No pasa nada
Como o Guardian ainda não deve ter noticiado o facto aqui pela pátria, editada e poligrafada, não se escreve uma linha sobre a anulação em França de uma conferência de Sylviane Agacinski sobre «L’être humain à l’époque de sa reproductibilité technique» na universidade Bordeaux Montaigne.
A viagem de Macron aos territórios ultramarinos (chamam-se mesmo assim) também teria muito para noticiar. E obviamente que tb poderiam descobrir que nas eleições municipais que vão ter lugar em Março vão ser apresentadas listas de muçulmanos para “defender os muçulmanos”
Preparemo-nos para as campanhas eleitorais futuras

Como o video reapareceu reaparece tb a pergunta: esta manifestação em frente ao parlamento aconteceu quando?
«Infelizmente nem todas as bandeiras são internacionalistas, como nós sabemos.
A bandeira portuguesa, permitam-me a sinceridade, ela tem pouco ou nada de internacionalista.
A bandeira portuguesa, na verdade, ela é do final do século XIX mas reparem uma coisa: ela, na verdade, ela exclui determinados grupos, ela tem uma vertente religiosa bastante vincada, ela ao mesmo tempo exalta uma forma de encarar o mundo que é uma forma racista e imperialista. E na verdade é uma questão de olhar os símbolos da bandeira. Falamos das quinas que representam as chagas de uma determinada identidade…»
Portanto o video foi apagado?
O video abaixo dava conta de uma manifestação em frente à AR.
Nela um homem acusava a bandeira portuguesa de ser símbolo de vários crimes. Apaga-se o video porquê? O senhor é livre de fazer essas declarações e espera que elas cheguem ao povo. E o povo é livre de ver essas e ouvir essas declarações.
Isto aconteceu quando?
Hoje é o dia em que
Análise ao Chega
Alguns excertos provocatórios que servem de “teaser” para leitura de ensaio de Patrícia Fernandes e André Azevedo Alves no Observador.
Os documentos fundadores do Chega destacam o mau funcionamento do regime sem colocar em causa os seus valores fundamentais: o sistema democrático de cariz representativo, o Estado de Direito, o princípio da separação de poderes ou as liberdades básicas de expressão, manifestação e associação.
São estes textos que reproduzem de forma consistente e fundamentada os ideais desta nova direita, neste caso portuguesa.
A proposta liberal do Chega recupera a tradição do liberalismo clássico, passando pela defesa de “uma visão do mundo e da vida assente nos valores da Liberdade e da Democracia representativa
A tensão ideológica reside no facto de esta aproximação ao liberalismo entrar em contradição com a herança da Nova Direita.
Para se compreender o argumento dos autores e a densidade do ensaio, será necessário ler a versão completa aqui.
OKUPAS: brevemente numa casa perto de si
Esta semana o Correio da Manhã dava-nos conta de que em Portugalete, no país Basco em Espanha, uma senhora de 94 anos que ficara sem sua casa por esta ter sido invadida por “okupas”, pôde finalmente retornar à sua propriedade depois dos vizinhos se terem unidos para expulsar os intrusos. Mas que fenómeno é este que não pára de crescer?
É um movimento que nasceu na Europa nos anos 60 por anarquistas que se julgam no direito de invadir propriedades privadas desocupadas para uso próprio à revelia dos donos. São ocupações políticas e não por necessidade. É a perseguição ao direito de propriedade. É o combate declarado à sociedade capitalista. Dizem eles que estão a “lutar contra a especulação imobiliária” tomando de assalto os espaços vazios. Tretas.
O programa ” Okupas” no Perdido e Achados da SIC em 2008 dava conta que Paula Parreira e Paulo Martins “deixaram para trás o emprego, um apartamento e um empréstimo de 50 mil euros. Ocuparam uma casa abandonada em Cascais para lutar contra os luxos e as obrigações de uma sociedade de consumo”. Este é o verdadeiro perfil dos assaltantes de casas e prédios privados. Gente que não quer fazer sacrifícios mas antes viver às custas de outros que não se coibiram de lutar para terem o que têm hoje.
Esta praga está em crescimento em Espanha e transformou-se numa autêntica epidemia. Em 2017 eram 90 000 vivendas “okupadas” e 7000 processos por invasão. Barcelona possui a taxa de “okupações” mais elevada do país, 23%, que se converteram em negócios muito lucrativos para os “okupas” porque muitos, podendo pagar rendas não o fazem e as máfias organizadas dedicam-se a “okupar” para logo “revendê-las” a outros ou a exigir quantias avultadas para as abandonar. São profissionais da “okupação” por via da impunidade da lei para este tipo de delitos e a cumplicidade das autoridades locais. Totalmente fora de controlo, há edifícios inteiros “okupados”. O desespero tem tomado conta dos proprietários que vêem os processos arrastarem-se durante anos para no fim assistirem a sanções ridículas de 3 euros por dia de “okupação” o que dá uma coima de 270 euros por 3 meses de assalto à propriedade. É um negócio em que muitos recebem cerca de 5000 euros de alguns fundos imobiliários só para que abandonem as casas. Os investidores estrangeiros já se acostumaram ao fenómeno que fez desvalorizar os preços, em especial na Catalunha, onde se regista o maior risco sem que a administração local intervenha para defender os proprietários, muito pelo contrário.
Nós por cá, como “somos muito mais à frente”, além desses grupelhos ( sim! eles existem! ) temos um Governo “okupa”.
As novas leis da habitação que vêm aí são um “bom” começo para a “expropriação legalizada” simplificada que dá ao Estado mais liberdade para se tornar dono de edifícios alegando necessidade de habitação social. Espreite o que diz o artigo 229 do OE 2019 quanto ao novo conceito de casa devoluta:
i) Alargar a aplicação do conceito de devoluto a outras finalidades, designadamente políticas de habitação, urbanismo e reabilitação urbana, quando a lei o preveja;
ii) Considerar como indício de desocupação a existência de contratos em vigor com prestadores de serviços públicos essenciais com facturação inferior a um valor de consumo mínimo a determinar.
