O monstro da cultura
Vendo de relance a programação para a Meo Arena, saltam à vista alguns nomes: Xutos e Pontapés, Scorpions, Beyoncé e Ana Carolina. Nenhuma autarquia conseguiria promover, sem escandaleira, um concerto de Beyoncé com entrada gratuita. A banda Scorpions, já há muito afastada da A-list e que em 2004 actuou em Cantanhede, custou, na altura, mais de 250.000€ à organização. Xutos e Pontapés é uma excepção na lista – são portugueses: um promotor arrisca a cabeça (mais propriamente, o dinheiro) caso não consiga vender os bilhetes. Com os estrangeiros sempre foi assim.
Os portugueses foram aprendendo a não pagar para assistir a espectáculos de artistas portugueses. Assisti a concertos de Rui Veloso, Paulo Gonzo, Silence 4, entre outros, achando que eram gratuitos. A autarquia pagava (decerto) aos artistas e suas entourages, assim como a técnicos locais, e eu pagava à autarquia. Eu não: na altura não trabalhava; o meu pai, sim, esse pagava sem assistir aos concertos.
É extremamente difícil conseguir que o público português pague bilhete por inteiro para ver um artista português. O autarca, premiado em eleições que só recentemente deixaram de ser “para a vida”, não obtém os favores dos eleitores (usando uma expressão de José Sócrates) por gerir correctamente a autarquia e sim pelo circo que providencia: a proverbial rotunda, o relvado sintético para o grupo desportivo amador, o artista popular…
Há uma indústria fantástica de “consumo interno” baseada no ciclo do dinheiro, do bolso do contribuinte para o bolo central, do bolo central para o zelador da terrinha, do zelador da terrinha para o agente cultural. É perfeitamente natural que havendo redução orçamental para manter o eleitor convencido de que isto é uma festa, os primeiros a bradarem a desgraça da morte da cultura sejam o últimos da cadeira alimentar. Durante anos a fio criaram a sensação de popularidade mediante a distorção da casa cheia sem bilheteira; agora começa a ser tempo de perceberem que, por terem sido coniventes com o monstro, são eles próprios parte da criatura.
Nem tudo está perdido: alguns conseguirão vender bilhetes. Para os outros restará a hipótese de lutarem na arena pelos 5 minutos da fama dos programas da tarde das televisões.
Ainda se lembram de Belgais?
O alvoroço em torno da emigração de Fernando Tordo recorda-me o caso Belgais, salvas as devidas diferenças entre Tordo, pessoa afável e sem tiques de vedetismo, e Maria João Pires que está mais ou menos, para mim, no domínio do pessoalmente insuportável. Mas voltemos a Belgais. Durante anos não havia dinheiro que chegasse para a magnífica obra que estava a ser feita em Belgais. Terão sido 1,8 milhões de euros Tudo rumava para Belgais e atestava das maravilhas que ali tinham lugar. Mal a senhora de Belgais se sentia menos atendida jornalistas pressurosos davam conta das suas queixas. Os ministros da Cultura e da Educação tremiam perante as críticas de Maria João Pires. Até que chegaram os problemas. O dinheiro nunca chegava e várioas credores pediram arresto de bens. Entretanto Maria João Pires rumou para o Brasil e declarou «Julgo que vim para o Brasil para me salvar dos malefícios que Portugal me estava a fazer. Eu estava a ser vítima de uma verdadeira tortura» . Na santíssima graça de Deus governava o PS e sobreudo era PM José Sócrates caso contrário teria sido aberto um inquérito para averiguar das torturas denunciadas por Maria João Pires. Aliás não fosse Sócrates e ainda hoje andávamos a dar dinheiro para Belgais e certamente que algum tribunal obrigaria a manter aquele centro a funcionar. Em 2009 Belgais fechava por arresto de bens.Entretanto a herdade foi colocada à venda. Pelo meio houve turismo rural. No meio disto tudo só nunca se avaliou do real impacto que o centro teve na formação das crianças que ali tiveram formação musical e que se fizéssemos as contas ao que se investiu na sua formação musical deverão ser, pelo menos, fortes melómanos.
Contratar quem contrate o contratante
O que é a Associação Cultura, Conhecimento e Igualdade do Género (ACCIG)? De acordo com o website, é uma associação que “nasceu a partir do ideal de duas amigas, Eugénia Passada e Rosabela Afonso, de contribuir, de forma activa, para que a democracia portuguesa se fortaleça com a participação de todos os cidadãos, em particular das Mulheres mais carenciadas”.
Os sócios fundadores são Eugénia Passada, Rosabela Afonso, Fernando Afonso e Fernando Tordo. Eugénia Passada é, de acordo com a resposta ao jornal i, esposa de Fernando Tordo. Rosabela Afonso foi chefe de departamento na RTP entre 1974 e 2003.
A ACCIG desenvolveu diversos projectos, entre eles “ARTE – fonte de bem-estar social” e “Centro de Empoderamento 2.0”. A ACCIG recebeu 90.000€ de apoio técnico e financeiro às ONG, de acordo com o DR – 2ª Série – Nº189 – 30 de Setembro de 2011, mais 112.000€ para o mesmo efeito de acordo com o DR – 2ª Série – Nº140 – 21 de Julho de 2010.
