou, mas que, no entanto, era até há pouco sua companheira, era, por isso, primeira dama? E ainda é companheira, embora traída? Ou já não é primeira dama? E deixa de ser primeira dama pela traição amorosa de Hollande, automaticamente? Ou só quando Hollande disser? Ou logo que Trierweiler o diga?) mas enfim para lá destes assuntos já de si fascinantes o que me tira do sério é esta informação dada por Sébastien Valiela, o fotógrafo que vendeu as fotos de Hollande à Closer: Hollande llegaba a las 23.00 horas de la noche y se iba a las 11.00 horas de la mañana del día siguiente. Portanto às 11h lá ia para o Eliseu. Não ’tá mal. Imaginem que o protagonista era outro. Ou que era uma mulher. Enfim la Liberté, Egalité, Fraternité quando nasce não nasce igual para todos.
Disciplina de voto é consequência da lei eleitoral
No dia em que Sócrates levou o 4º PEC a votação, era suposto todos os deputados socialistas votarem em conformidade? Era.
No sistema eleitoral, com listas de deputados elaboradas pelas direcções partidárias, a disciplina de voto é um mal necessário. A fidelidade dos deputados é naturalmente dirigida para quem os colocou na lista, não necessariamente para os eleitores que (normalmente sem saberem) os elegem.
Só através da escolha popular de deputados a serem incluídos nas listas poderá ser exigido que a sua representatividade seja reflexo dos eleitores que efectivamente os escolhem.
Agora que estamos na fase da discussão dos modelos de família em que as crianças sorriem, sorriem confirmando nos seus sorrisos as certezas dos adultos – Não, não faço link para as imagens porque agora o que temos são fotografias e filmes de crianças reais e não ilustrações – e os jornalistas fazem reportagens sobre o amor recordemos outras propagandas em que descontado o enquadramento da época as certezas eram similares e as crianças estavam lá para as confirmar:
Let’s raise the generation utterly devoted to the cause of communism!
A saber
Referendos que a esquerda acredita ganhar são bons. Referendos que a esquerda teme perder são maus.
As pessoas que defendem os referendos bons são pessoas muito inteligentes. As pessoas que defendem os referendos maus são muito estúpidas.
E assim sucessivamente até que os maus e estúpidos se conformem com a sua condição e deixem de pensar que têm algo a dizer.