Mas há mais. A nova Lei de Bases da Habitação vai permitir requisições forçadas de habitações – onde basta “uma situação de défice habitacional, falha ou disfunção de mercado ou risco de declínio demográfico” (art.º 39), aprovado por uma assembleia municipal; a prorrogação forçada de contratos de arrendamento; a suspensão dos processos de despejo e ainda incute o dever do proprietário “de fazer uso do seu bem, de forma a que o exercício da propriedade contribua para o interesse geral” (art.º 4, nº1).
Mas por que razão é que têm de ser os proprietários a “promover” casas para habitação? Com que direito o Estado me vem dizer o que devo ou não fazer às casas que possuo? Com que autoridade me impõe obras quando me congela as rendas durante décadas para as tornar “acessíveis” reduzindo a minha capacidade financeira de poder intervir na conservação dos edifícios e me obriga a colocar as minhas casas vazias para arrendamento quando ele próprio tem neste momento 4500 edifícios vazios outros devolutos e em vez de os colocar para habitação social, andou a vender a privados para obter fundos?
Cabe ao Estado fazer habitação social. Foi assim no Estado Novo onde nunca foi necessário recorrer à apropriação de casas privadas para que nascessem bairros sociais. Ironias. Afinal quem são os ditadores?
Veja mais aqui:
E o portal sapo? E os sapos nos livros? E os sapos nos jardins? E estudar os sapos? E o conto “Bambo” do Torga tb é discriminatório?
A secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade quer que se acabe com os sapos nos supermercados — um símbolo de azar que afasta a comunidade cigana: “Abaixo os sapos discriminatórios”. A senhora secretária de Estado deixe os supermercados em paz e se está assim tão preocupada com a “comunidade cigana” pague uns cursos para explicar à dita comunidade (seja lá isso o que for) que os sapos são além de inofensivos muito importantes para os ecossistemas. De caminho distribua uns exemplares do conto “Bambo” do Torga. Faço parte de uma geração que teve como leitura obrigarório o “Bambo”. Então não gostar de sapos era sinal de atraso e de maldade. Fosse hoje armava um escarcéu e dizia que me sentia discriminada por me obrigarem a ver sapos, ler histórias sobre sapos e até dissecar sapos. (Sim nas aulas de Ciências da Natureza dissecámos pombos, ratos, sapos, rãs..)
Não sei onde vive a senhora secretária de Estado mas eu que vivo paredes meias com a “comunidade cigana” garanto que supermercados para fazerem compras não lhes faltam.
É agora que o território nacional vai ficar um brinquinho.
Outra proposta para resolver a violência em Barcelona: usar diesel no carro e sacos de plástico
Assim será Barcelona “si no frenamos el cambio climático” escreve-se no la Vanguardia que detalha assim o cenários mais que certo do que espera aquela cidade: “Las torres venecianas de la avenida de la Reina Maria Cristina hacen honor a su nombre más que nunca. El mar llega hasta el regazo de Montjuic y embarcaciones de emergencia recorren la plaza de España ante el aviso que caigan 300 litros por metro cuadrado” . Ora que coisa mais eficaz se consegue inventar para acabar com a maluqueira que se apoderou daquela cidade do que este cenário?

Como segundo a ONU “a humanidad sólo tiene 12 años para implementar cambios urgentes y evitar una catástrofe” e em Barcelona “os cambios” são agora outros creio que o melhor é marcar a independência para daqui a 12 anos e esperar que “o cambio climatico” resolva o assunto.
A falta que fazem academias de boxe
Qualquer que seja o ângulo, não consigo entender as razões que levam largos milhares de pessoas a encherem as ruas de cidades espanholas na região da Catalunha. Não é como se a selecção espanhola tivesse vencido o campeonato do mundo, como aconteceu em 2010.

Alguns dirão que se trata do “direito à auto-determinação”, algo parecido com o discurso bloquista aquando da crise socrática que trouxe a troïca. Na altura era a “ingerência da Alemanha” nos assuntos de Portugal, como se as notas que o funcionário público tira do banco não fossem, de uma forma ou de outra, impressas em Berlim. Outros dirão que se trata de reacção aos “presos políticos”, expressão que agora também serve para designar políticos que são presos pelos crimes que cometem. Um outro grupo das seitas que por aí grassam dirá que se trata da reposição histórica da independência (sentido Joacine) na região, uma espécie de purga do passado com Franco pela criação de uma verdade mítica que nunca o foi no plano físico. Outros ainda dirão que o que malta precisa é de referendos para construir o futuro do Homem Novo, sejam pela independência, sejam para determinar se é para decidir os menus escolares obrigatórios de erva e feno rumo ao animalismo.
É independência da União Europeia? Consigo perceber: se não sai a Espanha da UE, saem os catalães de Espanha. É manter na União Europeia, no euro, no raio que vos parta a todos e apenas para acenar mais uma bandeirinha nas reuniões do eurogrupo enquanto se pedincha mais uns eurinhos de Berlim que vão directamente para Girona sem passar pela casa Madrid? Ide mamar para outro lado.
O que toda esta gente revela é um imenso desejo por sangue na Europa, que a malta era muito nova aquando da Jugoslávia e, por isso, nem teve oportunidade de partir a cabeça ao vizinho nem ocasião para violar a prima. Ao menos, enquanto duram as festividades, sempre dá para gamar umas televisões. Já os que não andam no gamanço, ó pá, ide para casa brincar com os filhos e com os netos: deixem-se dessas brincadeiras aos sonhos molhados de políticos.



boris johnson flying circus
Aí há uns dias, quando começou a trapalhada do “no-deal Brexit”, escrevi que o primeiro-ministro inglês estava a entrar por caminhos de onde só poderia sair mal, ao suspender o parlamento com um mero expediente administrativo, para impedir que os actos do seu governo fossem fiscalizados. A tese era muito simples e factual: desde, pelo menos, 1688, que, em Inglaterra, quem se mete com o parlamento não tem vida política longa e saudável. Johnson, que até tem obrigações redobradas por ser um bom conhecedor de história, revelou-se, assim, um aventureiro sem dimensão, que acabará, inevitavelmente, corrido da política inglesa, ainda que, até lá, possa averbar algumas alegrias e até ganhar algumas batalhas. Chegará o dia em que o parlamento, com esta ou outra constituição qualquer, correrá com ele.