A ACCIG também contratou, por ajuste directo, a Stardust para um dois concertos de Fernando Tordo, por 47.500€ 10.000€ (em Seia, 31/12/2013 e Mangualde, 12/2/2014). Em suma, a associação fundada por Fernando Tordo e esposa contrata a empresa de Fernando Tordo para que esta realize um concerto de Fernando Tordo.
Jornalismo de graça
CANÇÃO DO EMIGRANTE
(in “Estamos Vivos” – 1977)
Longe tu escutavas, aprendias
que entre nós todos os dias
nascia um cravo vermelho.
Longe tu ouvias, pressentias
que o passado que sabias
ia morrendo de velho.
Longe trabalhavas e esperavas
que o país que tu amavas
fosse um país para amar.
Quando será emigrante
que vais voltar?
O post de ontem gerou alguma polémica, em particular porque as pessoas que não fizeram contas durante 15 anos – olá, “gentes de esquerda” – descobriram subitamente o poder de uma máquina calculadora. De facto, em defesa do melodramatismo de estado encarnando em versão tosca de Corín Tellado, típica de uma iliteracia – eu culpo os cantores de intervenção – que faria corar Stalin por falta de humor, alguém chegou à conclusão – dude – que 200.000€ a dividir por 5 anos só dá 3000€ por mês e sem subsídios durante 5 anos (e depois sou que ando a “escrutinar” a vida dos contribuintes… perdão, empresários).
Ajuste directo para contratação pública é isso mesmo: dinheiro dos contribuintes gasto para contratar o serviço a um privado. Espera-se que esse privado desempenhe funções para outros privados (até porque não estou a ver qual seria o interesse de um cantor existir para cantar somente para o estado sem designação oficial de “bardo do regime”). Mas vamos a contas.
De 2010 a 2012 a Stardust teve um volume de facturação de 158.534,22€. Desta quantia, apenas 9.000€ foram por ajuste directo, pela contratação pelo município de Portimão para as comemorações do 25 de Abril em 2011. Felizmente não é um empresa que viva pendurada exclusivamente do estado.
Não se pode dizer que os anos da crise tenham sido particularmente maus para a cantiga de intervenção. De um volume de prestação de serviços de 45.385,50€ em 2010, cresceu 15% em 2011 e 17% em 2012. Estes valores deixam-me satisfeito: gosto de ver uma pequena empresa portuguesa a obter lucro, principalmente não tendo o estado como principal cliente. Quando vem uma crise, felizmente, não afecta todos por igual, diga o que disser o tribunal constitucional: provavelmente afecta mais os que não têm em jornalistas-de-causas ou orfãos-socráticos um serviço postal conveniente.
Como nota só posso acrescentar um pedido de desculpa a jornalistas por me ter dedicado durante um dia à sua função. É um trabalho aborrecido mas alguém tem que o fazer.
a cruel tragédia do eleitor anti-liberal
De quatro em quatro anos, confiante e seguro, elege com o seu voto quem promete cuidar-lhe da vida.
Durante esses quatro anos protesta e reclama dos “ladrões” que estão no governo.
A notícia da morte da cultura foi um pouco exagerada
Assim…
…ou assado?
O regresso de Vítor Gaspar
Isto não é bem o texto típico de um blogue, mas enquanto não chega o Observador, aqui fica ele:
Vítor Gaspar foi ministro das Finanças durante pouco mais de dois anos, mas será recordado por muitos mais. É contudo muito cedo para sabermos a imagem que dele prevalecerá. Quando saiu, no início de Julho de 2013, com uma carta que causou enorme estrondo, dir-se-ia um homem derrotado pela sua circunstância, por uma economia afundada na crise e um país zangado e deprimido. Apenas seis meses depois, no começo de 2014, começa a surgir-nos como o mal-amado que, afinal, pode estar por detrás da reviravolta que levou o Financial Times a referir-se a Portugal como o herói improvável e surpreendente da recuperação económica dos países da zona euro. Falta-nos ainda distância para um julgamento frio e rigoroso destes anos, mas quando ele for feito não será possível ignorar Vítor Gaspar por Maria João Avillez, o livro-entrevista onde o ministro se revela e expõe, de forma detalhada, os argumentos que sustentaram as suas opções de política económica.
O que se espera de um livro-depoimento editado apenas sete meses depois de uma demissão controversa e de uma crise política como a que, no Verão do ano passado, quase ia derrubando o Governo? As primeiras referências ao livro na imprensa não deixam lugar a dúvidas: espera-se, esperava-se, intriga e, se possível, algum sangue. Alguma coisa haveria Gaspar de revelar sobre a tensão com Paulo Portas e os bastidores da guerrilha que levaram o então ministro dos Negócios Estrangeiros a também apresentar a sua demissão “irrevogável”. E, de facto, Maria João Avillez fez tudo ao seu alcance, todas as perguntas possíveis e imaginárias, para que o ex-ministro das Finanças dissesse alguma coisa de realmente irrevogável sobre esse período ou sobre as divergências no interior do Governo, mas com pouco êxito. Gaspar ficou-se sempre pela constatação de factos que são do conhecimento público – a crise aberta nos mercados da dívida com a demissão de Portas por contraste com a calma verificada um dia antes, aquando da sua saída; a insistência do primeiro-ministro na posse de Maria Luís Albuquerque, uma sucessão que fora cuidadosamente preparada nos meses anteriores – e fugiu de forma determinada a revelar opiniões particulares – “se eu comentasse as minhas reacções privadas, elas deixariam de o ser”, responde a certa altura a uma pergunta mais insistente sobre as relações com Paulo Portas.
