Alguém sabia? Será verdade?
Ontem a ministra Maria Manuel Leitão Marques afirmou no parlamento o seguinte a propósito do cartão do cidadão: «Para que estamos sempre a pedir a fotocópia? No banco chegam a pedir a prova da morada, o recibo de eletricidade”, quando o cartão de cidadão tem essa informação e até “a prova do rendimento que é depositado todos os meses no banco”, exemplificou.» (*)
A sério que tem a morada? Nunca tal ouvi falar. E como é que tem os registos do depósito do salário? Quem autorizou? Quem acede? Como tal é possivel?
Lembram-se? Quem terá sido que travou esta barbaridade?
Tempo novo: o bofetão
Venho mostrar a minha plena adesão à política do bofetão introduzida num verdadeiro virar de página pelo ministro da Cultura. A tal ponto é a minha adesão à situação que acredito que esta canção ainda acaba hino do Tempo Novo.
Um tempo novo culturalmente enquadrado
Nota: presumo que “não me cuzei” é gralha e não malandrice.
Avisa quem sabe
uma das pessoas que em Portugal melhor conhece a Segurança Social deixa este aviso
Malditos offshores
Nesta era contemporânea de pastiche de informação, a que substituiu observações obtidas a partir de séculos de conhecimento por fotografias de gatos com balões de BD preenchidos com citações sacadas a um website manhoso, é extremamente divertido observar uma certa fauna predatória a atacar o pobre coelhinho contribuinte com opiniões sobre offshores. Opiniões é como quem diz, que para tornar a coisa mais palatável, são vendidas como sendo factos.
A mancada número um é a célebre expressão “se todos pagassem, todos pagariam menos”, como se em países cronicamente deficitários existisse algum sentido de contenção à despesa que o estado pode fazer além da disponibilidade de alguém para o financiar, com o custo consequente do acto de emprestar dinheiro (o dicionário chama-lhe “juro”). Naturalmente, qualquer ser pensante, desses que, brevemente, só poderão ser encontrados em reservas protegidas ou zoológicos para seres raros, percebe que a expressão correcta é “se todos pagassem, todos pagariam mais”. Pessoa capaz de dizer o contrário em público merece compaixão, não consideração pelo que diz.
A tontice número dois é a de que é uma imoralidade lesa-pátria optar por regimes fiscais mais favoráveis, como se não fossem os próprios governos a criar regimes fiscais favoráveis para as situações que lhes interessam num dado momento (créditos bonificados, rendas controladas, energia subsidiada, bonificação jovem, sénior, sem unha do mindinho, etc). Recordo-me da frase usada pelo indivíduo da imobiliária quando comprei a primeira casa, referindo-se ao anterior proprietário e ao imposto que este pagaria na troca de habitação: “o senhor Fernando, que tem a sorte de ser deficiente…”
A burrice número três é a de que é possível acabar com regimes fiscais mais favoráveis. Na realidade, até é, basta abolir impostos em Portugal, tornando o país no paraíso fiscal dos paraísos fiscais. Porém, não é a isso que se referem e sim a algo vago, como uma espécie de tratado internacional que crie uma fiscalidade única. Menos que única, não dá: basta a taxa ser x% em Portugal e y<x numa ilha qualquer para que essa seja um paraíso fiscal em relação a Portugal.
Mesmo assim, a burrice das burrices, a imperatriz da imbecilidade, o expoente do açúcar sobre a cereja no topo do bolo é a ideia de que todo e qualquer ser com uma conta ou empresa num dito offshore é um indivíduo de má índole. Considerar a Holanda um destes offshores nem conta, isso nem um asno diria, que é mais fácil um jumento aprender a falar do que confundir maçãs com o bispo de Braga.
Em verdade vos digo, ainda hoje poderemos ouvir qualquer um ou todos os quatro “factos” em qualquer estação de televisão. E bem, que a malta quer é ficção.
Socialistas brincando aos senhorios
Costa, o especulador imobiliário
António Costa anunciou ontem que o Estado vai investir 1400 milhões de euros em reabilitação urbana para depois ceder casas a rendas controlados à classe média. Estas casas serão compradas a privados ou reabilitadas pelo próprio Estado.
Alguns comentários:
- O objectivo do fundo de estabilização da segurança social é em 1º lugar preservar capital para em caso de necessidade compensar necessidades da segurança social no pagamento de pensões. Em 2º lugar valorizar esse capital tendo em conta que quanto mais dinheiro disponível houver melhor cumpre a sua finalidade. Isto implica que a gestão deste fundo deve ser conservadora e não especulativa. Implica ainda que não deve ser usado para fins que prejudicam o seu objectivo principal.
- Investir em imobiliário é uma actividade especulativa. Investir em imobiliário nos centros urbanos cuja procura depende do turismo e do esquema dos vistos gold (actividades voláteis), em período de declínio demográfico é ainda mais especulativo.
- Os privados que investem em reabilitação urbana fazem-no com o objectivo de vender ou arrendar ao maior preço possível. Mesmo assim estão a arriscar muito, dado que os preços que já se praticam implicam rentabilidades baixas. Quem entra neste mercado para arrendar a preços controlados tem rentabilidades mais baixas e o mesmo risco.