Todavia estamos, por ora, num saudável momento de comédia, que devemos aproveitar. As cartas que Johnson enviou, ontem, a Bruxelas, são um dos episódios mais hilariantes da política contemporânea de que tenho memória. Para não dar o dito por não dito, e não ter de se suicidar numa vala, como prometera, Johnson ensaiou um número circense em que quem pede o adiamento é o Reino Unido, mas não é ele, e ele diz que não pediu e nem queria que pedissem, embora chefie o governo do país que está a pedir. Uma comédia. Só é pena que os Monty Python já não estejam no activo: Johnson poderia associar-se à trupe quando abandonasse funções no governo. Ficaríamos todos a ganhar.
Já nem estamos aqui
A entrada de novas forças partidárias no parlamento nacional não é sinal de vitalidade democrática e sim um dos sintomas da desilusão nacional com torres de marfim nos partidos estabelecidos. Se, por um lado, através de formulações mais ou menos mágicas e/ou recauchutadas de -ismos modelizados em cartão, indicam uma apetência de um eleitorado urbano pela onírica fantasia de uma regeneração do sistema em quimera mais ou menos revolucionária, por outro lado apenas acentuam as diferenças entre as gerações obrigadas a enfrentarem a realidade e a pobreza franciscana da idealização de uma sociedade que não existe fora de certas e determinadas ruas lisboetas.

Nada indica melhor uma aristocracia falida que a obtenção da chave do palacete decrépito, imaginando que com uma demão de pintura a coisa volta a aparentar dignidade. O único resultado relevante destas eleições é o da abstenção: é que o país divide-se em três grupos, o da velha e putativas novas cortes (Lisboa, Porto, Braga), o dos que ainda não têm a certeza se algo do que diz na televisão lhes diz respeito (quase todos) e os que já desistiram da intriga de corte como entretenimento (Açores, Bragança, Vila Real, Faro). Há quem vaticine que as novas forças partidárias têm caminho para crescimento: é possível, mas tal dever-se-á à alienação dos bem-aventurados desistentes – ou seja, ao alargamento da distância entre os “já não temos nada a ver com isto” e as cortes -, não a mérito próprio. Agora, venham mais quatro anos de imensa preocupação com a “desigualdade” do “interior profundo”, que nós gostamos.
Querem acabar com a violência em Barcelona? Suspendam as mesadas
Os acontecimentos da Catalunha trouxeram para a frente das manifestaçẽos e das notícias os chamados violentos. Segundo o El Pais serão 500 anti-sistema cuja actuação nas manifestações revela treino e preparação. São espanhóis, gregos, italianos. Não têm documentos. Apenas o número de telefone dos seus advogados escrito no braço. A estes juntam-se uns 1500 estudantes mais ou menos dispostos a tudo.
Quem paga esta gente?
A Espanha na idade da pedra
Poupem-nos!
BE assume que relação com PS “nunca foi fácil” e recusa que falta de acordo seja uma derrota
Não há paciência para esta conversa de gajas sobre a relação, o estado da relação, o aprofundar da relação, o fim da relação…
Nem sedição, nem desvio
Alguns dos antigos governantes da Catalunha foram condenados por crime de sedição e de desvio de fundos. Mas sucede que eles deram seguimento a decisões do parlamento da Catalunha, de realização do referendo e de uso de fundos. Face à lei catalã, e às decisões do parlamento representativo da sua população, não cometeram qualquer crime e apenas agiram em consequência de determinações do poder regional legitimo. Dir-me-ão que o Estado central considerou que violaram leis do Reino. Certo. Mas o direito à auto-determinação não está dependente de ser reconhecido pelas constituições centrais dos estados. É inerente às comunidades realizarem os actos políticos necessários para se auto determinarem, se o pretenderem realizar de forma pacifica e democrática, como era o caso.
Na Catalunha foi um erro tremendo (como afirmado na altura), o estado central ter impedido a realização do referendo, pois bloqueou qualquer solução política restando agora apenas lugar ao radicalismo e quem sabe, à violência. Poderia o estado espanhol ter aprendido com o Reino Unido como liderar com movimento independentista. Na Escócia, quando determinaram realizar o referendo, a lei do Uk não o permitia, mas, sendo um povo democrático que muito preza a liberdade, rapidamente a mudaram de forma a o povo escocês se poder auto determinar. O que eles fizeram e decidiram permanecer livremente no Reino Unido. Os catalães foram impedidos de dizerem o que queriam. Tal bloqueou, quiçá definitivamente, uma solução política e deu azo a que os radicais se instalassem no poder e a violência nas ruas.
António Araújo, o Liberalismo e eu
Ian McEwan chamou Sábado a um dos seus mais bem-sucedidos romances, Vinicius repetiu quarenta vezes a palavra “sábado” num dos seus mais famosos poemas, e a dinamarquesa Whigfield, com o seu Saturday Night, colocou a minha geração, bastante dada a manifestações ocasionais de parolice, a cantar a plenos pulmões as delícias da pândega do sexto dia. Até o povo, com a sua proverbial sabedoria prática, cunhou a divertida expressão “Nunca mais é sábado”, resumindo, numa só frase, a ânsia que afecta os trabalhadores que estão sob a capa da semana-inglesa e a influência da tradição judaica na cultura popular, fazendo do sábado, mais do que do muito cristão domingo, o verdadeiro dia de descanso e de divertimento, o dia em que se anda de bicicleta com os filhos, em que se toma o pequeno-almoço com calma, em que se janta com os amigos, enfim, em que cada um, conforme as suas preferências, se tenta entregar aos ensinamentos de Epicuro ou, na sua versão destravada, aos excessos do hedonismo.
Também eu, obviamente, procuro no sábado a serenidade e os prazeres que se vão esquivando de segunda a sexta, sendo que um deles, porventura o maior, é a leitura das últimas páginas da edição em papel do DN, onde duas figuras muito distintas – António Araújo e Rogério Casanova – demonstram semanalmente ao país o domínio da arte de escrever uma crónica. Rogério Casanova é um mestre da ironia e da crítica sarcástica, aquele tipo de pessoas a que damos o nome técnico de “grande gozão”, e não é por causa dele que escrevo este texto. Interessa-me sim, por causa da sua última colaboração, António Araújo, que ocupa normalmente as suas duas páginas com retratos biográficos de mulheres e homens historicamente relevantes, quase sempre “fotografados” de um ângulo original, e que, desta vez, optou por se dedicar à política caseira. Em vez de Steve McQueen, Walter Benjamin, Bobby Fisher, Martha Mitchell, Serge Gainsbourg ou Michel Foucault, algumas das personalidades que já foram alvo de parágrafos eruditos e extraordinariamente educativos, tivemos desta vez direito a Vasco Pulido Valente e Maria de Fátima Bonifácio, e também ao recém-eleito João Cotrim de Figueiredo e restantes “pseudoliberais lusitanos”.