os “gajos importantes”
Ontem, num jantar de amigos e conhecidos, discutiu-se o investimento português no estrangeiro. Em dado momento, um dos presentes, empresário português de alguma dimensão, queixou-se que andava há quatro anos a tentar entrar no mercado de São Paulo sem sucesso, tendo já gasto uma imensa quantidade de dinheiro para conseguir pouco mais do que meia dúzia de clientes precários. As suas principais expectativas de negócio tinham falhado, apesar de, segundo ele, ter entrado pelas portas certas, pela mão de alguns “gajos importantes”. Todos lhe prometeram muito, cobraram bem e, no fim, trouxeram nada. O nosso colega comensal não entendia a razão do seu fracasso.
Eu também só a entendi hoje. O “gajo importante” de São Paulo é o “general angolano”, o “ministro” e o “presidente de câmara” de outras paragens. Bem mais do que um indício de “chico-espertismo” de algum empresariado indígena, isto é uma clara confissão de incompreensão do que é uma economia de mercado. Nesta – a única economia que verdadeiramente existe – o consumidor é soberano, como tantas vezes lembrou Ludwig von Mises. Numa economia aberta, com reduzida intervenção do estado nas relações de mercado, não existem generais angolanos, ministros ou presidentes de câmara, isto é, “gajos importantes” que imponham aos consumidores as suas escolhas finais. O único “gajo importante” é o consumidor e é às suas necessidades que os empresários têm de atender.
Isto é o que muitos empresários portugueses, quer invistam apenas em Portugal ou no estrangeiro, ainda não entenderam. Habituados ancestralmente ao corporativismo de estado indígena e a um modelo económico onde o sucesso dependia dos favores da política e da burocracia, desconhecem o que seja o mercado. Por isso os vemos, quantas vezes, a pedir o apoio do estado e do governo nos seus negócios, como os vemos a ir para África em busca de generais que lhes facilitem os negócios, ou para o Brasil e outras paragens, em busca de influências que lhes vendam os seus produtos. Quando seguem esse caminho fracassam, invariavelmente. Gastam dinheiro e recursos com quem apenas lhes quer apanhar o que julgam que eles têm, e quando os negócios conseguem singrar, ficam-lhes com eles.
A economia dos “gajos importantes” é, desde há muito, a matriz nuclear da economia portuguesa. Está na hora de a trocarmos por uma verdadeira economia de mercado.
O problema do capitalismo é caírem como tordos
A Stardust Produções, Lda é uma empresa portuguesa com CAE 82300 – Organização de feiras, congressos e outros eventos similares. Foi constituída em 11/04/2008, conta com 1 empregado e tem como sócio-gerente Fernando Travassos Tordo.
À Stardust Produções, Lda foram adjudicados 207,100.00€ por ajuste directo, desde Setembro de 2008, para realização de espectáculos do artista Fernando Tordo. Só para municípios foram 159,600.00€ (Portimão, Montijo, Mangualde, Vila Nova de Cerveira, Covilhã, Ponte de Lima, Abrantes, Matosinhos, Almada, Lamego). Nada mau para quem editou o último disco há 13 anos.
Não sei exactamente quanto paga a Stardust Produções, Lda, empresa do senhor Fernando Tordo – que serve para fornecer o serviço de espectáculo com o artista Fernando Tordo – ao artista Fernando Tordo. Temo que o artista Fernando Tordo possa ter sido explorado pelo senhor Fernando Tordo, não efectuando descontos em nome do artista Fernando Tordo, que agora se limita a receber a pensão mínima, cujo valor é 259.40€, correspondentes a 0,125% do total adjudicado desde 2008 à empresa do senhor Fernando Tordo.
O que sei é que vou escrever uma carta pungente aos meus familiares emigrantes que, decerto, algum jornal publicará, com direito a publicação de resposta e tudo, poupando assim em selos. Isto está mau para todos (excepto para a Stardust Produções, Lda, que já assegurou um espectáculo de Primavera Abrilista no Centro Cultural do Alto Minho, em Viana do Castelo, no dia 25 de Abril, com o artista Fernando Tordo, prevendo-se que este traga a guitarra que levou na mão quando emigrou na passada terça-feira. Esperemos que o senhor Fernando Tordo pague, ao menos, a viagem ao artista Fernando Tordo).
Esta exploração do artista Fernando Tordo pelo senhor Fernando Tordo é o mal do capitalismo actual.
Reformados estrangeiros? Façam o favor de entrar
O DN diz que “mais de 8000 pessoas com mais de 65 saíram em 2 anos”, das quais 500 por ano de “forma permanente” e mais de 3000 de “forma temporária”. Na capa, diz que “Fernando Tordo é um dos oito mil idosos que emigraram em dois anos”.

Este número, 8000 em 2 anos, parece bastante fraquinho. Tomando em consideração que 400,000 britânicos que recebem pensão no Reino Unido vivem fora do país e que só em Espanha estão a residir à volta de um milhão de britânicos, o que faz com que “idosos” portugueses optem por ficar no seu país de origem?