- Um fundo público da segurança social terá que escolher em que cidades investir (Só Lisboa? Lisboa e Porto?), que empreendimentos comprar, que empresas de construção contratar (grupo Lena ou Odebrecht? Mota Engil?) e a que pessoas arrendar os apartamento (só a boys do partido?). Tudo decisões que envolvem um grau de subjectividade, que serão sujeitas a politizarão e que têm um elevado risco de corrupção. O risco de estas decisões se sujeitarem a critérios não económicos contribuirá para reduzir ainda mais a rentabilidade da aventura.
- O fundo da segurança social entrará num mercado que já existe, onde já operam privados. A entrada de 1400 milhões, ou mesmo a mera expectativa de que este dinheiro vai entrar, contribuirá para inflacionar os preços de mercado. É bom para quem já entrou, é mau para o fundo da SS que comprará caro reduzindo a rentabilidade dos investimentos. Para alem disso, o aumento dos preços afastará investidores privados que acharão os investimentos menos apetecíveis. O fundo da SS contribuirá ainda para o aumento das rendas não controladas, algo que é suposto evitar.
- O mercado imobiliário está saturado e a população encontra-se em declínio. Projecções demográficas apontam para a perda de 1 a 2 milhões habitantes nos próximos 30 a 50 anos. O boom nos centros urbanos de Lisboa e Porto será feito à custa da decadência dos subúrbios. Vamos usar o dinheiro da SS para prejudicar partes do território nacional e favorecer outras.
- O Fundo da Segurança Social gere cerca de 10 mil milhões de euros. É muito dinheiro. Este é normalmente canalizado para grandes investimentos, de forma a reduzir o nº de análises que têm que ser feitas. Um apartamento custa valores da ordem dos 500 mil euros. A reabilitação de um prédio poderá envolver valores da ordem dos 10 milhões de euros. Ou seja, há uma diferença significativa de escala entre a escala do fundo da SS e a escala dos negócios de um fundo imobiliário. Percebe-se ainda que o governo pretende meter as mãos na massa e tomar decisões de investimento caso a caso para fazer política. Isto implica que terá que ser criada uma nova estrutura para gerir os investimentos em imobiliário, com contratação de especialistas etc.
Do Estado Social ao Estado Fiscal
Lê-se no site do Expresso: “O acervo de 11,5 milhões de ficheiros mostra como uma indústria global de sociedades de advogados, empresas fiduciárias e grandes bancos vendem o segredo financeiro a políticos, burlões e traficantes de droga, bem como a multimilionários, celebridades e estrelas do desporto.” Generalizar vale a pena: entre o Almodovar e o Putin não há diferença. Entre o Messi e um traficante de droga ainda menos. Entre quem ganha licitamente muito dinheiro e procura pagar menos impostos e quem rouba ou obtém ganhos em actividades criminosas não está ser feita qualquer diferença. Neste momento é extraordinariamente impopular assinalar esta diferença. Mas ou temos a coragem de o fazer ou acabaremos todos delinquentes. Generalizar vale a pena: entre o Almodovar e o Putin não há diferença. Entre o Messi e um traficante de droga ainda menos. Entre quem ganha licitamente muito dinheiro e procura pagar menos impostos e quem rouba ou obtém ganhos em actividades criminosas não está ser feita qualquer diferença. Neste momento é extraordinariamente impopular assinalar esta diferença. Mas ou temos a coragem de o fazer ou acabaremos todos delinquentes. Generalizar vale a pena: entre o Almodovar e o Putin não há diferença. Entre o Messi e um traficante de droga ainda menos. Entre quem ganha licitamente muito dinheiro e procura pagar menos impostos e quem rouba ou obtém ganhos em actividades criminosas não está ser feita qualquer diferença. Neste momento é extraordinariamente impopular assinalar esta diferença. Mas ou temos a coragem de o fazer ou acabaremos todos delinquentes.
“Buraco és tu, pá”
Ainda não vi isto mencionado, mas não é por acaso que Costa anuncia que o desperdício de 1400 milhões na brincadeira compra-voto-indigente virá do fundo de estabilidade financeira da segurança social; virá porque Passos anunciou este fim-de-semana que o PSD apresentará propostas para reformar a segurança social. Isto é Costa a dizer: “Eu rebento isso antes, porque quero”; ou ainda, “buraco sou eu”.
Os sindicatos servem para ficar calados
quando a Segurança Social é descapitalizada
1400 milhões da Segurança Social para recuperar património
Governo põe Segurança Social a pagar parte de apoios a empresas
A Segurança Social está a funcionar como um saco azul. O silêncio que rodeia esta aventura criminosa é sintomático de um país capturado pelas suas corporações
Não nos protejam mais, por favor
O presidente da CML manda os senhorios pagar as lojas históricas. Para protegê-las, diz. Na Alemanha criam-se carruagens só para mulheres. Para protegê-las, dizem. O presidente da CML manda os senhorios pagar as lojas históricas. Para protegê-las, diz. Na Alemanha criam-se carruagens só para mulheres. Para protegê-las, dizem.
Magnífico início de semana!