A tese apresentada no último DN, em resumo, é a seguinte: os críticos do estatismo nacional, ou seja, os liberais portugueses (que, segundo AA, não passam de pseudoliberais), cultivando uma postura infantilizada sartriana (“o inferno são os outros”), não vivem de acordo com a ideologia que defendem, derivando desta situação que alguns deles “vencem como funcionários públicos”, outros “são pensionistas da Caixa de Aposentações” e outros ainda, caso do novo deputado da Iniciativa Liberal (IL), têm como pontos mais salientes do CV o exercício de cargos no Estado.
Quando um qualquer escriba escreve um pequeno disparate, algo muito frequente na imprensa e na blogosfera e que eu próprio faço amiúde, nada há a estranhar e não vem mal ao mundo por causa disso; quando um ensaísta invulgarmente culto e sensato faz o mesmo, embora também não venha mal ao mundo, estranha-se. E, ao contrário da Coca-Cola do Fernando Pessoa, não se consegue avançar para a segunda fase.
Optando por ignorar o manifesto exagero em relação aos empregos públicos de Cotrim de Figueiredo (28 meses a liderar o Turismo de Portugal não são assim tão significativos para um homem de 58 anos e que trabalha há mais de três décadas), vou tentar abordar o mais frontalmente possível a questão de fundo: pode um liberal trabalhar para o Estado de consciência tranquila, sem temer acusações de falta de coerência? Esta é uma dúvida que me toca na pele, pois acumulo a condição de admirador das ideias liberais – sejam elas políticas e herdeiras de John Locke, sejam elas económicas e herdeiras de Adam Smith –, com a de votante na Iniciativa Liberal, e com a de – minha culpa, minha máxima culpa – elemento do conjunto de portugueses que “vencem como funcionários públicos”. Claro que, conhecendo minimamente o pensamento de AA e sabendo que ele não é um defensor do absolutismo de direito divino, nem de ditaduras do proletariado, nem de regimes autoritários de inspiração fascista, não vou cometer a injustiça de incluir o liberalismo político nesta análise. O cronista do DN é indiscutivelmente liberal nesse sentido e está por isso a referir-se, naturalmente, ao sempre polémico liberalismo económico, o da mão invisível, o da separação entre Estado e negócios privados, o da simplificação regulatória, enfim, aquele que é, na história recente, o pólo oposto do socialismo. Foquemo-nos, então, nos descendentes de Adam Smith.
Há várias ordens de razão para que eu, com algum atrevimento e exagero, admito, tenha caracterizado como “pequeno disparate” as observações de AA. Umas são ideológicas, outras práticas e comezinhas, e há ainda um terceiro grupo, de contornos ligeiramente maquiavélicos, pelo qual começo. O que aconteceria a uma nação em que os simpatizantes do liberalismo abdicassem voluntariamente de qualquer carreira paga pelo Orçamento de Estado, deixando todos esses lugares para os simpatizantes das ideias socialistas? Note-se que, por definição, os grandes poderes de um país são sempre públicos, pelo que não poderíamos ter Presidentes da República liberais, deputados liberais, governantes liberais ou magistrados liberais, já para não falar de autarcas, militares, polícias, etc., etc., etc. É fácil de perceber que tal cenário desencadearia uma reacção em cadeia que provocaria uma progressão geométrica de socialismo com a qual nem Fidel Castro, nas suas melhores noites, sonhou. Assim sendo, é do interesse, porventura maquiavélico, dos liberais garantir presença em órgãos do Estado e em organismos públicos, tentando equilibrar os pratos da balança e permitindo um mínimo de pluralismo. E julgo ser também do interesse (desta vez não maquiavélico) do resto do país que tal aconteça.
Sobre as razões práticas e comezinhas, que são, eventualmente, as mais numerosas, podemos resumir que os liberais (e também os socialistas, claro) vivem no mundo que existe e não no mundo que acham que devia existir. É por essa razão que um bancário norte-americano apoiante de Bernie Sanders trabalhará provavelmente em bancos privados, ainda que considere que alguns deles deveriam ser públicos, e um operador de câmara venezuelano apoiante de Juan Guaidó trabalhará provavelmente em canais de televisão públicos, ainda que considere que alguns deles deveriam ser privados. Numa situação ideal, pelo menos para mim, eu teria nascido numa família rica e influente ou então num país com uma economia extraordinariamente dinâmica e repleta de oportunidades, podendo dessa forma escolher, entre uma infinidade de opções, o emprego dos meus sonhos, tendo sempre à mão de semear a possibilidade de ir mudando de carreira ao sabor dos gostos ou caprichos, e também, caso me apetecesse, a possibilidade de ficar no sofá o dia todo a ver filmes e séries. Mas como a situação, para mim e para a maioria das pessoas, não foi a ideal, e como as contas a pagar não ficaram à espera que ela se idealizasse, tive de optar, num primeiro momento e num cardápio reduzido, pelo melhorzinho, trocando posteriormente esse melhorzinho por outros melhorzinhos que entretanto surgiram. No meu caso, esse processo incremental materializou-se em três locais de trabalho do sector privado, seguidos pelo actual emprego público. Pretender que, em situações deste tipo, o candidato tenha em atenção a harmonia entre o carácter do possível empregador (público ou privado) e a natureza das suas convicções ideológicas (socialista ou liberal), é bastante irrealista, para não dizer totalmente utópico. Em casos extremos, um socialista que tivesse tido o azar de nascer em Singapura ou um liberal que tivesse tido o azar de nascer em Cuba, teria de se deixar morrer à fome por amor à coerência intelectual.