Um “idoso” que completará 65 anos em 2014
AJUDE FERNANDO TORDO
Ouça ou compre a obra de Fernando Tordo para lhe providenciar algum sustento. 100 audições no Spotify dão sensivelmente 0,01€ em royalties, das quais talvez uns 15% sejam entregues ao autor.
Uma parte da questão poderá ser respondida com o clima. Os “idosos” portugueses não parecem sentir grande motivação para se deslocarem para paragens mais aprazíveis, como Fernando Tordo, eventualmente considerando o país como suficientemente agradável para cá passarem os anos dourados. Aqui chega-se à conclusão que Portugal pode ser – e em parte já é – um destino para reformados europeus.
Por outro lado, só com um regime fiscal interessante será possível captar e manter reformados estrangeiros que acabem por investir – por exemplo, em imobiliário – na economia nacional. E isso é, naturalmente, extremamente desejável. Não é necessário reinventar a pólvora: basta saber aproveitar o que já existe.
De qualquer das formas, a última coisa que o indivíduo britânico, sueco, alemão, suíço, austríaco ou dinamarquês quer ouvir é aquele discurso parvo de “os ricos que paguem a crise” acompanhado de instabilidade fiscal a médio prazo. Há formas bem mais inteligentes de os ricos pagarem – e voluntariamente – a crise: basta que os deixem em paz.
Constitucionalmente falando os referendos são constitucionais ou não consoante quem os propõe?
08/11/1998 teve lugar em Portugal o referendo sobre a regionalização do qual constavam duas perguntas que constitucionalmente falando não eram susceptíveis de conduzir à contaminaçãp recíproca das respostas:
«Concorda com a instituição em concreto das regiões administrativas ?»
28/06/1998 Teve lugar o referendo sobre o aborto. O mapa dos resultados foi este segundo a CNE. Será que não se impôs a «abertura do referendo aos cidadãos recenseados residentes no estrangeiro»?
08/11/1998 teve lugar o referendo sobre a regionalização. O mapa dos resultados foi este segundo a CNE. Será que não se impôs a «abertura do referendo aos cidadãos recenseados residentes no estrangeiro»?
11/02/2007 Teve lugar o segundo referendo sobre o aborto. O mapa dos resultados foi este segundo a CNE. Será que não se impôs a «abertura do referendo aos cidadãos recenseados residentes no estrangeiro»?
“Já ninguém mais tem respeito pelos excessos de um artista”
No texto pungente que João Tordo dedica a seu pai, há uma passagem quem me parece um pouco exagerada:
Sendo João Tordo escritor, pessoa que escreve livros que são vendidos em estabelecimentos comerciais e que são comprados por portugueses (e quem sabe se por brasileiros e moçambicanos), a declaração do fim da cultura não demonstra grande consideração por 1) o seu próprio trabalho; 2) a sua editora Dom Quixote.
a minha solidariedade com joão tordo
Quero manifestar a minha compreensão e integral apoio ao que escreveu João Tordo, o filho do cantor Fernando Tordo, na carta que dirigiu ao seu pai, no momento em que ele abandona Portugal, a isso forçado pela pobreza em que se encontra o seu país. Sobretudo revejo-me plenamente naquela parte em que diz que é insuportável viver num local que foi governado “por gente que fez tudo para dar cabo deste país”. Concordo em absoluto. Ainda me lembro do que foi feito em 1975 e nos anos seguintes, para destruir a nossa economia com a nacionalização e consequente destruição de empresas até aí rentáveis e do nosso tecido produtivo. Tenho bem presente a cultura de ódio, que ainda hoje perdura, gerada em certos sectores da nossa sociedade em relação ao “capitalista”, isto é, a quem está disposto a investir o seu tempo, trabalho, esforço e dinheiro na criação de empresas e de emprego. Não me esqueço dos sucessivos governos, que arrebatavam o voto e o entusiasmo da multidão, que nos garantiam soluções milagrosas, que sempre passavam por gastar mais dinheiro dos contribuintes em obras faraónicas e em investimento público, o tal que criaria riqueza garantida e emprego seguro. Como não esqueço, também, os muitos bordéis do regime suportados pelo dinheiro do povo, de que os governos nunca se quiseram livrar para sustentar amigos e apaniguados, justificando-se sempre com o doce pregão de que se tratavam de bens públicos que a iniciativa privada não poderia assegurar. É graças a essa cultura de destruição de riqueza e da iniciativa e da propriedade privada que este país quase deixou de produzir e de ter empresas que garantissem trabalho e recursos para sustentar uma vida de qualidade aos seus cidadãos. Incluindo aqui a cultura, a tal a que sempre se dedicou Fernando Tordo, um bem que as pessoas só podem consumir quando têm assegurada a satisfação de outros mais elementares para a sua existência. E é devido a quase não existirem empresas empregadoras em Portugal que pessoas como Fernando Tordo, e outras como o filho de Fernando Tordo, têm de emigrar. Espero que o João Tordo tenha já compreendido isto.