Da correcta denominação
Esta manhã, dei comigo a tentar encontrar a forma de caracterizar pessoas que, a propósito da publicação dos denominados Panama Leaks, se queixam da existência de empresas portuguesas que são propriedade de holdings com sede em outro país da União Europeia. Inicialmente, ocorreu-me “bestas quadradas”; achei demasiado forte, como se atribuindo a culpa da iliteracia a um comprometimento intelectual com a sodomia da bajulação partidária fosse excessivo, até para mim. De seguida, ocorreu-me “estúpidos”; achei demasiado vago, como se atribuindo a falta de pudor por vociferar bojardas a uma séria falha de carácter fosse impeditivo da eleição de alguém como deputado. Por último, ocorreu-me “socialistas”; achei inclusivo, não discriminante entre estúpidos e bestas quadradas e, sobretudo, abrangente ao ponto de justificar toda e qualquer excepção ao abrigo do princípio basilar que gera toda a base filosófica para o socialismo, a magnífica excepção “não no meu quintal”.
Gay não conta
Pedro Almodóvar foi “apanhado” neste “esquema” de… qualquer coisa não especificada que consiste em depositar dinheiro fora do país onde reside. Felizmente é gay, daí que nem vale a pena incluir o seu nome no rol dos bandidos acusados do vago crime de terem contas bancárias.
Fase “Carlos Cruz chora”
Sócrates escreveu o editorial de um dos seus jornais. Tenho dúvidas que tenha sido ele; parece-me obra de um amigo.
Matriosca de idiotas
É lindo, lindo, lindo, ver socialistas excitadíssimos com os Panama Leaks. Acabem com offshores! Morte ao direto dos outros países definirem o seu próprio regime fiscal! Acabem – mas sem ingerência, que disso não gostamos – com essa vergonha de não taxarem o que a malta acha que devem taxar!
Por outro lado, muito mais lindo – belo, até sublime – é ver os socialistas a enaltecerem a divulgação de “escutas”. E viva o Correio da Manhã, tontalhada!
Congresso do PSD – conclusão
A excitação foi crescendo, pronta para parir um rato, ou, mais propriamente, os desejos do Rato, numa osmose perfeita com o mata-e-esfola dos média em concubinato com a geringonça – ou seja, em diferentes graus, quase todos, uma espécie de aberração estatística à portuguesa – à medida que o início do congresso se aproximava. Morais Sarmento discordava sem especificidade; Rio anunciava que ficaria, mais uma vez, em casa, de pantufas, para não causar uma guerra termonuclear por requisição de autógrafos – “não é para mim, é para o meu sobrinho, que estuda jornalismo, ramo vocacional de causas” -; Pedro Duarte, que se terá dividido por todos os canais de noticias e que acabaria a fazer uma curta intervenção sem história; e José Eduardo Martins, que entre queixas esotéricas sobre “divisão internacional de trabalho”, “escassez de sensibilidade social” e, omitindo deliberadamente os sistemáticos chumbos do tribunal da corte, vulgo Tribunal Constitucional, além do soundbyte adoptado à geringonça que aumenta combustíveis como se restassem meras três gotas do “brutal aumento de impostos”, uma caracterização vil aos necessários cortes das pensões mais elevadas como “frio e burocrático”.
Se, por um lado, Paulo Rangel acabou por suceder a Martins com o maior anti-clímax desde que a RTP anunciou que a sua grande contratação de 2016 era um tal de Adão e Silva, Santana Lopes conseguiu o feito de apoiar Passos Coelho sem deixar de ser Santana Lopes.
Na sexta-feira, no Contraditório da Antena 1, Ana Sá Lopes caracterizava Passos Coelho como tendo “líder derrotado e a prazo totalmente colado à pele”. É a contínua repetição do “discurso PEC 4”, o de que repetindo a mesma lenga-lenga se consegue reescrever a realidade. “Passos está agarrado ao passado e a gente quer é futuro”. Pois bem, se a Ana Sá Lopes e todos os que “querem é futuro” deixarem de ansiar tanto para que este assuma a forma de um sereno seguro de vida para a geringonça, poderão relaxar e perceber que o presente ao PS pertence, o grande responsável pelo que vier a acontecer quando sedentos de poder a qualquer preço se unem a lunáticos.
Passos Coelho, no discurso final, não conseguiu dissipar a teoria do líder a prazo. Porém, não foi por culpa própria ou dos congressistas, que demonstraram a quem quis ver que o partido está com o seu líder; a culpa é dos ‘opinadores de causas’ que, tendo já decidido que Passos seria líder a prazo, demonstram serem bem mais obstinados que ele através da bizarra indivisibilidade nacional entre ‘artigos de opinião e anseio’ com jornalismo de factos.
A Ana Sá Lopes, Passos Coelho pareceu ser “um líder deprimido”. Daqui concluo que devo abster-me de tentar caracterizar o estado de saúde mental das redacções dos jornais, de tão persistente que a maleita é.
Manuais escolares: abram-nos por favor
Fiz para o Observador um especial sobre manuais escolares.O Governo anunciou manuais escolares gratuitos. Mas nem os manuais vão ser gratuitos nem se deve se gastar tanto dinheiro com eles.
Por exemplo Ambos os livros têm mais de 500 páginas. Mas um custa 40,50€ e o outro 24,90€. O mais caro é obviamente o manual escolar.