Não é, aliás, líquido que exista uma inconsistência, mesmo que teórica, entre acreditar na pertinência das ideias liberais e “vencer como funcionário público”. Se há ponto em que os liberais insistem, desde a publicação da Riqueza das Nações há mais de dois séculos, é na importância do interesse próprio no processo de tomada de decisões por parte dos indivíduos. A famosa história do talhante, do padeiro e do fabricante de cerveja, que Adam Smith contou para ilustrar mais facilmente o seu raciocínio, é precisamente sobre esse gatilho motivacional (a grande novidade para a época é que o filósofo escocês, de forma contra-intuitiva, considerava que essa atitude interesseira acabava por contribuir, mesmo que involuntariamente, para a prosperidade da sociedade como um todo). Ora, se os liberais portugueses afirmam, insistentemente, que os funcionários públicos têm mais direitos, em média, do que os trabalhadores do privado, qual é a incoerência em optarem por empregos no Estado? Antes parece, aliás, que esses liberais que “vencem como funcionários públicos” já revelam uma dose anormal de masoquismo quando alertam publicamente para o tratamento favorável de que são alvo, ou quando, de uma forma aparentemente altruísta, votam em partidos (IL em 2019 ou PSD/CDS em 2015, por exemplo) que sabem ser menos “amigos” da função pública do que os restantes.
Por último, e vou tentar não me alongar muito pois já publiquei outros textos sobre o tema, as razões ideológicas. Tentando reduzi-las a uma frase, podemos dizer que o liberalismo não quer acabar com o Estado e considera-o insubstituível em certas áreas. Mesmo o mais extremado liberal (e eu não sou um deles) reserva as funções de soberania para o Estado. Estamos, nestes casos, a falar da Defesa, da Justiça, da Diplomacia ou da ordem interna. Assim sendo, não é nada justo (nem revela qualquer coerência) que um liberal não possa realizar, caso os tenha tido, os sonhos infantis de ser agente secreto, juiz, fuzileiro ou polícia de trânsito. Aliás, se o menino Vasco Pulido Valente tinha o sonho (não faço ideia!) de ser professor universitário, e sabendo-se que a primeira universidade privada em Portugal só surgiu em 1978, como o poderia cumprir sem ser no ensino público? Idealismos à parte, um treinador de um clube de futebol até pode achar boa ideia que as balizas sejam alargadas em prol dos golos e do espectáculo, mas será sensato que não faça isso à baliza da sua equipa enquanto não existir uma regra que obrigue as outras equipas a fazerem o mesmo.
Não quero, porém, fugir a uma comparação difícil: o caso de Ricardo Robles, a estrela em ascensão do Bloco de Esquerda que viu o seu trajecto bruscamente interrompido por uma decisão pessoal. Será que Robles não se limitou a não aumentar a sua própria baliza antes da tal regra geral e abstracta que defendia ser implementada para todos? Será que fomos injustos na análise do seu caso, uma vez que não foi cometida qualquer ilegalidade? Julgo que não, não creio que os casos sejam comparáveis. O grande problema do bloquista, talvez mesmo o único, não foi ter tentado lucrar com um negócio imobiliário ao mesmo tempo que lutava politicamente pela implementação de legislação que dificultasse os negócios imobiliários; o erro fatal de Ricardo Robles (e do BE, já agora) foi o de não ter resistido a apimentar a legítima luta política que travava com ferozes ataques, de carácter moral, contra aqueles que se dedicavam aos negócios imobiliários, aqueles a quem chamava especuladores sem compaixão e que acusava de exercerem bullying sobre moradores por mero desejo de lucro. Descobrir-se que um determinado político liberal é funcionário público não me parece nada grave; agora, se esse mesmo liberal tiver construído a sua carreira política em cima de diatribes morais contra os funcionários públicos, o caso muda de figura.
Este é, assim, um bom ponto de reflexão para os responsáveis da IL e também para os liberais dos outros partidos portugueses. Trabalhem para que o Estado se retire progressivamente de algumas áreas, permitindo assim uma diminuição da despesa pública, que facilitará por sua vez a diminuição da carga fiscal sobre as pessoas e sobre as empresas, o que originará um aumento do investimento privado, que levará certamente ao crescimento da riqueza nacional, e, naturalmente, ao aumento da quantidade e qualidade das oportunidades de emprego para todos (é por causa deste raciocínio que, embora pareça existir algum masoquismo nos funcionários públicos que votam em partidos amigos do liberalismo, isso não é necessariamente verdade; esses funcionários públicos sabem – ou, pelo menos, desconfiam – que as ideias liberais, podendo não ser tão vantajosas para a sua situação pessoal no imediato, são positivas e proveitosas para a situação de todos no médio e no longo prazo). Mas – e agora volto a dirigir-me aos responsáveis da IL e aos políticos liberais dos outros partidos – trabalhem com elevação e travem esse combate político sem recurso a moralismos de café. No dia em que, para conseguirem defender a diminuição do peso do Estado, tiverem de recorrer ao muito famoso “os funcionários públicos são todos uns malandros que passam o dia sem fazer nada à custa dos nossos impostos”, o combate está perdido.
(para o António Araújo, que tenho a honra de conhecer, com amizade)
Algo me diz que vamos ter candidata presidencial
Quem nos protege do Conselho de Direitos Humanos da ONU?
A Venezuela foi eleita para o Conselho de Direitos Humanos da ONU
Foram também eleitos a Líbia, a Mauritânia e o Sudão.
Fábrica 2030: a ladainha anestesiante
Parece que uns doutores e engenheiros se juntaram em Serralves para se verem e ouvirem uns aos outros. A oligarquia gosta destas liturgias. Convida-se o edil, dois sábios economistas com notoriedade e mais umas quantas personalidades menos destacadas para opinar sobre um tema. Não importa exactamente qual, desde que pareça uma coisa séria para o futuro do país, tenha ar cosmopolita e moderno e se tempere o evento com umas tiradas supostamente sofisticadas e inteligentes.
Álvaro Santos Pereira goza de grande prestígio entre nós e por isso afirmações falaciosas – no máximo – e vazias – no mínimo – como “a reindustrialização é um desígnio nacional” passam como se uma ideia brilhante se tratasse. Sobre isto já escrevi há 6 anos no Jornal de Negócios pelo que se houver algum leitor com curiosidade poderá encontrar o meu texto aqui.
Uns dizem que o homem é liberal, mas eu vejo-o a usar e abusar de termos como “promoção” e “fomento”, além de defender ideias esdrúxulas como um tribunal especial para os casos de corrupção. E, claro, nos dias que correm não passou pelo Porto sem falar da necessidade de combater as alterações climáticas.