A maldade neo-liberal da semana
Tenho dificuldade em perceber esta comoção com a emigração de Fernando Tordo. Não creio ser suposto que Portugal empregue os cantores, ex-cantores e candidatos a cantores. Ninguém impede Fernando Tordo de cantar em nenhuma das salas de espectáculos de Portugal. É livre de cantar ou de não cantar. Se achou melhor ir trabalhar noutro país e até tem lá trabalho ainda bem. Foi uma escolha. Mas quando se diz que foi forçado a emigrar está a dizer-se o quê? Certamente que os portugueses não afluiram em número suficiente aos seus concertos ou não compraram os seus discos. E contudo ele interpretou algumas belas canções. Como a Tourada ou o Adeus tristeza. Descobriram agora que queriam ouvir Fernando Tordo? Agora é tarde.
Nicolas Maduro acabou de entronizar o líder da oposição
Do Panamá vê-se Sines

Ide plantar rabanetes no Rossio
É perfeitamente natural que a esquerda ex-revolucionária-neo-socratista veja regozijo dos malvados da direita nos confrontos venezuelanos. É natural porque a violência está-lhes no sangue.
Alguém achar que uma proto-guerra-civil é algo a festejar é típico do conforto chic da esquerdalhada jacobino-caviar que quer Mirós.
Admito ter saudades da altura em que os tolos só acampavam no Rossio e plantavam rabanetes para “a comunidade”.
Estamos lixados
Onde está o Rui Mateus?
Isto de um tipo ser filiado e apresentar candidatura concorrente à oficial do partido tem que se lhe diga. Por exemplo, para Mário Soares, a expulsão de Capucho é “inaceitável”. O histórico ex-austeritário acrescenta “que é a prova clara de que o partido que se diz social-democrata não o é. É um partido populista de direita, sem outros valores que não sejam os mercados e os interesses. E em que as pessoas não contam, como se tem visto”.

Onde está Rui Mateus, que procura Narciso Miranda?
Em Agosto de 2010, Narciso Miranda mostrava-se indignado com a Comissão Nacional de Jurisdição do PS, considerando “uma atitude kafkiana, para não dizer estalinista” a sua expulsão por candidatura em lista concorrente à do partido. Aparentemente, no PS, só se pode ser expulso “por falta grave”, por exemplo, “integrar ou apoiar expressamente listas contrárias à orientação definida pelos órgãos competentes do partido”.
A Terra e o Sol, a Europa e a América
Poucas coisas geram tanto entusiasmo entre aquela parte do público – e da tribo dos jornalistas – com tique antiamericano do que uma notícia sobre a profunda ignorância do que imaginam ser a América profunda. Este fim-de-semana tivemos mais um desses episódios, com muita gente a resfolegar porque “um quarto dos americanos ignora que a Terra gira em torno do Sol”. Pena que ninguém tenha publicado os resultados de um inquérito equivalente na União Europeia. É que se nos Estados Unidos 27 por cento da população ignora os ensinamentos de Copérnico, na Europa a percentagem sobe para 33 por cento. Basta comparar este gráfico com as percentagens de respostas certas:
Aqui podem encontrar-se mais gráficos comparativos. Por eles se pode ver como, apesar do preconceito, também em questões de cultura científica básica, a Europa compara quase sempre mal com os Estados Unidos. Só que isso nunca é notícia nos jornais nem motivo de galhofa nas redes sociais.
Ao cuidado do Público, DN, JN, i, RTP, Lusa…
É inevitável

A pertença aos 99%, we are the people e outros slogans de marketing não é base para um sistema sustentável de comunidade. Os movimentos occupy não se distinguem da fila para o novo iPhone. Não é de surpreender que, ciclicamente, o mainstream pop opte por valorizar espiritualidade após a venda de uma – só mais uma – revolução não concretizada.
De vez em quando o mundo parece compreender que não sabe o que aí vem excepto que será sempre o que sempre foi. E ainda bem.
E os portugueses que não têm ordenado de eurodeputado viveriam de quê?
Rui Tavares descobriu um estudo que o deixou contentissimo. Garante esse estudo “encomendado pela União Europeia dos Sindicatos a um professor da Universidade de Bremen, Andreas Fischer-Lescano” “que a ação da troika viola a Carta Europeia dos Direitos Fundamentais. (…) “A estabilidade financeira”, diz ele, “foi posta acima de todas as outras considerações”, mesmo as que são essenciais à própria estabilidade financeira (como a estabilidade social). E, embora os próprios países tenham tomado a decisão soberana de assinar os memorandos de entendimento, alega o jurista que “há limites para o que se pode pôr num memorando” sobretudo quando a alternativa do país é a bancarrota. Como para os indivíduos, para quem a escravatura por dívidas foi abolida, também para os estados há de se chegar à conclusão de quem nem tudo é possível fazer com um país endividado.”
Portanto em 2011 nós teríamos vivido de quê? As reformas, o SNS, as polícias, a escola pública… teriam sido pagas em géneros? A crise vista do conforto da eurocracia torna-se muito difusa.
Graciano Saga
Faleceu ontem, em Paris, vítima de doença.
Não será proposto para o Panteão. Não terá direito a transmissão em directo pelas televisões que transmitem o autocarro da selecção a deslocar-se por SCUTs para o aeroporto. A urbanidade-bem-pensante ofendia-se pela associação de Portugal ao cantor-emigrante, como se o “flagelo da emigração” portuguesa fosse uma mera consequência governamental que apenas afasta do país especialistas em física quântica. O underdog português só importa como calhau para arremessar.