Ao custo com os manuais “gratuitos mas caros” temos ainda de adicionar a parcela dos chamados “cadernos de atividades” pois é intenção do Ministério alargar a dita gratuitidade dos manuais não só a todos os ciclos de ensino mas também aos cadernos de actividades. Ou seja ao chamado bloco pedagógico.

Não havia necessidade!
Não sei como foi nas outras rádios e televisões mas na TSF o final do congresso do PSD foi o palco de um momento inacreditável: o hino de Portugal tocava – note-se que era o hino de Portugal não o do PSD – e moderador e comentadores literalmente gritavam para que as suas primeiras impressões chegassem aos portugueses. Por este caminhar o único local em que o hino é ouvido com respeito é nos estádios.
Congresso do PSD – Sábado
Muito mais que um acto de puro marketing político, considerei o tempo concedido pelo presidente do PSD – Pedro Passos Coelho – aos convidados como um gesto genuíno de confirmação da mensagem de um homem obstinadamente convicto da sua missão na oposição com os seus críticos pontuais sem o ónus de responsabilidades políticas. Se alguma mensagem nova saiu dessa reunião foi a da confirmação que Passos Coelho conquistou, contra as adversidades de um regime balofo, um rumo a uma estabilidade ténue agora posta em grande perigo com a geringonça: nomeadamente, a mensagem que Passos acredita, genuinamente, ter feito de tripas coração a uma situação minada à partida para uma progressiva transformação do regime político em direcção a uma normalidade que já tarda, isto após 42 anos da revolução que nos trouxe a Constituição de 296 artigos, 16 artigos por distrito.
Santana Lopes, sendo Santana Lopes, sem o excessivo cuidado de um discurso minuciosamente preparado, ilustrou o ridículo de uma eventual fuga de apoio ao líder que, contra todas as expectativas criadas ao longo de 4 longos anos nos média comprometidos com o status quo pachorrento de que “isto é tudo do PS”, ganhou mesmo as eleições.
Toda a diferença é facilmente desmontável. O leitor comprometido e deslumbrado com a desgraça dirá que “ganhou as eleições, mas isso já lá vai”. Porém, não só tal situação seria aceite pacificamente com o PS sem o viés esquerdista dos média – vide, 4 anos a repetir bujardas sobre a rejeição do PEC 4 -, como seria comumente aceite como o discurso oficial, o da reconquista do poder a qualquer custo, a qualquer preço. Pelo contrário, Passos Coelho considera que o governo da geringonça terá que cair sozinho e, esperamos todos, sem estragos demasiado profundos pelo caminho.
Desculpar-me-ão os que esperam que termine isto com um “mas”. Passos Coelho não se apresenta apenas como o melhor que se arranja; é o único, actualmente e nestas circunstâncias, disposto a aguentar com o desgastante discurso oligárquico para impedir, na medida do possível, que a alternativa da geringonça seja uma geringonça à lá grega. E isso não é nada poucochinho.
Os cobardolas (ou receberam algum?)
Senhorio com juízo só aluga a cadeias internacionais que não correm o risco de ser consideradas históricas
Fernando Medina, presidente da CML: «nós propusemos a este governo é que é preciso encontrar uma forma de garantir que nas lojas que os municípios classifiquem como históricos não haja lugar à resolução do contrato. Isto permitirá salvaguardar aquilo que o município venha a definir como o património da cidade, que transcende, de certa forma, o mero âmbito da propriedade privada e que merece ser protegido.»
ó tempo volta para trás!
Fernando Medina, que chegou a ser tido como o líder do PS a seguir a Costa, anunciou, hoje, numa entrevista ao DN, o objectivo da Câmara Municipal a que preside de preservar o péssimo estado do património imobiliário da cidade. A ideia do autarca é simples: reverter a actual lei dos arrendamentos comerciais, de modo a que sejam os proprietários dos imóveis a suportar as lojas que a Câmara classifique como «património histórico». Nesta decisão, a Câmara nem sequer parece estar disposta a partilhar, com o proprietário, as consequências da mesma: já que classifica esse imóvel de modo a que o proprietário fique impossibilitado de dispor dele, a Câmara deveria, pelo menos, pagar as obras de reparação e conservação do mesmo. Mas, como um bom socialista que certamente é, essa hipótese nem se coloca. A propósito desta mentalidade, vale a pena observar uma frase que é, toda ela, um programa político. Diz Medina: «Na lei do arrendamento ainda em vigor ficou [definido] que o arrendamento comercial pode ser denunciado no prazo de cinco anos, mediante indemnização, qualquer que seja a situação e a classificação das lojas. Estamos, portanto, a falar da loja mais moderna ou da loja histórica. Nenhuma se safa. Esta fragilidade faz com que qualquer loja, mesmo as que têm condições para pagar as rendas atuais, possam ser despejadas por simples conveniência do proprietário, como se não houvesse um outro valor a preservar: a autenticidade da cidade». Ora, faz algum sentido um proprietário prescindir se uma boa renda, quando o inquilino a pode pagar? E, por outro lado, faz algum sentido um proprietário manter e conservar um imóvel com uma renda abaixo do seu valor real, porque o inquilino a não pode pagar» Por que não se chega a Câmara à frente e assume a responsabilidade de querer manter um património que não lhe pertence, pagando rendas ou complementos das mesmas? Ou será que o socialismo só é bom se for com o dinheiro dos outros?