Se a transcrição que li na imprensa não atroiçoa a verdade nem descontextualiza o que disse, Álvaro registou positivamente a melhoria dos números da dívida pública e alertou para a excessiva dívida privada e a dívida externa. Esqueceu de permeio algumas coisas importantes:
- Cerca de 75% do stock da nossa dívida externa, medido em final de 2017, é da responsabilidade das Administrações Públicas. Se somarmos a contribuição para este indicador do Banco Central e instituições financeiras, o peso será superior a 90%.
- Numa economia de mercado os agentes são responsabilizados individualmente pelas suas eventuais dívidas, excepto o Estado que faz impender sobre todos nós os seus desvarios. A componente de dívida externa privada não tem nem deve ser mutualizada por todos os contribuintes em caso de incumprimento.
- Ao contrário da imagem que fica, a dívida externa acumulada não resulta da fraca actividade das empresas nem do consumismo dos particulares, mas sim sobretudo dos recursos que o estado lhes retira e que, de outra forma, serviriam para aumento da poupança e investimento.
Como este post já vai longo e tenho outros afazeres, apenas comentarei a intervenção de Carlos Moedas no Fábrica 2030 dizendo que não me admira que seja ainda hoje apontado como um futuro líder do PSD, tão socialista, estatista e politicamente correcto tem sido o seu discurso assim como evidente o seu enlambuzamento com António Costa.
Enquanto você dormia…
Enquanto o país “dormia” ao som das promessas de campanha eleitoral, o governo que ia a eleições vendia Portugal à exploração desenfreada do lítio como se pode ver neste vídeo “promocional”.
Curiosamente, coincide também com a agenda do ALARMISMO climático – a que os média portugueses aderiram em força na divulgação dessa pseudo-catástrofe iminente – que obriga a que toda a humanidade deixe de ter veículos movidos a combustíveis fósseis, no espaço de 10 anos.
Por outro lado, terá sido “coincidência” tanta área ardida desde 2017 precisamente no centro e norte?
“Faites la liaison”.
Veja aqui o vídeo:
https://drive.google.com/file/d/1H4vzBXzwPxIZhVHzu324LIv6IlpfqU_N/view?usp=drivesdk
Vão sair daqui coisas espetaculares
“Agora a sério, muito feliz com o resultado deste encontro e tenho a certeza que estamos todos confiantes que vão sair daqui coisas espetaculares”, disse Raquel Strada depois do encontro de Marcelo Rebelo de Sousa com influencers organizado por Paulo Sande.
#CampanhaPresidencialJaneiro2021

Luta de classes, século XXI
Contas à vida
José Manuel Fernandes aborda hoje na Rádio Observador a atituda da maior estrela da NBA, LeBron James, que saiu em defesa da China porque não quer perder o dinheiro dos patrocínios. LeBron James está longe de ser caso único. Na verdade uns por dinheiro, outros por ideologia, outros por ambas as coisas, não faltam casos ao longo do século XX e neste XXI de gente que enquanto criticam e demonizam os líderes democraticos incensam ditadores.
A campanha de desinformação amorosa do Polígrafo
Da vacuidade
Com as ruas da Catalunha a ferro e fogo, incapaz de assegurar a segurança aos cidadãos e às empresas, de braços caídos perante o crescimento da intolerância, o governo espanhol tem como agenda para estes dias desenterrar um morto.
A propósito da falácia do 1640 ao contrário
Independentemente dos argumentos que se usem a favor ou contra do direito à idependência pela Catalunha convém que se poupe Portugal a essa humilhante e infundada comparação. Para lá do óbvio – Portugal era um Reino cujo rei era também rei de Espanha e não uma parte do reino de Espanha – os acontecimentos de 1640 e 1641 são completamente diferentes em Portugal e na Catalunha: em Portugal, o duque de Bragança é feito rei. A vice-rainha (pode parecer estranho mas antes de existirem quotas as mulheres já exerciam cargos de poder!) duquesa de Mântua não foi molestada (foi aliás mantida com tanta liberdade que até participou numa conjura contra Dom João IV) e sai mais tarde de Portugal sem sofrer qualquer moléstia. Portugal vai travar durante alguns anos uma guerra com Espanha.
Nada disto ou sequer parecido aconteceu na Catalunha. A começa pela naturez ada revolta. Na Catalunha estamos perante uma revolta de características populares, muito violenta que leva ao assassínio do vice-rei, o conde de Santa Coloma. A aristocracia catalã não tem a atitude da portuguesa: nesta uma parte significativa opta pelo rei Filipe III mas uma outra parte arrisca e arrisca muito quando aclama como rei o duque de Bragança. Pode discutir-se, por exemplo, se os aristocratas portugueses que aderem à conspiração de 1640 o fazem por temerem uma generalização da violência popular que se ia registando em várias localidades e tem o seu mmento mais simbólico em Évora com o “Manuelinho”, em que a contestação a Espanha acabou a virar-se também contra os notáveis portugueses da cidade. Mas seja pelo que for 1640 não é uma explosão de violência como aconteceu na Catalunha mas sim uma efectiva tomada de poder. E sobretudo convém lembrar o que aconteceu em seguida na Catalunha e regra geral é omitido: em 1641, a República foi declarada e a Catalunha incapaz de se defender colocou-se sob a protecção da França cujo rei acabou Conde de Barcelona.
Portanto não podia ter sido ao contrário porque Portugal e a Catalunha não estavam ao mesmo nível e isso fez toda a diferença em 1640 e nos anos que se seguiram. E faz toda a diferença hoje.
Como vai ser a manutenção?

Em várias estruturas e empenas de prédios de habitação social têm sido desenvolvidas pinturas deste género. Sem dúvida que a coisa ficar com um ar festivo mas pergunto-me sempre: como vai ser a manutenção deste tipo de intervenções? A esta pergunta junto uma questão de fundo: é mesmo isto que estes edifícios precisam? Por exemplo, a maior parte deles têm péssimos isolamentos térmicos. Uma intervenção menos espalhafatosa mas mais estrutural talvez contribuísse mais para a qualidade de vida dos residentes.