Condolências à família e amigos.
As contrapartidas
Muito interessante este caso das contrapartidas dos submarinos. Foi um caso em que se gerou uma série de suspeições mas que no fim se conclui que a acusação não tinha qualquer sustentação e que o próprio conceito de contrapartidas é inaplicável. Mais um falhanço do DCIAP.
Os Mirós
É um segredo muito bem guardado, de que ninguém fala, mas parece que um dos bancos que o Estado nacionalizou tinha uns quadros de um autor famoso. Dizem que é o Miró, mas há quem fale em Picasso, Cézanne, Renoir ou qualquer outro nome que consigam encontrar na Piquipédia. Tive acesso a alguma informação, mas não confirmo nem desminto que o quadro que ilustra este post pertença à colecção do tal banco. Pode tudo não passar de um boato. Provavelmente é um boato, caso contrário o assunto já teria gerado vasta indignação. Afinal o governo prepara-se para vender o património artístico nacional. ATENÇÃO, O GOVERNO QUER VENDER A ARTE!. Continuam calmos?
Mas não era do caso concreto que eu queria falar, digo, do caso hipotético, não levem muito a sério a possibilidade de existirem Mirós escondidos nas arcas do BPP. Vamos pensar em termos abstractos: em que condições é que o Estado deve impedir a exportação de arte para o estrangeiro?
Um critério geral poderia ser algo como: qualquer obra de arte com ligação à cultura portuguesa não pode ser exportada. Este critério excluiria todas as obras de arte existentes em museus portugueses que estejam cá há centenas de anos, mas tenham sido importadas e sejam representativas de outras culturas.
Talvez um outro critério: qualquer obra de arte com um historial em território português. Inclui obras há muitos anos em território português, e até impede a venda dos Jerónimos (estou a prever que num hipotético debate, sobre venda de Mirós, se fale na venda dos Jerónimos às peças). No entanto, este critério falha quando estão envolvidos tesouros nacionais dispersos pelo mundo e que alguém consiga importar. Imaginem uma edição antiga dos Lusíadas perdida algures no mundo.
A combinação dos 2 critérios talvez seja muito melhor: qualquer obra de arte com ligação à cultura portuguesa e/ou com um historial em território português. Claro que este critério exclui os hipotéticos Mirós. Exclui qualquer obra de um autor estrangeiro, sem ligação a Portugal, importados recentemente. A questão é se deve excluir e quais seriam as consequências? Bem, a consequência mais óbvia é que a importação por privados de obras de arte seria desincentivada. Ninguém está interessado em importar obras de arte se depois não puder revender livremente. A extensão do desincentivo dependerá do tipo de compensação que o estado esteja disposto a dar aos proprietários. Mas o desincentivo existe. Se queremos que as obras de arte de autores contemporâneos venham para Portugal teremos que ter muito cuidado com as limitações às exportações que são impostas.
Pronto, é tudo. Não fiquem a pensar que existem por aí uns Mirós que o governo neoliberal do Passos Coelho quer vender. Inventei a história para dar algum picante ao post. O importante aqui era discutir os princípios base que devem reger a exportação de obras de arte.
Ui, fogueira com ele
Típico defensor da “liberdade de expressão, democracia e progresso”O João Miguel Tavares escreveu um texto intitulado “A vergonha do aborto gratuito”. Independentemente do conteúdo, basta o título para iniciar o processo: poucos – mas existem – tentarão rebater a argumentação; os restantes gritarão, batendo no peito com a soca, vociferando a ferocidade do “fássismo” moderno. Até na arte do ad hominem há diferenças no pré- e no pós-troika: antes bastava o “fásssista”; agora é necessário evidenciar que o autor de tamanha blasfémia à seita do politicamente correcto é também ignorante, bruto, indigno e ao serviço de uma força oculta ultraneoliberal-ultraneoconservadora-fascizante cujo objectivo é a destruição da sociedade e da civilização através do comentário, provavelmente através de profissão obtida horizontalmente ao serviço do inimigo internacional.
Independentemente do teor do artigo, que não vou comentar (já aqui disse o que tinha a dizer sobre o assunto), expresso desde já a minha empatia para mais um deglutido pela liberdade de expressão em países enamorados pela autofagia comunista e/ou maluqueira das redes sociais.
Já me estragaram o Verão
Depois do Verão de 2013 ter sido o mais frio desde 1816, não vejo motivos para entusiasmo por 2014 poder ter o Verão mais quente de sempre.
Como todos sabemos, a variabilidade do tempo tem afectado de tal forma as previsões meteorológicas que a própria terminologia oscila entre “aquecimento global“, “arrefecimento global” e o mui neutro “alterações climáticas“.