Congresso PSD – primeiro discurso de Passos Coelho
O discurso de Passos Coelho que abriu o congresso versou dois ângulos: o trabalho feito no governo e o futuro. Estava a ouvir o discurso, que foi longo, e antecipei, mal começou, a reacção da generalidade dos média: sobre o passado diriam algo como “o passado já lá vai” e sobre o futuro diriam que Passos está “preso ao passado, que já lá vai”.
De facto, o que se passou, foi que Passos Coelho venceu as eleições. Ele sabe-o e, por muito que se dê palco ao actual governo para propagar a extrema necessidade (“pelo bem do país”) de renovar a liderança da oposição – coadjuvado pela prova de vida que alguns críticos aproveitam para fazer nestas alturas -, Passos assume estar na oposição contra a vontade expressa dos eleitores, num novo paradigma eleitoral que implica a renovação da proposta política desta liderança do PSD, na oposição.
Ao propor uma reforma do sistema eleitoral, assumindo ser esta a altura adequada pela inexistência de eleições legislativas no futuro próximo, demonstra ter assumido, em pleno, o seu papel de líder da oposição, retirando qualquer argumentação sobre compassos tácitos de espera pela destruição, por ferrugem, da geringonça.
De certa forma, apesar do uso do termo “renovação”, ficou claro que o que se espera é uma reafirmação do caminho traçado no governo, o de que nos compete, a nós, portugueses, a tarefa de limpar a casa, não o catastrófico discurso papagueado pelo governo que consiste em esperar que o BCE, a União Europeia ou o Pai Natal façam por nós o que nos compete. Mais que noções vagas sobre esquerda e direita, “social-democracia” ou “neoliberalismo”, a renovação proposta parece ser, exactamente, entre a estratégia que assegura um futuro europeu para Portugal, através de competitividade e reforma real da crescente burocracia castradora e a estratégia do governo, que assegura um futuro para o clientelismo do aparelho de Estado até à próxima explosão que termina sempre com um muito cínico “eu não tenho culpa”.
Congresso PSD – livefeed
Congresso PSD – Objectivos
Hoje, amanhã e Domingo, estarei no congresso do PSD como convidado blogger. Como blogger, vejo a minha função não como de relatar os acontecimentos e sim como olho independente interessado em descobrir a correlação entre os acontecimentos do congresso e o que é reportado pelos média convencionais. A julgar pelas notícias desta manhã, os jornais parecem decididos em mostrar que, além do PS, também uma parte substancial do PSD está interessada na rápida substituição de Passos Coelho por um cordeirinho mais simpático para permitir latitude à geringonça. Partindo da dúvida oriunda da visível agenda mediática, quero ver se é mesmo assim.
àquela parte

As boas almas – e Portugal está cheio delas – contorcem-se com o destino do PSD liderado por Pedro Passos Coelho. Não há opinador que não garanta que Passos está a prazo, e o partido condenado à desgraça enquanto ele por lá andar. Rui Rio, a mais ilustre promessa da política portuguesa desde D. Sebastião no dia seguinte a Alcácer-Quibir, garantiu hoje à nação que só não irá ao congresso do seu partido por excesso de virtude e humildade, certo e seguro de que seria o centro das atenções dessa gloriosa epopeia social-democrata. Ele aposta, como faz desde que nasceu para a política, que, tal como Maomé, se ele não for ter com o PSD, o PSD irá ter inevitavelmente com ele. Mas, afinal de contas, qual foi a desgraça de Passos que o encheu de sarna e, ao partido, de lepra? Fez disparates irredimíveis enquanto governou? Recebeu um país rico e entregou-o falido? Não deu o peito às balas, quando o país precisava dele, e refugiou-se nalguma sinecura do regime ou de Bruxelas? Perdeu, absurdamente, as eleições a que se candidatou? Mistério! Para o resolver, talvez fosse interessante olhar aqui para o lado, para a vizinha Espanha, para o partido homólogo do PSD, o Partido Popular, e para o seu líder, Mariano Rajoy. Pois bem, Rajoy preside ao PP desde 2004. Só ganhou eleições em 2011. Nesse breve entretanto, de mais de sete anos, em que perdeu eleições, o PP soube aguardar. Não consta que tenha aparecido por lá nenhum Sebastião nortenho com ganas de o substituir. Levou o PP ao governo em 2011 e ganhou as eleições de 2015, mas também perdeu, por enquanto, o governo. Por estas e outras razões, deste humilde cantinho, deixo uma sugestão a Passos Coelho, em relação aos seus coveiros: levante a cabeça e mande-os à merda.
causas esganiçantes
Parece que o anedotário político lusitano vai ficar enriquecido com o processo que as senhoras do Bloco de Esquerda moveram ao Pedro Arroja, por este ter dito, na televisão, que elas eram umas «esganiçadas» e que não queria nenhuma delas em casa dele, «nem dadas».
Obviamente que se a matéria do delito for o tom de voz de cada uma das senhoras a quem o eventual criminoso (é assim que se escreve nas páginas de investigação criminal dos nossos jornais) se referia, bem pode o Pedro Arroja contar com pena de prisão efectiva, bem pesada. Como salientava, há dias, um escriba da nossa praça, nenhuma delas fala particularmente alto e quase todas têm vozes doces e meigas.