O que me intriga mesmo é o que estará a dizer o senhor de capacete e já agora porque não havendo obra alguma está ele de capacete
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Os inimigos da liberdade
Discutia há poucos dias, informalmente, a questão simbólica do posicionamento do deputado da Iniciativa Liberal no hemiciclo. Pessoalmente, gostaria de o ver entre o CDS e o PSD, mas é verdade que, como o partido sempre se mostrou pouco disponível para ser catalogado na tradicional dicotomia esquerda/direita, a posição central também me parece adequada, embora me mereça um reparo:
Alguns dizem que a IL deveria estar ao centro porque está à direita na economia e à esquerda nos costumes.
Correcto? Não, incorrecto.
Se quisermos ser rigorosos, a IL, pelo seu programa político e eleitoral e até pela sua base de apoio sociológica, não se identifica economicamente com a direita tradicional que tende a ser nacionalista, mercantilista e protecionista, nem se identifica com a esquerda em matéria de costumes, pois esta interpreta a liberdade neste campo não como “tirar o estado da cama das pessoas”, mas como a imposição de um novo normativo de costumes, de cima para baixo; no fundo novos costumes anti-tradição, frequentemente anti-científicos, absurdamente revolucionários, destrutivos e, por conseguinte, iliberais.
Portanto, ser liberal nos costumes não é uma receita para a vida de cada um. É antes a consagração de uma postura tolerante (no sentido em que não temos o direito de interferir) quanto aos costumes dos outros, muito especialmente quando esses costumes são diferentes dos nossos ou mesmo nos repugnam por os consideramos ora antiquados ora de mau gosto moderninho.
Conforme escreveu Pedro Galvão, na análise crítica do livro “Rousseau e Outros Cinco Inimigos da Liberdade”:
“A liberdade é um ideal político que quase todos reconhecem, mas que admite interpretações muito divergentes. A contribuição mais influente de Berlin para a filosofia política é a sua defesa da “liberdade negativa”, que consiste na simples ausência de coerção ou de obstáculos à ação individual. Os defensores da “liberdade positiva” rejeitam esta interpretação, característica do pensamento político liberal. Em seu entender, a liberdade deve ser entendida não como a simples ausência de interferências externas, mas como realização pessoal ou como autodeterminação enquanto membro de um grupo.”
Concluindo, quer o mercantilismo à direita, quer a libertação à esquerda não são boas companhias para quem preza a liberdade, pelo que a posição central não deverá decorrer de uma espécie de equidistância, mas sim de uma total dissonância quer quanto às posições tradicionais de direita, quer sobretudo quanto à tentação ingénua de julgar as posições de esquerda como uma defesa moderna da liberdade individual. Para quem pensa assim, fica a recomendação de leitura do livro acima mencionado.
O “segredo” de André Ventura

Não tem papas na língua. Não é politicamente correcto. Está-se pouco lixando para os Focus Group. É intuitivo. É assertivo. É contundente. Sabe comunicar. Chega a todos. Não é elitista. Não tem medo da verdade. Defende rigorosamente suas convicções. Toca em todas as feridas do país sem receios. É determinado. É teimoso. É genuíno. Sabe liderar. Eis o segredo de André que personifica o CHEGA.
Não é por acaso que todos lhe têm medo. Uma pessoa assim, no Parlamento, de facto, é assustador. Pior: abre as portas, caso seja bem sucedido, para que entre mais gente do mesmo calibre. O problema? Simples: vai ser o começo de uma oposição forte ao regime que nos desgovernou por mais de 44 anos. É a semente que vai germinar e reproduzir-se de tal modo que vai provocar a médio prazo a implosão do sistema que criou políticas erráticas que conduziram à maior corrupção de que há memória neste país. Será o início do fim de uma era de hegemonia socialista que arruinou a nossa economia e que, como todos sabemos, está apenas segura por pinças da UE ( não fosse isso já teríamos colapsado há muito tempo).
Eu sempre disse a quem me quis ouvir – inclusivamente a alguns membros da Direcção do partido – que o CHEGA entraria no Parlamento pelo menos com um deputado. Há muito tempo que avisava quem o desdenhava que pusessem os olhos nele e seguissem seu exemplo em vez de o achincalhar. Avisei que nunca se deve menosprezar os adversários mas antes, observá-los e analisá-los com atenção para identificar o que fazem de bom e tentar superá-los. Mas, ninguém me quis ouvir. Na organização onde me encontrava, desde o Congresso até à minha saída, falei para a parede quando disse que era urgente corrigir a trajectória porque o abismo estava mesmo ali à espreita. Não adiantou de nada. E eu, mais uma vez acertei em cheio.
O problema dos intelectuais que andam na política é mesmo esse: não entendem o segredo por trás da popularidade. Todos pensam que tem a ver com palavras eruditas contidas num discurso pomposo (que quase só de dicionário ao lado e manuais sobre economia conseguem ser entendidos), politicamente correcto, que agrada a todos e quando não agrada, tem flexibilidade suficiente para se contorcer até agradar. E quando vêem alguém com uma mensagem mais simples, mais transparente, mais assertiva, mais forte, mais abrangente, ficam atónitos e perguntam-se: como foi possível aquela pessoa tão “básica” chegar a tanta gente? Não percebem porque para se perceber tem-se de ser genuinamente do povo ou ter pelo menos vivido com ele ou perto dele.
O “fenómeno André” é o mesmo que o meu. Cronista no Blasfémias há pouco tempo, sou a que se mantém no pódio das mais lidas. Não é porque sou a melhor. É apenas porque sou a única que consegue chegar a TODA a população. Porquê? Porque os temas que escolho são os que preocupam a maioria dos portugueses; porque quando desenvolvo os temas não tenho medo de tocar nas feridas porque também são minhas; porque não tenho nenhum tema tabu; porque uso linguagem do povo e não há ninguém que, do mais formado até ao que tem menos instrução, que não me entenda; porque pertenço à maior classe do país – o povo – e por isso são milhões a identificarem-se com o meu dia-a-dia de dureza no trabalho, o meu percurso familiar e profissional, os meus fracassos e sucessos. E isto não se aprende na escola. Aprende-se com a vida aqui no fundo da pirâmide.
Por isso André chegou até aos comunistas (que nunca o foram apenas foram iludidos) porque mensagens fortes sobre a realidade escondida do país, faz abanar toda a gente.