Depois do Verão de 2013 ter sido o mais frio desde 1816 e o sexto mais quente de que há registo, as “alterações climáticas” começam a parecer “ciência” tão boa como o cainesianismo. Como dizia o imortal, as férias não se gozam, gerem-se.
lázaro
Quando António Capucho se preparava para uma reforma política pacata, casualmente intervalada por algumas farpas dirigidas a quem não lhe tem dado a importância de que ele se julga merecedor, as superiores inteligências que pairam pelo PSD resolveram aumentar-lhe a idade da reforma, proporcionando-lhe uma extensão da vida política na qual já nem ele mesmo acreditava. O entusiasmo é tal que já se vê na Presidência da República, cargo para o qual ele “sente ter perfil”, fundado em “experiência política, bom senso e um currículo diversificadíssimo”. É certo que nem as inteligências do PSD previram tamanha maldade em resultado dos seus impulsivos actos, nem Capucho é Marcelo para se aguentar muito tempo a planar sobre estas águas. Mas que conseguiram, ainda que fugazmente, ressuscitar um morto, lá isso conseguiram.
saúde excelente e recomendações à prima
«O PS está de boa saúde e recomenda-se», não se cansou de repetir, há dois dias, António José Seguro a uma persistente jornalista que teimava em querer saber a sua opinião sobre uns comentários pouco abonatórios que Carlos César fizera acerca dessa mesma excelente saúde do PS e da sua, também ela muito saudável, liderança.
Seguro, de quem consta ser um estupendo rapaz e um amigo do seu amigo e a quem a Divina Providência concedeu, num momento de estranha conjugação astral, a chefia formal do PS, partido que ele controla com o talento caciqueiro de um apparatchik juvenil, não tem, todavia, um milímetro de espessura e de credibilidade intelectual para governar o que quer que seja, nem sequer para se fazer respeitar pelos barões e baronetes do seu partido.
Foi exactamente isso que afirmou Carlos César e que Mário Soares parece querer repetir um dia depois, com especial acutilância. Consciente das consequências eleitorais próximas que tanto talento trará ao PS, Soares, o verdadeiro barómetro do baronato socialista, está a juntar as diversas sensibilidades do partido para, falhado Costa, desenterrar um candidato à liderança e dela apear António José Seguro.
Por conseguinte, a saúde do PS e, sobretudo, da actual liderança, é excelentíssima, como se pode ver. Está tudo tão bem, que até a prima se recomenda.
As novas fronteiras do eduquês
Rezemos aos anjinhos para que ele e a companheira não residam na mesma casa
Depilar ou não depilar: eis a manchete
No Dia dos Namorados, o Jornal de Notícias faz capa com depilação feminina. Aparentemente (e alegadamente), “doze médicas, enfermeiras e outras funcionárias do Hospital de S. João foram acusadas de falsificar documentos de supostos tratamentos dermatológicos para fazer depilações à custa da ADSE”.


Enfim, sempre em frente é que é o caminho, portanto – garanto – o seu dia não será mais parvo por ir ler “Bel’Miro – A primeira semana (uma retrospectiva)”, agora disponível na iBooks Store por 0€ (o que é um roubo, o autor merece 100% mais).
Primeira conclusão: pelo título, só é relevante que médicas se depilem à custa da ADSE. As “enfermeiras e outras funcionárias” não importam nada; se importassem, o título seria “trabalhadoras de hospital depilam-se à custa da ADSE”. Se por um lado a transversalidade a médicas, enfermeiras e outras funcionárias do fenómeno depilatório indica equidade e igualdade constitucional, por outro não evidencia a certeza absoluta demonstrada pelo autor na superioridade depilatória das médicas em relação a outras profissionais mais proletariamente dadas ao look acampamento-no-Rossio.
Segunda conclusão: uma (eventual) fraude de cerca de 2000€ pode chegar a capa de jornal nacional. Isto equivale a (eventual) fraude per capita inferior a 200€. Daqui se conclui que, amanhã, a capa do JN poderá ser a dívida de 1324€ do Sr. Américo ao condomínio do prédio sito em Loivos da Ribeira, Baião.
Condição de sustentabilidade da dívida II
Li alguns posts na blogosfera em que se procura analisar se um juro de 5,1% torna ou não a dívida pública portuguesa sustentável (por exemplo, aqui). Por incrível que possa parecer, o juro das novas emissões a 10 anos é praticamente irrelevante desde que se mantenha num valor razoável. Há duas razões para ser assim, primeiro o juro a 10 anos é o juro máximo e não o juro médio e segundo o custo das novas emissões será diluido no custo dos empréstimos anterior, contratados a uma taxa média razoável. A taxa de juro média da dívida é actualmente de cerca de 3,7% e as novas emissões levariam muito tempo a fazer subir esta média. Note-se que entre a entrada do euro e a bancarrota Sócrates, a taxa de juro a 10 anos manteve-se numa faixa entre os 3,5% e os 6%. Ou seja, o valor de 5,1% está um pouco acima da média e não devemos esperar valores muito mais baixos que os actuais.
Para estabilizar o rácio Dívida/PIB_Nominal, tem que se verificar o seguinte:
Crescimento_nominal > (PIB_Nominal/Dívida) * défice
Se considerarmos inflação de 1,5%, crescimento real de 1% e que PIB_Nominal/Dívida é actualmente 0.75, chega-se à seguinte condição de sustentabilidade da dívida:
défice < Crescimento_nominal /(PIB_Nominal/Dívida)
défice < (Crescimento_real+inflação) /(PIB_Nominal/Dívida)
défice< (1,5+1)/0.75
défice < 3,3%
Atendendo a que o custo do serviço da dívida é actualmente de cerca de 4,5% do PIB, isto implica um superavit primário de cerca de 1,2%. Este valor tem que progressivamente aumentar à medida que o rácio (PIB_Nominal/Dívida) diminui, mas nada que não possa ser alcançável.