Mas se o «esganiçanço» de que o Pedro falava for mental e não verbal, aí, santa paciência, nenhuma delas escapa à adjectivação. Por definição, os radicalismos políticos são formas pouco suaves de esganiçanço ideológico, e pelo Bloco não há propriamente ideias suaves, a começar pelas sucessivas «causas fracturantes» com que, nos últimos anos, foram esganiçando o país.
De tomo o modo, vai ser um fartote de riso.
golpe de estado no brasil
Segundo a líder do Bloco de Esquerda, está em curso um «golpe de estado» no Brasil. A acusação é grave e deve ser ponderada, com apreensão.
Ora, o que se está a passar nesse país? Duas coisas, a saber:
A primeira, o apuramento de eventuais responsabilidades criminais da «presidenta» no processo Lava-Jato, que é relativo à corrupção na Petrobrás. Este processo está a ser desencadeado pelas autoridades previstas na Constituição Federal, sob a fiscalização e tutela do Supremo Tribunal Federal, sem qualquer atropelo às formalidades e exigências legais previstas. Não poderá ser nisto que Catarina Martins estava a pensar.
Por conseguinte, a deputada deveria querer referir-se às jogadas que têm ocorrido no Congresso brasileiro, com as manobras na base dos partidos que formam a coligação governamental, a última das quais ontem ocorrida com o abandono do PMDB do governo. Por aqui, se o governo brasileiro perder maioria nas câmaras parlamentares poderá cair e a «presidenta» será provavelmente substituída pelo seu actual vice-presidente, Michel Temer. Deve ser exactamente a isto que a deputada se queria referir.
Contudo, isto, a acontecer, será exactamente igual ao que sucedeu recentemente em Portugal, com a queda do segundo governo Passos e a ida para o governo de António Costa e do PS. Também aqui o PS não ganhou as eleições e está hoje a chefiar o governo. Na altura, houve também quem dissesse tratar-se de um «golpe de estado constitucional», mas a senhora deputada entendeu de outra maneira. Foi uma precursora do que hoje se passa no Brasil. Quase uma visionária!
Reformismo de Passos Coelho versus reformismo de Costa
Reformas de Passos Coelho:
- Eliminar golden shares e privatizar empresas públicas
- Liberalizar as rendas antigas
- Reduzir indemnizações e outras restrições do mercado laboral
- Reduzir custos do trabalho (via redução da TSU em certos casos, redução de feriados e de férias)
- Liberalizar actividades relacionadas com o turismo incluindo alojamento local
- Acabar com os horários zero no ensino público
- Implementar mecanismos de mobilidade na administração pública
- Tornar a ADSE num seguro pago pelos beneficiários
- Redução dos benefícios sociais para os tornar adequados à contribuições e ao dinheiro disponível
- Reduzir o IRC para tornar o país atractivo para investimento estrangeiro
- Concessionar a privados os transportes urbanos, reduzindo custos e efeitos das greves.
Reformas propostas por António Costa (PDF):
- Gastar mais dinheiro em educação
- Gastar dinheiro em vários esquemas de fomento de empreendedorismo e apoio a empresas
- Reduzir a precariedade laboral … no sector público
- Gastar mais dinheiro nos transportes urbanos e em vários programas para as cidades
- Subsídios à reabilitação urbana
- Simplex (contrariando todas as outras medidas que envolvem microgestão da sociedade e da economia)
- Duplicar o peso da economia do mar no PIB
- Capitalizar as empresas com vários esquemas de subsídios (depois de ter travado a descida do IRC) e leis especiais.
- Aumentar o complemento solidário para idosos e outras prestações sociais
Agradece-se informação sobre os critérios
que levam a que a se use um dos seguintes termos/expressões
a) etnia cigana
b) residentes no bairro de…
c) familias
d) feirantes
e) comunidade cigana
“I have a dream”
Um dia, Adalberto Mitra, emigrante em Leipzig desde 1973, oriundo de Samaiões, Chaves, bigode farfalhudamente branco dos seus 77 anos, será conhecido como o legítimo sucessor de Rosa Parks, ao sentar e recusar sair da carruagem destinada a mulheres quando a isso solicitado por pencuda progressista de skinny jeans envolvendo pernas rechonchudas.
Abracemos o ISIS, pelo multiculturalismo
Há pessoas que, justificando acções macabras de muçulmanos, usam a ideia de culpa do Bush, do Aznar, do Blair e, sobretudo – porque é do PSD e esse é o alvo a abater – do Durão Barroso. Tudo bem. Outros ainda, quando não os mesmos, usam as Cruzadas, a Inquisição Espanhola e o que mais se lembrarem que tenha crucifixos para o efeito. Também tudo bem. Isto tem é dois problemas: como o Islão é uma religião mais recente que o Cristianismo – Jesus morreu e ressuscitou em 33, Maomé chega a Medina 589 anos depois – toda a violência muçulmana pode ser explicada à luz das Cruzadas, com um atraso de mais ou menos 600 anos. Desde o início da Inquisição Espanhola até que Ayatollah Khomeini declarou que Salman Rushdie devia morrer passaram 511 anos. A Inquisição Espanhola durou 356 anos, pelo que justificar o mal do oriente pelo mal do ocidente implica aceitar tranquilamente 356 anos de ISIS e semelhantes. Lá para 2300 deveremos começar a esperar mudanças, algo que contraria a psique de um progressista.