Se não se perderem na sua identidade, nas próximas eleições legislativas serão um fenómeno igual ao VOX espanhol que já ultrapassou o Ciudadanos. Não tenho quaisquer dúvidas disso.
Está na altura de atacar o bipedismo
Espero sinceramente que esta causa chegue a Portugal atempo da próxima campanha eleitoral O El Mundo apresenta a coisa assim: La vuelta del ser humano a la naturaleza, dejando el anticuado bipedismo y volviendo a andar por el mundo como nuestros ancestros, a cuatro patas.
Outra vez o faz de conta
Era só para lembrar que na Pensínsula existem dois Estados

O senhor Errejón que dirige em Espanha o equivalente ao nosso LIVRE veio propor a “Limitación de vuelos peninsulares con alternativa ferroviaria competitiva”
Vamos ser claros: na Pensínsula existem dois Estados. O senhor Errejón trata da Espanha. Sim, eu já sei que a expressão peninsular não quer dizer que Errejón se esteja a referir a Portugal. Por isso mesmo vamos fazer questão que se diga e escreva Espanha e não península. Entretanto para aqueles que andam inebriados com a substituição do avião pelo comboio proponho que voltem a olhar para o mapa. Não sei se já perceberam o que isso implica para os portugueses além da animação da ferrovia espanhola.
André Ventura (1)
Não tenho simpatia nenhuma por André Ventura, tal como não tenho por outros políticos ou pessoas, por razões por vezes difíceis de verbalizar. No entanto, admito que possa estar enganado sobre uns e outros.
Custa-me um pouco ter que, de alguma forma, defender o Chega, que está a ser alvo de uma espécie de histeria sanitária que vai da extrema-esquerda até à direita e que, sinceramente, espero que não atinja um certo partido de que gosto.
Convido as pessoas a lerem o programa do Chega e a encontrarem uma medida que ponha em causa o regime ou/e medidas que, significando profundas reformas, não precisem de uma aprovação democrática dentro do atual quadro constitucional. Pois, não há.
Vamos à Xenofobia. André Ventura gasta grande parte do seu tempo a agitar as águas neste campo, e muitos eleitores do Chega são abertamente xenóbofos. Quando confrontam Ventura acusando-o de ser xenófobo, ele tem o cuidado de explicar o que quer dizer quando critica os ciganos, por exemplo, o que dificilmente e em rigor pode ser considerado xenofobia ou racismo. Inteligentemente ele tem uma retórica de café que atrai, lamento mas é verdade, os maluquinhos, e que envereda amiúde por um justicialismo que me choca, mas no detalhe, e quando convidado a especificar, verificamos que é bem mais ponderado (consistente até) do que ostenta a sua veia de comentador da bola. Portanto, Ventura é um populista de direita, e não há problema algum nisso em termos de regime.
Por conseguinte, o cordão sanitário em torno do Chega é ouro sobre azul para as ambições de Ventura. Só o fará crescer.
A Esquerda festeja o quê?
Depois dos resultados das eleições legislativas Catarina avançou que BE saiu reforçado. PCP disse que o acordo das esquerdas unidas funcionou e se o seu partido não obteve mais votos foi porque foi feita uma campanha de difamação (coitadinhos). Costa atribuiu esta “vitória” ao sucesso da Geringonça. Mas qual sucesso minha gente? Bateram com a cabeça nalgum lado?
O PC perdeu 110 000 votos e 5 deputados; o BE perdeu 60 000 votos e por pouco não ia um deputado à vida; os três partidos “geringonceiros” perderam no seu conjunto, cerca de 50 000 votos; os verdes “evaporaram-se”; o PS não só não obteve a maioria absoluta quase garantida durante um bom par de meses pelos média que andaram com eles ao colinho, como só cresceu 120 000 votos em relação à sua derrota em 2015 e a votação de 2019 foi ainda menor que a da PAF em 2015, mas ao contrário destes, com uma conjuntura nacional e internacional amplamente favorável ao passo que o executivo anterior teve de governar sob um resgate financeiro severo. Entrou ainda o CHEGA e o IL, duas forças, uma de direita outra liberal que vieram revolucionar a forma de fazer política em Portugal. Então festejam o quê?
A juntar a isto há que lembrar que tivemos uma abstenção recorde e subida de brancos e nulos. Querem melhor mensagem de que a maioria silenciosa está a dizer BASTA a esta miséria de socialismo e social democracia que nos desgoverna desde que existe?
Os “geringonceiros” tiveram 4 anos completos para mostrar o que valem unidos nas suas poucas diferenças a aprovar todos os OE de Centeno, todas as medidas “milagrosas” de aumento camuflado de austeridade de Costa para acabar com a austeridade (quanta ironia) e no fim nem uma votação melhor que a que tiveram com Passos Coelho conseguem? Não era suposto com um governo “tão bom” e cheio de “sucessos” ser exactamente o oposto?
A verdade é que esta união das esquerdas foi um autêntico “flop” que levou o país outra vez a secar todas as suas provisões e colocá-lo de novo na corda bamba a um passo de colapsar caso a economia internacional se constipe. E as pessoas ao contrário do que quiseram fazer crer, não estão a dormir.
De nada valeu abafar as vozes críticas a esta alternativa de desgoverno. De nada adiantou silenciar os novos partidos. De nada valeu escrever artigos a granel a ameaçar com a “extrema-direita” e suas “consequências”. As pessoas não são parvas. A maioria sentiu e sente que não houve qualquer melhoria nesta país, bem pelo contrário. A maioria percebeu e percebe que tudo isto é só uma grande farsa. A maioria só não se mobilizou mais, ainda, porque apesar de se rever nalguns partidos novos, jamais acreditou que esses votos poderiam mudar alguma coisa (a tal estória do voto útil).
Por isso, não foi ainda desta vez que a viragem à direita se tornou expressiva mas será daqui a uns anos. Anotem aí.
A entrada no Parlamento do IL e CHEGA é só o começo de uma nova etapa política.
Valha-nos Deus, senhora doutora! Disse ascendente?
“PSD impediu a maioria absoluta do PS” Manuela Ferreira Leite, antiga presidente do PSD, afirmou que o partido está numa trajetória ascendente em termos de resultados eleitorais. A social-democrata considera que estes resultados representam um bom trabalho de Rui Rio.
Está bem visto. Deve ser mais ou menos isto o que MFL quer dizer com a trajectória ascendente