Claro que para haver uma margem mínima de segurança, o défice tem que descer para valores próximos de zero nos tempos bons para não haver risco de bancarrota quando vier uma recessão.
A escravatura nos jornais
As crises, como sintomas de doença exigindo cura, têm sempre coisas positivas; a evidência de sintomatologia é fundamental para o diagnóstico; o medicamento, por muito amargo que seja, é a única forma de resolver a doença. Um dos efeitos laterais da necessidade de terapêutica é aferir-se a determinação do doente para a resolução do problema. Assim, uma crise, por efeito lateral, permite evidenciar a estupidez do paciente.
“É cada vez maior o número de portugueses sujeitos a trabalho escravo no seu próprio país” é um título-tratado em estupidez. Só no título levantam-se várias questões:
- “É cada vez maior” em relação a quê?
- O que é “trabalho escravo”?
- Escravatura é mais relevante se for no próprio país e não no estrangeiro?
“Anda cá, escravo, anda receber os teus 30 euros diários”As respostas de Carlos Dias, no corpo do texto, poderão ser inferidas: não sei; não tenho a certeza; não sei.
Mais à frente, o sagaz jornalista consegue borrar um pouco mais a pintura (parece impossível) referindo que os “na fronteira do trabalho escravo” (afinal não são escravos, só borderline) recebem entre 20 e 30 euros por dia; em 22 dias isto origina entre 440 e 660 euros mensais. Com uma média mensal de 550€, o brilhante artigo de Carlos Dias acaba a demonstrar através da apanha de azeitona que um jornalista recém-contratado por um jornal nacional é, na realidade, um escravo. O que podemos constatar é a sorte de Carlos Dias: pode escrever estas coisas em vez de estar a apanhar azeitonas.
Poderia perguntar, perante uma dificuldade embaraçosa, o que é um “falso recibo verde” mas nem vale a pena entrar por aí.
Nota: correndo o risco de fomentar “trabalho escravo”, vou desligar os comentários neste artigo.
Estranhos tempos estes
Em que ora nos comovemos com a história de Philomena e depois achamos moralmente aceitável que algumas mulheres sejam reduzidas à condição de barriga de aluguer. Acham que um dia elas não irão à procura dos seus filhos?
Uma saída limpa será sempre bastante suja
Vai por aí uma grande festa sobre a “saída limpa”, “à irlandesa”. A emissão de dívida de que, ontem, que foi um sucesso, aumentou a expectativa da maioria – pelo menos daqueles que, na maioria, puseram o relógio em contagem decrescente e só sonham com o momento em que possamos voltar a gastar com alguma largueza. Tal como aumentou o nervosismo da oposição, para quem a hipótese de as coisas correrem bem parece ser sinónimo de tudo correr mal. A forma como o ministro das Finanças dos “sete por cento” criticou a insustentabilidade dos 5,11% e as declarações de Seguro no mesmo sentido mostraram mesmo como lhes parece faltar memória sobre um certo período recente da história da dívida portuguesa (o governo Sócrates chegou a emitir dívida a 5 anos a 6,4%).
Pessoalmente acho que devemos ir mais devagar.
Primeiro que tudo, é bom recordar que uma “saída limpa” será sempre suja por juros mais altos do que os expectáveis no caso de um programa cautelar. Podemos estimar vários cenários, mas este aqui desenvolvido por Paulo Trigo Pereira é credível. A sua estimativa é que os juros que teremos de pagar a mais por uma “saída limpa” ascenderão a uns mil milhões de euros.
Depois há um outro aspecto que poucas vezes é considerado: ninguém sabe neste momento o que será um “programa cautelar”. A Irlanda não escolheu a saída apenas porque estava com os juros relativamente baixos (mais baixos do que os nossos nesta altura), mas porque teve receio do que poderia significar um programa cautelar. Portugal estava à espera Ler mais…
Vale a pena ler
antes que outro assunto indignante nos indigne e depois deixe de indignar pq, como lembra o Vítor Cunha, alguém lembra que Sócrates já tinha feito o mesmo e aí o assunto indignante passa de indignante a esquecido e perfeitamente normal, temos mesmo de ler este texto António Araújo sobre o massacre do Ruanda. Impressionante.
Simon says
O caso Miró mirrou. Hoje já não sentimos a capacidade de nos esventrarmos pela ausência de cultura multiplicadora a exibir na nova Casa Miró para construir no Campo das Cebolas. Algures entre as 20h30 e as 21h00 de Domingo*, o fenómeno lusitano de déficit de atenção deslocou-se para outra coisa qualquer (que não importa referir já que, sendo quarta-feira, há grande probabilidade de esta também ter sido substituída por algo ainda mais desesperadamente importante).
A forma básica para se mudar de assunto indignante em Portugal é simples: basta demonstrar que Sócrates teve a mesma ideia uns anos antes. Exactamente por este motivo, ainda há quem use a expressão “se tivessem aprovado o PEC 4” com a mesma frequência com que se conjectura como seria o mundo sem o grito do Ipiranga.
* O horário pode ser diferente, consoante as obrigações escolares do apresentador.





Capa JN: dia dos namorados 2014