O segundo problema é de integração do conceito multicultural com quem tem ideias fortes sobre o papel regulador e unificador do Estado – uma nação, uma lei. Se o multiculturalismo gerou guetos por auto-iniciativa, sociedades dentro da sociedade em áreas previamente comuns, demonstra-se que a lei unificadora é incompatível com unidades autónomas de auto-gestão, como são os guetos criados pelos próprios. Vai daí, os socialistas do multiculturalismo estão, efectivamente, a criar unidades anárquicas que se gerem a si próprias dentro do que consideram áreas comuns, pertencentes às cidades da nação e não aos próprios, o que, se fosse propriedade privada, legitimaria uma ética ancap de auto-gestão delimitada, um paradoxo socialista. Significa isto que, um progressista, depois de permitir a destruição da ordem estabelecida by proxy, será obrigado a reconquistar o controlo dessas áreas para a comunidade global que pretende governar, eventualmente através de acções de extermínio, a julgar pela história.
Depois há a bimbalhada que se refere a discurso de ódio, porque não tem qualquer argumento, o que é habitual, daí que tente aligeirar a coisa através da galhofa, que dali não sai muito mais que isso e umas mudas de lençóis a quem emanar o efémero cheiro a poder. Além disso, o paradigma é reciclar, não recauchutar.
A propósito do combate à espanholização da banca
podemos saber que garantias foram dadas a António Costa pela empresária angolana Isabel dos Santos acerca do recurso aos tribunais naquele país por parte dos bancos “graças a Deus livres da espanholização”?
É que como sabemos a justiça espanhola está marcada pela corrupção, nepotismos e subserviência face ao poder político. Defeitos que felizmente não atacam a muito independente e livre justiça angolana.
Catarina Martins porque te callas?
17/10/2015. Luaty Beirão ainda não fora condenado
Catarina Martins diz que posição do Governo face a Luaty é “vergonhosa”
Março de 2016 – Luaty foi condenado a uma pena de cinco anos e seis meses.
Catarina quiçá traumatizada pelos considerandos do Arroja calou-se. Ou então, coitadinha, ficou afónica com o combate à espanholização da banca. Ou como não tem tarifa social de electricidade ainda não comprou máquina de secar e a t shirt apodreceu no estendal que o Inverno, por via das alterações climáticas, não há quem o entenda
24/02/2015: Barraqueiro não quer gerir Metro do Porto depois de 31 de Março
15 Janeiro 2016: Privados suavizam posição negocial na TAP
![]()
21/03/2016: Barraqueiro fica na Metro do Porto por mais dois anos sem concurso público
… resta agora saber como se vai suavizar o senhor David Neeleman? E já agora quanto nos vai custar suavizar a Transdev, a empresa que tinha ganho o concurso para a Metro do Porto e que foi afastada para que o Barraqueiro livre da maçada do concurso público continuasse a explorar o Metro daquela cidade?
Condenar o terrorismo
Nos anos 70/80 acham que a população católica da Irlanda do Norte condenava o terrorismo?
E acham que os bascos condenavam a ETA nos anos 80?
IRA, ETA e terrorismo islâmico
Este gráfico tem sido usado para mostrar que o recente terrorismo islâmico na Europa não é um problema assim tão grande. Nos anos 70 morria mais gente devido ao terrorismo.
Mas se prestarmos atenção vemos que o terrorismo nos anos 70/80 era sobretudo ETA e IRA.
Há um ponto em comum entre o terrorismo IRA/ETA e os últimos atentados em Paris e Bruxelas: conflito étnico/religioso. O IRA foi uma organização católica que atingiu o seu auge num período de crescimento demográfico dos católicos na Irlanda do Norte. A ETA é uma organização nacionalista basca que reagiu ao Estado Central e à imigração vinda de outras zonas de Espanha. Os atentados de Paris e Bruxelas foram levados a cabo pela minoria islâmica que se encontra neste momento em expansão demográfica.

Discurso de ódio, o c******, palermas
Não, não vos vão deixar em paz. Lamento, é mesmo assim: não é com lérias bucólicas de que isto são tudo actos isolados de criminosos que nada têm a ver com religião que convencem as pessoas. Lamento, inclusivamente, que o Observador embarque em textos destes, pipas de cosmopolita-oco e zero de empatia pelos sentimentos dos europeus e imigrantes de primeira leva que não estão para aturar pseudo-sociologia de comentário televisivo, como se todo e qualquer imbecil decidisse usar como modelo um Adão e Silva qualquer.
Se os habitantes de Molenbeek estão fartos e querem que os deixem em paz, tratem do assunto: limpem eles a corja de assassinos que albergam e a quem dão guarida. Venham então à rua. Insurjam-se contra os chanfrados que matam pessoas, exijam a sua deportação. Exijam polícia na rua, acções de limpeza. Não estão fartos, não. Se estivessem fartos, fariam o que qualquer pessoa farta teria que fazer. E, se no meio do processo, com umas balas perdidas, mostrarem mesmo que estão fartos, talvez possamos todos agradecer terem feito aquilo que nós, que chafurdando na lama da culpa do homem branco, só nos preocupamos com o que podemos parecer às bimbas dos regimes que se consideram guardiãs do politicamente correcto. E se querem o apoio da bimbalhada, metam uns crucifixos à mistura, que já vai tudo.
Eu e a Bélgica, sem skinny jeans

Grand Place, Dezembro 2005, foto VC
Estávamos nós, Europeus, no ano da graça de 2005 e estava eu, no mesmo ano, em Bruxelas, a comprar um carro em terceira mão a um marroquino, de Casablanca, condutor de autocarros na capital belga e residente em Molenbeek (“perto da estação Ribaucourt”), que o vendia em nome do irmão, de volta a Marrocos por assuntos familiares, segundo relatou. Comprar um carro na Bélgica é diferente de comprar em Portugal: a matricula de um carro não está associada ao veículo e sim ao proprietário, pelo que comprar um carro em segunda mão a um particular implica sempre uma transacção baseada em confiança (permitirem que usemos o carro antes da obtenção da nova matrícula, que só podemos obter através da documentação do carro, ficando o vendedor responsável por qualquer acto cometido no entretanto) ou em total ilegalidade (usando uma matrícula qualquer de outro veículo e proprietário, assumindo ambos a responsabilidade pela fraude e uso indevido, se a polícia decidir pedir documentos). O carro não era para exportar (há alternativas perfeitamente legais nesse caso) e sim para ser usado na Bélgica, onde residia e me encontrava registado na comuna como residente, apesar de não ter emprego oficial, algo que implicava a minha deslocação de 15 em 15 dias à esquadra de polícia próxima da minha área de residência, em Laeken, onde todos os turistas passam para encontrar o Atomium e eu cheguei a encontrar o original estádio do Heysel, em 1991, antes da sua requalificação 10 anos depois da tragédia do Juventus-Liverpool, quando viria a denominar-se Stade Roi Baudouin. Os nossos Eurodeputados não têm que fazer maroscas para comprar carros. Não só estão isentos de imposto como têm direito a placas especiais e gente no secretariado que trata das burocracias por eles: são uns sofredores.
Como tinha oportunidade de trocar matrícula e resolver os problemas sem chatear mais o vendedor, optei pela segunda hipótese, colocando a chapa de matrícula de um amigo belga, que retiramos a um veículo completamente diferente e que ocultamos no interior de uma garagem, que tivemos que arranjar para o efeito. É perfeitamente legal ter um veículo sem matrícula na Bélgica, desde que não esteja na via pública. Nos dias seguintes, obtive a minha própria chapa de matrícula – na altura era fornecida uma, o proprietário mandava fazer a outra – e, quer eu quer o meu amigo, passamos a poder circular legalmente, sem andar a fintar a polícia com ilegalidades perfeitamente banais para qualquer belga. Por um estranho karma, em 1993, em pleno Interrail que me levou a Copenhaga, também estava em Bruxelas quando, na estação de metro Arts-Loi, vi o jornal com letras negras a anunciar a morte do rei Baudouin. Estive no parque, como toda a gente, à noite, a ver a quantidade de pessoas e televisões que tentavam relatar o evento em frente ao palácio real. Assisti ao desfile de coroação do rei Albert II e posso testemunhar como, ao vivo, as coisas são diferentes do observado na televisão, em particular pela ausência do cheiro a bosta de cavalo. O tipo que a recolhe à pá para baldes também não costuma aparecer na TV. Eu e Bruxelas temos uma história, um tipo de história, como as histórias que as pessoas têm.
Voltando ao carro, o vendedor, um homem de cinquenta e poucos anos, recebeu pela transacção em dinheiro. Foram alguns milhares de euros, transportados na carteira, para uma garagem privada num bloco feio no norte de Vilvoorde, já quase em Houtem. Conversamos um bocado, com os milhares de euros a aquecerem-me a zona do peito onde a carteira encostava pelo bolso do casaco, como que indicando que, naquela altura, sendo assaltado, ficaria sem dinheiro e sem carro. Preconceito? Talvez, e depois? Outros chamar-lhe-iam instinto e receio. Contou-me que a vida estava má para marroquinos e árabes. “Os nossos filhos não sentem o mesmo que nós”. “Eu vou votar Vlaams Belang. Não adianta ilegalizarem aquilo. Nós não queremos mais árabes aqui, só vão fazer com que nós, os que vieram para trabalhar, acabem expulsos. Os belgas são uns moles”. Paguei, meti a matrícula de outro carro, e vim para casa, que os IMTT lá do sítio, perto da gare Bruxelles-Nord, fecha cedo.
A transacção correu bem e o carro teve uma longa vida, incluíndo com matrícula portuguesa, uns tempos depois. A Bélgica nem por isso, mas o senhor marroquino já sabia que assim seria em 2005, com ou sem entrevistas a gajas com unhas choque e skinny jeans moldando pernas rechonchudas. Leituras feitas por enviados especiais, Luís, têm destas coisas, nunca aparece o tipo com a pá a limpar a bosta de cavalo para baldes.